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19 de julho de 2013

EVOCAÇÃO DE SILVES (POESIA LUSO-ÁRABE)

Silves - O Castelo - foto de Albert Cariaux



Eia, Abú Bacre, saúda os meus lares em Silves e pergunta-lhes
se, como penso, ainda se recordam de mim.

Saúda o Palácio das Varandas da parte de um donzel
que sente perpétua saudade daquele alcácer.

Ali moravam guerreiros como leões e brancas
gazelas. E em que belas selvas e em que belos covis!

Quantas noites passei divertindo-me à sua sombra
com mulheres de cadeiras opulentas e talhe fatigado

Brancas e morenas que produziam na minha alma
o efeito das espadas refulgentes e das lanças obscuras!

Quantas noites passei deliciosamente junto a um recôncavo
do rio com uma donzela cuja pulseira rivalizava com a curva da corrente!

O tempo passava e ela servia-me o vinho do seu olhar
e outras vezes o do seu vaso e outras o da sua boca.

As cordas do seu alaúde feridas pelo plectro estremeciam-me
como se ouvisse a melodia das espadas nos tendões do colo inimigo.

Ao retirar o seu manto, descobriu o talhe, florescente ramo
de salgueiro, como se abre o botão para mostrar a flor.


Mohâmede Ibne Abade Almutâmide - Rei Poeta

Beja (1040-1095)

25 de novembro de 2008

ASH-SHILBIA, POETISA LUSO-ÁRABE

Silves - Algarve


Ash-Shilbia


Ash-Shilbia é uma mulher, uma mulher do mundo muçulmano.Este poema, dirigido como protesto ao seu soberano, revela algo de particular nesta civilização do al-Ândalus no que se refere ao estatuto social da mulher no Islão.
Ash-Shilbia viveu na época almoada, sécs. XII-XIII, num período em que se interpõe, por dois anos (1189-1191), o poder cristão, por via da conquista de D. Sancho I e dos Cruzados.
Após esta conquista cristã, Silves volta por quase mais seis décadas, ao seio daquela civilização do Gharb al-Ândalus.


Poema de Ash-Shilbia


De chorarem os palácios é chegada a hora
Pois as próprias pedras se lamentam.
Ó tu que vais onde a Clemência mora,
Esperando pôr fim às mágoas que atormentam,
Diz ao Príncipe quando chegares às suas portas:
Pastor! Olha as tuas ovelhas quase mortas
Que ficam sem prado para pastar;
Deixaste-as à mercê de muitas feras.


Um paraíso, minha Silves, eras.
Tiranos te lançaram ao fogo do inferno
O castigo de Alá parecendo desprezar:
Porém, nada é oculto para o Eterno.



ALVES, Adalberto
O meu coração é árabeAssírio & Alvim, Lisboa 1987

18 de novembro de 2008

POESIA ÁRABE DA PENÍNSULA IBÉRICA


É uma poesia muito esquecida, acredito que perca ao ser traduzida para português, mas merecia mais atenção dos estudiosos universitários e não só. Nas universidades portuguesas não existia (não sei agora) nenhum curso ou cadeira sobre a cultura árabe ou moçárabe do "Portugal" mourisco. Era importante que houvesse até para divulgação e preservação deste património que se poderá perder. A Universidade do Algarve seria a mais vocacionada por todas as razões que se conhecem. Mas as outras também. Se quiserem conhecer mais da poesia luso-árabe que se fez no território que hoje é Portugal aconselho-vos este livro:


Autor: Adalberto Alves
Editora: Assírio &, Alvim
ISBN: 972-37-0501-X

Apelo


Ó Dona dos Corações,
em ti talvez

Esteja a causa do tormento do cantor.
Ainda uma vez
Diz adeus a quem te quer,
E que, sem ti,
por nada sente amor.
É que, se por acaso,
longe surges na lembrança
Por ti choro pranto de criança.

Ibn Habib, que viveu na Silves almorávida - séc. XI

Sinopse:

O Meu Coração é Árabe revelou ao grande público português a sua herança poética árabe. São trezentas páginas preenchidas maioritariamente pela lírica de quarenta e sete poetas árabes que nasceram no espaço sul do Portugal hodierno. É uma poética refinada e densa, que fala do amor, da injustiça da morte, do quotidiano. Rica na sua expansividade, densa na emoção, esta poesia é também um alicerce, juntamente com a dos cancioneiros, do sentir poético português. Deve-se a Adalberto Alves este livro de paixão.