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19 de abril de 2008

TEUS OLHOS

 
Olhos do meu Amor! Infantes loiros Que trazem os meus presos, endoidados! Neles deixei, um dia, os meus tesoiros: Meus anéis, minhas rendas, meus brocados. 
 Neles ficaram meus palácios moiros, Meus carros de combate, destroçados, Os meus diamantes, todos os meus oiros Que trouxe d'Além-Mundos ignorados!
  Olhos do meu Amor! Fontes... cisternas... Enigmáticas campas medievais... Jardins de Espanha... catedrais eternas... 
 Berço vindo do Céu à minha porta... Ó meu leito de núpcias irreais!... Meu sumptuoso túmulo de morta!...                             
                               Florbela Espanca 

29 de janeiro de 2008

PRINCESA DESALENTO * PRINCESS DESPAIR




Minh'alma é a Princesa Desalento,

Como um Poeta lhe chamou, um dia.

É magoada, e pálida, e sombria,

Como soluços trágicos do vento!



É fágil como o sonho dum momento;

Soturna como preces de agonia,

Vive do riso duma boca fria:

Minh'alma é a Princesa Desalento...



Altas horas da noite ela vagueia...

E ao luar suavíssimo, que anseia,

Põe-se a falar de tanta coisa morta!



O luar ouve minh'alma, ajoelhado,

E vai traçar, fantástico e gelado,

A sombra duma cruz à tua porta...


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My soul is the princess Despair

as a poet once called her .

She's hurt, pale and dark,

as the wind's tragic sobbing!

She is fragile as a moment's dream,

gloomy as prayers of anguish.

She lives off the laughter from a cold mouth:

My soul is the princess Despair.

At the wee hours of the night, she wanders…

under the softest moonlight she craves,

and starts talking about several dead things!

The moonlight, on his knees, listens to my soul

and marvellous and frozen, it draws

the shadow of a cross at your door.

FLORBELA ESPANCA

9 de janeiro de 2008

VAIDADE

 
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
 
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
 
Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!
 
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...
 
                                Florbela Espanca

30 de abril de 2007

SONETO






Deixa dizer-te os lindos versos raros


Que a minha boca tem pra te dizer !


São talhados em mármore de Paros


Cinzelados por mim pra te oferecer.






Tem dolencia de veludo caros,


São como sedas pálidas a arder...


Deixa dizer-te os lindos versos raros


Que foram feitos pra te endoidecer !






Mas, meu Amor, eu não te digo ainda...


Que a boca da mulher é sempre linda


Se dentro guarda um verso que não diz !






Amo-te tanto ! E nunca te beijei...


E nesse beijo, Amor, que eu te não dei


Guardo os versos mais lindos que te fiz.






By Florbela Espanca (1894 - 1930) Portugal