20 de abril de 2010

Blog da Semana - 04 - 2010

O blog da semana para visitar é CIRANDEIRA: http://giramundo-cirandeira.blogspot.com/


EL OTRO TIGRE

Pienso en un tigre. La penumbra exalta

la vasta Bibliotece laboriosa
y parece alejar los anaqueles;
fuerte, inocente, ensangrentado y nuevo,
el irá por su selva y su mañana
y marcará su rastro en la limosa
margen de un rio cuyo nombre ignora;
(en su mundo no hay nombres, ni pasado,
ni porvenir, solo un instante cierto.)
Y salvará las bárbaras distancias
y husmeará en el trenzado laberinto
de los olores el olor del alba
y el olor deleitable del venado
Entre las rayas del bambú descifro
sus rayas y presiento la osatura
bajo la piel espléndida que vibra
En vano se interponem los convexos
mares y los desiertos del planeta;
desde esta casa de un remoto puerto
de América del Sur, te sigo y sueño
oh tigre de las márgenes del Ganges
Cunde la tarde en mi alma y refexiono
que el tigre vocativo de mi verso
es un tigre de símbolos y sombras,
una serie de tropos literarios
y de memorias de enciclopedia
y no el trigre fatal, la aciaga joya
que, bajo el sol o la diversa luna,
va cumpliendo en Sumatra o en Bengala
su rutina de amor, de ocio y de muerte
Al tigre de los símbolos he opuesto
el verdadero, el de caliente sangre
el que diezma la tribu de los búfalos
y hoy 3 de agosto del 59,
alarga en la pradera una pausada
sombra, pero ya el hecho de nombrarlo
y de conjeturar su circunstancia
lo hace ficción del arte y no criatura
viviente de las que andan por la tierra
Un tercer tigre buscaremos. Este
será como los otros una forma
de mi sueño, un sistema de palabras
humanas y no el tigre vertebrado
que, mas allá de las mitologias,
pisa la tierra. Bien lo sé, pero algo
me impone esta aventura indefinida,
insensata y antigua, y persevero
en buscar por el tiempo de la tarde
el otro tigre, el que no está en el verso


Jorge Luís Borges - El Hacedor, in Obra Poética - 1923-1985 - B. Aires, 1989

O outro tigre
Penso em um tigre. A penumbra exalta
a vasta Biblioteca laboriosa
e parece afastar as prateleiras;
forte, inocente, ensanguentado e jovem
ele irá por sua selva, e sua manhã,
marcando seu rastro na lamacenta
margem de um rio cujo nome ignora
(Em seu mundo não existem nomes, nem passado, nem porvir
somente o instante exato.)
E vencerá as bárbaras distâncias
e farejará na renda labiríntica
dos aromas, o aroma do veado.
Por entre as raias do bambú, decifro
suas rais e pressinto a ossatura que vibra
sob a pele esplêndida.
Em vão se interpõem os convexos
mares e os desertos do planeta;
desta casa, de um porto da América do Sul, te sigo e sonho
ó tigre das margens do Ganges.
Cresce a tarde na minh'alma e reflito
que o tigre evocativo do meu verso
é um tigre de símbolos e sonhos,
uma série de tropos literários
e de memórias de enciclopédia
e que o tigre fatal, azíaga jóia, que,
sob o sol ou a diversa lua,
vai cumprindo em Sumatra ou Bengala
sua rotina de amor, de ócio e de morte.
Ao tigre dos símbolos, opus
o real, o que tem sangue quente,
o que dizima a manada dos búfalos
e hoje, 3 de agosto de 1959,
estende sobre a planície uma pausa
da sombra, mas já o fato de nomeá-lo
e de conjecturar sua circunstância,
o faz ficção artística e não criatura
viva das que andam pela terra.
Um terceiro tigre busquemos. Este
será como os outros uma forma de meu sonho,
um sistema de palavras humanas
e não o tigre vertebrado
que, mais além das mitologias,
pisa a terra. Bem sei, entretanto,
que algo me impõe esta aventura indefinida
insensata e antiga, e persevero
em buscar pelo tempo nesta tarde
o outro tigre, o que não está no verso.

