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19 de março de 2014

CANTO AS VEIAS

Miradouro da Lua - Angola


a. as cores da terra

fomentava sementes da concórdia
hinos à longitude. cantava
veias ateadas no ventre
içava o sangue das bandeiras
rumo às violetas dissimulando
um mundo ardido na cor rubra
dos velhos panos.

b. o hino nacional

da língua orvalhada
um som ressalta
o sangue nacional.
tomo-lhe o fio arvora
palavra em parto.

e são já as sílabas
um pergaminho do
corpo cantado na
povoação.


João Tala (Angola)

24 de junho de 2013

ALÉM DA FORMA DAS SEMENTES



Todas as palavras de um ngoma são
lamentos da civilização. Tudo o que
pronuncio é um continente sobre
a memória dos ngomas

mas cada língua é uma nação de conversas
fortalece a raça do espírito o poema da
plebe

e este povo-irmão dissemina na minha
memória o continente erguido da semente


João  Tala (Angola)

5 de julho de 2010

Blog da Semana - 12/2010

O blog da semana 12 é angolano. Trata-se do blog do poeta João Tala. Um poeta já com obra publicada há alguns anos. Recentemente trouxe a público o seu mais recente poemário, "Forno Feminino".
Visitem o poeta em: http://blogtala.blogspot.com/

SOBRE FORNO FEMININO



EXPLICO EM NOTA PRELIMINAR QUE FORNO FEMININO É UMA ESCULTURA MOLDADA DE BARRO COM CONTORNOS Á IMAGEM DE UMA MULHER CUJO  VENTRE SE ABRE UMA CAVIDADE

Foto: blogtala74



trompas uterinas/braços do mundo
ouço o recomeço acostumada seara
de grãos rompidos
ainda. as grandes mãos do mundo
fixam sementes, algarismos
palavras cervicais
húmus sobre terra húmida,
é esse o caminho que atinge ovários
pela boca da labareda.

João Tala (Angola)
In Forno Feminino

16 de junho de 2010

Blog da Semana - 10 - 2010

O blog escolhido para a semana 10 é a KITANDA, http://kotodianguako.blogspot.com/  que vivamente aconselho, há frutas gostosas por lá...
Tela de Thó Simoes (Angola)


amar é mesmo assim

ela tem uma ave nos contornos de mulher
e me vê com as escleróticas em fuga.
deixa-se ir ao tempo com um corpo de navio
enche a embala com o seu todo.
ela emergiu da “casa inabalável”
e victoriosa depôs o soba.
rendo-me à vassalagem quero-a solta e rica.
certo ou incerto os sonhos errados
tornam-se vivos: como um compêndio de
mil escrituras no amor que gesticulo.

João Tala (Angola)

13 de setembro de 2009

CONTO DE JOAO TALA

ESTE É UM CONTO DE JOAO TALA (POETA ANGOLANO) QUE PODE ENCONTRAR NO BLOGUE DO AUTOR: http://blogtala.blogspot.com/ OU NA CONFRARIA DO VENTO: http://www.confrariadovento.com/revista/numero21/conto01.htm
JOAO TALA É UM DOS NOVOS TALENTOS DA LITERATURA ANGOLANA.
Joao Tala (poeta e escritor angolano)
ANA RITA - CONTO DE JOAO TALA (ANGOLA)




O sorriso ainda é o mesmo apesar de contrariado por um rosto flácido, pousado sobre o peso dos anos. Li-lhe na sombra os olhos da alma e pareceu-me igual a tantas e tantas mulheres apreensivas dos constantes recuos de suas vidas. Não era sempre que se podia conservar um sorriso a largo dos acontecimentos mais disparatados no interior de um território que pouco ou nada se realizava no sonho da gente. Reconheci-a ante o susto dessa velhice.


– Ana Rita, quanto tempo já nos comeram – disse-lhe ansioso de ouvir de novo o timbre agudo da sua garganta; tinha voz receosa, talvez cautelosa. E sofrimento.


Respondeu-me finalmente, agora fazendo sobressaltar a voz.


