27 de dezembro de 2009

UMA LÍNGUA MORRE A CADA 14 DIAS

Com a devida permissao esta postagem foi retirada do blogue mocambicano, "Diário de um Sociólogo" http://oficinadesociologia.blogspot.com/ visite!
 



Uma língua morre em cada 14 dias. Em 2100, terá desaparecido mais de metade das sete mil línguas faladas no planeta.
Confira http://www.nationalgeographic.com/mission/enduringvoices/. Clique com o lado esquerdo do rato sobre a imagem para a ampliar. Obrigado ao Ricardo, meu correspondente em Paris, por me ter alertado para o fenómeno.


Meus agradecimentos a Carlos Serra, autor do blogue citado!

26 de dezembro de 2009

O MINDERICO -

 Li no blog Diário de um Sociólogo (http://oficinadesociologia.blogspot.com/ ) que uma língua morre a cada 14 dias. Lembrei-me  de pesquisar na nossa língua e no espaco que ela abarca, encontrei o Minderico, em Portugal.



Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


O Minderico ou Piação dos Charales do Ninhou é a variante linguística falado em Minde desde o século XVIII. Inicialmente esta variante funcionava como código entre os habitantes de Minde, para negociações. O povo minderico é por natureza um povo negociante.
Fruto de uma comunidade fechada, localizada num vale, entre as duas serras (a d'Aire e a dos Candeeiros), o minderico, incialmente enquanto língua secreta, era semelhante a variantes que encontramos noutros grupos e comunidades étnicas específicas espalhadas pelo mundo que usam "termos e expressões de defesa", isto é, palavras e expressões que permitem aos membros dessa comunidade falar entre si sem darem a conhecer o significado dessa comunicação a outros. Porém, o minderico ultrapassou as barreiras do secretismo e alargou-se não só as todos os grupos sociais da comunidade minderica como passou a ser usado em todos os contextos sociais (não só para o negócio). Esta evolução - de língua secreta a língua do quotidiano - não é exclusiva do minderico, tendo-se registado já noutras comunidades em diferentes partes do mundo.
Em muitos dos lexemas mindericos é notória a sua origem em imagens do quotidiano, que passam de forma figurativa para a linguagem, mas também, embora em menor quantidade, através de alterações do português vernáculo, não esquecendo também os desenvolvimentos propriamente mindericos. Nomes de pessoas da terra deram origem a expressões que designam profissões ou atributos humanos. O minderico é ainda hoje conhecido pela maioria da população adulta, embora por influência da alteração dos costumes, haja uma acentuada tendência para o seu desuso e esquecimento entre os mais jovens.
Existem várias edições de Dicionários de Minderico, onde se encontram as palavras traduzidas de português para minderico e minderico para português. Estes dicionários estão disponíveis no Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro.

Medidas de Defesa

Actualmente o minderico está a ser alvo de alguns projectos como forma de revitalização, de forma a que não caia no esquecimento. Como exemplo temos:
Aulas de minderico no Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro para as várias faixas etárias.
Actualização do dicionário já existente.
Utilização do minderico em festas, celebrações de Minde e nos meios de comunicação social.
Tradução das placas toponímicas de Minde, das ementas dos restaurantes e das tabelas dos cafés.
Projecto de documentação, sediado na Universidade de Regensburg e inserido no Programa de Documentação de Línguas Ameaçadas,com o apoio financeiro da Fundação Volkswagen.
Criação de suporte virtual que permita a aprendizagem do minderico por qualquer pessoa

Palavras em Minderico


abobrar - descansar;
alexandrinas - fotografias;
ambrosiar - pensar, cismar;
albertinas - bolachas;
babosas - cervejas;
badelo - língua;
bodelha - mentira;
borboleta - luz;
brancano – leite;
bruxo - computador;
Casal Médio - Santarém;
cabaneira - vaca;
campinos - melões;
carranchano - amigo;
fusca - noite;
gargantear – cantar;
jordar – fazer, gastar, despejar, desperdiçar;
latina - missa;
Casal Grande - Lisboa;
mioleira – testa;
mirantar – ver, observar;
Ninhou - Minde;
nazaré - banho;
neto - dinheiro;
paivante - cigarro;
patarraz da ladina - genro;
perneiras - peúgas;
piação - conversa;
pirota - motorizada;
quadrazal - mês;
remexido - negócio;
renhomnhom - gaita de foles ;
rinchão - comboio;
rodilha - sogra;
ronquinho - surdo;
senhor antónio - marido atraiçoado pela esposa, corno;
sesta - semana
soletra - livro;
tarrantar - dormir;
tece-tece - Internet;
terraizinho - criança;
terraizinho judaico - Menino Jesus;
tosadeira - boca;
toupeira do ferreiro - charrua;
videira - mãe;
videiro - pai;
vista-baixa - porco;
zé pedro – bigode

18 de dezembro de 2009

O MEU AMO

O meu amo em fúrias
E falas de arrelias
Aportou mal-humorado ao palácio
Dos sonhos e silêncio
E num estrondo resoluto
Gritou ser amo e amante absoluto!


Trovejou fortes trovoadas
Arregaçou uma camisa
De costas corroídas de pobreza
E magreza
Trovejou às paredes de casa
E tempestuou páginas revoltadas!


Mostrou um peito desmusculado
Diluído em mágoas de álcool
E cansaços de sol
Um velho-peito-robusto
Desgastado e agastado
Em magras costelas de desgosto!


