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8 de setembro de 2010

OS LIVROS QUE LI NAS FÉRIAS

Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil
Leandro Narloch
LeYa



Escrito para qualquer um ler e ficar informado. O autor faz acompanhar o livro por uma extensa bibliografia, o que lhe dá um crédito favorável e positivo, para quem tiver tempo para verificar a veracidade dos assuntos tratados.
Alguns dos temas abordados neste livro trazem factos novos, desconhecidos e polémicos, por exemplo:
Zumbi, no seu quilombo, tinha escravos.

Machado de Assis, antes de se tornar escritor de renome, foi crítico de literatura e teatro nos jornais. O governo de D. Pedro II o contratou para chefiar a censura às peças de teatro.

José de Alencar pronunciou-se repetidas vezes contra o fim da escravidão, chegando a escrever cartas ao Imperador sobre isso.

O jovem Jorge Amado escreveu textos elogiando Stalin, o que não surpreende, dado que ele era comunista, mas também elogiando Hitler!

Gilberto Freire (autor de Casa Grande & Senzala) admirava a Ku Klux Klan. A sua dissertação de mestrado nos EUA em 1922 contém elogios à confraria racista. Ao republicá-la em 1964 ele expurgou esses trechos.

 
O Vendedor de Passados
José Eduardo Agualusa
Publicações D. Quixote

Um exerto do livro: Nasci nesta casa e criei-me nela. Nunca saí. Ao entardecer encosto o corpo contra o cristal das janelas e contemplo o céu. Gosto de ver as labaredas altas, as nuvens a galope, e sobre elas os anjos, legiões deles, sacudindo as fagulhas dos cabelos, agitando as largas asas em chamas. (...) A semana passada Félix Ventura chegou mais cedo e surpreendeu-me a rir enquanto lá fora, no azul revolto, uma nuvem enorme corria em círculos, como um cão, tentando apagar o fogo que lhe abrasava a cauda.
“Ai, não posso crer! Tu ris?!”
Irritou-me o assombro da criatura. Senti medo mas não movi um músculo.

 
 
A Governanta - D. Maria, Companheira de Salazar
Joaquim Vieira
Esfera dos Livros

Vendo chegar a viatura oficial com o porta-bagagem carregado de lenha, o chefe do Governo gritou irado à sua governanta: «Os carros do Estado não são para carregar lenha! Não consinto!». A mulher não se ficou e gritou no mesmo tom: «Merda! A lenha não é para mim, é para o Salazar!» Quem se atreveu a gritar assim a António de Oliveira Salazar, homem temido e respeitado por todos, foi Maria de Jesus Caetano Freire, a sua dedicada e fiel companheira ao longo de toda uma vida. Nascida no seio de uma pobre família camponesa no lugar de Freixiosa da freguesia de Santa Eufémia, no concelho de Penela, distrito de Coimbra, aos 31 anos começou a servir os então lentes universitários e amigos Manuel Gonçalves Cerejeira e António de Oliveira Salazar. Seguiu este último para Lisboa (ao mesmo tempo que o primeiro subia ao lugar mais alto da hierarquia católica em Portugal) e só o abandonou quando, aos 81 anos, o ditador morreu por doença. Maria de Jesus tinha cumprido a missão da sua vida. Nunca casou, nem teve filhos. Mulher dura, forte, atenta, de uma dedicação canina, foi intendente, organizadora das lides domésticas, secretária, companheira, portadora de recados e pedidos, informadora de murmúrios e opiniões que mais ninguém se atrevia a expressar, conselheira e até enfermeira, nos seus últimos tempos de vida, do fundador e líder do Estado Novo. D. Maria foi tudo isto, e por isso merece um lugar de destaque na História do século XX português.

 
 
Imitação de Sartre & Simone de Beauvoir
João Melo
Ed. Caminho
Usando as palavras de Agualusa: Este livro “reúne dez estórias de gente comum, estórias de gente que se encontra e, sobretudo, se desencontra, a maior parte das vezes em confronto com a realidade que de repente deixou para eles de fazer sentido. (...)João Melo recorre a artifícios vários, ora introduzindo elementos de surpresa (...) ora convidando o leitor a escolher entre diferentes termos ou percursos, num constante jogo de sedução. Consegue com isso um ritmo espantoso, quase cinematográfico.

1 de maio de 2008

Agualusa Defende Ortografia Brasileira

O escritor angolano, José Eduardo Agualusa, defende, em crônica divulgada pelo semanário A Capital, de Luanda, que Angola “deve optar pela ortografia brasileira”, caso o Acordo Ortográfico não venha a ser aplicado por “resistência” de Portugal.

