10 de dezembro de 2009

DO BLOG AS VIAGENS DE ALEX

Um olhar vago, outro tímido

A VELHA E A BEBÉ





[Texto e Foto: Alexandre Correia]

À beira da estrada, uns quilómetros mais abaixo de Sumbe, no mercado improsivado junto da ponte sobre o rio Quicombo, aquela velha que vendia bananas já amarelecidas despertou-me a atenção: estava ali, sentada no chão de terra, como se não houvesse mais ninguém por perto para além dela própria e da sua neta. O olhar vago, que não escondia tristeza, não explicava essa indiferença. Quando me aproximei e perguntei se as bananas eram boas para comer cruas, baixou os olhos e respondeu com um murmúrio tão baixinho que tive de ajoelhar-me também no chão para a conseguir escutar. Disse que não, que eram para cozinhar. A neta, assustada, já se tinha refugiado no colo da velha, escondendo a cara no ombro da avó. A bebé também não tinha um olhar feliz, mas não era triste como o da velha. Nem indiferente. Era apenas tímido, pois denunciou a sua curiosidade ao espreitar-me pelo canto do olho. Mas tal como a velha, quando os meus olhos se cruzaram com os da bebé, ela não resistiu e escondeu-se de novo, encaixando a cara entre o ombro e o pescoço da avó. Para logo a seguir voltar a espreitar sorrateiramente... Só largou a protecção do colo da velha quando eu me afastei. E então voltou a brincar sozinha no chão, enquanto a velha permanecia imóvel, com aquele olhar distante e triste, que eu nunca mais esqueci.

Alexandre Correia (Portugal)

2 comentários:

Kanauã Kaluanã disse...

E porque encontramos este[s] mesmo[s] olhar[es] em tantas nações, ao nosso lado e bem ali, é que trato este texto como humanamente universal, assim como é a linguagem do olhar.
Fica a sensação de que tantos de nós moram à margem e nem nos damos conta de que somos nós que afundamos em nossa própria omissão.

Parabéns pelos posts, pelos temas, pelas escolhas tão dizentes.

Um abraço.

Katyuscia.

GRAÇA GRAÚNA disse...

Concordo com a Katyuscia e digo mais; esse olhar triste da velha senhora reflete o deslugar em que muitos se encontram. Infelizmente na sociedade consumista não há lugar para os mais velhos. Na esperança de um futuro melhor, deixo meu abraço. Paz em Ñanderu, Graça Graúna