– Tem muitos anos, nos conhecemos. Aonde estavas durante essa vida em que nos puseram fogo? – disse, a sua linguagem é o retrato da guerra.


Em 1969, Ana Rita abandonava os estudos para se casar. O noivo era um militar do exército colonial, uma pessoa de quem se lembra como vinda de boas famílias. Naquela altura, Ana completaria dezoito anos, tão moça e arrumadinha, se lhe notava o sonho na lentidão dos passos – sabe aquela adolescência no sono de mulher?


Então. O noivado descoseu-se, o casamento não se realizou. Muitos anos depois disseram-me que o homem tinha sido seduzido por uma gatuna chegada do puto; e que Ana tivera então que descobrir as outras duas partes de um “rosário” feminino – são promessas que dão à mulher. – Na época uma mulher da gente tinha apenas três opções: ser casada, beata ou prostituta. Digo mais ou menos nessa proximidade, já que solteira não tinha vez.


As opções de Ana Rita foram sempre agravadas por azar. Por conseguinte, ela é de uma família católica formada de muitas mulheres onde o catolicismo tinha pinta de obrigatoriedade. Duas de suas primas eram madres e a irmã mais crescida concorria para tal. Tinha também um tio padre que vivia no Congo.


Assim ela achou-se numa opção contundente, diante da Fé de todas as crenças. Teceu um manto religioso para a alma e com o instrumento da fé foi a abrir conventos para refugiar-se daquele mundo que não a desagravara.


Não sei por quanto tempo, nem ela o sabia, as portas atrás de si permaneceriam fechadas; quanto duraria o degredo – apesar de que coisas da alma duram quanto o tamanho da fé e de Ana esse mundo é pequeno ante a crónica da sua alma.


Então. Restou aqui fora aquele sorriso que nem velhice consegue riscar, num rosto que perambulava aí, no susto das épocas que degradaram nossos semblantes – como se vê, pessoas ainda assustadas, esquinadas na espera de qualquer coisa que vem aí, ninguém sabe o quê, mas qualquer raiva de novo a deflagrar de nós próprios. Aliás, sempre fomos assim, não tem conversa.


Encontrei-a sobre o peso dos seus anos arrastando um corpo magro. Provavelmente nada mais lhe dói. Fica-me ainda a rememoração de tudo que se passou daquela vez que Ana Rita desconseguiu na vocação.


Não saiu do convento pelos fundos, mas pela porta que lhe estava permanentemente destinada; uma porta se abria aos seus desejos como se fosse magia. Abriu-se lenta, completa; o som gutural de dobradiças nos caixilhos.


Começou após aquela visita sofisticada que eu e o meu amigo Beto Bengala efectuamos à comunidade das Irmãs Clarissa.


Beto possuía uma religiosidade centrada no catolicismo que também vinha de família, pergaminhos da fé que sobejava por Malanje inteira. Dele diziam ser um homem crepuscular...


Não entendo. Vive de crepúsculos ou contando crepúsculos? Depois é que ele me deu a conhecer que se ajoelhava ao pôr e ao nascer do sol para rezar, com a perseverança de um muçulmano, passe o exagero. Minha euforia em Cristo aumentou com a sua dedicação à minha enfraquecida alma e fê-lo para aumentar nossa amizade.


Se não fosse ele, jamais conseguiria entrar no recinto fortificado das Clarissa para olhar o rosto da Ana Rita, um rosto que sempre me encarava próximo ao choro, como uma criança apanhada em erro com medo de ser castigada. Assim ela era, uma sensibilidade se arrastava sobre a minha pele – ela tocava demais meu exterior, como a lava expelida de um vulcão interiorizado.


É proibida a visita de machos no convento. Não pelo simples facto de ser homem – macho é um estado diferente do carácter formado no celibato. O Beto Bengala desconta-se porque é diferente: antigo sacristão, vindo de uma família forjada na palavra de Deus. Estando a mais, junto-me às suas afinidades.


Recobrada da aflição, entre deixar-nos entrar e a proibição tradicional no espaço das Clarissa, a Madre Superior deu-nos muita alegria.