Agualusa

José Eduardo Agualusa

Para esta tomada de posição de um dos mais respeitados escritores angolanos e lusófonos, José Eduardo Agualusa avança como justificação o fato de Angola ser um país independente, nada dever a Portugal e o Brasil ter 180 milhões de habitantes e produzir muito mais títulos e a preços mais baratos do que Portugal. Agualusa diz ainda, na crônica que publica regularmente n´A Capital, que Angola tem mais a ganhar com a existência de uma ortografia única do que Portugal ou o Brasil, porque o país não produz livros mas precisa desesperadamente deles.

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi alcançado em 1991 e assinado por todos os países da CPLP, sendo imediatamente ratificado pelo Brasil, Cabo Verde e Portugal. Em 2004, em S. Tomé e Príncipe, foi acordado um Protocolo Modificativo, segundo o qual bastava este ser ratificado por três Estados para entrar imediatamente em vigor. Este Protocolo Modificativo foi assinado por todos os países lusófonos, mas apenas ratificado inicialmente pelo Brasil e Cabo Verde.

Em agosto do ano passado foi ratificado também por S. Tomé, “passando juridicamente a entrar em vigor”. Sobre a situação em Angola, a análise do documento para ratificação está entregue aos ministérios das Relações Exteriores e da Educação e, segundo fonte próxima do processo contatada pela Ag. Lusa em finais de 2007, o governo angolano está “desenvolvendo mecanismos internos” para a sua conclusão. O último passo será dado quando o processo passar pela aprovação do Conselho de Ministros e da Assembléia Nacional.

De acordo com a fonte contatada pela Lusa, existe uma “preocupação” de todos os estados lusófonos para resolver a questão, na medida em que há “atualmente uma fala e duas escritas”.

Para o governo angolano, o Acordo Ortográfico ainda não foi assinado porque “caiu no esquecimento”, considerando a fonte que agora é importante voltar a analisá-lo para lhe dar seguimento. Entretanto, em Portugal está em preparação a ratificação do Protocolo Modificativo ao acordo, embora sujeito a uma reserva de 10 anos, conforme anunciou recentemente a ex-ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima.

A posição do governo português, anunciada pela então ministra, é que juridicamente o Acordo Ortográfico, assinado e ratificado por Portugal em 1991, está em vigor. Todavia, invocou razões de ordem científica e empresarial para pedir 10 anos de reserva para avaliar com a sociedade civil a sua implementação.

Ainda no referido texto do escritor José Eduardo Agualusa, este defende que a educação das populações angolanas e o desenvolvimento do país depende da importação, nos próximos anos, de milhões de livros.

E defende que as autoridades angolanas devam criar rapidamente legislação que permita e facilite a entrada de produtos culturais e, em particular, de livros, no país. Agualusa aponta ainda como razões para a demora na ativação do acordo a “confusão” entre ortografia, as regras de escrita e linguagem, resumindo que o acordo tem por objetivo a existência de uma única ortografia no espaço de língua portuguesa, sendo absurdo pensar-se em unificar as diferentes variantes da nossa língua.

O autor aponta ainda o dedo a um “enraizado sentimento imperial” de Portugal em relação à língua para o protelamento de uma decisão.

E, contrariando esta possibilidade, diz que a História nega este sentimento porque “a língua portuguesa formou-se fora do espaço geográfico onde se situa Portugal - na Galiza”. Por outro lado, a língua portuguesa tem sido sempre, ao longo dos séculos, uma criação coletiva de portugueses, africanos, brasileiros e povos asiáticos, aponta.

Fonte: Diário Digital.pt

José Eduardo Agualusa considera Agostinho Neto "poeta medíocre"

«uma pessoa que ache que Agostinho Neto, por exemplo, foi extraordinário poeta é porque não conhece rigorosamente nada de poesia. Agostinho Neto foi um poeta medíocre»

Jose Eduardo Agualusa

Lisboa, 08 Abr (Lusa) - Uma polémica literária em Angola, suscitada pela alegada mediocridade da obra poética de Agostinho Neto, está a resvalar para o domínio político-jurídico, com ameaças de processo-crime por ultraje à moral pública contra o escritor angolano José Eduardo Agualusa.

Em causa está uma passagem da entrevista que José Eduardo Agualusa deu ao jornal Angolense, de 15 de Março passado, em que o primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, é classificado como "poeta medíocre".

