5 de março de 2013

DOCE FALAR DE MACAU


Ruínas de São Paulo em Macau, China (Foto: Pedro Coimbra)

Sinceramente, não compreendo porque é que se adotou o horrível galicismo "patoá" para designar o idioma crioulo de base portuguesa que é falado em Macau por membros da comunidade macaense.

No seu blog Caderno do Oriente, Maria Janeiro escreveu o seguinte a respeito deste modo único de falar:

O “dóci papiá de Macau” ou “dóci língu di Macau” é, provavelmente, originário de Malaca, do “papia kristang”; leio, num trabalho da Universidade de Hong Kong – «Languages in Contact: Creole morphology» - que, quando da conquista de Malaca pelos holandeses (em 1641) ocorreu a migração de população de Malaca para Macau, essa população – já cruzamento de português com malaio e indiano – terá trazido a sua língua, o papia kristang de Malaca. Mais tarde, no século XVIII, a juntar a esta população, mistura de portugueses, chineses, indianos e malaios, vieram os cristãos do Japão e das Filipinas. Foi nas primeiras décadas do século XX, e com a imposição do português como língua oficial, que a “dóci língu di Macau antigo” começou a perder importância.

Existem várias instituições culturais em Macau que têm por finalidade proteger este falar crioulo e incentivar o seu uso. De entre estas instiuições, avulta o grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau, que se pode ver no vídeo que se segue.



Macau Sâm Assi (Macau É Assim), por Dóci Papiaçám di Macau


Retirado na íntegra do blog: http://amateriadotempo.blogspot.co.uk/ 

GAL COSTA & MARIA BETHANIA

Para mim, duas das grandes vozes femininas do Brasil, a outra era Ellis Regina....


9 de fevereiro de 2013

MUSEU DA ESCRAVATURA


Museu da Escravatura - Luanda

Na tristeza do meu kissange
o lamento do pensamento
das gentes
que partiram p’ra longe
que partiram p’ra outros horizontes
em cânticos de desencanto.

Nas tuas ondas cansadas
oiço passos antigamente
passos escravos
acorrentados cativos
em liberdade de correntes
passos escravos no lamento tuas ondas.

No longe tua superfície ondulada
cheiro a navios negreiros
dos homens acorrentados
maltratados
na tua superfície azulada
a fumaça dos navios guerreiros:

Ó museu da escravatura
fala-me a história
enterrada na memória dos dias
fala-me os negros escravizados
vendidos
nas noites sofridas de brancura.

Fala-me os rostos transpirados
desgastados
nos homens valentes
arrastados prisioneiros
em navios negreiros
em navios nos aléns fumegantes.

Ó museu da escravatura
impávido viste meus irmãos
fazerem travessia do infinito
em inferno de porões
fala-me esta angústia no peito
esta angústia loucura.

Ó museu da escravatura
ainda sinto no pulsar tuas águas
dor das mágoas
dos meus antepassados
maltratados acorrentados
ainda doem os ossos nas noites de torturas.

Ó museu ingrato fala-me o ranger de dentes
Nos navios perdidos nos horizontes!

Décio Bettencourt Mateus (Angola)
in Gente de Mulher




5 de fevereiro de 2013

A CHUVA DE MARIA



A Chuva de Maria, livro de poemas da minha amiga Martha, abre com este poema:




I
Queria ser só
o que de vento se veste:  
poeira, grão, semente, algodão

queria ser só o que flutua:
pena, flauta, balão.

No dia ser borboleta
na noite ser mariposa
só delicadeza eu seria:
vaga-lume, orvalho, seixo, lágrima, canção.

Mas também sou tudo
que padece:
pedra, amargura, solidão

mas também sou tudo
que afunda: pedra, cadáver, escuridão

Martha Galrão,(Brasil)
in A Chuva de Maria
Editora Kalango
ISBN 978-85-89526-40-1

23 de janeiro de 2013

A FILOSOFIA...



 



"Filosofia é provocação e dúvida: jamais certeza e ensino. Platão se perdeu quando fundou a Academia. Virou dono da verdade e aprendiz de tirano."

AGOSTINHO DA SILVA (Portugal)

29 de julho de 2012

OLHOS MÍSTICOS

Místicos olhos percorrem
as ladeiras encrustadas
de limbos na minha alma.
São pérolas negras, veias, sedas
aveludadas de escarlate carmim.
E nos rosários de cordas formam-se
nós excêntricas obras,
talismãs de marfim, onde
as feras despidas de modas
amordaçam meu corpo,
a terra em trovas e resgatam
meu estro por fim.