Com Ana Rita apareceu um coro de raparigas, adivinha-se logo desejos de rever por um dia, nem que seja a sombra de um homem. Um encontro insólito de que vou me lembrar sempre.


Primeiro, chegaram com o coro absoluto do silêncio; depois, uma delas – ainda me lembro do seu vestido branco com auréolas vermelhas e lenço azul marinho na cabeça, subiu sobre a onda e em seu pedestal se destacou para quebrar a mudez.


– Nunca mais vi um homem. – disse com uma tonalidade exclamativa, com um impulso apenas feminino.


– Precisava ver? – indaguei a despropósito com um gesto visivelmente sensível.


Precisei agradar mulheres na idade de partir o coco, postando de vez meu lado masculino. A maioria das meninas, senão todas, não viam um homem por mais de seis meses, disseram, o cheiro de machos se lhes tocava por isso fundo.


É uma questão de vocação.


– E você tem vocação? – indaguei a Ana Rita que parecia penalizada com tudo aquilo.


Agora um olhar trêmulo; um sorriso assustado; de cara com a sua timidez.


A moça que dissera nunca mais ter visto um homem portava-se com assanhadice. Era uma moçambicana com ares de ingenuidade, mas que adentrava nos olhares lúbricos e furtivos com que a adornei.


Diante de nós, separados por uma grade metálica, pousavam cerca de doze jovens belas, suaves, comunicativas. Não me fiz rogado, dei-me a elas a falar da relação homem/mulher. Tremiam o riso mas encantavam-se aquelas mulheres que meses e meses lhes estava vedada a proximidade masculina porque o segundo instinto se impôs e cupido chegou de boleia.


Não faltaria afinal uma espia, uma madre caducada e fria. E o que estava bom demais logo coartado com o fim da comédia. Foram imediatamente recolhidas as raparigas do outro mundo.


Beto Bengala que tinha uma irmã entre as moças passou o tempo restante me acusando e amaldiçoando, quase me chamava psicopata. Eu disse: fui lá para não rezar com as meninas – lógico, não é mesmo?


– Tanta puta por aí e você vai logo de zombaria sobre aquelas pobres meninas, comprometidas com a Palavra. Só um anormal como tu. – Xinguilava [gesticulava]raivoso o Beto.


Pelo menos o Beto tinha fundamentos, com toda a razão. Mais razão ainda depois que certas coisas aconteceram: a excitação de freiras é algo soberbo mas por vezes maligno, e impaciente; deixá-las com a angústia num torvelinho de hormónios. Tudo isso madrugou, sem a despertação, uma série de lembranças imortais no sonho absoluto de Ana Rita.


Portava-se uma mulher febril numa catástrofe de delírios. Seu primeiro sonho depois daquele encontro inesperado foi esmagado por uma convulsão generalizada e faminta, gemidos rosados mas caóticos abalos nas palavras contorcidas; corpo santiforme no equívoco do mundo com os desejos mundanos do inconsciente derramados no lençol. O lençol sempre encharcado com suor, baba, fluídos vaginais e urina; e sonhos. Sonhos altos, sonhos imundos para aquela comunidade religiosa preste a dar noivas e esposas caprichosas para Jesus Cristo.


Viveu Ana Rita na redondeza do sonho durante muitos dias. Despertava para o sonambulismo que voltava a agravar-se de febre, delírios e contorções sensuais. Um dia acordou de vez, fraca, porém mais esclarecida. Voltou-lhe aquele sorriso de sol num rosto dúbio. Abriu as portas do convento e chamou a si aqueles desejos dum mundo quente.


Contam que fora tanto o fogo e a sofreguidão que se achasse um homem no halo do seu percurso, certamente lhe trepava logo para sacudir o tédio e as teias que ganhara num lugar parado onde se vive conciliado com a morte – não pelos dias sinistros que nos anos 70 se alastravam como aquelas noites que a memória aterroriza; a morte a rir-se do que está vivo; não da morte assim como ela é, verdadeira e terminal mas, isto sim, a idade de que se idealiza parada, sequestrada... E o mundo só parece acontecer fora das unidades fechadas, fora da internação.


