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25 de maio de 2013

POEMA DE DÉCIO BETTENCOURT MATEUS - ANGOLA


Foto Pedro Soares


O TRUMUNO!

Pés voam descalços
o quente d’areia
trumuno o jogo da bola
que gira e rola
pernas marotas riscam espaços
em bolas apressadas de meia.
 
Correrias em pernas loucas
cololas, cabritos
fintas e trucas
na disputa da bola
na fuga à escola
a garotada feliz aos gritos.
 
Dribles, fintas e truques
em pernas craques
o mundo na garotada
em peitos suados de fora
a escola à espera
o velho em fúrias de porrada.
 
Nos pés do maestro
mestria no passe ao companheiro
o maestro finta e escova
enfia na ova
do defesa
o maestro finta e chuta p’ra baliza.
 
Uaaá! Uaaá! Chulipas, quinhões e cabritos
brigas e porradas
cafriques
quedas e truques
acode, acode, é batota, é batota. Apitos,
algazarra na garotada.
 
– Oh!, saudades! Eu nas pernas da garotada
no peito da miudagem
a fazer vadiagem
a correr descalço um campo d’areia;
depois o medo a tareia
eu em medo, o velho e a porrada!
 
Eu no trumuno do futebol
É golo! Golóóóóóóóóóóóóóóóóóó!

  
Décio Bettencourt Mateus
      
in Gente de Mulher
    
Luanda, 05 de Setembro de 2006.


9 de fevereiro de 2013

MUSEU DA ESCRAVATURA


Museu da Escravatura - Luanda

Na tristeza do meu kissange
o lamento do pensamento
das gentes
que partiram p’ra longe
que partiram p’ra outros horizontes
em cânticos de desencanto.

Nas tuas ondas cansadas
oiço passos antigamente
passos escravos
acorrentados cativos
em liberdade de correntes
passos escravos no lamento tuas ondas.

No longe tua superfície ondulada
cheiro a navios negreiros
dos homens acorrentados
maltratados
na tua superfície azulada
a fumaça dos navios guerreiros:

Ó museu da escravatura
fala-me a história
enterrada na memória dos dias
fala-me os negros escravizados
vendidos
nas noites sofridas de brancura.

Fala-me os rostos transpirados
desgastados
nos homens valentes
arrastados prisioneiros
em navios negreiros
em navios nos aléns fumegantes.

Ó museu da escravatura
impávido viste meus irmãos
fazerem travessia do infinito
em inferno de porões
fala-me esta angústia no peito
esta angústia loucura.

Ó museu da escravatura
ainda sinto no pulsar tuas águas
dor das mágoas
dos meus antepassados
maltratados acorrentados
ainda doem os ossos nas noites de torturas.

Ó museu ingrato fala-me o ranger de dentes
Nos navios perdidos nos horizontes!

Décio Bettencourt Mateus (Angola)
in Gente de Mulher




5 de junho de 2012

GENTE DE MULHER

Brevemente nas bancas, o mais recente livro do poeta angolano, Décio Bettencourt Mateus.






MEU POEMA ACORDA DORIDO!

                                                           À memória de Luzia Bettencourt M.,
                                                           minha mãe.

Manhã virgem manhã cedo
meu poema acorda dorido
manhãs frias
vai à igreja vai à missa
em pernas de pressa:
ó Senhor pão às minhas crias.

Meu poema sofre a madrugada
a espreitar a aurora
acarreta água ensonada
enche bidão enche tamborão
de olho na torneira
música sofrida no coração.

Dorme insónias na noite escura
acorda constrangido a praça
a vender gelados
compra esperança
recebe troco ternura
bem diz os kwanzas bem diz trocados.

Caminha um sol abrasador
preocupação no rosto
meu poema tem dor
a rusga a falar serviço militar
a rusga: kwata-kwata miúdos a passear
kwata-kwata miúdos, oh desgosto!

Meu poema desperta alvorecer
lava roupa amontoada no tanque
rebenta mãos de sofrer
vende gelo no Roque
e sofre filho fugidio emigrado
filho mwangolé exilado.