Dinah Raphaellus (Portugal)

http://poesialilazcarmim.blogspot.co.uk/

28 de julho de 2012

Alucinação

 
 
 
choram os murilaondes

o sangue dos homens

vertido inutilmente…

a língua bifurcada

dos iniciados

é tocada

com o dente da serpente

e os tambores gemem

na profundeza verde-escura

da selva

a palavra maldita:

- cálua, cálua, cálua!!!

a lua,

mutunga brilhante

no olundongo

entoado pelas nuvens,

semeia sombras confusas

de comedores-de-almas

espalhando-se pela terra…

dos eumbos

elevam-se gritos de dor…

no mato,

as hienas dançam

ao som ritual

das mbulumbumbas

e os seus olhos

chispando fogo

são corações humanos

transformados em brasas…

(a floresta retorce-se toda

num esgar de sofrimento)

e, de longe,

no ribombar dos trovões,

os tambores gargalhantes

dos ngngas…

nos eumbos,

a seiva vermelha

alucinada

banha os olhos dos homens…

… o irmão mata o seu irmão!...



Jorge Arrimar (Angola)

4 de julho de 2012

Poema de Graça Magalhães

Flor do cajueiro



6.
 
Do lugar onde nasci
crescem flores de caju
prometem-se aos olhos
a caligrafia das paisagens
o movimento dos rios
a simples constelação das flores
em torno dos caules

São como traços de rubi os animais
satélites gráficos voadores
sobre ramos genuflexos
iluminando as noites mal fechadas

eu era pequena
trouxe a memória ocre das falésias
um rapaz ostra dentro do peito
as rosas de açafrão despindo as saias

Graça Magalhães, in A Geografia do Tempo, Palimage ed. (
Portugal)
 

12 de junho de 2012

ABANDONO

Poema de David Mourao-Ferreira, na voz de Amália Rodrigues. O poema fala do tempo em Portugal em que a liberdade de  pensamento e opiniao eram CRIME.







5 de junho de 2012

GENTE DE MULHER

Brevemente nas bancas, o mais recente livro do poeta angolano, Décio Bettencourt Mateus.






MEU POEMA ACORDA DORIDO!

                                                           À memória de Luzia Bettencourt M.,
                                                           minha mãe.

Manhã virgem manhã cedo
meu poema acorda dorido
manhãs frias
vai à igreja vai à missa
em pernas de pressa:
ó Senhor pão às minhas crias.

Meu poema sofre a madrugada
a espreitar a aurora
acarreta água ensonada
enche bidão enche tamborão
de olho na torneira
música sofrida no coração.

Dorme insónias na noite escura
acorda constrangido a praça
a vender gelados
compra esperança
recebe troco ternura
bem diz os kwanzas bem diz trocados.

Caminha um sol abrasador
preocupação no rosto
meu poema tem dor
a rusga a falar serviço militar
a rusga: kwata-kwata miúdos a passear
kwata-kwata miúdos, oh desgosto!

Meu poema desperta alvorecer
lava roupa amontoada no tanque
rebenta mãos de sofrer
vende gelo no Roque
e sofre filho fugidio emigrado
filho mwangolé exilado.

Meu poema dorme cansado
é pai mãe marido mulher...
cuida os miúdos
atende o marido
dorme dorido prazer
dorrme dorido sonho de trocados.

Meu poema dobra joelhos em manhãs frias:
ó Senhor pão às minhas crias!

Décio Bettencourt Mateus
in Gente de Mulher

Luanda, 10 de Agosto de 2006.

28 de maio de 2012

ARETHA FRANKLIN

Hoje, ninguém canta assim, com Alma e, sobretudo com VOZ. Aliás nao é preciso voz, a tecnologia arranja-te  uma boa, para teres sucesso no mundo musical, basta que tenhas "good lookings", um palminho de boa cara, vende discos que só visto... Como este Mundo mudou...





22 de maio de 2012

QUEDAS DE KALANDULA - ANGOLA

As Quedas de Kalandula, localizam-se na província de Malanje no rio Lucala, afluente do Kwanza. Distam cerca de 80 Km da cidade de Malanje, capital da província e 450 de Luanda. São belas e imponentes, as maiores de Angola e a segunda maior de África. As águas do Lucala, despenham-se num líquido algodão, de uma altura de 105 metros por 410 metros de largura. As Cataratas de Vitória, no rio Zambeze, (Mosi-Oa-Tunya, nome na língua local e que sigifica o fumo/bruma que troveja) têm só mais 3 metros de altura mas ganham em largura, têm quase 2 km.

