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28 de abril de 2014

DONGOS


Mulher pequena, descobres no sal
dos meus ombros o suave gotejar
dos mitos incinerados na batalha de Ambuíla
com a sua longa sede de dongos submersos.

Dongos? Sim, dongos é o que crias
sobre a pele dos séculos nunca ressequida
de dizer sou povo.

À luz dessa janela vista assim de um ângulo rente ao chão
te amo outra vez olhando a copa dos mamoeiros no auge do verão.

O sol é o mesmo cão rafeiro castanho muito claro com
manchas brancas no pescoço
comendo da sua lata o tutano das promesas.


E eu vi-te desceres do céu. E a terra tremeu.


José Luís Mendonça (Angola) 

2 de outubro de 2008

POESIA VERDE




para Carlos Drummond de Andrade



No meio do caminho nunca houve uma só pedra
As pedras nascem na boca e a boca é o seu caminho

Das pedras que comemos as cidades ainda falam
pelos cotovelos da noite Não eram pedras eram pedras
com cabeça tronco e sexo Pariram fábricas
de pedras montadas sobre a língua E as pedras comeram
a pedra que restou no meio do caminho




José Luis Mendonça (Angola)