Meu poema dorme cansado
é pai mãe marido mulher...
cuida os miúdos
atende o marido
dorme dorido prazer
dorrme dorido sonho de trocados.

Meu poema dobra joelhos em manhãs frias:
ó Senhor pão às minhas crias!

Décio Bettencourt Mateus
in Gente de Mulher

Luanda, 10 de Agosto de 2006.

14 de julho de 2011

E EU ERA O TEU KWANZA*...

Rio Kwanza (Barragem de Kambambe)

E eu era o teu kwanza
Caudaloso
E tortuoso
Destreza
A farfalhar as margens
Das tuas paragens!

Um kwanza vaidoso
E sinuoso
A fundir a doçura
Do meu açúcar
Na salgadura
Das ondulações do teu mar!

Ou ainda a nostalgia
Dum pôr-do-sol a entardecer
A luz do teu dia
Eu era a delicadeza
Duma brisa
A sussurrar-te o amanhecer!

Era a noite solitária
A beijar a insónia
Da tua madrugada
Uma mania
D’aurora adiada
Na maré da tua praia!

Era a melodia
Do trecho
Do canto dum riacho
Harmonia
D’águas a batucarem pedras
E a polirem lascas ásperas!

Um aceno distante
No anoitecer
Da tua noite
Dormida-acordada
Eu era o kwanza da tua almofada
A balbuciar-te o alvorecer!


Décio Bettencourt Mateus in "Xé Candongueiro!"
Luanda, 07 de Junho de 2007
http://mulembeira.blogspot.com/ 

24 de junho de 2010

Blog da Semana - 11/2010

Recalcitrante é o blog da semana. O Blog da Meg como eu carinhosamente chamo. Nao vos aconselho a visitá-lo, eu OBRIGO-VOS democraticamente a visitá-lo e nao digo mais nada!


José Pádua (foto Recalcitrante)

O SILÊNCIO DAS GENTES


Um silêncio e passos d’homens importantes
Ecoam chão de mosaicos
Poc, poc, poc…ecos
E fatos enfatados
E engravatados
D’homens importantes que as gentes!

Um microfone num discurso sábio
Regado de palavras sábias
O silêncio cúmplice dos dias
No silêncio do silêncio
Das gentes cansadas das oratórias
E discursos de hipocrisias!

Uma torrente de palavras rechonchudas
Um desfile de sapiência
Em gravatas abastadas
As minhas gentes caminham mudas
E desesperam paciência
Na dor do alvorecer de madrugadas!

Quem compra os espinhos das gentes
No suor da caminhada?
Passos d’homens arrogantes
Ecoam mosaico d’estrelas
Eu rezo as velas
Das gentes perfiladas nas estradas!

As minhas gentes suam injustiça dos dias
E dor das noites silenciadas
Magricelas
No palácio das estrelas
Gravatas abastadas
Festejam hipocrisia de palavras sábias!

A minha noite adormece entristecida
Na cobardia da gente emudecida!

Décio Bettencourt Mateus (Angola)

In "Xé Candongueiro

23 de junho de 2010

XÉ CANDONGUEIRO

Poema vivo, vivo e cheio dos barulhos-povo de uma cidade frenética de VIDA, vida e dificuldades... Este poema é, para além do poema escrito, um outro poema "escrito-música", unicamente SOM. Uma sonoridade que de uma forma magistral foi poeticamente representada através da palavra escrita. Quem nao conseguir SENTIR-OUVIR e PRESSENTIR isto nao inspira a totalidade deste poema, a sua ALMA!

Namibiano Ferreira


Candongueiros


XÉ CANDONGUEIRO
 
Candongueiro tem pressa

Sobe na baúca
Não tem conversa
Condução louca
Pé no acelerador, velocidade
Não respeita prioridade!
Eh! Candongueiro dono da estrada
Ultrapassa pela direita
Manobra arrojada
Ultrapassa
Vuza na estrada estreita
“Trabalha não dá confiança”, tem pressa!

Candongueiro abarrotado
Não afrouxa na lomba
Leva gente p’ra mutamba
Pé no acelerador, velocidade
Dono da cidade
“Dinheiro trocado, dinheiro trocado!”

