22 de junho de 2013

A SESTA


 
Na rede, que um negro moroso balança,
qual berço de espumas,
formosa crioula repousa e dormita,
enquanto a mucamba nos ares agita
um leque de plumas.

Na rede perpassam as trémulas sombras
dos altos bambus;
e dorme a crioula, de manso embalada,
pendidos os braços da rede nevada
mimosos e nus.

Na rede, suspensa dos ramos erguidos,
suspira e sorri
a lânguida moça, cercada de flores;
aos guinchos dá saltos na esteira de cores
felpudo sagui.

Na rede, por vezes, agita-se a bela,
talvez murmurando
em sonhos as trovas cadentes, saudosas,
que triste colono por noites formosas
descanta chorando.

A rede nos ares do novo flutua,
e a bela a sonhar!
Ao longe nos bosques escuros, cerrados,
de negros cativos os cantos magoados
soluçam no ar.

Na rede olorosa... Silêncio! Deixai-a
dormir em descanso!...
Escravo, balança-lhe a rede serena;
mestiça, teu leque de plumas acena
de manso, de manso...

O vento que passe tranquilo, de leve,
nas folhas do ingá;
as aves que abafem seu canto sentido;
as rodas do «engenho» não façam ruído,

que dorme a sinhá!


Gonçalves Crespo (Brasil/Portugal)

António Cândido Gonçalves Crespo nasceu nos arredores do Rio de Janeiro, Brasil, a 11 de Março de 1846, e faleceu em Lisboa a 11 de Junho de 1883. Veio para Portugal com dez anos de idade. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, sendo colaborador da Folha, jornal de que era diretor João Penha, poeta a introduzir em Portugal o Parnasianismo. Em 1879 foi eleito deputado às Cortes pelo círculo do Estado da Índia. A poesia de Gonçalves Crespo foi influenciada pela escola parnasiana. Tendo casado com a escritora Maria Amália Vaz de Carvalho, escreveu em colaboração com ela o livro Contos para os Nossos Filhos.


2 comentários:

António Eduardo Lico disse...

Bom reler a poesia de Gonçalves Crespo.
Abraço.

Aureliano disse...

Olá, Nambiano!

Quero agradecer-lhe a visita ao Lugares da Palavra,e dizer-lhe do prazer que encontrei aqui ao visitar e este seu blog.
Esta visita me deu a conhecer Gonçalves Crespo. Que Alegria!

Abraço,

Aureliano.