Saíra a procura dos sonhos. Desde aquela vez que me ouviram uma linguagem nova, passei a ser para ela e para muitas outras mulheres apertadas naquele convento, a abundância dos escassos dias oníricos que em Ana Rita pioravam para o conhecido purgatório dos delírios e alucinações meteóricas.


Tudo isso levara anos. Depois que se completou a metamorfose dela eu não estava mais cá fora. Tinha sido rusgado para a tropa. Naquele tempo era rigorosamente assim, apanhavam involuntários (uma rusga é um processo em que se permite o sequestro oficial) que incorporavam nas fileiras marxista de um governo que parecia embruxado, perto do povo mas irrealizável.


– Onde está aquele que tem chamas na boca? – perguntava insistente para o Beto Bengala.


Beto é um tipo muito simples. Mais fácil para ele seria exercitar-se para o divino do que abrir metáforas de fogo; não enche a boca com palavras sexuais para as deitar no meio da depravação mundial, onde qualquer mulher pode ser banalizada. Não se sabe se algum dia ele vai se casar por alguma razão nobre que não seja sacramental.


Também dizem que Beto é vagaroso com as mulheres, que jamais olha para a bunda duma dama. Tem tudo – dizem as fêmeas – para agradar filhinhas de papai, porém, nunca namorou garota alguma. Mas tem mesmo gente assim... não tem?


Ana Rita foi entrando, à minha procura, pelas ruas da vida; e sua confusão mental abonava mais desesperanças com deambulação sonolenta de rua em rua.


– Onde está o fogueiro com o calor que preciso sentir? São as minhas sensações que ele tem na boca. – Solicitava, mas minhas palavras não foram desse fogo todo que ela clama e reclama.


Falta de respeito – lhe falaram confessos puritanos e beatas e beatos que sempre andam demais na sua vida – não toma nenhum cuidado com a língua. E pensar, ia ser freira... Pobre Cristo!


Algum padre inadvertido, muito tolerante para com a paixão humana, tentou protegê-la com a sua fé. Defendê-la dos acasos mundanos na encruzilhada de qualquer infidelidade.


– Haja compaixão. É apenas uma ovelha desgarrada – ele disse.


Ouviu do bom:


– As putas também são, padre.


Contaram-me tudo o que aconteceu com esse amor desaparecido, a Ana Rita. Eu estava impossível, perdido na história militar.


Anos depois que voltei da kuemba [serviço militar], fui encontra-la totalmente diferente. Chamavam-lhe “bandida” e carregava uma gravidez indesejada, de algum amante desconhecido. Seu conceito de vida aterrorizou-me. Tinha um rosto frio como eu tinha visto em filmes de agentes secretos, embora abrisse, a calhar, ainda o sorriso agradável. Eu desejava que falasse do seu futuro filho, o menino iria nascer do seu ventre.


Ríspida! Ela se tornou numa mulher bastante ríspida. Irrisória.


– Que esse pavor me venha parar nos braços –; disse, nem lastimosa – se nascer um gato ou uma esperança, o nome é depois.


– Ritinha, não se fala assim de um filho... nem nasceu ainda, coitado. – Implorei.


– Eu me desgastei. Onde tu estavas enquanto eu aqui me desgastava de todas as dores?


– Ana Rita, ouça-me: nunca um homem pode ser tanto. Ninguém desgasta à toa mulher que seja.


– Nunca mais vou sentir a dor de uma voz. – Ironizou, era uma crítica à minha ausentada vida enquanto ela procurava...


– Eu procurei o teu nome... vai estar sempre perdido como ninguém. – Finalizou desesperançada. Afinal nem conhecia meu nome.Formidável – formulei em meu pensamento vinte anos depois que o caso de Ana Rita me deixava de espírito atormentado. Talvez fosse por demasiada compaixão ou por excesso de zelo. – Formidável.


Como disse no começo, o sorriso é ainda tão claro apesar da apreensão secular que se nos repartiu de todas as guerras angolanas. Vinte anos tinham pesado firme sobre caminhos que ela não pisou, que não a levaram para lado nenhum.