Eh! Candongueiro tem cobrador
Que grita: 1. de Maio, Maianga, Maianga…
Pé no acelerador, zunga-que-zunga
Abarrotado de gente
Não respeita cliente:
“Ou encosta ou desce meu senhor!”

Zé Pirão, São Paulo, Roque
“Não há maka emagrece meu kota”
Candongueiro manda na estrada
Leva gente do musseque
Gente enlatada
Roda batida é dono da rota!

“Trabalha não dá confiança”
Prenda, Mulembeira, Mulembeira
Leva gente do povo gente da praça
Candongueiro transporte do povo
Não é carro novo
Arranca levanta poeira!

Zunga-que-zunga sobe o passeio
Carro cheio
Xé candongueiro
Respeita passageiro
E espera prioridade
Candongueiro é dono da cidade!

Eh! Candongueiro é gente importante
No carro velho
Leva gente p’ro trabalho
Carrega gente descarrega gente
Ku Duro música alta
Xé candongueiro olha multa!

Décio Bettencourt Mateus (Angola)

In Xé Candongueiro!

Xé: atenção !, cuidado !

Candongueiro: espécie de mini-autocarros – normalmente Toyota Hiace ou Comuter, azul e brancos – que se dedicam ao transporte de pessoas.
Baúca: espaço adjacente à parte de trás dos bancos da frente, i.e. do motorista e outros.
Emagrece: em linguagem popular do candongueiro quer dizer que o cliente deve encostar-se o máximo que puder, para que outro cliente possa sentar-se.
Ku duro: estilo musical made in Angola, em moda.
Kota: mais velho, pessoa de respeito.

http://mulembeira.blogspot.com/

6 de abril de 2010

Blog da Semana - 02 - 2010

Esta semana o blogue é a Mulembeira. Blogue do poeta angolano Décio Bettencourt Mateus. Uma visita  a nao perder para quem é amante de boa poesia...
http://mulembeira.blogspot.com/

Décio Bettencourt Mateus


AS ONDAS DO NOSSO MAR



(À minha esposa, Eva Fraio).


Depois da salgadura
Das praias da ilha do nosso mel
N’algumas ondas do nosso mar
Um sopro de brisa a cantar
Um cântico afável
De amores e ondas de doçura!


Depois duma fúria d’enchente
A protestar rochas
E areias e conchas
No lago do nosso mar
Uma calmaria d’horizonte
A apascentar nossas águas a marejar!


E um bater d’ondas tranquilo
Na ilha do nosso Mussulo
A espumar amores pitorescos
Nas areias da praia
Das pedras da nossa baía
Um bater de cânticos românticos!


E serei os trajes do rei-sol majestoso
Nas ondas do teu mar
A navegar e arfar
Desejos e gozo
De estrelas-do-mar e luas
Nas ondas femininas das tuas águas!


Serei a doçura da salgadura
E bravura
Das ondas do nosso rio
Um murmúrio
D’amor a sussurrar
Coisas d’arco-íris nas ondulações do teu mar!


Décio Bettencourt Mateus
In Xé Candongueiro!


Luanda, 26 de Outubro de 2007.

24 de março de 2010

NEGRA DA TERRA

Foto K. Luchansky




Negra de carapinha dura
Não estraga teus cabelos,
Me jura.
(Teta Landu*)


Minha negra brinca a gingar
Magia da kianda
Negra anda-que-anda
E ginga-que-ginga
Andar de negra é banga
Andar de negra é cântico do mar!


Minha negra ginga elegante
Nas curvas duma viola
Nas ondulações duma mbunda
Negra ginga e rola
E encanta gente
Ginga e rola a negra linda!


Ginga de negra é cântico do mundo
Não usa coisas de tissagem
Usa tranças de bailundo
A negra jovem
E ginga-que-ginga a dançar
Ginga nas ondas do mar!


Minha negra mulher cristalina
Não usa coisas de postiços
Usa carapinha
E tranças de linha
E tem magia de feitiços
A preta africana!


Minha negra beleza genuína
Ginga-que-ginga
Dança-que-dança a preta angolana
Minha negra mulher da terra
Mulher negra
Penteado à africana!