Gritou gestos abruptos
No vazio das panelas
Dos bolsos rotos
Gritou desespero às janelas
E resmungou um silêncio amuado
Um silêncio, o meu pobre amado!


Depois procurou meus mistérios
E o mansinho dos delírios
Conduziu-me a novos portos
Ressonou a nova aurora
Com ventos d’outrora
Ressonou um sonho de gemidos fartos!


Décio Bettencourt Mateus (Angola)
in Xé Candongueiro.
Luanda, 23 de Abril de 2007.

10 de dezembro de 2009

DO BLOG AS VIAGENS DE ALEX

Um olhar vago, outro tímido

A VELHA E A BEBÉ





[Texto e Foto: Alexandre Correia]

À beira da estrada, uns quilómetros mais abaixo de Sumbe, no mercado improsivado junto da ponte sobre o rio Quicombo, aquela velha que vendia bananas já amarelecidas despertou-me a atenção: estava ali, sentada no chão de terra, como se não houvesse mais ninguém por perto para além dela própria e da sua neta. O olhar vago, que não escondia tristeza, não explicava essa indiferença. Quando me aproximei e perguntei se as bananas eram boas para comer cruas, baixou os olhos e respondeu com um murmúrio tão baixinho que tive de ajoelhar-me também no chão para a conseguir escutar. Disse que não, que eram para cozinhar. A neta, assustada, já se tinha refugiado no colo da velha, escondendo a cara no ombro da avó. A bebé também não tinha um olhar feliz, mas não era triste como o da velha. Nem indiferente. Era apenas tímido, pois denunciou a sua curiosidade ao espreitar-me pelo canto do olho. Mas tal como a velha, quando os meus olhos se cruzaram com os da bebé, ela não resistiu e escondeu-se de novo, encaixando a cara entre o ombro e o pescoço da avó. Para logo a seguir voltar a espreitar sorrateiramente... Só largou a protecção do colo da velha quando eu me afastei. E então voltou a brincar sozinha no chão, enquanto a velha permanecia imóvel, com aquele olhar distante e triste, que eu nunca mais esqueci.

Alexandre Correia (Portugal)

7 de dezembro de 2009

VIRIATO DA CRUZ E O PODER DA POESIA


Se não estivesse morto (morri em Pequim a 13 de Junho de 1973) festejaria no próximo dia 25 de Março 81 anos. Há quem ache que Angola poderia ser hoje um país muito diferente se eu não tivesse morrido tão jovem, mesmo às portas da Revolução de Abril em Portugal, e das grandes mudanças que a mesma implicou para o meu país. Sinto-me lisonjeado com tais opiniões, mas acho-as exageradas. É verdade que um único homem pode em certas circunstâncias alterar a correnteza da História – basta pensar em Nelson Mandela, sem o qual o regime do apartheid talvez não se tivesse desmoronado de forma pacífica. Olhando para trás, porém, sou forçado a admitir que o mau génio que sempre me dominou teria arruinado nesse futuro imaginário, como arruinou no duro passado real, qualquer encontro meu com a Senhora História.




Não me parece provável que em 1974 tivesse conseguido unir os diferentes movimentos nacionalistas angolanos. Não eu, um dos primeiros militantes do MPLA que se atreveu a contestar a liderança de Agostinho Neto e ousou romper com o partido para se juntar aos homens de Holden Roberto. Isto antes de romper com todos, a murro e à cacetada, e ficar completamente só. Levei a minha propensão iconoclasta sempre muito a sério. Tão a sério que um dia, em Pequim, onde estava exilado, quebrei um busto de Mao em público. Os meus anfitriões chineses ao invés de me expulsarem, como eu pretendia, condenaram-me a uma espécie de prisão domiciliária, ao ostracismo mais feroz, à penúria. Morri e enterraram-me sem testemunhas no cemitério dos estrangeiros. Se tivesse resistido mais alguns meses poderia ter conseguido deixar Pequim e recomeçar uma vida nova em Paris ou em Lisboa, onde me aguardavam muitos amigos.



Cheguei sempre cedo demais. Nunca soube esperar. Até para morrer fui impaciente.



Resumindo: vivo não teria ajudado a evitar nem a guerra civil, nem o desastrado pesadelo totalitário que em poucos anos, sob o olhar perplexo do camarada Neto, arruinou Angola. Em contrapartida talvez me tivesse dedicado à poesia, aprofundando a meia dúzia de caminhos que sugeri em outros tantos versos ingénuos. É graças a esses versos que por excessiva indulgência da crítica, ou excessiva ignorância, muitos insistem em chamar-me poeta.



Nos anos 40 e 50 eu e mais alguns companheiros começámos a escrever poesia na intenção de despertar as massas. A poesia deveria servir, no nosso entender, para preparar o terreno para a insurreição nacionalista. E assim foi. Contrariando os cépticos, demonstrámos que a poesia pode mudar o mundo. Primeiro os versos, depois as balas. A seguir demos razão aos cínicos: mudar, mudámos, mas não para melhor. Acontece que, infelizmente os poemas que então produzimos estavam longe da excelência. Faltou-nos labor literário. Talvez com boa poesia pudéssemos ter obtido melhores resultados na política. Não deixei de acreditar no poder da poesia. Nem sequer na necessidade de levar a poesia ao poder. O problema (suspeito) foi a qualidade dessa poesia – e dos seus poetas. Não é possível cozinhar um bom funge com farinha ruim.