Em Angola, no rio Lucala, a Kalandula, também é um fumo que troveja... na cor macia do algodão. 




Quedas de Kalandula, no rio Lucala, aluente do Kwanza, Província de Malanje, Angola.


KALANDULA


Fruto de Menha
– a Água –
beijo do ventre
doce de Ombera  
– a Chuva  –
verbo e trovão,
sonho de Nzambi
na cor macia
do algodão
Lucala a morrer
no fumo
Lucala a renascer
espuma
no prumo de água
a despejar
a crescer
sonho de Nzambi
rendas e plumas
feitiço de Kianda
preso no céu
choro d'Ombera
caindo líquida
no desprender
no ralhar
clamor do coração
caindo asa ndele
macio molhado
algodão
feito mesmo
só fumo da mutopa
de Ngana Zambi
água a batucar
rugido Lucala
rio nos lábios sagrados
a beijar
a prender
umbigo de Deus
Menha – a Água –
corpo sagrado d'Ombera
ligando céu e terra
no sangue algodão
Kalandula sagrada
a despejar
a trovejar
o mistério sagrado
dos heróis ancestrais
a velar
a guardar
a terra vermelha
no despejar
despreguiçoso
Kalandula-Menha
– a Água sagrada –
alma de Nzambi
a crescer força
no corpo verde
sangue incolor
alma de Kwanza,
rosto de Nação
veia a crescer
Mátria
Frátria
nos caminhos
Menha – a Água –
algodão macio
bandeira da paz
fumo da mutopa
de SukuNzambi
kandandu forte
a desconseguir
a guerra
a conseguir
a terra
só no crescer
Kalandula-mar
Cabinda-Kunene.


–Ewá! Ewá!
Kikale ngó!


Namibiano Ferreira

ALENTEJANOS DE PELE ESCURA

Este artigo foi retirado do blog A Matéria do Tempo http://amateriadotempo.blogspot.co.uk/2012/04/alentejanos-de-pele-escura.html com a devida permissao do seu autor (do blog e do texto). Devido a excelente qualidade do blog, aconselho todos, a visitá-lo.
No final do texto o autor diz: Vendo bem as coisas, qual é afinal o português que poderá garantir, com absoluta certeza, que não tem antepassados negros? 
Segundo os conhecimentos científicos actuais, a Genética afirma que toda a Humanidade, portanto todo o Homo sapiens sapiens descende e provém de África. Somos todos africanos na profundeza cromossomática dos nossos génes, ahahahah rio-me dos racistas!!!!





Assinalada no mapa, a região da Ribeira do Sado (clicar na imagem para ampliar)

Ribeira do Sado,
Ó Sado, Sadeta.
Meus olhos não viram
Tanta gente preta.

Quem quiser ver moças
Da cor do carvão
Vá dar um passeio
Até São Romão.


(do cancioneiro popular de Alcácer do Sal)

Ribeira do Sado é o nome de uma região que se estende ao longo do vale do Rio Sado, no sul de Portugal, a partir de Alcácer do Sal e para montante, não longe de Grândola, a Vila Morena. São Romão do Sado é uma das aldeias existentes na referida região.

Quem agora for passear pela Ribeira do Sado, já não verá gente completamente preta diante dos seus olhos, nem na aldeia de São Romão encontrará moças da cor do carvão propriamente dita. A mestiçagem já se consumou por completo. Mas são por demais evidentes os traços fisionómicos observáveis em muitos dos habitantes da região, assim como a cor mais escura da sua pele, que nos remetem imediatamente para a África a Sul do Sahara.

Nem sequer é preciso percorrer a Ribeira do Sado. Se nos limitarmos a dar uma ou duas voltas pelas ruas de Alcácer do Sal, por certo nos cruzaremos com uma ou mais pessoas que apresentam as características físicas referidas. São os chamadosmulatos de Alcácer, por vezes designados também carapinhas do Sado.

O seu aspeto é semelhante ao de muitos cabo-verdianos, mas não possuem quaisquer laços com as ilhas crioulas. São portugueses, filhos de portugueses, netos de portugueses, bisnetos de portugueses e assim sucessivamente. Quando falam, fazem-no com a característica pronúncia local. São alentejanos.