16 de abril de 2010

SONHO DE AMOR

Mulher Ovahimba - Angola

O meu sonho
é uma madeixa dos teus cabelos
sufocada ao luar de uma noite
cansada de amor


O meu sonho
somos nós, tu e eu
no corcel da vida
à procura do sol


Falo do sonho, amor
do nosso sonho
em que brincamos com crianças não paridas
com esperanças sangrando desesperanças


O meu sonho
és tu, Minda-a-Mulata
sonhando com a vida e morrendo
em tempo de fome farta
e a guerra a acabar
(ou a reatar?)


O meu sonho
é sonho de mar
as ondas indo e vindo
do fim do Mundo
as aves a voar


Domingos Florentino (Angola)
in Raízes do Porvir

Texto retirado do Blog: http://nguimbangola.blogspot.com/

13 de abril de 2010

Blog da Semana - 03 - 2010

O novo blog da semana é brasileiro, um convite para uma boa e agradável descoberta... venha:


Chris Buzelli



Ubaíra



O vale verde
repousando em ondas
e ela sob o verde
pousando seu olhar no vale.
Cansaço profundo às vezes lhe dá.
Sobram tardes
falta coragem.



Perdeu o prumo,
o rumo, há horas...
Rouba-se horas há anos,
não vê?



E no pólo sul onde faz tanto frio
e no pólo sul onde faz tanta noite sem dia
nesta escuridão lhe falta ar.
Respira com a boca bem aberta
bem ávida de vida.



Martha

6 de abril de 2010

Blog da Semana - 02 - 2010

Esta semana o blogue é a Mulembeira. Blogue do poeta angolano Décio Bettencourt Mateus. Uma visita  a nao perder para quem é amante de boa poesia...
http://mulembeira.blogspot.com/

Décio Bettencourt Mateus


AS ONDAS DO NOSSO MAR



(À minha esposa, Eva Fraio).


Depois da salgadura
Das praias da ilha do nosso mel
N’algumas ondas do nosso mar
Um sopro de brisa a cantar
Um cântico afável
De amores e ondas de doçura!


Depois duma fúria d’enchente
A protestar rochas
E areias e conchas
No lago do nosso mar
Uma calmaria d’horizonte
A apascentar nossas águas a marejar!


E um bater d’ondas tranquilo
Na ilha do nosso Mussulo
A espumar amores pitorescos
Nas areias da praia
Das pedras da nossa baía
Um bater de cânticos românticos!


E serei os trajes do rei-sol majestoso
Nas ondas do teu mar
A navegar e arfar
Desejos e gozo
De estrelas-do-mar e luas
Nas ondas femininas das tuas águas!


Serei a doçura da salgadura
E bravura
Das ondas do nosso rio
Um murmúrio
D’amor a sussurrar
Coisas d’arco-íris nas ondulações do teu mar!


Décio Bettencourt Mateus
In Xé Candongueiro!


Luanda, 26 de Outubro de 2007.

5 de abril de 2010

PONTES PARA LUSOFALAR

O blogUE moçambicano do professor de sociologia Carlos Serra, lança a ideia da criaçao de um super blogue da lusofonia. Um blogue que seja um acontecimento real entre todos os falantes da língua portuguesa. A ideia de Carlos Serra vem expressa nas duas postagens que aqui incluímos. A ideia passa por um caminho que possa ser uma PONTE, um elo de ligaçao entre todos os povos lusófonos. Uma ideia que se voce quiser apadrinhar, solicito que visite o blogue:

***



(postagem de 5 de Abril):

De novo "ideia em marcha e pedido de ajuda"

Na sequência da postagem de ontem, posso desde já anunciar que colegas bloguistas do Brasil e de São Tomé se predispuseram a colaborar. Aguardo resultados para diligências feitas no tocante a Goa, Macau, Timor-Leste, Guiné-Bissau e Portugal.

Adenda às 13:33: estou a postar com extremas dificuldades.

Adenda 2 às 17:09: só há cerca de 15 minutos "regressou" a energia a parte do meu bairro.

Adenda 3 às 17:30: de Angola e Portugal já chegaram apoios.