"Uma pessoa que ache que o Agostinho Neto, por exemplo, foi um extraordinário poeta é porque não conhece rigorosamente nada de poesia. Agostinho Neto foi um poeta medíocre", assim se referiu Agualusa a Agostinho Neto, defendendo na entrevista que outros autores angolanos, como António Cardoso ou António Jacinto - a quem reconhece destaque na luta nacionalista angolana -, são igualmente "fracos poetas".

Na resposta, o Jornal de Angola acusou em editorial o escritor de procurar "humilhar figuras de relevo da História e Literatura Nacional".

José Eduardo Agualusa contra-argumentou na edição de 29 de Março do semanário A Capital, chamando "zombies" aos que lhe não reconhecem direito à opinião, considerando que no seio do MPLA, o partido maioritário angolano, "confrontam-se hoje em dia democratas autênticos, democratas de fantasia (...) e uma mão cheia de órfãos da ditadura".

Num outro texto publicado pelo Jornal de Angola, João Pinto, que se apresentou como jurista e docente de Ciência Política e Direito Público na Universidade Agostinho Neto, proclamou, sob o título "Literatura e Identidade e Política", a necessidade de "responsabilidade criminal e civil por estarem reunidos todos os requisitos do ultraje à moral pública, previsto e punido no artigo 420º do Código Penal".

"A escrita não pode servir para humilhar, banalizar, diabolizar os ícones, heróis, mitos, deuses ou divindades. considerou. "É preciso moralizar, sob pena de banalizar a figura mais importante da nossa memória colectiva contemporânea", justificou o jurista.

A respeito desta polémica, o poeta e tradutor Vasco Graça Moura disse à Lusa que embora reconheça "relativamente mal a poesia angolana", está de acordo com José Eduardo Agualusa.

"Conheço relativamente mal a poesia angolana. Mas daquilo que conheço, estou inteiramente de acordo com aquilo que diz o José Eduardo Agualusa", disse.

"Penso que ele faz uma apreciação do ponto de vista literário e isso está no exercício pleno da sua liberdade de expressão e do seu direito à crítica. Penso que confundir o plano da maior ou menor relevância política ou até histórica de determinadas figuras com a sua qualidade literária pode conduzir a equívocos terríveis", vincou Vasco Graça Moura.

Para José Eduardo Agualusa, contactado telefonicamente em Luanda pela Lusa, a partir de Lisboa, as reacções às suas opiniões vão para além do plano literário e insere-as num "processo de intimidação".

"Este processo de intimidação não tem a ver só comigo. Tem a ver com outras pessoas e com mais coisas", considerou o escritor, que associa este ambiente à proximidade das eleições em Angola, marcadas para Setembro próximo.

O recente encerramento em Luanda por ordem do Governo do escritório das Nações Unidas para os Direitos Humanos enquadra-se neste mesmo clima, acrescentou.

José Eduardo Agualusa considerou que o texto do jurista João Pinto "não é respondível. Está noutro plano. É surrealismo", salientando ainda que a sua crítica sobre a poesia de Agostinho Neto "não era política, era literária".

"O MPLA é uma estrutura complexa em que há pessoas que não concordam nada com isto. Tem havido comentários de várias pessoas ligadas ao MPLA alertando para o absurdo desta reacção", adiantou.

EL/HB.

Lusa/Fim

29 de outubro de 2007

OS RIOS ATONITOS

Rio Zaire, perto do Soyo



Ouvindo "Kongo", por Miriam Makeba



Há palavras a dormir sobre o seu largo
assombro
Por exemplo, se dizes Quanza ou dizes Congo
é como se houvesse pronunciado os próprios
rios
Ou seja, as águas
pesadas de lama, os peixes todos e os perigos
inumeráveis
O musgo das margens, o escuro
mistério em movimento.

Dizes Quanza ou dizes Congo e um rio corre
Lento
em tua boca.

Dizes Quanza
e o ar se preenche de perfumes perplexos.

E dizes Congo
e onde o dizes há grandes aves
e súbitos sons redondos e convexos.

E dizes Quanza, ou dizes Congo
e sempre que o dizes acorda em torno
um turbilhão de águas:
a vida, em seu inteiro e infinito assombro.





José Eduardo Agualusa (Angola)

7 de setembro de 2007

O VENDEDOR DE PASSADOS - AGUALUSA


Publicações Dom Quixote, Lisboa, Portugal. - 2004
Romance. - 231 p. ISBN 972-20-2667-4.