É frequente atribuir-se ao Marquês de Pombal a iniciativa de promover a fixação de populações negras no vale do Rio Sado. Mas não é verdade. Existem registos paroquiais e do Santo Ofício que referem a existência de uma elevada percentagem de negros e de mestiços em épocas muito anteriores a Pombal. Segundo tais registos, já no séc. XVI havia pessoas de cor negra vivendo nas terras de Alcácer.

No troço chamado Ribeira do Sado, o vale do Rio Sado é bastante alagadiço e nele se cultiva arroz. Até há menos de cem anos, havia muitos casos de paludismo neste troço. A mortalidade causada pelas febres palustres fazia com que as pessoas evitassem fixar-se na região. Além disso, no séc. XVI, muitos portugueses embarcaram nas naus que demandaram outras terras e outras riquezas, o que agravou ainda mais o défice demográfico. Terá sido esta a razão por que, naquela época, os proprietários das férteis terras banhadas pelo Sado terão resolvido povoá-las com negros, comprados nos mercados de escravos. Os mulatos do Sado dos nossos dias são, portanto, descendentes desses antigos escravos negros.

A comprovar a antiguidade do povoamento negro no vale do Sado está o facto de que os atuais mulatos não possuem quaisquer manifestações culturais distintas das dos seus outros conterrâneos, sejam essas manifestações de raiz africana ou outra. Com a passagem dos anos e dos séculos, os costumes, as crenças e as tradições dos antigos escravos negros dissolveram-se por completo na cultura local de raiz europeia e mourisca, integrando-se nela. Também do ponto de vista cultural, portanto, os mulatos de Alcácer são alentejanos legítimos, tão legítimos como os restantes.

Há uma outra região em Portugal onde ocorreu uma fixação de populações negras em número significativo. É o vale do Rio Sorraia, onde fica a vila de Coruche, já em terras do Ribatejo. Tal como no vale do Rio Sado, também no vale do Sorraia havia muito paludismo. As razões para se ter feito com negros o povoamento desta outra região terão sido, por isso, as mesmas. Mas, ao contrário do que acontece em Alcácer do Sal, dificilmente vislumbraremos traços africanos entre os atuais habitantes de Coruche. Os genes "negros" estão presentes em muitos coruchenses, mas não são facilmente observáveis à vista desarmada.

Tal como no vale do Sado, também no vale do Rio Sorraia se cultiva muito arroz. Por isso, quando comermos arroz português, estaremos a comer arroz que pode muito bem ter sido cultivado por honrados compatriotas nossos que são descendentes de negros.

Vendo bem as coisas, qual é afinal o português que poderá garantir, com absoluta certeza, que não tem antepassados negros?

Fernando Ribeiro (Portugal)


19 de maio de 2012

NOAH STEWART - HALLELUJAH

 Site oficial de Noah Stewart   http://www.noahofficial.com/

CD de Noah Stewart número 1 no top britanico de música clássica.



24 de abril de 2012

Lição Sobre a Água


John Everett Millais - Ophelia



Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.
É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.
Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.

António Gedeão (Portugal)

16 de abril de 2012

Adriano Correia de Oliveira 1942 - 1982

 1942 - 1982 
70 anos do seu nascimento - 30 anos da sua morte

6 de abril de 2012

POEMA DE DAMBUDZO MARECHERA

Dambudzo Marechera, o enfant terrible da literatura africana. Comparado por muitos a James Joyce e Henry Miller.



Um farrapo de identidade

Quando é que esta lua se descasca dos meus poemas?!
Esta zona de penumbra que vai da escola inglesa
À minha voz de barata?
A formiga empoleirada no grão de areia
Pouco se apercebe do meu titânico dilema de artista
E só tem olhos para o pé que ergo.
A abelha na sua errância doce peganhenta, se me avista
Dispara uma tangente zumbindo o seu escárnio.
A madrugadora andorinha, no seu voo seco,
Mal dispensa um olhar instantâneo às minhas penas.
O varredor dá de ombros, atira o fardo concreto
Para o camião dos salários e dos preços em alta;
O aprendiz da fábrica fecha o macacão
E aguarda o Chamamento – sirene da fábrica;
O carteiro pedala a sua ronda; o soldado
Beija a namorada e corre a cumprir ordens.
Todos parecem conhecer seus eus
Mas eu como um louco insisto em decifrar
As marcas num farrapo de papel em branco
As marcas que vão ser o poema atrás deste poema.

Dambudzo Marechera (Zimbabwe) (1952-1987),
(Tradução: José Pinto de Sá)
Créditos: Associação Buala