Minha negra mulher formosa, mulher cheia
Mbunda farta
Não conhece cabeleireira alheia
Usa carapinha de preta
E traz na voz a tradição negra
Traz na voz o pulsar da terra!


Décio Bettencourt Mateus (Angola)
in Xé Candongueiro!


*Teta Landu: músico angolano.

Créditos: http://mulembeira.blogspot.com/

15 de março de 2010

DEBITAS-ME SILÊNCIOS…

 Á entrada de Mbanza Kongo (foto Alex. Correia)


Debitas-me silêncios
E reticências…
Quando na dureza da voz macia
Dos teus lábios
Ornamentas flores e lavras
No silêncio das tuas palavras!


Debitas renúncias
E crucificas-me as mazelas:
Teu olhar fala-me paisagens
Rosas e margens
A brincarem às estrelas
Quando finges silêncios e reticências…


E na dureza da ausência
Um sopro distante
Angustiante
Um silêncio de melancolia
Na voz da noite do luar
Uma eternidade nos dias a folhear!


Debitas-me silêncios
E açoites de negativas
Em palavras altivas
À noite murmuras balbucios
Ao frio d’almofada
E lamurias nossa paixão crucificada!


Asseveras-me a justiça
A transbordar motivos mil
Flechas e açoites
No mistério do frio das noites;
Uma taça
E champanhe: a noite convida-nos dócil!


Décio Bettencourt Mateus (Angola)
in "Xé Candongueiro".

2 de fevereiro de 2010

O JULGAMENTO

Uma maré de leis
Adormecidas em papéis
Uma severidade de martelo
Martela a sala
E o réu treme o cabelo
E se cala!




A toca do Juiz ajuiza
Uma sentença
De laboratório
O réu suspira um murmúrio
De esperança
E o Juiz ajuiza a causa!




Meritíssimo, o réu é inocente
Bradará a voz do céu
Na voz da gente
Da defesa do réu
E o Juiz ajuiza soberano
Montado no trono!




Meritíssimo, elevados
E importantes serviços prestou à nação
O réu. Rogamos absolvição
Bradarão advogados
O martelo da justiça martela
E a sala se cala:




Conduzam o réu à cadeia!
Sentenciará uma (in)justiça
De sentença
A multidão das gentes
Em surdina protesta e vaia:
Inocente, inocente, inocente…




O martelo da (in)justiça pavoneia
E (re)sentencia
Insistente:
Conduzam o réu à cadeia!
Inocente, inocente, inocente…
Clamará a surdina de enfurecida gente


Luanda, 26 de setembro de 2007.

Décio Bettencourt Mateus (Angola)


in "Xé Candongueiro" (cerimónia de lançamento efectuada em Luanda a 21 de Janeiro 2010)

http://mulembeira.blogspot.com/

18 de dezembro de 2009

O MEU AMO

O meu amo em fúrias
E falas de arrelias
Aportou mal-humorado ao palácio
Dos sonhos e silêncio
E num estrondo resoluto
Gritou ser amo e amante absoluto!


Trovejou fortes trovoadas
Arregaçou uma camisa
De costas corroídas de pobreza
E magreza
Trovejou às paredes de casa
E tempestuou páginas revoltadas!


Mostrou um peito desmusculado
Diluído em mágoas de álcool
E cansaços de sol
Um velho-peito-robusto
Desgastado e agastado
Em magras costelas de desgosto!


Gritou gestos abruptos
No vazio das panelas
Dos bolsos rotos
Gritou desespero às janelas
E resmungou um silêncio amuado
Um silêncio, o meu pobre amado!


Depois procurou meus mistérios
E o mansinho dos delírios
Conduziu-me a novos portos
Ressonou a nova aurora
Com ventos d’outrora
Ressonou um sonho de gemidos fartos!


Décio Bettencourt Mateus (Angola)
in Xé Candongueiro.
Luanda, 23 de Abril de 2007.

23 de novembro de 2009

UM HOMEM NUM McDONALD’s!