Estavam mortos os caminhos por que devia passar, de viagem nocturna para a sobriedade. Tudo que perseguiu, depois que ela não me viu mais, foram desejos inconfessáveis ou sigilos do munhungo [libertinagem] – o mesmo que o mundo ainda vê mas que para si guarda como se tal mundo nada mais de si pode achar: degeneração. Apesar de que os olhos continuam sorridentes.


Agora é tarde demais para recomeçar.
 
 
Joao Tala (Angola)

30 de setembro de 2008

POESIA DE JOÃO TALA



BIOGRAFIA:
João Tala nasceu em Malanje a 19 de Dezembro de 1959. É médico exercendo a profissão como interno em alguns hospitais de Luanda. Iniciou a sua actividade literária na cidade do Huambo, onde cumpria o serviço militar e foi co-fundador da Brigada Jovem de Literatura. Apesar de ter frequentado círculos literários daquela cidade, de que despontaram ainda na década de 80 importantes nomes da novíssima poesia angolana como João Maimona, o seu primeiro livro de poesia sai a público apenas em 1997. Arrebatou o prémio Primeiro Livro da União dos Escritores em 1997 e o promeiro lugar dos Jogos Florais do Caxinde em 1999.Parecendo justificar o respeito que nutre pela poesia, o seu livro de estreia é, apesar dos cerca de 15 poemas, uma auspiciosa contribuição para a renovação e diversidade do discurso poético angolano. O segundo livro voltou a merecer um acolhimento encomiástico da parte de José Luís Mendonça, outro expoente da sua geração, que o considera como uma vocação poética a irromper no universo das letras angolanas com soberania inerente aos grandes criadores.
BIBLIOGRAFIA:
A Forma dos Desejos (1997),
O Gasto da Semente (2000),
A Forma dos Desejos II (2003)
A Vitória é uma Ilusão de Filósofos e de Loucos (2005),
Os Dias e os Tumultos (2004) contos.

É membro da União dos Escritores Angolanos.
POEMAS DE JOAO TALA:TONTURA
Ainda apagam pálpebras de volta à tontura
ainda o sentimento da nossa longa história
a ruína vai da notícia à revolução

palavras mortas nunca mais preenchidas
os rios demorados no sintoma dos países
e tudo passa e o poema indaga
o dia que acontece como uma ruína.


OBITUÁRIO
Onde ouvidos repetem pequenas ruínas
sobra o revólver sobre dias túmidos
para decretar morte é como ninguém
para aumentar áfricas laboratoriais e
o latifúndio;

depois dá um tiro na cabeça da história
tal como tropeça no meu palavrão
sem nada para acrescentar à morte
sem nada para contar à vida
sem ser nunca o nome da multidão.




PSIQUIATRIA (I)

Reverbero de minha esquizofrenia
dias de mim cuidados
atravessei o Hospital Psiquiátrico
ninguém mais mora lá;
os doutores partiram quando o tempo
[envelheceu


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e o princípio pariu o fim – uma estrada
onde passo com o livro descuidado,
sem brio, um tratado de loucura.
É o tempo abordado e paginado
com o sangue na caneta;
o tema das cicatrizes que não foram
[encontradas
porque a enfermeira as escondeu
quando forjava a própria madrugada


Joao Tala (Angola)
(Nota: tela de Eleutério Sanches)

29 de setembro de 2008

ME RECONSTRUINDO

Máscara Tchokwé (Mwana Pwó)





Onde ontem me torturavam
renascem as pálpebras demolidas
posso ver pedras que baralham pedras

posso ver a cor de todas as pálpebras
alçadas do escombro
ou como eram trémulas mãos
adejando outras pálpebras,

escombro de mim pedra numerosa
me levanto e reconstruo
o que a mão tem dentro de mim;
encho as pálpebras é porque choro
se choro refaço o sonho, é verdade.
Verdade acumulada de todos meus dias.




João Tala (Angola), nasceu em 1959, em Malanje, é médico.
É membro-fundador da Brigada Jovem de Literatura Alda Lara, de Huambo.