(postagem de 4 de Abril):


Ideia em marcha e pedido de ajuda



Pouco a pouco, muito devagar, tento contactar blogueiros do mundo de língua portuguesa, do Brasil a Timor-Leste sem esquecer Goa, de Portugal a Moçambique, por forma a ensaiar a possibilidade de um blogue conjunto. O que acham da ideia? Quereis colaborar? Podeis fornecer-me endereços de blogues de todo esse mundo com autores identificados, portanto não anónimos? Muito obrigado.

Adenda: estarão o Elísio Leonardo, o Ricardo e o Adérito Magumane dispostos a ajudar em termos de hospedeiro e template?

Adenda 2 às 11:32: talvez Macau devesse também ser incluído, tentarei contactos com blogueiros de lá.
 
 
Incluo também uma das respostas/comentário dada por Carlos serra:
 
Carlos Serra disse...

A minha ideia é, para já, muito simples: um blogue textual escrito por blogueiros de países falantes de português, matriz temática a encontrar, template sóbrio e uma gestão administrativa eficiente. Algo cujo tema pudesse ser "Pontes em português". Vamos a ver o resultado dos contactos.

29 de março de 2010

Blog da Semana - 01 - 2010

A partir desta semana Cores & Palavras vai passar a indicar um blog por semana. Para abrir o acontecimento temos:


POESIA LILAZ-CARMIM

POESIA DE DINAH RAPHAELLUS DE COR LILÁS E CARMIM.


Bem vindos ao meu mundo de fantasia, poesia rosa, mar a crescer no beijo das Ondinas como que bailando no tule rendilhado das ondas ao entardecer. Poesia é uma forma de estar na vida, um desafio ao ser humano que através de palavras simples ou mais complexas, descreve o que sente... no entanto sem que ninguém ou muito poucos adivinhem o que lhe vai no mais profundo do seu âmago. É esta uma das muitas razoes porque amo a poesia. Ela faz parte da minha vida e sem ela nada sou. Entrem, não julguem, tentem entender o poeta se conseguirem!!! Bjo
Dinah



FADO

Ao longe... ouve-se um fado
Que gemendo num lamúrio
Condenado
Desce à Mouraria, atravessa Lisboa
Vestindo capa negra,
Viajando à toa
Amando a guitarra
Dedilhando a Madragoa
Segue cigano sem destino
Sempre com ar triste
No entanto ladino
A quem a todos e ninguém amava
Eis pois o retrato
Do fado errante
Que um dia me bateu à porta
Noite dentro, hora morta
Todo galante o safado
Abri-lhe a porta... entrou,
Para sempre...ficou,
O grande malvado?!!

Dinah Raphaellus (Portugal)

26 de março de 2010

JANAÍNA: A MINHA SOLIDARIEDADE

Solidariedade é o mínimo que podemos prestar aos nossos amigos quando algo como o que aconteceu com a Janaina, uma perda irreparável, veja: http://enredosetramas.blogspot.com/2010/03/nao-confio-mais-no-sedex.html



Jacinta Passos, poeta bahiana. Foto retirada http://giramundo-cirandeira.blogspot.com/

Eram livros de poesia da mae de Janaína, a poeta brasileira Jacinta Passos, edicoes originais e antigas que tinham um valor inestimável para sua filha e que se perderam por um mau servico prestado pelo sedex, correios do Brasil.
Estamos juntos Janaína!

 Acrescento o apelo feito no blog da Martha http://mariamuadie.blogspot.com/ :

A filha de Jacinta Passos, Janaína Amado, prepara a edição completa da obra dela, acompanhada de biografia e fortuna crítica, a ser publicada em breve pelas editoras da EDUFBA e Corrupio. Para concluir esse trabalho, Janaína enviou por sedex de Maceió para Salvador quatro livros originais escritos nas décadas de 1940 e 1950 pela poeta Jacinta Passos:

Nossos Poemas
Canção da Partida
Poemas Políticos
A Coluna

Então aconteceu uma coisa muito triste: os livros foram extraviados. Imaginam que perda lamentável?
Faço um apelo aqui: se alguém que ler esse post tiver um desses livros, por favor entre em contato com Janaína: http://enredosetramas.blogspot.com/





Canção do amor livre



Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.


Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.


Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.


Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.


Teu corpo.


Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.


Jacinta Passos (Brasil) 1914 - 1973

24 de março de 2010

NEGRA DA TERRA

Foto K. Luchansky




Negra de carapinha dura
Não estraga teus cabelos,
Me jura.
(Teta Landu*)


Minha negra brinca a gingar
Magia da kianda
Negra anda-que-anda
E ginga-que-ginga
Andar de negra é banga
Andar de negra é cântico do mar!


Minha negra ginga elegante
Nas curvas duma viola
Nas ondulações duma mbunda
Negra ginga e rola
E encanta gente
Ginga e rola a negra linda!


Ginga de negra é cântico do mundo
Não usa coisas de tissagem
Usa tranças de bailundo
A negra jovem
E ginga-que-ginga a dançar
Ginga nas ondas do mar!


Minha negra mulher cristalina
Não usa coisas de postiços
Usa carapinha
E tranças de linha
E tem magia de feitiços
A preta africana!


Minha negra beleza genuína
Ginga-que-ginga
Dança-que-dança a preta angolana
Minha negra mulher da terra
Mulher negra
Penteado à africana!


Minha negra mulher formosa, mulher cheia
Mbunda farta
Não conhece cabeleireira alheia
Usa carapinha de preta
E traz na voz a tradição negra
Traz na voz o pulsar da terra!


Décio Bettencourt Mateus (Angola)
in Xé Candongueiro!


*Teta Landu: músico angolano.

Créditos: http://mulembeira.blogspot.com/

15 de março de 2010

DEBITAS-ME SILÊNCIOS…

 Á entrada de Mbanza Kongo (foto Alex. Correia)


Debitas-me silêncios
E reticências…
Quando na dureza da voz macia
Dos teus lábios
Ornamentas flores e lavras
No silêncio das tuas palavras!


Debitas renúncias
E crucificas-me as mazelas:
Teu olhar fala-me paisagens
Rosas e margens
A brincarem às estrelas
Quando finges silêncios e reticências…


E na dureza da ausência
Um sopro distante
Angustiante
Um silêncio de melancolia
Na voz da noite do luar
Uma eternidade nos dias a folhear!


Debitas-me silêncios
E açoites de negativas
Em palavras altivas
À noite murmuras balbucios
Ao frio d’almofada
E lamurias nossa paixão crucificada!


Asseveras-me a justiça
A transbordar motivos mil
Flechas e açoites
No mistério do frio das noites;
Uma taça
E champanhe: a noite convida-nos dócil!


Décio Bettencourt Mateus (Angola)
in "Xé Candongueiro".

O TANGO TAMBÉM SE DANCA NO AR...

10 de março de 2010

MEU CORPO UM LIVRO

Este poema encontra-se publicado neste livro e no blogue da poeta http://poesialilazcarmim.blogspot.com/  


Antologia de vários autores - Lugar da Palavra

Meu corpo um livro de poesia,
Onde tu lês os poemas
Declamados em silêncio
Por minha pele.
Teu corpo uma epopeia,
Onde minha boca se sacia
Ao resgatar estrofes,
Com sabor a mel.
E na beleza da métrica perfeita
Nossos corpos bailando
Ao som das rimas
Cristalina e poética,
Exalando odores dourados
De primaveras outonais.
Numa lírica rica e fluída.
Onde tu barco eu ondina,
Nos amamos pelos caudais dos rios...
Quiçá sonhos astrais


Dinah Raphaellus, in A Traição de Psiquê

2 de março de 2010

O SUL

Lagoa do Arco - Tombwa

O sol o sul o sal

As mãos de alguém ao sol
O sal do sul ao sol
O sol em mãos de sul
E mãos de sal ao sol


O sal do sul em mãos de sol
E mãos de sul ao sol
Um sol de sal ao sul
O sol ao sul
O sal ao sol
O sal o sol
E mãos de sul sem sol nem sal


Para quando enfim amor
No sul ao sol
Uma mão cheia de sal?