Se não tivesse morrido em 1973 estaria agora a confrontar-me – inclusive a murro e à cacetada, caso não me faltasse o fôlego, mas em todo o caso possuído pelo mesmo espírito iconoclasta – com todos quantos impedem a afirmação de um novo pensamento e de uma nova criatividade, capaz de iluminar consciências e de preparar terreno para outras insurreições, outras libertações. Vez por outra oiço alguém utilizar, a propósito do regime angolano, a expressão «pensamento totalitário», e rio-me às gargalhadas do alto da minha nuvem – eis aqui um belo oximoro. Não sei quanto tempo vai levar (o que no estado em que me encontro é indiferente) mas sei que mais tarde ou mais cedo a boa poesia acabará por se impor e triunfar.




Crónica publicada na edição nº 78 (Março) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.



© publicado pela Ler às 11:32 aqui: http://ler.blogs.sapo.pt/338179.html

30 de novembro de 2009

TRILHOS I



1 - imbambas



I
Espuma o mar que o navio rasga
sob a réstia de sol que o aprofunda

borbota ferve o largo rasto e logo esmaia
como memórias breves que cintilam
nas primeiras estrelas do regresso

tudo se emaranha no fervilhar da espuma


Volto enfim
para encontrar o sol
que levo em mim




II
De há pouco, no cais de partida
o vermelho gasto de uma sombrinha
aconchegando acenos breves lentos tristes doces
que a poalha da chuva miúda esbateu num relevo de sonos,
perdura e dói com num retrato antigo


...meus pais, debaixo do vermelho gasto.


Volto, sim
que o sol espera por mim
e eles virão no mesmo rasto.


Apesar da noite que cai
o horizonte alarga
...é o peito que se abre retendo o afago
esta imensa e leve carga, esta imbamba de sonos
esta bagagem tão minha...


...que afinal se guarda naquela sombrinha


Navio Quanza
Julho/65




2 - D. Conceição com Semedo


Vinha de panos pintados
e era Conceição
com seu tabaco enrolado e dado riso
nos olhos azulados
de afeição
e de quanto preciso


Vinha de panos pintados
com seu filho Semedo
e a nossa meninice


Mas passou e disse
nos olhos desencontrados
que era ainda muito cedo
para o que pedisse


Vinha do quintal e da mulembeira

Vinha do sonho, mas inteira,
com Semedo, e era ainda a lavadeira
e a meninice


Barcelona 08/05




3 - Pinacoteca


À brisa do fim da tarde
vieram a casa meus amigos
e conversamos como xuaxalham fora, imperiais
as palmeiras
que da janela alta por onde a noite desce
sobre a baía calma,
plasmam verdes as palmas estriadas a nanquim
na aquarela diluída e breve, por assinar


Pintada a cinza e negro, rasgada na parede
uma dor silenciosa e crua impõe-se muda, dentro


Sente-se o grito dos gritos
... é a língua pontiaguda do cavalo trespassado


Sente-se a dor, uma dor
... um menino aparentemente adormecido
que a mãe sustém mas já não presta


Escapa-se num esgar da boca e dos olhos alevantados
esse grito sulcando céus, abre-se uma janela, irrompe um anjo
espantado com a luz pequena de um candeeiro - inútil?


Mas já não grita o guerreiro estraçalhado e os que se arrastam
trôpegos de cansaço e medo, braços caídos
as pernas pesadas de grossas, exaustos
ou os que parecem voar atrás do grito


Dentro ainda
soprando brasas das nossas queimadas,
inflamadas de grogue e bagaços o verbo solta-se,
a conversa explode em fogo, lavareda que desmaia e retoma
na noite súbita anuviada que o calor afaga macio,
quadro vivo de sonhos em perpétuo esboço


Tudo se mescla numa perspetiva cúbica


A garrafa de pernod e copo, violino e guitarra
a solidão de Sabartés


e as conversas, os risos e os gestos...


Falou-se a vários tons, encharcando uma tela
fantasmática de sombras e delírios, como quem pinta em febre, e
nas mãos apertadas da despedida,
assina




Fernando Glória Dias - Luanda 08/78

28 de novembro de 2009

DEDICATÓRIA




Diversos pintores angolanos


Teus dedos
vadios
colhendo flores
na renda
dos meus


recordarei de
pois quando
noutros dedos
tocava
os teus


 
 
David Mestre (Angola)
 
Luís Filipe Guimarães da Mota Veiga era o seu nome verdadeiro. Começou a ser conhecido por David Mestre após publicação do seu segundo livro «Crónicas do Gheto» (1972).

Nasceu em Loures, Portugal, em 1948. Foi para Angola com apenas oito meses de idade e viria a falecer em Almada (Portugal), no Hospital Garcia da Orta com 49 anos, vítima de um acidente vascular cerebral.
Trabalhou como jornalista e crítico literário em variados jornais e revistas de Angola, de Portugal e de outros países, coordenou diversas páginas literárias, foi director do «Jornal de Angola». Cronista, poeta, recitador e ficcionista, era membro da Associação Internacional de Críticos Literários. Fundou e dirigiu em 1971 o grupo «Poesias – Hoje». A sua obra está traduzida em várias línguas

Obra poética:



