6 de abril de 2012

POEMA DE DAMBUDZO MARECHERA

Dambudzo Marechera, o enfant terrible da literatura africana. Comparado por muitos a James Joyce e Henry Miller.



Um farrapo de identidade

Quando é que esta lua se descasca dos meus poemas?!
Esta zona de penumbra que vai da escola inglesa
À minha voz de barata?
A formiga empoleirada no grão de areia
Pouco se apercebe do meu titânico dilema de artista
E só tem olhos para o pé que ergo.
A abelha na sua errância doce peganhenta, se me avista
Dispara uma tangente zumbindo o seu escárnio.
A madrugadora andorinha, no seu voo seco,
Mal dispensa um olhar instantâneo às minhas penas.
O varredor dá de ombros, atira o fardo concreto
Para o camião dos salários e dos preços em alta;
O aprendiz da fábrica fecha o macacão
E aguarda o Chamamento – sirene da fábrica;
O carteiro pedala a sua ronda; o soldado
Beija a namorada e corre a cumprir ordens.
Todos parecem conhecer seus eus
Mas eu como um louco insisto em decifrar
As marcas num farrapo de papel em branco
As marcas que vão ser o poema atrás deste poema.

Dambudzo Marechera (Zimbabwe) (1952-1987),
(Tradução: José Pinto de Sá)
Créditos: Associação Buala

23 de março de 2012

IDENTIDADE





Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

Mia Couto (Moçambique)

22 de março de 2012

RUY DUARTE DE CARVALHO - POEMA

 

A terra que te ofereço





I

quando,

ansiosa,

pela primeira vez

pisares

a terra que te ofereço,

estarei presente

para auscultar,

no ar,

a viração suave do encontro

da lua que transportas

com a sólida

e materna nudez do horizonte.



quando,

ansioso,

te vir a caminhar

no chão da minha oferta,

coloco,

brandamente,

em tuas mãos,

uma quinda de mel

colhido em tardes quentes

de irreversível

votação ao sul.



II

trago

para ti

em cada mão

aberta,

os frutos mais recentes

deste outono

que te ofereço verde:

o mês mais farto de óleos

e ternura avulsa.

e dou-te a mão

para que possas

ver,

mais confiante,

a vastidão

sonora

de uma aurora

elaborada em espera

e reflectida

na rápida torrente

que se mede em cor.



III

num mapa

desdobrado para ti,

eu marcarei

as rotas

que sei já

e quero dar-te:

o deslizar de um gesto,

a esteira fumegante

de um archote

aceso,

um tracejar

vermelho

de pés nus,

um corredor aberto

na savana,

um navegável mar de plasma

quente.



Ruy Duarte de Carvalho (Angola)

21 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA - 21/03/2012



Para além da Poesia


Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas dos embondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas


Poesia africana


Na estrada
A fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha de olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó-de –arrroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa


No céu o reflexo do fogo
e as silhuetas dos homens negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marinbas


Poesia africana


E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem das marinbas


os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.


Agostinho Neto (Angola)

5 de março de 2012

POEMA DE AIRES DE ALMEIDA SANTOS (ANGOLA)



Estória que o vento trouxe
ouves?
não ouves
o que o vento, lá fora,
está a contar
às buganvílias?
há mais de uma hora
que o estou a escutar.

ouviste
o que disse agora?
e que triste
que ele está...

diz ele
que o manuel
há quase dois dias
que anda no mar;
e a ximinha,
coitada,
desolada,
sentada
na praia
a chorar
e a rezar
e a esperar...

quando ele largou
no "bom dia"
o mar era um lago
e parecia
de azeite...
mas, depois
cresceu,
enraiveceu
numa calema tremenda
e toda a praia da tenda
tremeu.

partiram-se as armações,
viraram-se as embarcações
e toda a gente se escondeu,
assustada

só a ximinha,
coitada,
ficou sentada
na praia
a chorar
e a rezar
e a esperar...

hoje de manhã
já a calema amainara
e não se vira ainda
o "bom dia"
a entrar
pra fundear
na baía...