Ruy Duarte de Carvalho (Angola)

24 de fevereiro de 2010

SOLIDARIEDADE COM A MADEIRA

Solidário com o povo da Madeira e com as vítimas e perdas humanas. Mas por favor que não se transmitam mais imagens sobre a tragédia. A Madeira, como destino turístico e que tem nessa actividade uma das grandes fontes de receita, precisa, mais do que nunca ser divulgada pela sua beleza.
Pois que assim seja:


Madeira

Madeira

Curral das Freiras - Madeira

Madeira

Ribeira Brava - Madeira

Porto Moniz - Madeira

Cabo Girao - Madeira

11 de fevereiro de 2010

PELA LIBERDADE... SEMPRE!





11 de fevereiro de 1990


If you want to make peace with your enemy, you have to work with your enemy. Then he becomes your partner.



Let freedom reign. The sun never set on so glorious a human achievement.

I detest racialism, because I regard it as a barbaric thing, whether it comes from a black man or a white man.


NELSON MANDELA








LINKS:

Nelson Mandela Foundation:
http://www.nelsonmandela.org/index.php

IBEJI



Esta postagem foi retirada, com devida permissão, do blogue: http://enredosetramas.blogspot.com/

 Ibeji - Foto avmobley
Ibeji*



Num rumorejo alegre
as moças cuidadoras
aveludaram a senhora



arrumaram seus cabelos
escolheram seu vestido
e pintaram suas unhas
cor de rosa.



Foi assim adocicada
que a mulher sentou-se
frente ao bolo perolado
entre firme e desvanecido
em cascatas de açúcar.



As velas pulsando 80
e o batuque vigoroso dos corações
bordeando a mesa
atordoaram a menina.



Os mais atentos viram,
apesar da inexatidão dessa hora,
quando ibeji ventou sorrindo
roubando doces da mesa
e fazendo brotar dos olhos dela
a nascente de um rio.

Martha Galrão (Brasil)


*Ibeji - é uma divindade ioruba, sempre representada por gêmeos, presente nos rituais brasileiros do candomblé; às vezes aparece como crianças. Simboliza os opostos que se complementam, a dualidade que caminha junta.


Conheci os poemas de Martha Galrão no seu blog, Maria Muadiê. Fiquei cativa dos seus poemas de forte influência afro-baiana, das misturas de temas abstratos com assuntos cotidianos, e das surpresas que sua sensibilidade de mulher nos apronta. “Ibeji” reúne isso tudo, além de me remeter, com ou sem razão — afinal, quem domina as próprias associações? —, ao conto “Feliz Aniversário”, de Clarice Lispector. Uma amostra da poesia sensível e contemporânea desta poeta baiana.

Enrredos e Tramas de Janaina Amado (Brasil)

 

POEMA DE MOACY CIRNE


Não conheço Luanda
mas conheço a fibra
daqueles que a amam.

Não conheço Luanda
mas conheço a bravura
daqueles que a vivem.

Não conheço Luanda
mas conheço a lida
daqueles que a sonham.

Não conheço Luanda
mas conheço a garra
daqueles que a revivem.

Não conheço Luanda.
Mas conheço Luanda.

(Moacy Cirne, 2010) - Brasil

9 de fevereiro de 2010

QUERO SER TAMBOR





Quero Ser Tambor

Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.


Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.


Nem nada!


Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.
Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.


Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!


José Craveirinha (Moçambique)

2 de fevereiro de 2010

O JULGAMENTO

Uma maré de leis
Adormecidas em papéis
Uma severidade de martelo
Martela a sala
E o réu treme o cabelo
E se cala!




A toca do Juiz ajuiza
Uma sentença
De laboratório
O réu suspira um murmúrio
De esperança
E o Juiz ajuiza a causa!




Meritíssimo, o réu é inocente
Bradará a voz do céu
Na voz da gente
Da defesa do réu
E o Juiz ajuiza soberano
Montado no trono!