Próxima obra de Décio B. Mateus


Um homem das áfricas longínquas
Num McDonald’s das europas
A tremer o frio nas roupas
A esconder as mágoas
E miséria das terras ricas
E sofridas das áfricas!


Senta-se faminto num canto
O cansaço da África
A desilusão da Europa branca
No rosto esfomeado
Senta-se ao meu lado
A dor d’África no pensamento!


Traz a fome dos dias a roer
O homem num McDonald’s das europas distantes
A África e suas gentes
A roer, a moer
E um homem senta-se perdido nas europas
A tremer o frio nas roupas!


A África atrasada, distante
A poeira e gritaria de desentendimentos
Dos homens arrogantes
Europa, o paraíso, fica num além
Dissipado numa nuvem
E o “um homem” senta-se nos seus pensamentos!


E parte perdido na ilusão das europas brancas
A vergonha das áfricas ignorantes
E suas gentes
A barriga de fome a roer
A vergonha a doer
E um homem parte na desilusão das áfricas!




Décio Bettencourt Mateus (Angola)
in "Xé Candongueiro", seu mais recente título, a sair para breve.

http://mulembeira.blogspot.com/
 
 

21 de julho de 2009

POEIRA VOLTOU



Poeira, o chefe do posto
Voltou
Mudou de nacionalidade
Cor e rosto
E voltou com sua brutalidade
Mudou de nacionalidade e regressou!

Poeira voltou
Para kuatar os filhos dos outros
Para kuatar os filhos dos negros
Mudou de rosto
E regressou
Mudou de rosto e regressou para nosso desgosto!

Poeira voltou
E anda pelos musseques do Rangel, Sambizanga, Samba…
São Paulo, Baixa, Mutamba…
Poeira regressou
Para novamente kuatar os filhos dos outros
Para novamente kuatar os filhos dos negros!

E andam muitos, um, dois, três, quatro Poeiras…
Andam em carrinhas pela cidade
Atrás das vendedoras
Atrás das zungueiras, com brutalidade
Poeira voltou
E cabeças a abanarem de desgosto, hum, hum, Poeira regressou!

Poeira voltou
E desce da carrinha armado a correr
Desce da carrinha armado e toca a bater
Porrada na zungueira
Porrada na vendedora
E mãos na cabeça em lamentos, aiué, aiué, Poeira regressou!

Poeira voltou
Recebe o negócio das zungueiras
Bate nas vendedoras
E corrida com os ambulantes
Poeira voltou, kibutos apressados em cabeças descontentes
E pensamentos revoltados, hum, hum, Poeira regressou!

Poeira voltou
Kibutos espalhados no passeio
Ponta-pés impiedosos no negócio da vendedora
Ponta-pés no ganha-pão da zungueira
Poeira voltou, ponta-pés implacáveis no suor alheio
E corações ressentidos, hum, hum, Poeira regressou!

Poeira, o colono que kuatava os filhos dos outros
O colono que kuatava os filhos dos negros
Mudou de cor e voltou
Mudou de nacionalidade e regressou
Poeira voltou e bate na vendedora
Poeira voltou e recebe o negócio da zungueira!

Poeira, o chefe do posto
Mudou de nome e nacionalidade e voltou com outra cor e outro rosto!



Kuatar: agarrar, prender
Zungueira: vendedoura ambulante
Kibutos: coisas, pertences

Décio Bettencourt Mateus (Angola)

In “Os Meus Pés Descalços”

3 de novembro de 2008

OS MEUS PÉS DESCALÇOS




Os meus pés andantes
Procuram a palanca real, palanca negra
E desencantam as quedas de Kalandula
Quedas da minha terra
Oh é bela Angola
É bela Angola e são felizes os meus pés caminhantes

Os meus pés empoeirados
Acariciam subsolo rico, ouro negro a jorrar no alto mar
Ouro negro a jorrar no offshore
E no onshore
Ouro negro a brotar
Das entranhas do mar, para os meus pés esfomeados!