Aires de Almeida Santos (Angola)

14 de fevereiro de 2012

THE DRAKENSBERG BOYS CHOIR - SHOSHOLOZA




Shosholoza 
Kule ... Zontaba 
Stimela siphume South Africa 

Wen'uyabaleka 
Wen'uyabaleka 
Kule ... Zontaba 
Stimela siphume South Africa 

Shosholoza 
Kule ... Zontaba 
Stimela siphume South Africa 

Wen'uyabaleka 
Wen'uyabaleka 
Kule ... Zontaba 
Stimela siphume South Africa




8 de fevereiro de 2012

AMANHECER



Há um sussuro morno
sobre a terra;
degladiam-se
luz e trevas
pela posse do Universo;
sente-se a existência
a penetrar-nos nas veias
vinda lá de fora
através da janela;

cresce a alegria na alma
a Vida murmura-nos doces fantasias.

Tangem sinos na madrugada
vai nascer o sol.

Agostinho Neto (Angola)

29 de janeiro de 2012

SE HOUVESSE DEGRAUS NA TERRA...



Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã

Herberto Helder - Portugal

25 de janeiro de 2012

RAIN BY EDWARD THOMAS

Edward Thomas


Rain

Rain, midnight rain, nothing but the wild rain
On this bleak hut, and solitude, and me
Remembering again that I shall die
And neither hear the rain nor give it thanks
For washing me cleaner than I have been
Since I was born into this solitude.
Blessed are the dead that the rain rains upon:
But here I pray that none whom once I loved
Is dying to-night or lying still awake
Solitary, listening to the rain,
Either in pain or thus in sympathy
Helpless among the living and the dead,
Like a cold water among broken reeds,
Myriads of broken reeds all still and stiff,
Like me who have no love which this wild rain
Has not dissolved except the love of death,
If love it be towards what is perfect and
Cannot, the tempest tells me, disappoint.

Edward Thomas (Inglaterra)

24 de janeiro de 2012

RIMBAUD - Tête de Faune

Artur Rimbaud

Dans la feuillée, écrin vert taché d'or,
Dans la feuillée incertaine et fleurie
De splendides fleurs où le baiser dort,
Vif et crevant l'exquise broderie,

Un faune égaré montre ses deux yeux
Et mord les fleurs rouges de ses dents blanches.
Brunie et sanglante ainsi qu'un vin vieux,
Sa lévre éclate en rires sous les branches.

Et quand il a fui - tel qu'un écureuil, -
Son rire tremble encore à chaque feuille,
Et l'on voit épeuré par un bouvreuil
Le Baiser d'or du Bois, qui se recueille.


Arthur Rimbaud (1854-1891) France

12 de janeiro de 2012

GEORGES MOUSTAKI - LE METEQUE (O ESTRANGEIRO)





Avec ma gueule de métèque
De Juif errant, de pâtre grec
Et mes cheveux aux quatre vents


Avec mes yeux tout délavés
Qui me donnent l'air de rêver
Moi qui ne rêve plus souvent


Avec mes mains de maraudeur
De musicien et de rôdeur
Qui ont pillé tant de jardins


Avec ma bouche qui a bu
Qui a embrassé et mordu
Sans jamais assouvir sa faim


Avec ma gueule de métèque
De Juif errant, de pâtre grec
De voleur et de vagabond


Avec ma peau qui s'est frottée
Au soleil de tous les étés
Et tout ce qui portait jupon


Avec mon cœur qui a su faire
Souffrir autant qu'il a souffert
Sans pour cela faire d'histoires


Avec mon âme qui n'a plus
La moindre chance de salut
Pour éviter le purgatoire


Avec ma gueule de métèque
De Juif errant, de pâtre grec
Et mes cheveux aux quatre vents


Je viendrai, ma douce captive
Mon âme sœur, ma source vive
Je viendrai boire tes vingt ans


Et je serai prince de sang
Rêveur ou bien adolescent
Comme il te plaira de choisir


Et nous ferons de chaque jour
Toute une éternité d'amour
Que nous vivrons à en mourir


Et nous ferons de chaque jour
Toute une éternité d'amour
Que nous vivrons à en mourir

10 de janeiro de 2012

RETRATO - POEMA DE CECÍLIA MEIRELES








RETRATO


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha essas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha esse coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
-- em que espelho ficou perdida
a minha face?




Cecília  Meireles (Brasil)

POEMA DE ALDA LARA, NA VOZ DE PAULO DE CARVALHO




PRELÚDIO


Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guizos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...
Mãe-Negra não sabe nada...
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...
É que os meninos cresceram,
e esqueceram
as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram pra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.
É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada...