Vencedor do Independent Foreign Fiction Prize 2007 (Inglaterra)

Félix Ventura escolheu um estranho ofício: vende passados falsos. Os seus clientes, prósperos empresários, políticos, generais, enfim, a emergente burguesia angolana, têm o futuro assegurado. Falta-lhes, porém, um bom passado. Félix fabrica-lhes uma genealogia de luxo, memórias felizes, consegue-lhes os retratos dos ancestrais ilustres. A vida corre-lhe bem. Uma noite entra-lhe em casa, em Luanda, um misterioso estrangeiro à procura de uma identidade angolana. E então, numa vertigem, o passado irrompe pelo presente e o impossível começa a acontecer. Sátira feroz, mas divertida e bem humorada, à actual sociedade angolana, O Vendedor de Passados é também (ou principalmente) uma reflexão sobre a construção da memória e os seus equívocos.

Revista de Imprensa


O que aqui temos (lemos) é um belo livro, despojado de intencionalidades dirigidas, demonstrando a eficácia de uma tal opção. Encontrar uma boa metáfora para dizer a vida é uma felicidade; envolvê-la com uma narrativa límpida e despretensiosa, uma alegria; suspender até ao limite do narrado um desfecho, uma glória. Entregá-lo assim feito, a um público leitor, uma simpatia.
Dórias Graça Dias, Expresso, Actual


O último livro de José Eduardo Agualusa é um retrato irónico da sociedade angolana, é sobre "o que é a verdade e o que é a mentira", como explica o autor, é sobre a memória, essa entidade mutável, e literatura, também numa homenagem a Jorge Luís Borges. Mas, mais importante que a história ou as histórias que contém, o livro está cheio desses momentos que nos fazem levantar os olhos das páginas antes de continuar. São essas as ideias que ficam retidas no leitor.
Susana Moreira Marques, Público, Mil Folhas


À pimeira vista até parece um romance policial, escrito em tom bem tropical, deliciosamente recheado de expressões recuperadas de um português lusófono. Depois, à medida que vamos lendo, percebemos que é muito mais. É uma confissão sarcástica sobre a Angola actual e os “esquemas” de vida que por lá se fazem; é um diário que pincela memórias soltas e outros tantos esquecimentos propositados. Tudo, um puzzle que se vai encaixando e amarrando o leitor.(...) O Vendedor de Passados é de uma simplicidade desconcertante, levando-nos a recordar – de memória – situações por que já passámos ( ou será que não?)
Luísa Jeremias, Leituras à sombra


Further editions
2004 - O Vendedor de Passados. - Gryphus, Rio de Janeiro, Brazil. ISBN 85-7510-092-0.

Translations
2006 - Le marchand de passés. - Métailié, Paris, France. ISBN 2-86424-567-1.

2006 - The Book of Chameleons. - Arcadia Books, London, UK. ISBN 1-905147-15-5.

OBRAS:

Romance:
1989 - A Conjura
1996 - Estação das Chuvas
1997 - Nação Crioula
2000 - Um Estranho em Goa
2002 - O Ano em que Zumbi Tomou o Rio
2004 - O Vendedor de Passados
2007 - As Mulheres do Meu Pai

Novela:
1992 - A Feira dos Assombrados

Poesia:
1991 - Coração dos Bosques - Poesia 1980-1990

Contos:
1990 - D. Nicolau Água-Rosada e outras estórias verdadeiras e inverosímeis
1999 - Fronteiras Perdidas, contos para viajar
2000 - A Substância do Amor e Outras Crónicas
2000 - Estranhões e Bizarrocos
2002 - O Homem que Parecia um Domingo
2003 - Catálogo de Sombras
2005 - A Girafa que Comia Estrelas
2005 - Manual Prático de Levitação
2006 - Passageiros em Trânsito
2006 - O Filho do Vento

10 de julho de 2007

O homem que vinha ao entardecer

Homens Muilas (Angola)



(Ouvindo “Sonho de Um Camponês”, por Teta Lando)


Falava com devagar, ajeitando as
palavras. Falava com cuidado,
houvesse lume entre as palavras.

Chegava ao entardecer, os sapatos
cheios de terra vermelha e do perfume
dos matos.

Cumpria rigorosamente os rituais.

Batia primeiro as palmas (junto
ao peito)
Depois falava.
Dos bois, das lavras, das coisas
simples do seu dia-a-dia. E todavia
era tal o mistério das tardes quando
assim falava
que doía.




Jose Eduardo Agualusa (Angola)