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28 de novembro de 2009

DEDICATÓRIA




Diversos pintores angolanos


Teus dedos
vadios
colhendo flores
na renda
dos meus


recordarei de
pois quando
noutros dedos
tocava
os teus


 
 
David Mestre (Angola)
 
Luís Filipe Guimarães da Mota Veiga era o seu nome verdadeiro. Começou a ser conhecido por David Mestre após publicação do seu segundo livro «Crónicas do Gheto» (1972).

Nasceu em Loures, Portugal, em 1948. Foi para Angola com apenas oito meses de idade e viria a falecer em Almada (Portugal), no Hospital Garcia da Orta com 49 anos, vítima de um acidente vascular cerebral.
Trabalhou como jornalista e crítico literário em variados jornais e revistas de Angola, de Portugal e de outros países, coordenou diversas páginas literárias, foi director do «Jornal de Angola». Cronista, poeta, recitador e ficcionista, era membro da Associação Internacional de Críticos Literários. Fundou e dirigiu em 1971 o grupo «Poesias – Hoje». A sua obra está traduzida em várias línguas

Obra poética:



Kir-Nan, 1967, Luanda, edição do autor.
Crónica do Gheto, 1973, Lobito, Cadernos Capricórnio
Dizer País, 1975, Nova Lisboa, Publicações Luanda
Do Canto à Idade, 1977, Coimbra, Centelha
Nas Barbas do bando, 1985, Lisboa, Ulmeiro
O Relógio de Cafucolo, 1987, Luanda, União dos Escritores Angolanos
Obra Cega, 1991, Luanda, edição do autor
Subscrito a Giz - 60 Poemas Escolhidos, 1996, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda

30 de outubro de 2008

O SOL NASCE A ORIENTE

Cacadores Ovasekele (Bosquímanos)


Povo, de ti canto o movimento
teu nome, canção feita de fronteiras
lua nova, javite ou lança
tua hora, quissange em trança

Do longo longe do tempo
arde minha flecha, meu lamento
minha bandeira de outro vento
aurora urdida nos lábios de Zumbi

De ti guardo o gesto
as conversas leves das árvores
a fala sábia das aves
o dialecto novo do silêncio
e as pedras, as palavras do medo
os olhos falantes da mata
quando a onc,a posta a sua arte
nos fita, guardada em sua mágoa.

De ti amo a denúncia felina
das tuas mãos quebradas ao presente
a danc,a prometida do sol
nascer um dia a Oriente


David Mestre (Angola)

ESPERA

Existo acento de palavra, carapinha
recordação áspera de monandengue,
mapa de conversas na visitação da lua,
grávida luena sentada no verso da fome.

aqui esqueço África, permaneço
rente ao tiroteio dialecto das mulheres
negras, pasmadas na superfície do medo
que bate oblíquo no quimbo quebrado.

num gabinete da Europa, dois geógrafos
vão assinalar a estranha posição
dum poeta cruzado na esperança morosa
das palavras africanas aguardarem acento.

David Mestre, Angola (in (Crónica do ghetto, 1973)