Meritíssimo, elevados
E importantes serviços prestou à nação
O réu. Rogamos absolvição
Bradarão advogados
O martelo da justiça martela
E a sala se cala:




Conduzam o réu à cadeia!
Sentenciará uma (in)justiça
De sentença
A multidão das gentes
Em surdina protesta e vaia:
Inocente, inocente, inocente…




O martelo da (in)justiça pavoneia
E (re)sentencia
Insistente:
Conduzam o réu à cadeia!
Inocente, inocente, inocente…
Clamará a surdina de enfurecida gente


Luanda, 26 de setembro de 2007.

Décio Bettencourt Mateus (Angola)


in "Xé Candongueiro" (cerimónia de lançamento efectuada em Luanda a 21 de Janeiro 2010)

http://mulembeira.blogspot.com/

27 de dezembro de 2009

UMA LÍNGUA MORRE A CADA 14 DIAS

Com a devida permissao esta postagem foi retirada do blogue mocambicano, "Diário de um Sociólogo" http://oficinadesociologia.blogspot.com/ visite!
 



Uma língua morre em cada 14 dias. Em 2100, terá desaparecido mais de metade das sete mil línguas faladas no planeta.
Confira http://www.nationalgeographic.com/mission/enduringvoices/. Clique com o lado esquerdo do rato sobre a imagem para a ampliar. Obrigado ao Ricardo, meu correspondente em Paris, por me ter alertado para o fenómeno.


Meus agradecimentos a Carlos Serra, autor do blogue citado!

26 de dezembro de 2009

O MINDERICO -

 Li no blog Diário de um Sociólogo (http://oficinadesociologia.blogspot.com/ ) que uma língua morre a cada 14 dias. Lembrei-me  de pesquisar na nossa língua e no espaco que ela abarca, encontrei o Minderico, em Portugal.



Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


O Minderico ou Piação dos Charales do Ninhou é a variante linguística falado em Minde desde o século XVIII. Inicialmente esta variante funcionava como código entre os habitantes de Minde, para negociações. O povo minderico é por natureza um povo negociante.
Fruto de uma comunidade fechada, localizada num vale, entre as duas serras (a d'Aire e a dos Candeeiros), o minderico, incialmente enquanto língua secreta, era semelhante a variantes que encontramos noutros grupos e comunidades étnicas específicas espalhadas pelo mundo que usam "termos e expressões de defesa", isto é, palavras e expressões que permitem aos membros dessa comunidade falar entre si sem darem a conhecer o significado dessa comunicação a outros. Porém, o minderico ultrapassou as barreiras do secretismo e alargou-se não só as todos os grupos sociais da comunidade minderica como passou a ser usado em todos os contextos sociais (não só para o negócio). Esta evolução - de língua secreta a língua do quotidiano - não é exclusiva do minderico, tendo-se registado já noutras comunidades em diferentes partes do mundo.
Em muitos dos lexemas mindericos é notória a sua origem em imagens do quotidiano, que passam de forma figurativa para a linguagem, mas também, embora em menor quantidade, através de alterações do português vernáculo, não esquecendo também os desenvolvimentos propriamente mindericos. Nomes de pessoas da terra deram origem a expressões que designam profissões ou atributos humanos. O minderico é ainda hoje conhecido pela maioria da população adulta, embora por influência da alteração dos costumes, haja uma acentuada tendência para o seu desuso e esquecimento entre os mais jovens.
Existem várias edições de Dicionários de Minderico, onde se encontram as palavras traduzidas de português para minderico e minderico para português. Estes dicionários estão disponíveis no Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro.

Medidas de Defesa

Actualmente o minderico está a ser alvo de alguns projectos como forma de revitalização, de forma a que não caia no esquecimento. Como exemplo temos:
Aulas de minderico no Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro para as várias faixas etárias.
Actualização do dicionário já existente.
Utilização do minderico em festas, celebrações de Minde e nos meios de comunicação social.
Tradução das placas toponímicas de Minde, das ementas dos restaurantes e das tabelas dos cafés.
Projecto de documentação, sediado na Universidade de Regensburg e inserido no Programa de Documentação de Línguas Ameaçadas,com o apoio financeiro da Fundação Volkswagen.
Criação de suporte virtual que permita a aprendizagem do minderico por qualquer pessoa