By Alda Lara (1930 - 1962) - Angola

1 de janeiro de 2012

AGOTINHO DA SILVA - A ESCOLA -



A Escola

Não podemos negar que a escola não deu aos seus alunos todas as possibilidades que lhes devia dar, desprezou os mal dotados, obrigou-os a actos ou tarefas que lhes depuseram na alma as primeiras sementes do despeito ou da revolta, lhes deu, pelo quase exclusivo cuidado que votou ao saber, deixando na sombra o que é o mais importante — formação do carácter e desenvolvimento da inteligência —, todas as condições para virem a ser o que são agora; se não saíram da escola com amor à escola, a culpa não é deles, mas da escola. Acresce ainda que, lançados na vida, a escola nunca mais procurou atraí-los, nunca mais foi ao encontro dos seus antigos alunos, para lhes aumentar a cultura, os informar e esclarecer sobre novas orientações de espírito, para lhes pedir a sua colaboração, o seu interesse na educação das gerações mais moças. Houve um corte de relações, quando a sua manutenção poderia ainda de algum modo apagar as más lembranças que os alunos levavam. Que admira que sintamos agora à nossa volta paixão e rancor? Tivemo-los nas nossas mãos e não fizemos por eles tudo quanto podíamos, mesmo com as possibilidades económicas e pedagógicas de que nos cercara o meio; em nós temos de reconhecer o principal defeito; por consequência, também em nós a principal causa do ataque.

Agostinho da Silva, in 'Glossas'

18 de dezembro de 2011

SODADE - CESÁRIA ÉVORA




SODADE!!!


Na BBC:


Singer Cesaria Evora dies at the age of 70

Cesaria EvoraCesaria Evora was discovered by a French music executive


Singer Cesaria Evora, dubbed the "Barefoot Diva" for often performing without shoes, has died in her native Cape Verde at the age of 70.
The musican, forced to retire earlier this year due to ill-health, began her career singing in the bars of Mindelo in the West African island nation.
Evora did not begin her recording career until 1988, and won a Grammy Award in 2004 for her album Voz D'Amor.
She was famed for singing songs of longing with her rich contralto vocals.
Her sultry voice was often compared to blues star Billie Holliday
Her fourth album, Miss Perfumado, was her breakthrough hit in 1992. It sold more than 300,000 copies worldwide, and resulted in a number of tours. She released 10 albums in all.
Evora had a penchant for alcohol and cigarettes, and in later life her health began to decline. She suffered a stroke while on tour in Australia in 2008 and later underwent open heart surgery.

"I infinitely regret having to stop because of illness, I would have wanted to give more pleasure to those who have followed me for so long."
In September, she spoke of her sadness at having to retire, saying: "I have no strength, no energy. I want you to say to my fans: forgive me, but now I need to rest.
Evora was considered one of the world's greatest exponents of Morna, a form of blues considered the national music of the Cape Verde islands, a former Portuguese colony which gained independence in 1975.
The music is a testament to the country's history, including the slave trade and its physical remoteness in the Atlantic Ocean, hundreds of kilometres off Africa's west coast.
Two days of national mourning has been declared in the small island nation, with President Jorge Carlos Fonseca calling her "one of the major cultural references of Cape Verde".
Prime Minister Jose Maria Neves paid tribute to her "invaluable contribution to the greatness of our nation and our pride".





7 de dezembro de 2011

ESPECIAL LITERATURA - UANHENGA XITU


«O escritor que é a Voz do Povo»
Fonte: Carlos Gonçalves - AD

Especial Literatura. Uanhenga Xitu nasceu Agostinho André Mendes de Carvalho em Calomboloca, Icolo e Bengo, a 29 de Agosto de 1924. Em 1959 foi preso no quadro do chamado “Processo dos 50” e enviado para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde permaneceu de 1962 a 1974.

Por força da sua actividade política, este Enfermeiro de profissão, que estudou mais tarde Ciências Políticas, foi Governador de Luanda, Ministro da Saúde, Embaixador na Alemanha e Deputado à Assembleia Nacional, onde se mantém na actualidade.


