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25 de agosto de 2008

ADRIANO BOTELHO DE VASCONCELOS

ADRIANO BOTELHO DE VASCONCELOS

A morte da música pode ser lisa entre o início de um verão
e a direção que faz o silêncio. A surdez levanta a imagem
que a sombra distraidamente enterrara a cinco
palmos do chão. Para o coração se salvam as gaivotas
que levaram os mares para bem perto do sol que se despe
com o jeito das mulheres. A cicatriz é delicada
como se tivéssemos que olhar para a memória
com uma outra escolha astúcia. Hesita-se mas sabemos
que no ombro se fazem as glórias muito breves
e à deriva do coração. Cada erro persegue o espírito
que faz o teatro dourar mais que uma lágrima, um longo
cenário acaba por disfarçar-nos perante
o que nunca fomos. Faz-se um corte no dedo indicador
quando se perde a aurora para que a terra
fique mais perto da insónia. Vemos o abandono da juventude
vindo agora de nós uma interpretação
sem chamas. Por isso as palavras vão compondo
numa só estrofe o que a vida mesmo atenta não pode
consagrar.


* * *

As armadilhas foram apresentadas depois de terem
escrito num ofício os epitáfios, porque o declínio não se pode
suportar só com as promessas dos irmãos. Os irmãos sabem
que só podem estar de costas dadas uns para os outros
na direcção cuja geometria só os poetas conhecem,
porque a direcção do sabre tem a sua força na perfeição
da sombra que foi preparada pelos que foram escolhidos
para serem heróis depois de passarem acordados
sete dias na escuridão para pensarem com fundo suficiente
de vidas humanas como se impedem
os editais.


* * *

Uma ilusão levanta-se de um escombro mas não se apanha
o poeta que por ela mais a ensaiou num percurso e palco
que nunca fora estranho a Deus. Um cágado não pode passar
limpo e com estilo pela cinza porque não viu
como mais à frente se salvou uma lavra. Salva-se algo
como a primeira escolha
apesar de todos não terem para onde se virar senão
para a fé da palavra que nos pede
um momento
de vaidade.


* * *

Tudo o que foi quase um poema veio com o teu âmago
e talvez seja essa febre interior que te faz
corrigir com as lágrimas a posição
dos guaches.

*

Adriano Botelho de Vasconcelos nasceu em Malange, Angola, em 1955. Publicou, entre outros livros de poesia, Voz da Terra (1974), Anamnese (1984), Tábua (2004), que recebeu o Grande Prémio Sonangol de Literatura, e Olímias (2005). Organizou os livros Caçadores de Sonhos: antologia do conto angolano (1960), Boneca de Pano: colectânea do conto infantil angolano (2005) e Todos os Sonhos: antologia da poesia moderna angolana (2005). Actualmente, é secretário-geral da União dos Escritores Angolanos (UEA).

*

29 de maio de 2007

TÁBUA DE ADRIANO B. VASCONCELOS




Sobre a obra, Ana de Sá, Especialista em Línguas Africanas, teceu as seguintes considerações: «A palavra faz e desfaz, constrói o abandono, desfrutando, pelo seu som, o silêncio; a voz cede o seu lugar cativo aos outros sentidos físicos que se compõem em poesia. A recorrente metáfora poética do tecto surge, neste sentido, como expressão do desejo de toque do inatingível, do alto, do máximo organizador ao qual se acede precisamente pela vogal, pelo verbo com poder de nomear e de apropriar na subjectividade o visível, o perceptível e o imaginável. O espelho é filtrado pela visão na sedução da imagem com a obsessão pela palavra. As mãos, os dedos, a boca que sentem o barro, o ouro e a terra, o húmus fértil, tal como a dança que envolve toda a percepção sensorial, comunicam com as artes, as da palavra e as do corpo». Inocência Mata, Professora Doutora em Línguas Africanas, diz que «Este livro o poeta desfiando, pacientemente qual cágado, aquele que «passou pela fogueira/como quem inicia o passeio» do primeiro ao último poema, os lugares esconsos do «relato de nação», feito de dores, de heróis em discursos vazios, de fístulas (as feridas, mas também os canais), desde a Baixa de Kassanje, lugar simbólico de gestação nacionalista e palco dos nefandos acontecimentos que tornaram mais visíveis a sanha colonialista, e do rio Kwanza, «que levou para o mar os corpos dos homens que foram/violados», até chegar à Kanjala à luz, que traz uma nova possibilidade de recomeço: Kanjala com o seu tempo perfeito depois De muitas fogueiras. Um milheiral levanta a terra numa mesa Acesa que ocupa o horizonte. Este livro de Botelho de Vasconcelos desinstala verdades inquestionáveis, desoculta presunções consensualistas, perturbando as consciências mais transparecentes. Fá-lo rasteando o mapa da sua afectividade (familiar, social, política e ideológica) e convidando a que a Pátria revele os lugares dos seus silêncios. No mais, este livro traz à cena literária angolana uma pedra: uma nova forma de procedimento poético, baralhando os esquemas estanques das categorias literárias, causando estranhamento. Que é, como se sabe desde o Formalismo russo, uma das funções construtivas do literário». E em último excerto analitico, Cármen Lúcia Tindó Secco, Professora Doutora da UFRJ Brasil, escreveu o seguinte comentário: «A dança também ilumina e movimenta o eu do poema que se quer lúcido, crítico da vida, do espectáculo da modernidade, da teia trágica de inúmeras guerras e desenlaces. É evidente a amarga lucidez do poeta nos seguintes versos: «Eu tenho a minha desilusão diante da cidade, cuja verdade é um painel de publicidade». (Tábua pág. 64) Memória e esquecimento dialogam por entre os fios da poesia de Adriano Botelho de Vasconcelos. O que lembra e para quê? O que omite e por quê?».




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