Palavras em Minderico


abobrar - descansar;
alexandrinas - fotografias;
ambrosiar - pensar, cismar;
albertinas - bolachas;
babosas - cervejas;
badelo - língua;
bodelha - mentira;
borboleta - luz;
brancano – leite;
bruxo - computador;
Casal Médio - Santarém;
cabaneira - vaca;
campinos - melões;
carranchano - amigo;
fusca - noite;
gargantear – cantar;
jordar – fazer, gastar, despejar, desperdiçar;
latina - missa;
Casal Grande - Lisboa;
mioleira – testa;
mirantar – ver, observar;
Ninhou - Minde;
nazaré - banho;
neto - dinheiro;
paivante - cigarro;
patarraz da ladina - genro;
perneiras - peúgas;
piação - conversa;
pirota - motorizada;
quadrazal - mês;
remexido - negócio;
renhomnhom - gaita de foles ;
rinchão - comboio;
rodilha - sogra;
ronquinho - surdo;
senhor antónio - marido atraiçoado pela esposa, corno;
sesta - semana
soletra - livro;
tarrantar - dormir;
tece-tece - Internet;
terraizinho - criança;
terraizinho judaico - Menino Jesus;
tosadeira - boca;
toupeira do ferreiro - charrua;
videira - mãe;
videiro - pai;
vista-baixa - porco;
zé pedro – bigode

18 de dezembro de 2009

O MEU AMO

O meu amo em fúrias
E falas de arrelias
Aportou mal-humorado ao palácio
Dos sonhos e silêncio
E num estrondo resoluto
Gritou ser amo e amante absoluto!


Trovejou fortes trovoadas
Arregaçou uma camisa
De costas corroídas de pobreza
E magreza
Trovejou às paredes de casa
E tempestuou páginas revoltadas!


Mostrou um peito desmusculado
Diluído em mágoas de álcool
E cansaços de sol
Um velho-peito-robusto
Desgastado e agastado
Em magras costelas de desgosto!


Gritou gestos abruptos
No vazio das panelas
Dos bolsos rotos
Gritou desespero às janelas
E resmungou um silêncio amuado
Um silêncio, o meu pobre amado!


Depois procurou meus mistérios
E o mansinho dos delírios
Conduziu-me a novos portos
Ressonou a nova aurora
Com ventos d’outrora
Ressonou um sonho de gemidos fartos!


Décio Bettencourt Mateus (Angola)
in Xé Candongueiro.
Luanda, 23 de Abril de 2007.

10 de dezembro de 2009

DO BLOG AS VIAGENS DE ALEX

Um olhar vago, outro tímido

A VELHA E A BEBÉ





[Texto e Foto: Alexandre Correia]

À beira da estrada, uns quilómetros mais abaixo de Sumbe, no mercado improsivado junto da ponte sobre o rio Quicombo, aquela velha que vendia bananas já amarelecidas despertou-me a atenção: estava ali, sentada no chão de terra, como se não houvesse mais ninguém por perto para além dela própria e da sua neta. O olhar vago, que não escondia tristeza, não explicava essa indiferença. Quando me aproximei e perguntei se as bananas eram boas para comer cruas, baixou os olhos e respondeu com um murmúrio tão baixinho que tive de ajoelhar-me também no chão para a conseguir escutar. Disse que não, que eram para cozinhar. A neta, assustada, já se tinha refugiado no colo da velha, escondendo a cara no ombro da avó. A bebé também não tinha um olhar feliz, mas não era triste como o da velha. Nem indiferente. Era apenas tímido, pois denunciou a sua curiosidade ao espreitar-me pelo canto do olho. Mas tal como a velha, quando os meus olhos se cruzaram com os da bebé, ela não resistiu e escondeu-se de novo, encaixando a cara entre o ombro e o pescoço da avó. Para logo a seguir voltar a espreitar sorrateiramente... Só largou a protecção do colo da velha quando eu me afastei. E então voltou a brincar sozinha no chão, enquanto a velha permanecia imóvel, com aquele olhar distante e triste, que eu nunca mais esqueci.

