7 de setembro de 2010

OBRIGADO, POETA!

Estava de férias quando Ruy Duarte de Carvalho faleceu, aqui fica a minha homenagem a um poeta angolano do Namibe, embora natural de Santarém, Portugal. Chegou a Angola ainda bebé e ficou filho da terra que amou até á morte... Obrigado, POETA!




Ruy Duarte de Carvalho


CHAGAS DE SALITRE


Olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roídos pelo vegetar
da urina e do suor
da carne virgem mandada
cavar glórias e grandeza
do outro lado do mar.

Olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingénua tolerância aproveitada
em carne. Pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.

Olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos de gente.
Olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos do espesso deslizar
dos braços e das mães do meu país.

Olha-me as igrejas restaudadas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.

Olha-me a noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.

Olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre.

Ruy Duarte de Carvalho (Angola) 1941 - 2010

Um comentário:

Decio Bettencourt Mateus disse...

O Duarte de Carvalho, concerteza um dos maiores nomes da poesia angolana.