Foi na cadeia, por influência de amigos, com os também escritores e poetas António Jacinto e António Cardoso, que Mendes de Carvalho começa a escrever e cria alguns dos mais emblemáticos personagens da história da nossa Literatura, como Kahitu e Mestre Tamoda.


Dessa época lamenta a perda de textos importantes:
- «Eu e os meus companheiros, pela vigilância apertada e brutalidade dos guardas e de outras entidades prisionais, vimos confiscados, além da correspondência familiar e documentos, trabalhos literários de grande valor que nunca mais recuperámos»


Mendes de Carvalho falou perante uma plateia emprenhada de juventude na União dos Escritores Angolanos (UEA), cinco dias antes de completar 81 anos de vida, ladeado por dois grandes amigos e companheiros de longa data: Pepetela e Ndunduma. Na mesa também se encontrava o Secretário-Geral da UEA Botelho de Vasconcelos.


Uanhenga Xitu tem publicado: Meu Discurso (1974); Mestre Tamoda (1974); Bola com Feitiço (1974); Manana (1974); Vozes na Sanzala-Kahitu (1976); Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem (1980); Os Discursos de Mestre Tamoda (1984); O Ministro (1989); Cultos Especiais (1997); Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem (reedição 2002); O Ministro (reedição 2005).


‘Os Discursos de Mestre Tamoda’ será a sua obra mais referenciada e com mais edições a par de ‘O Ministro’. O crítico literário Luís Kandjimbo escreveu na sua ‘Breve História da ficção narrativa Angolana’ nos últimos 50 anos que:
- «Tamoda, simbolizando o mimetismo cabotino, é uma personagem típica do mundo que, através da exibição de maneirismos, expõe hilariantemente o uso da língua portuguesa perante uma audiência de jovens e crianças, transformando-se em modelo, no que diz respeito ao emprego e manipulação de vocabulários portugueses (...).»
Na qualidade de escritor com envolvimento directo na actividade politica, pois é deputado à Assembleia Nacional, na sua bibliografia destacam-se ‘O Ministro’ e ‘Cultos Especiais’, duas obras consagradas à crítica social, ao culto da personalidade e a outros comportamentos dos políticos.


Sobre isso, U. Xitu contou uma história que envolveu o livro ‘O Ministro’:
«É uma obra que custou a sair, porque alguns Ministros insultaram-me, porque chamei-lhes gatunos, ‘camanguistas’ e foram queixar-se até ao Agostinho Neto. Um dia ele chamou-me. Parece que foi lá no Bureau Político que eles disseram que eu estava a perturbá-los. “Mas como é que os Senhores sabem que é convosco?”, perguntou Agostinho. Neto. Mandou-me chamar e conversámos:
- Isso é um poema, pode não estar de acordo com algumas pessoas, mas é um poema.
– Então como é que estás a escrever?
- Estou a escrever. Também quero ser poeta, mas ainda não sou.
- Mas está a começar assim já a matar, a queimar…
- Não. Isso é uma forma de ser. Não mata nem queima ninguém. É o que se passa, é o que se vê, é o que se nota. Então o que é que os poetas fazem? Vê uma cobra, uma abelha e começa a fazer conjecturas, relacionamento…
Pediu o livro, leu, leu e disse.
- Está bem, mas por enquanto é melhor ainda escrever coisas que não prestam.


E a polémica perdura. Recriando a criação, confundindo-se com a realidade e às vezes a realidade imita a ficção. Será poeta de kimbundo aquele que escreve em kimbundo? Uanhenga Xitu diz que não.
-«Independentemente de ser kimbundo e de o falar bem, até já experimentei na cadeia escrever em kimbundo, mas habituado ao português, quando li achei que não estava bom e rasguei.
Eu posso ser um poeta de kikongo, posso escrever em kikongo, depende da intenção que eu tenha. Posso ser um poeta de umbundo, muhila.
Eu escolhi esta por mero acaso. Como pode ver, algumas das palavras que aí estão, como mabalababa, kingalo, mingalo, milonga, estão lá por acaso, não houve nenhuma intenção.
Só não queria escrever esse “pueta” (poeta), com os “us” que terminam em kimbundo, que são sempre abertos. Raramente encontra escritos com “ó”, porque já estamos a aportuguesar, mas no kimbundo que eu aprendi, as terminações são sempre com “u” e pensei, se fechasse o “poeta”, era essa a minha intenção, ficaria “pueta”. Se fosse ‘poeta’ com “o”, eu não seria diferente dos outros, por isso eu queria ser ‘poeta’ com “u”.»