Alexandre Correia (Portugal)

7 de dezembro de 2009

VIRIATO DA CRUZ E O PODER DA POESIA


Se não estivesse morto (morri em Pequim a 13 de Junho de 1973) festejaria no próximo dia 25 de Março 81 anos. Há quem ache que Angola poderia ser hoje um país muito diferente se eu não tivesse morrido tão jovem, mesmo às portas da Revolução de Abril em Portugal, e das grandes mudanças que a mesma implicou para o meu país. Sinto-me lisonjeado com tais opiniões, mas acho-as exageradas. É verdade que um único homem pode em certas circunstâncias alterar a correnteza da História – basta pensar em Nelson Mandela, sem o qual o regime do apartheid talvez não se tivesse desmoronado de forma pacífica. Olhando para trás, porém, sou forçado a admitir que o mau génio que sempre me dominou teria arruinado nesse futuro imaginário, como arruinou no duro passado real, qualquer encontro meu com a Senhora História.




Não me parece provável que em 1974 tivesse conseguido unir os diferentes movimentos nacionalistas angolanos. Não eu, um dos primeiros militantes do MPLA que se atreveu a contestar a liderança de Agostinho Neto e ousou romper com o partido para se juntar aos homens de Holden Roberto. Isto antes de romper com todos, a murro e à cacetada, e ficar completamente só. Levei a minha propensão iconoclasta sempre muito a sério. Tão a sério que um dia, em Pequim, onde estava exilado, quebrei um busto de Mao em público. Os meus anfitriões chineses ao invés de me expulsarem, como eu pretendia, condenaram-me a uma espécie de prisão domiciliária, ao ostracismo mais feroz, à penúria. Morri e enterraram-me sem testemunhas no cemitério dos estrangeiros. Se tivesse resistido mais alguns meses poderia ter conseguido deixar Pequim e recomeçar uma vida nova em Paris ou em Lisboa, onde me aguardavam muitos amigos.



Cheguei sempre cedo demais. Nunca soube esperar. Até para morrer fui impaciente.



Resumindo: vivo não teria ajudado a evitar nem a guerra civil, nem o desastrado pesadelo totalitário que em poucos anos, sob o olhar perplexo do camarada Neto, arruinou Angola. Em contrapartida talvez me tivesse dedicado à poesia, aprofundando a meia dúzia de caminhos que sugeri em outros tantos versos ingénuos. É graças a esses versos que por excessiva indulgência da crítica, ou excessiva ignorância, muitos insistem em chamar-me poeta.



Nos anos 40 e 50 eu e mais alguns companheiros começámos a escrever poesia na intenção de despertar as massas. A poesia deveria servir, no nosso entender, para preparar o terreno para a insurreição nacionalista. E assim foi. Contrariando os cépticos, demonstrámos que a poesia pode mudar o mundo. Primeiro os versos, depois as balas. A seguir demos razão aos cínicos: mudar, mudámos, mas não para melhor. Acontece que, infelizmente os poemas que então produzimos estavam longe da excelência. Faltou-nos labor literário. Talvez com boa poesia pudéssemos ter obtido melhores resultados na política. Não deixei de acreditar no poder da poesia. Nem sequer na necessidade de levar a poesia ao poder. O problema (suspeito) foi a qualidade dessa poesia – e dos seus poetas. Não é possível cozinhar um bom funge com farinha ruim.



Se não tivesse morrido em 1973 estaria agora a confrontar-me – inclusive a murro e à cacetada, caso não me faltasse o fôlego, mas em todo o caso possuído pelo mesmo espírito iconoclasta – com todos quantos impedem a afirmação de um novo pensamento e de uma nova criatividade, capaz de iluminar consciências e de preparar terreno para outras insurreições, outras libertações. Vez por outra oiço alguém utilizar, a propósito do regime angolano, a expressão «pensamento totalitário», e rio-me às gargalhadas do alto da minha nuvem – eis aqui um belo oximoro. Não sei quanto tempo vai levar (o que no estado em que me encontro é indiferente) mas sei que mais tarde ou mais cedo a boa poesia acabará por se impor e triunfar.




Crónica publicada na edição nº 78 (Março) da LER. Ilustração de Pedro Vieira.



© publicado pela Ler às 11:32 aqui: http://ler.blogs.sapo.pt/338179.html