Os meus pés garimpeiros
Apalpam tesouros e mais tesouros
Minas de diamante, ferro, cobre, prata, ouro…
Debaixo dos meus ásperos
Minas de diamante debaixo dos meus pés maltratados
Debaixo dos meus pés esfomeados

Os meus pés camponeses
Galgam a terra, terra boa de agricultura
Terra boa de verdura
E farta de feijão, mandioca, milho, batata…
Terra boa, terra farta
Debaixo dos meus pés famintos e felizes

Os meus pés pescadores
Banham-se em mares ricos
Mares de garoupas, corvinas, carapau, mariscos…
E mergulham em rios fartos, Kwanza, Kubango
Keve, Bengo…
Águas fartas a banharem os meus pés sofredores

Os meus bolsos vazios
Vêem outros bolsos vazios aterrar desnutridos
E depois, bolsos cheios
A levantarem voo, a embarcar abastados

Bolsos cheios a embarcar com sorrisos
A embarcar abarrotados, oh que paraíso!





Os meus pés descalços
Clamam por migalhas, clamam por pedaços
Os meus bolsos vazios
Não clamam por milhões, não clamam por rios
Os meus bolsos vazios e os meus pés famintos
Clamam somente por migalhas, de alimentos!




Décio Bettencourt Mateus, in Os Meus Pés Descalcos



25 de agosto de 2008

A POESIA DE DÉCIO B. MATEUS



A poesía de Décio Bettencourt.
(texto em língua galega)



Angola sempre sorprende no que os seus poetas crean. De Décio Bettencourt Mateus (1967) chégame a súa primeira entrega poética, titulada: La furia del mar, publicada pola Editorial Nzila. Para un europeo resulta curioso que nun país que soportou máis de trinta anos de guerra e que os protagonistas bélicos tiveron tempo e sensibilidade para compor poesía. Este é o caso de Décio Bettencourt, que ten a graduación de tenente e, tamén, a licenciatura de Xeofísica pola facultade de Ciencias da Universidade Agostinho Neto de Luanda, para, ao final, traballar na industria petroleira.

A vida dos africanos é mesmo dolorosa e sempre procuraron con ela atopar camiños na tan difícil busca de circunstancias adversas. A biografía dos poetas angolanos está sempre cargada de profesións distintas para procurar saír de escuros labirintos. Isto é positivo para unha persoa que quere acadar un lugar nas letras do seu país, exhibindo outros traballos e outros estudos que sempre favorecerán varios aspectos poéticos tan matizados e particularizados.

La furia del mar, é un libro que se sustenta de varias entregas creativas que oscilan desde 1994 a 2003. Evidentemente, nove anos de distanciamento poden producir certa alteración na articulación do que se refire a tempo e a espazo. Digamos que a poesía angolana, desde xa hai bastantes anos, goza de maioría de idade e isto permite que os poetas non estean, nin deben estar, sometidos a ningún canon. Gozando xa dese permisismo, na poesía angolana, encontramos unha serie de referencias creativas de alto valor por espremerse sempre dentro duns parámetros existenciais. Estamos ante un poeta intimamente existencial e cunha economía poética esencialmente xirada aos problemas que o rodean e que non desexa distanciarse deles.

Décio Bettencourt Mateus sabe transcender na vida do común e, por iso, encontramos non poucas observacións e matices do que é verdadeiramente a vida tan particularizada do que se comparte en convivencia cos demais. Este poeta, en forma de crónica, sabe levar á poesía as vivencias dentro dun Candongueiro (autobús) nas súas diversas fases de soportar os tumultos e de facer amigos nesas turbias viaxes. Mais o impactante deste poeta é como procura centrar o seu discurso poético valéndose de circunstancias que el sabe asumir e tecer con habilidade.

Non cabe dúbida que Décio Bettencourt bebe da tradición da poesía angolana, da máis suxestiva e altamente en acorde co destacado de vivencias e referencias. Así o manifesta no poema, titulado: Dialogando com as estrelas. Un poema sobrio e pleno de mensaxes que irradian esa pureza en que se atopa o poeta. Con este tipo de poesía estamos, evidentemente, no contexto social da angolanidade máis determinativa e non exenta de realismo. Non falamos daquela poesía do realismo social. Neste poeta o social está desvencellado do realismo. Dúas percepcións articuladas para convivir autonomamente. Compor un poema nestas circunstancias non é fácil. Primeiro hai que mastigar a idea e dispor dunha certa intuición para non caer en erros que levaron a outros poetas angolanos a compor poesía de militancia e intervención de mala calidade. Resúltanos curioso que un home de armas non entre nese escenario discursivo tan propio e tan usado por guerrilleiros ante colonialistas que compuxeron unha poesía tan particular e exaltadora de eventos épicos.