Kir-Nan, 1967, Luanda, edição do autor.
Crónica do Gheto, 1973, Lobito, Cadernos Capricórnio
Dizer País, 1975, Nova Lisboa, Publicações Luanda
Do Canto à Idade, 1977, Coimbra, Centelha
Nas Barbas do bando, 1985, Lisboa, Ulmeiro
O Relógio de Cafucolo, 1987, Luanda, União dos Escritores Angolanos
Obra Cega, 1991, Luanda, edição do autor
Subscrito a Giz - 60 Poemas Escolhidos, 1996, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda

23 de novembro de 2009

HOMENAGEM A UMA POETISA: VILMA NUNES

Soube hoje, que minha amiga e poeta, Vilma Nunes, faleceu. Vilma é uma poetisa amadora brasileira que ama e vive a Poesia em cada bocadinho da sua alma poética. Com saudade deixo-vos estes poemas:






HOJE



Hoje
Amanheci com você
Grudado nos meus pensamentos
Fazendo cócegas nos meus sentimentos
Dentro da minha cabeça
Que não tem juízo...
Hoje
Amanheci
Com vontade
De te ver
De ter-te
Aqui
Dentro dos meus olhos
E passear contigo
Na terra do Nunca
Onde os sonhos
Tomam forma
Viram borboletas
E voam...



ASSIM

Se te disserem

Que sou isso
Sou aquilo
Que sou assim e assim
Não acredites em nada
Sou uma mistura
De reticências
De interrogações
Algumas exclamações
Que vou deixando
Pouco a pouco
Pelas estradas...


Nunca, jamais
Serei ponto final



 

QUANDO
Quando despir meu coração

Dos vestidos rotos
Das dores, das mágoas
Dos sonhos frustrados
E a tua imagem
For apenas
Uma lembrança atoa
Quando tiver esquecido
O teu riso de arlequim
O teu olhar de seta
Tuas palavras ocas
E o teu gosto
Desvanecer da minha boca
Quando nada mais restar de ti
Nos meus armários
E tudo for azul
Leveza de pluma
Liberdade de asas
Quando enfim
O antigo
For realmente passado
E o Sol de Abril
Brilhar num novo horizonte
Quem sabe assim
Reaprenderei a voar
Com o vento que passa...




Vilma Nunes (Brasil)



COM SAUDADE, POETA!

UM HOMEM NUM McDONALD’s!


Próxima obra de Décio B. Mateus


Um homem das áfricas longínquas
Num McDonald’s das europas
A tremer o frio nas roupas
A esconder as mágoas
E miséria das terras ricas
E sofridas das áfricas!


Senta-se faminto num canto
O cansaço da África
A desilusão da Europa branca
No rosto esfomeado
Senta-se ao meu lado
A dor d’África no pensamento!


Traz a fome dos dias a roer
O homem num McDonald’s das europas distantes
A África e suas gentes
A roer, a moer
E um homem senta-se perdido nas europas
A tremer o frio nas roupas!


A África atrasada, distante
A poeira e gritaria de desentendimentos
Dos homens arrogantes
Europa, o paraíso, fica num além
Dissipado numa nuvem
E o “um homem” senta-se nos seus pensamentos!


E parte perdido na ilusão das europas brancas
A vergonha das áfricas ignorantes
E suas gentes
A barriga de fome a roer
A vergonha a doer
E um homem parte na desilusão das áfricas!




Décio Bettencourt Mateus (Angola)
in "Xé Candongueiro", seu mais recente título, a sair para breve.

http://mulembeira.blogspot.com/
 
 

POESIA




Poesia

Escrevo nomes
como quem passa batom
e pinta de vermelho
a boca




talvez porque sofra
desse destino
de me balançar
em rede tão fina.




Escolho pernas
cruzo e descruzo palavras
prolongo sílabas e olhares




E porque quero dançar
procuro poesia
no céu da sua boca.




As palavras
doidas pra tecer mistérios...
Confundo lábios e letras.




Martha (Brasil)  http://mariamuadie.blogspot.com/

17 de novembro de 2009

ANTÓNIO ALEIXO - POETA POPULAR



ANTÓNIO ALEIXO (1899 - 1949)


António Fernandes Aleixo (Vila Real de Santo António, 18 de Fevereiro de 1899 — Loulé, 16 de Novembro de 1949) foi um dos poetas populares algarvios de maior relevo, famoso pela sua ironia e pela crítica social sempre presente em seus versos. Também é recordado por ter sido simples, humilde e semi-analfabeto, e ainda assim ter deixado como legado uma obra poética singular no panorama literário português da primeira metade do século XX.
No emaranhado de uma vida recheada de pobreza, mudanças de emprego, imigração, tragédias familiares e doenças, na sua figura de homem humilde e simples, havia o perfil de uma personalidade rica, vincada e conhecedora das diversas realidades da cultura e sociedade do seu tempo. Do seu percurso de vida fazem parte profissões como tecelão, guarda de polícia, servente de pedreiro, trabalho este, que emigrado, também exerceu em França.
De regresso ao seu país natal, restabeleceu-se novamente em Loulé, onde passou a vender cautelas e a cantar as suas produções pelas feiras portuguesas, actividades que se juntaram às suas muitas profissões e que lhe renderia a alcunha de "poeta-cauteleiro". Faleceu por conta de uma tuberculose, em 16 de Novembro de 1949, doença que tempos antes havia também vitimado uma de suas filhas.

(Pequena biografia retirada de Wikipedia)

QUADRAS

Julgando um dever cumprir,
Sem descer no meu critério,
- Digo verdades a rir
Aos que me mentem a sério!






