27 de maio de 2010

DOIS POEMAS DE NITO ALVES

Nito Alves (foto Associacao 27 de Maio)


PORTAS FECHADAS


Como se fecharam
Como estão encerradas
Como não se abrem
As portas para estas paragens
Para esta Região
Onde se luta
Onde as populações perecem
Onde os guerrilheiros triunfam
Triunfam
Triunfam
E morrem morrem na flor da juventude;
Onde as crianças se julgam abandonadas
Onde o cerco inimigo aperta
Mas… onde as vontades
E as consciências declaram:venceremos.


Silêncio nas consciências
Silêncio no pensar
Silêncio na madrugada
Silêncio
Silêncio nas massas populares
Silêncio no coração dos camponeses
Silêncio no quartel do guerrilheiro
Silêncio nos canos das armas vazias
Silêncio
Silêncio na pergunta
Silêncio na resposta
Silêncio na noite maliciosa
Silêncio no esperar.


Eis os túmulos abertos para combatentes que ainda respiram
A fortaleza que resiste ao desfio de fogo intenso
A nossa decisão inquebrantável
A nossa razão feita força invencível
E todos nós repetimos:venceremos



Somente do porvir
No seu terso linguajar
Na imparcialidade da sua justiça
Só de ti Povo
Aguardemos a revelação
Das várias mãos criminosas
Que estas portas fecharam.


Mas sabemos
Que nas mãos venenosas de certos filhos renegados da Pátria
Jazem chaves destas portas fechadas.


A História fará justiça?



O MEU POEMA É O POVO



O poeta não faz o poema
O poeta escreve a poesia

As massas fazem o poema de ouro que não podem escrever
o povo compõe belos versos que não pode desenhar.


Nos charcos se faz poema de guerra
nos campos arrasados pelas bombas de fogo
o povo canta um poema na travessia de um rio
que devora os que não sabem nem podem nadar
os mortos nos legam versos que não podem ler.


O meu poema não sei escrevê-lo também
não posso escrever o poema que sinto no peito
por serem vários os versos.
São tantos os autores do meu poema
e versos assim trazem rima doutra inspiração.


Rimam em cada metralha que dispara
rimam no chorar do órfão
rimam nas grutas protectoras do guerrilheiro.
Não sei escrever este poema.
Gostaria de cantar o poema que me bate no coração
mas não posso
porque este é o próprio Povo em armas
e só ele deve continuar
a fazer o poema que eu não posso redigir
nem ele pode ler também!


Os que fazem a História
Nem sempre podem escrevê-la.



Nito Alves (Angola) 1945 - 1977
 
Poemas retirados de: http://27maio.com/  

5 comentários:

cirandeira disse...

...E depois de ler esse texto, não me atreveria a escrever mais nada!
A não ser um pedido de licença para
re-publicá-lo no "giramundo" e no "cirandeira".

Um grande abraço

cirandeira disse...

Não conhecia a história de Nito Alves. Fui pesquisar na internet e encontrei pouca coisa a seu respeito, com infornações muitas vezes truncadas e contraditórias.
Talvez valha a pena fazer uma postagem sobre a sua trajetória e o
papel importante que ele teve na revolução angolana. Não? Fiquei curiosa por mais informações...

Kandandu

Decio Bettencourt Mateus disse...

Em Maio é sempre (dolorosamente) válido recordar Nito Alves. E todos os outros.

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Cirandeira,

É bem possível que seja difícil e até contraditório encontrar biografias de Nito Alves. Conheco os poemas que estao na Associacao 27 de maio, chegou a ir lá?
http://27maio.com/

Nito nao é conhecido como poeta. Ele foi um pretigiado político e dirigente do MPLA, um dos grandes e dos mais inteligentes dirigentes que o partido teve e provavelmente alguma vez terá. Um estratega político como há poucos. De menino prodígio do MPLA, acabou por se tornar num pária e condenado á morte pelo próprio partido, depois de ter participado numa tentativa de golpe de estado com o apoio da URSS.
Kandandu

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Caro Décio, caro amigo e poeta, em Maio também nós temos as nossas maes de maio... veio a paz, sim veio a tao ansiada PAZ mas continua por nao se fazer a RECONCILIACAO espiritual e interior dos angolanos.
E poeticamente vale sempre relembar a poesia do Nito!

Kandandu, meu mano!