La furia del mar é un libro que nos ilustra nesa crítica na que persoas e estamentos non fican exentas. Pode que o discurso exalte conciencias e lle marque rumbos a un lector interesado en afrontar e combater problemáticas, tan tipificadas nesa África profunda da cal nos fala Décio Bettencourt. A temática resúltanos interesante, innovadora e en moitos casos precoz, como enunciado de cambios desexados na sociedade angolana. Aquí verificamos a protesta dun autor autorizado a dicir o que observa e o que delibera no seu diálogo coa propia poesía. Este primeiro inventario poético pon a Décio Bettencourt nun obrigado e necesario segundo rexistro poético.
XOSÉ LUIS GARCÍA, in http://www.xoseloisgarcia.com/GaliciaHoxe/gh_1.htm

Poesia de Décio B. Mateus: http://mulembeira.blogspot.com/

15 de janeiro de 2008

A ZUNGUEIRA

O miúdo nas costas, faminto
O sol queimando
O sol assando
O miúdo nas costas, faminto de alimento
As moscas acariciando-o
E o lixo distraindo-o!

A zungueira zunga, cansada
Na cabeça, o negócio e o sustento
E nos pés empoeirados
O cansaço dos quilómetros galgados
O cansaço da distância percorrida
A zungueira zunga, o miúdo nas costas faminto!

A zungueira zunga, cansada
E vai gritando e berrando a plenos pulmões:
Arreou, arreou, arreou nos limões...
A zungueira zunga, empoeirada
E arreia o negócio, arreia o preço e faz desconto
Arreia o preço do sustento

O miúdo nas costas faminto
A lombriga na barriga rói, a lombriga pede
O miúdo nas costas, faminto de alimento
Chora e berra
Não é birra
É a fome que aperta, é a fome da sede!

A zungueira zunga, apressada
E arreia o negócio, arreia o preço:
Arreou, arreou, arreou no chouriço...
A zungueira zunga empoeirada
E arreia o preço do negócio
Arreia o preço da mercadoria, coisas do ofício

Depois, a viatura da fiscalização
Os travões chiam, as marcas dos pneus no asfalto
E os homens arrogantes a perseguirem
E a baterem
E a zungueira a fugir, e o negócio e o sustento
Caídos, espalhados no chão!

Depois vem o fiscal, também faminto,
“Você tem autorização?
Acompanha, isso é transgressão!”
A zungueira implora e mostra a fome:
Tem dois dias o miúdo não come
A lombriga na barriga precisa alimento!

O fiscal, também faminto
Arreia o lucro da zungueira cansada
E desesperada
Arreia o lucro, senão a zungueira vai presa
Senão a zungueira não volta a casa
E a zungueira cede, com medo no pensamento

Depois a zungueira chega a casa
De bolsos vazios, mas alívio no coração
E grata, afinal não foi presa
Afinal não foi à prisão
A zungueira chega a casa, o miúdo faminto
O miúdo sedento de alimento

Mas amanhã, a zungueira voltará a berrar
Amanhã a zungueira voltará a arrear:

Arreou, arreou, arreou em qualquer coisa…


Décio Bettencourt Mateus (Angola)
in "Os Meus Pés Descalços"

Zungueira: Mulher vendedora que deambula pelas ruas
Zungar: Deambular pelas ruas
Arreou, arreou (...): Em jeito de cântico, as mulheres anunciam a baixa dos preços

28 de maio de 2007

NOSSOS SONHOS DE NAMORO



Lembras-te, nós iríamos fazer longa viagem
Iríamos mergulhar
E explorar
As profundezas dos oceanos
Africanos
Nós iríamos sim fazer esta viagem miragem

Nós iríamos navegar o céu dos céus
Descobrir a linguagem do universo
Fazer amor em versos
E descobrir Vénus
Na essência do encantar
Descobrir Vénus na essência do amar!