Que importa perder a vida
na luta contra a traição
se a razão mesmo vencida
não deixa de ser razão






Quando os Homens se convençam
Que à força nada se faz,
Serão f’lizes os que pensam
Num mundo de amor e paz.






A quadra tem pouco espaço
Mas eu fico satisfeito
Quando numa quadra faço
Alguma coisa com jeito






Quando não tenhas à mão
Outro livro mais distinto,
Lê estes versos que são
Filhos das mágoas que sinto.






Julgam-me mui sabedor
E é tão grande o meu saber
Que desconheço o valor
Das quadras que sei fazer!






Sei que umas quadras são conselhos
que vos dou de boa fé;
outras são finos espelhos
onde o leitor vê quem é.






Gosto do preto no branco,
como costumam dizer:
antes perder por ser franco
que ganhar por não ser.






Não sou esperto nem bruto,
nem bem nem mal educado:
sou simplesmente o produto
do meio em que fui criado.






Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.






Vinho que vai para vinagre
não retrocede o caminho;
só por obra de milagre,
pode de novo ser vinho.






Uma mosca sem valor
poisa, c'o a mesma alegria,
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.






O mundo só pode ser
melhor do que até aqui,
- quando consigas fazer
mais p'los outros que por ti!






P'ra mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem que trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.






Sei que pareço um ladrão...
mas há muitos que eu conheço
que, não parecendo o que são,
são aquilo que eu pareço.






Enquanto o homem pensar
que vale mais que outro homem,
são como os cães a ladrar,
não deixam comer, nem comem.






À guerra não ligues meia,
porque alguns grandes da terra,
vendo a guerra em terra alheia,
não querem que acabe a guerra






Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
qu'rer um mundo novo a sério.

Antonio Aleixo (Portugal) 
in Este Livro Que Vos Deixo


11 de novembro de 2009

DOIS POEMAS PARA 11 DE NOVEMBRO


Agostinho Neto

NOITE


Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.


Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.


São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.


Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.


Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.


Também a noite é escura.



António Agostinho Neto, Poeta e primeiro Presidente de Angola (Icolo e Bengo, 17 de Setembro de 1922 — Moscovo, 10 de Setembro de 1979)
(Poema in Sagrada Esperança)



***




Manuel Rui


BANDEIRA

é um braço de fevereiro e outro de novembro
que te içam.




os nossos olhos sobem lentamente
a ver teu desfraldar a noite as cores antigas
o vermelho e o preto.




bandeira catana de campesina luta
aliança na roda
dentada proletária força
sem fim até ao brilho sem limite
da estrela.




eles vinham pelo norte e pelo sul
para estar hoje mas não chegaram.
e de ti o luar começa a ser inveja!




olhamos-te bandeira agora
e vamos percorrer contigo este país
até semearmos novembro em toda a parte.


Manuel Rui Monteiro (Angola)


10 de novembro de 2009

POEMA

Moacy Cirne, autor de vários livros sobre histórias-em-quadrinhos (o primeiro deles em 1970) e um dos fundadores do poema/processo (em 1967), nasceu em São José do Seridó/Jardim do Seridó, RN, em 1943.
Uma pequena homenagem a quem divulga, no seu blogue, http://balaiovermelho.blogspot.com/ a poesia africana de língua oficial portuguesa, nomeadamente a angolana. Visitem o Balaio Porreta 1986, um bom lugar para se estar, ler e voltar.






o cheiro suculento da pinha
infância que se memória
abre-se para o canto das pedras
sob as chuvas de fevereiro e caicó.
fruticorpo orgasmo,
a pinha
se oferece à boca lenta e atenta
com seu aroma raro
seu aroma claro
e um branco de auroras arrependidas,
assim: a pinha.


[ in Balaio Incomun, n° 1178,
7 agosto 1999 ]

Moacy Cirne (Brasil)

9 de novembro de 2009

AMBIGUIDADE

Hoje, trago uma vez mais a minha poetisa e o seu blogue que aconselho a visitarem aqui: http://poesialilazcarmim.blogspot.com/





Desafiavas-me escondido por detras das vírgulas

E rias, rias iludido que nas reticencias frívolas
Arranjavas abrigo, um lar amigo para nossas demencias
Ahahahah...como os nossos risos cresciam...
Baloes de primaveras no outono de nossas vidas
Unguentos miraculosos sarando nossas feridas
Nao...nao falo de quimeras, mas sim das longas esperas
Com que perpetuámos os sentidos, reais e vividos
Nas rimas pintámos feras, e moldámos de barro
Muitas prosas, sonetos feitos duetos, laranjais frescos
De perfume indigo...dos sons fizemos esferas,
Bancos de jardins bebendo ópios de trigo.
Nas muralhas das odes...lindos arcos arabescos
Arquitectura debruada a linho...
Na ambiguidade da poesia...a fragancia de lilás e pinho!!!




Dinah Raphaellus (Portugal)

3 de novembro de 2009

QUANDO NASCI

UM POEMA DO NOVO LIVRO DE ROMÉRIO ROMULO: "PER AUGUSTO & MACHINA"






1.
quando nasci
uns bêbados diziam de eu ser cavalo,
um porco do cerrado,
um cachorro do mato.
bebi todos os copos que me abriram,
resvalei nas puras tempestades,
interpretei o ranço do silêncio.


bastardo da vida, fiz sobrar meu rasos.


2.
os rios me interrogaram de águas,
rasgaram minha garganta de luzes.
quantos peixes nadaram minha cara de cão?
mesmo plantas, do mato todas, se disseram de mim.
sobrou – da memória- a solidão vazada.