Outra das grandes curiosidades que suscita é a origem do seu nome, revelada apenas aos poucos que privam com ele. Diz que Uanhenga Xitu significa “o poder odiado”.
- «Isto posto em palavras simples, Uanhenga é pendurar a carne no pescoço (o transportar da caça por dois carregadores, a peça amarrada num pau sobre o ombro de dois caçadores). Xitu é precisamente carne. Na sanzala diz-se: “uanhega xitu ku mu nja u mundo”, o que significa “ele levou a carne e passa pela cidade fora, ninguém gosta deste homem, porque ele vai comer sozinho”. Isso generalizou-se entre quase todos os sentidos da vida.


O Agostinho Neto dizia que até na casa de banho os gajos espreitavam se eu estivesse lá. “Ka n’bambe ku muxima ka kuata mbambi”, é o kambrintiti, um pássaro muito pequeno que vai muito longe, mas vai cheio de medo. Significa que o homem que tem o poder, está sempre cheio de medo, se tem dinheiro está cheio de medo, se tem o poder militar está cheio de medo.
O meu nome foi-me dado pelo falecido Uanhenga Xitu Messene Kaíma. De facto, só muito mais tarde é que comecei a compreender a razão do nome. Nós temos que ter sempre guarda-costas. Não sei como é que vamos ficar um dia que nos tirem o lugar.»


Uma preocupação grande para os angolanos é o seguimento do político. Para os leitores apaixonados é a sucessão literária. Será que essa sucessão pode ocorrer dentro do seu seio familiar? Dos seus onze filhos adultos (Luísa, Divua, Tilu, Margarida, Miguel, Adriano, Tino, Pakas, Miau, Ana Bela e Babaia), não se vislumbra por enquanto essa tendência, ao contrário de Uanhenga Xitu que seguiu as pegadas dentro do seio familiar. Ele conta que os seus antepassados, apesar de analfabetos, eram grandes políticos
- «Quatro irmãos do meu pai foram desterrados para S. Tomé na ‘maka’ de 1922. A grande revolta de Catete passou-se num grande embondeiro do meu pai. Vieram gentes de todas as sanzalas que queriam matar o José Bernardo.
Para Forte Ruçada foram uns dez tios. Foi o pai do Wadijimbi (Miguel de Carvalho, actual Vice-ministro da Comunicação Social) e o embondeiro foi cavado até a raíz se tornar pó. Havia ali uma grande sombra que servia de tribuna e, em 1922, passa o Zé Bernardo de Calomboloca até Cassoneca, e no regresso ninguém quer mais trabalhar o algodão e começa uma confusão, unas até a querer degolar o homem já ali.


Portanto, políticos eram uma data deles, mas tenho uns filhos que só respondem à política, não são políticos, têm medo. Viram o pai passar quase 12 anos na cadeia, parece que ficaram com um medo terrível. Às vezes quero sacudi-los e não consigo.
Se tenho poetas na família? Os avós do Wadijimbi são grandes cantores. A minha tia Margarida era quase a Amália Rodrigues. Infelizmente não gravei nada. Às vezes cometemos cada erro…mas existiam muitos poetas que declamavam (em forma de jogral).
Os caçadores conhecem a retórica e vão em parada e resposta. Quando falo em analfabetos, quero dizer que são analfabetos em português, mas são catedráticos na sua língua natal.


Hoje estamos a precisar deles. Quero dizer que quem está mudo hoje somos nós. Agora o Governo pede-nos para aprender a língua nacional... onde?! Portanto, eram analfabetos em português porque não sabiam o alfabeto, mas eram kimbanguistas, juízes, cabocos (que eram os grandes oradores), sobretudo para os casamentos, alembamentos, funerais e pedidos de casamento.Hoje, os únicos que ainda mantêm essa tradição, são os kikongos ou bakongos.»
Uanhenga Xitu, nascido Agostinho André Mendes de Carvalho, uma das mais importantes bibliotecas e fontes de sabedoria tradicional angolana viva, falante e andante, destapa para nós alguns dos aspectos mais importantes da sua obra literária, da sua vivência e história pessoal.