Lembras-te, nós iríamos a correr descalços
Pelos campos, vales, montanhas …
Nossos pés acariciando as ervas daninhas
E o capim verde
Nós iríamos sim, em grandes abraços
Plantar árvores de felicidade!

Nós iríamos nos fundir com as estrelas
Conversar com elas
Dizer segredos a Júpiter, Saturno e Marte
Oh que sorte
Nós iríamos cobrir o infinito dos espaços
Com os nossos abraços!

Nós iríamos tomar banho na chuva vespertina
Chuva cristalina
Nossos corpos molhados
Juntinhos
E abraçadinhos
Nossos corpos em juras de amor, entrelaçados!

Depois gargalharíamos de coisas sem importância
Coisas banais, sem significância
Coisas do dia-a-dia
Gargalharíamos felizes
E faríamos as pazes
Por um qualquer desentendimento-mania

E ao cair do dia, ao cair do dia iríamos à ilha
Ver o pôr-do-sol acontecer
Que maravilha,
O sol penetrando no mar
O mar engolindo o sol, a amar
O sol e o mar em gemidos de amor de enlouquecer!

Depois, depois, nosso sonho esfumou-se
Nosso sonho evaporou-se …

Mas nós iríamos sim
Nós iríamos fazer estas coisas assim…


Décio Bettencourt Mateus (Angola)
in "Os Meus Pés Descalços"

24 de maio de 2007

Mulheres da minha terra



São todas belas
Elas
As mulheres
Que meus quereres
Se confundem
E perdem

Vejo Rosa
Formosa
E me encanta
Que canta
Meu coração
De emoção

Vejo Margarida
Querida
Alta
E esbelta
E é ela
A minha estrela

Vejo Teresa
Beleza
Baixinha
E cheinha
E por ela suspiro
E passo noites em claro

Vejo Bela
Gazela
Ternura
E candura
E logo meu coração
É todo paixão

Vejo Maria
Feia
Mas bela
Ela
No interior
E é meu grande amor

São todas belas
Elas
E muitas,
Pretas, albinas, brancas, mulatas...
Mas todas bonitas
Todas catitas
E belas!



Decio Bettencourt Mateus (Angola)
Na foto Miss Angola 2006 - quarta classificada no Miss Mundo 06)

15 de maio de 2007

CARTA DE UM ANGOLANO NO ESTRANGEIRO






















Partimos para a pedreira
Bem sabes que não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos,
Partimos para novamente sermos os contratados
E os explorados
Para sermos os sem eira nem beira

Mão de obra barata, partimos
Para construirmos e edificarmos
Com a força dos nossos braços vigorosos
E dos nossos peitos musculosos
Os prédios, as estradas, as pontes...
Em terras alheias, terras distantes

Partimos
Bem sabes que não é isto que queríamos
Tu que sonhaste com doutores e engenheiros
Agora tens-nos carpinteiros e pedreiros
A desenvolver países estrangeiros
Países dos outros

Partimos para sermos espancados
E levarmos bofetadas
Dos cabeças-rapadas
Partimos para sermos desdenhados
E chamados com desprezo, pretos!
Nestes lugares longínquos, lugares incertos

Partimos, mas não queríamos partir
Lá no Menongue queríamos construir
Os hospitais, as escolas, as pontes...
Lá queríamos erguer um arranha-céus
Para então gargalharmos desafiantes
Os brancos europeus
(Mas lá no Menongue, não aqui em Portugal
Que isto nos faz sentir mal)

Partimos
Bem sabes que nos forçaram a partir
Fugimos
Bem sabes que nos nos forçaram a fugir
Mas não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos

O que nós queríamos
O que nós desejávamos
É construir uma ponte
E uma auto-estrada gigante
Que unisse os corações dos angolanos,
É isto que desejamos todos estes anos

Partimos
Mas bem sabes mãe, não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos!


By Décio Bettencourt Mateus (Angola)
in "A Fúria do Mar"

http://mulembeira.blogspot.com