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5 de novembro de 2013

TODAS AS COISAS...



Todas as coisas têm o seu tempo, todas passam
debaixo do céu segundo seu tempo
e há um tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Ah! Certamente tornarei a isto por este tempo de vida.
Ao tempo determinado, tornarei a isto por este tempo de vida.
Porque dirão: eis um homem deste século,
um homem de África, debaixo da sua mangueira
e debaixo da sua papaeira, um homem
com seu desejo de audiência e história,
sua voz aberta e sua digníssima pele,
falando da África deste tempo e de seu povo,
seus órgãos do canto.
Um homem que não habita seguro em sua freguesia
e seu sémen destina às filhas de Mindelo,
de Acra, de Lagos, de Nairobi, Dar-Es-Salam ou Addis-Abeba,
e cai sobre a terra quando for seu tempo de cair
e de se juntar a seus pais, cara a cara, indo pelo caminho de toda a terra,
ao seu tempo, ao tempo determinado,
sem o lamento da América nem o escárnio da Europa.


João Vário (Cabo Verde)

15 de julho de 2013

OUTRO POEMA DE João Vário



E então subimos aquele grande rio
e as portas do Ródão, chamadas. Era em abril
dois dias depois da neve
e da cidade dos nevões, na serra.
E olhamos para os penhascos da beira-rio,
as oliveiras, o xisto, a cevada
as ervas de termo, e as colinas.
E, junto da via férrea, os homens do país
miravam-nos como se fossemos nós
e não eles os mortos desta terra,
homens do medo e do tempo da discórdia
que trazem para o cimo das estradas
a malícia que vai apodrecendo
seus pés neste mundo e em terras de outrém.
Que fazeis do mundo e da sua chama imponderável, os homens,
perdidos que estais, hoje como ontem,
entre a casa e o limiar?
E evocamos, mais uma vez, esse provérbio sessouto.
E, na verdade, porque regressaremos,
após tantos anos, a este tema?
Será que a morte nos ensinou
a olhar para o homem com pavoroso êxtase?


João Vário (Cabo Verde)

12 de julho de 2013

POEMA DE JOÃO VÁRIO

João Vário (1937-2007) nasceu no Mindelo, Cabo Verde, e deixou uma obra poética extensa, mas pouco conhecida do grande público. Considerado pelos especialistas o maior poeta africano do século XX, nunca foi publicado em Portugal. 

Agora chega até nós Exemplos, um volume que reúne uma sequência de nove livros de poesia publicados entre 1966 e 1998. A Língua Portuguesa é, par exelence, uma Língua de poetas mortos, imagine-se, 
João Vário nunca foi publicado em Portugal....




Exemplos
Edição/reimpressão: 2013
Páginas: 312
Editor: Tinta da China
ISBN: 9789896711603




Há muito passado no estar aqui com o tempo,
Fim e reconhecimento, e não sofrendo nada mais do que o tempo concede,

Fim de novo e reconhecimento de novo
E tudo é crime, ou crime sempre, crime ou crime,
Criminosissimamente crime,
Quando arriscamos a intensidade, comemorando.
Aumento e festa, ou cilício, e tempo de cair e tempo de seguir,
Tempo de mal cair e tempo de mal seguir,
Oh amamos tanto, amamos tanto estar aqui com o tempo
E sabendo que há nisso pouco passado.
Porque maiores que os desígnios da vida
São os desígnios da medida e, divididos
Em dois por eles, com eles indo, se por eles
Ganhamos o tempo, pedimos a forma mais fácil
De indagar que vamos morrer e, um dia, se
O tempo for deles e, a memória, de outros,
Havemos de ser úteis como mortos há muito,
Sem que a causa, o delírio, a designação,
O julgamento nossa medida abandonem,
Dividida em duas por elas, e ganhando constância.

Depois, depois faremos ou fará o tempo, por sua vez,
Aquele blasfemíssimo comentário,
E então consta que amámos.


João Vário (Cabo Verde)