(( do livro Per Augusto & Machina ))

Romério Rômulo (Brasil)

http://romerioromulo.wordpress.com/

7 de outubro de 2009

III ANTOLOGIA DE POETAS LUSÓFONOS (Regulamento e inscricao)

III Antologia de Poetas Lusófonos



Regulamento



1.º Depois do sucesso das Antologias de Poetas Lusófonos (I e II) anteriores, com mensagens de parabéns de imensas personalidades, com destaque para os Digníssimos Presidentes da República de Portugal e Brasil assim como do Primeiro-ministro de Portugal, e com apresentações em várias cidades de portugal e Brasil. A Editora Folheto Edições & Design com o apoio institucional de várias Associações, Academias e Instituições dos Países Lusófonos, entendeu assim, lançar o regulamento para a III Antologia de Poetas Lusófonos com o intuito de continuar a promover a Poesia e os Poetas dos Países Lusófonos.

Para a II Antologia estão ainda agendadas apresentações para Paris (França), Zurique (Suíça) Lisboa, Porto, Alcanena, Silves e Açores

Desta forma a III Antologia pretende ser novamente um elo de ligação entre todos os Poetas da Língua Portuguesa. A III Antologia terá, além dos poemas a seleccionar, algumas notas de várias personalidades do Mundo Lusófono.



2.º A III Antologia de Poetas Lusófonos destina-se a todos os cidadãos naturais dos Países Lusófonos que residam em qualquer país do Mundo.



3.º A III Antologia de Poetas Lusófonos é coordenada editorialmente pela editora Folheto Edições & Design. A selecção dos poemas a editar é da responsabilidade da Comissão de Avaliação, constituída por elementos de cinco instituições ligadas à Lusofonia.



4.º Para fazer parte da III Antologia de Poetas Lusófonos cada participante deverá enviar até cinco poemas de sua autoria, com o máximo de 30 linhas (cada poema). Cada candidato responderá perante a Lei por plágio, cópia indevida ou outro crime relacionado com direitos de autor.



5.º Cada autor deverá enviar uma pequena nota de apresentação (máximo 4 linhas) e respectiva fotografia, para publicação junto do primeiro poema.



6.º O tema da III Antologia de Poetas Lusófonos é livre, cabendo no entanto à Comissão de Avaliação, considerar a pertinência da sua publicação. Todos os trabalhos inscritos serão submetidos à Comissão de Avaliação que, em tempo útil, informará o participante sobre a selecção ou não do(s) poema(s) enviado(s). Os critérios de apreciação serão da responsabilidade da Comissão de Avaliação.



7.º Os poemas deverão ser digitados em Word, corpo 12, Times New Roman, em língua portuguesa e deverão ser entregues em formato papel ou digital.

8.º Os poemas deverão ser enviados ou entregues para “Folheto Edições & Design”, Praça Madre Teresa de Calcutá, Lote 115, Loja 1 – 2410-363 Leiria – Portugal, ou através do endereço electrónico folheto@gmail.com, até ao dia 31 de Dezembro de 2009, acompanhados da respectiva ficha de inscrição. Este regulamento e ficha de inscrição estão disponíveis no seguinte blog: http://folhetoedicoesdesign.blogspot.com. Ou poderá obtê-lo enviando uma mensagem com a sua requisição para o endereço electrónico seguinte: folheto@gmail.com.



9.º

a) Para ter, então, o(s) seu(s) poema(s) incluído(s) na III Antologia de Poetas Lusófonos, após a selecção da Comissão de Avaliação, o autor seleccionado deverá finalizar a sua inscrição mediante pré-pagamento no valor de 20 Euros ou 25 Dólares (USA) por cada poema seleccionado (máximo de 5 poemas) e respectivos custos de transferência bancária (se for o caso). Na falta dessa inscrição final, ficará cancelada a participação do poeta no projecto em questão. Este pagamento só deverá ser feito depois do participante ser contactado, por escrito, pela Folheto Edições & Design. Isto é, cada poeta com o(s) seu(s) poema(s) seleccionado(s), será contactado de forma personalizada. Assim, o referido pré-pagamento dará direito ao autor receber 1 (um) volume da III Antologia por cada poema seleccionado, a enviar via CTT após a primeira apresentação pública. O valor em causa já incluí os custos de envio.



b) No caso de existir lucro com a publicação da III Antologia de Poetas Lusófonos este será direccionado para a IV Antologia de Poetas Lusófonos.



c) Cada participante terá direito a um certificado de participação que será entregue no dia da apresentação da III Antologia, ou será enviado pelo correio juntamente com o(s) livro(s) a que o participante tem direito após a apresentação do livro em causa.



10.º A III Antologia de Poetas Lusófonos terá o formato 17 x 24 cm, miolo papel IOR de 80 gr.s a uma cor, capa a 4/0 cores de 240 grs. Será editada, impressa e publicada pela Editora Folheto Edições & Design. Será ainda feito o registo da obra através do Depósito Legal e inscrição no ISBN (International Standard Book Number).



11.º Os poemas seleccionados, depois da edição da III Antologia de Poetas Lusófonos, poderão ser publicados noutras edições fora do âmbito da Folheto Edições & Design, visto que a Editora não assume os direitos dos mesmos, entendendo que cada autor é inteiramente livre de publicar os seus poemas onde e quantas vezes o entender.



12.º O participante assume o compromisso de conhecer e cumprir este regulamento e aceitar as decisões adoptadas pela Editora Folheto Edições & Design, entidade responsável pela coordenação e direcção da III Antologia de Poetas Lusófonos. O não cumprimento deste regulamento implica a exclusão dos trabalhos na III Antologia de Poetas Lusófonos.

Relembramos que as Antologias de Poetas Lusófonos são reconhecidas pelo Governo Civil do Distrito de Leiria.




Ficha de inscrição

III Antologia de Poetas Lusófonos



Nome Completo:

Data de Nascimento: (dd/mm/ano)

Sexo: Feminino 0

Masculino 0


Naturalidade:

País onde reside:

Bilhete de Identidade Arquivo:

N.º de Contribuinte:

Endereço:

Código Postal/CEP: - Local.: país

Telefone: Fax:

Telemóvel: E_mail:

Web:

Blog:



Para mais contactos/informacoes:

Folheto Edições & Design, Lda

Praça Madre Teresa de Calcutá
Lote 115, loja 1


2410-363 Leiria - Portugal




Tel./Fax: 244 815 198
Email: folheto@gmail.com


http://folhetoedicoesdesign.blogspot.com/

HUMBI-HUMBI (DJAVAN)

Uma bela cancao do folclore angolano, no idioma Umbundu (centro/sul de Angola) aqui interpretada por Djavan. Humbiumbi é um pássaro que anuncia coisas boas e voa alto, sempre mais alto convidando, com o seu canto, todos os outros pássaros a voarem mais alto, anunciando aos homens o nascer do dia, as sementeiras, a chuva...

 




HUMBI-HUMBI


(Música & Letra do Folclore de Angola, adaptada por Filipe Mukenga, interpretada por Djavan)




*Humbi-humbi Yange Yele_La Tuende
Kakele Katchimbamba Osala Posi


Humbi-humbi Yange Yele_La Tuende
Kakele Katchimbamba Osala Posi


**Vakuene Vayelela Yele_La Tuende
Kakele Katchimbamba Osala Posi


Vakuene Vayelela Yele_La Tuende
Kakele Katchimbamba Osala Posi


**********************************

HUMBI-HUMBI



*Humbi-humbi meu, vôa, vôa vamos embora
Coitada da katchimbamba que não sai do chão


**Os outros voam, vôa tu também, vamos embora
Coitada da katchimbamba que não sai do chão




[yele_la, de okuyelela=voar]
katchimbamba [acho q é avestruz]




(Tradução do Umbundu de Gociante Patissa)





CARTA DE UM CONTRATADO

Um dos maios belos poemas de António Jacinto, poeta angolano já falecido e neste video dito magistralmente por José Ramos acompanhado pela nao menos magistral música de Travadinha, músico caboverdiano.



Biografia

António Jacinto (1924-1991 - Angola)

António Jacinto, cujo nome completo é António Jacinto do Amaral Martins, nasceu em Luanda em 1924 e faleceu em 1991. Orlando Távora é o pseudónimo utilizado por António Jacinto como contista.
Por razoes políticas esteve preso entre 1960 e 1972. Militante do MPLA, foi co-fundador da Uniao de Escritores Angolanos, membro do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola e participou activamente na vida política e cultural angolana. Foi empregado de escritório e técnico de contabilidade, Ministro da Educacao de Angola e Secretário de Estado da Cultura.
Colaborou com producoes suas em diversas publicacoes nomeadamente Jornal de Angola, Notícias do Bloqueio, Itinerário, Império e Brado Africano e foi membro da revista Mensagem.
António Jacinto é considerado, por muitos, um dos maiores escritores angolanos.



 

CARTA DE UM CONTRATADO



Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que dissesse
deste anseio
de te ver
deste receio
de te perder
deste mais bem querer que sinto
deste mal indefinido que me persegue
desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta de confidencias íntimas,
uma carta de lembrancas de ti,
de ti
dos teus lábios vermelhos como tacula
dos teus cabelos negros como diloa
dos teus olhos doces como maboque
do teu andar de onca
e dos teus carinhos
que maiores nao encontrei por aí...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que recordasse nossos tempos a capopa
nossas noites perdidas no capim
que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
o luar que se coava das palmeiras sem fim
que recordasse a loucura
da nossa paixao
e a amargura da nossa separacao...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que a nao lesses sem suspirar
que a escondesses de papai Bombo
que a sonegasses a mamae Kieza
que a relesses sem a frieza
do esquecimento
uma carta que em todo o Kilombo
outra a ela nao tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que ta levasse o vento que passa
uma carta que os cajús e cafeeiros
que as hienas e palancas
que os jacarés e bagres
pudessem entender
para que o vento a perdesse no caminho
os bichos e plantas
compadecidos de nosso pungente sofrer
de canto em canto
de lamento em lamento
de farfalhar em farfalhar
te levassem puras e quentes
as palavras ardentes
as palavras magoadas da minha carta
que eu queria escrever-te amor....

Eu queria escrever-te uma carta...

Mas ah meu amor, eu nao sei compreender
por que é, por que é, por que é, meu bem
que tu nao sabes ler
e eu - Oh! Desespero! - nao sei escrever também



(Poemas, 1961)






18 de setembro de 2009

POEMA DE DINAH RAPHAELLUS

A escuridão grita rosas

Negras no silêncio ferindo
As sonoras orquídeas
Amarelo laranja
Duma claridade ausente
De chuvas rubras.








Dinah Raphaellus (Portugal)
http://poesialilazcarmim.blogspot.com/

17 de setembro de 2009

PRADO PAIM - LEMBRAM-SE DE "BARTOLOMEU"?




Domingos Prado Paím foi o primeiro músico do país a conquistar o Disco D´Ouro, com 34 mil cópias vendidas em 1974. Intérprete e compositor, hoje aos 67 anos de idade, o célebre cantor vê-se inteiramente votado ao abandono, sem qualquer recurso para dar continuidade sobretudo aos seus projectos artísticos.






O cantor queixa-se da falta de tudo: desde apoios à realização de concertos e galas adequados à sua vertente artística. Prado Paím deixou de gravar há 35 anos, exactamente na altura em que conquistou o Disco D´Ouro.




Com a venda das 34 mil cópias do seu único disco conseguiu comprar, no mesmo ano, a sua casa de madeira, no município do Sambizanga, onde ainda se encontra a residir. Uma casa que se encontra em estado deteriorado, a necessitar de obras de reabilitação urgentes.






Prado Paím confessa sentir-se cada vez mais abandonado, diz que já bateu a várias portas, algumas delas resultando em meras promessas: “Para mim, a felicidade é aquilo que nós alcançamos no decurso da nossa vida, o bem-estar. Mas como tudo corre mal na vida, este desejo não se alcança e muitas vezes sentimo-nos muito aflitos e choramos”, disse. O cantor está parado desde 1974.






O seu último espectáculo realizou-se em 1992, em Portugal, no âmbito dos acordos de Bicesse. De lá para cá, a sua vida artística foi regredindo aos poucos por motivos de saúde, por um lado, por falta de incentivos por outro. Actualmente, vai sobrevivendo com alguns apoios, sobretudo dos próprios filhos. “Tenho o primeiro Disco D´Ouro, conquistado em 1974. O caso não é para brincadeiras, não é uma obra que eu fiz à toa. Não a fiz por mera casualidade; tenho um troféu, está aí e justifica plenamente.




Foi conquistado antes da Independência e até agora não se diz nada, não se divulga nada e eu também não me sinto bem. Vejam que o troféu surge num período muito delicado. É triste que hoje ninguém reconheça este feito”, desabafou.




Prado Paim refere que quer aproveitar as energias de que ainda dispõe para gravar o CD há muito desejado, o que no seu entender, mesmo que seja o último, poderá honrar o compromisso que tem para com a família e o público, considerando que a sua idade, aliada a vários factores, poderá levá-lo a fechar as vistas a qualquer momento. Além das músicas antigas que fizeram dele um artista de sucesso, deixando a sua marca nas décadas de 70 e 80 com trechos como “Bartolomeu” (semba em homenagem ao seu amigo assassinado no Sambizanga por acudir uma jovem que fora violada) “Esperança” e “Zênze”, Prado Paím disse ter preparados dez novos temas, podendo incluir outros durante os ensaios.






Toda a acção está dependente de patrocínios para poder entrar em estúdio e gravar, de modo a satisfazer os admiradores e apreciadores da sua música. “Estou razoavelmente bem de saúde e queria fazer o meu último lançamento. De repente posso fechar as vistas e as minhas obras ficarem sem efeito. Tenho boas obras por lançar. Estou a andar de baixo para cima à procura de apoios para lançar o meu disco, poderá não ser o último, mas digo já o último, porque quanto menos se espera, a qualquer momento um indivíduo cai.






Por exemplo, diabo seja surdo, de repente, posso sentir-me mal, cair a qualquer momento e morrer. Então fico sem deixar o meu testemunho, as obras, e como sabe, começam a apanhá-las e executí-las de qualquer maneira por outros indivíduos, conforme tenho acompanhado, e tudo acaba por ficar nos diversos, sem qualquer justificação. E quem ganha com isso são outras pessoas.






Quero evitar que tal aconteça”, realçou Paím. O artista lançou um alerta às entidades ligadas à promoção de actividades culturais para prestarem o seu apoio ao lançamento do tão almejado disco, para o qual diz ter já seleccionado alguns instrumentistas, como Joãozinho, Bana Maior, entre outros. “Esperança de fazer um novo CD nunca perdi, porque eu nasci para a música. Quando eu era mais novo, naquele tempo, eu sonhava com alguém a me dar música, sou de uma família originária de músicos, cantores e compositores, e sempre cantaram muito bem. Mas, actualmente, lamento simplesmente a falta de apoios”.


 
Créditos: O País on line

15 de setembro de 2009

POEMA DE MARIA A. DÁSKALOS



"Onde cairá o orvalho se as pedras perderam dono"







Onde cairá o orvalho se as pedras perderam dono


e história


e só as coisas torpes e destruídas


cobriram os campos e tornaram cinza o verde?






Oiço exércitos do norte do sul e do leste


fantasmas lançado o manto das trevas


os rostos exilando-se de si mesmos.


Oiço os exércitos e todo e qualquer som abafarem.


- Não ouves a chuva lá fora, a voz de uma mulher,


o choro de uma criança?


Oiço os exércitos, oiço


os exércitos.






Quero reconstruir tudo - alguém disse


e ouvimos cair as árvores.


E vimos a terra coberta de acácias


e as acácias eram sangue.






Estamos à beira de um caminho


- que caminho é este?


Inventam de novo o vôo dos


pássaros.


Aqui já se ouviu o botão da rosa a desabrochar.






Maria Alexandre Dáskalos (Angola)