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4 de março de 2015

CADERNO DE SIGNIFICADOS


 

                                                              (Para Graça Pires)


Entre a finura dos dígitos
e o formato divino da mão
um caderno.
Leio uma cartilha poética,
são os significados da Graça.
Eles são salmos
e palmos de divina dimensão
habitando o quotidiano
de nosso humano coração.



Namibiano Ferreira

14 de janeiro de 2015

O ÚLTIMO LIVRO DE GRAÇA PIRES




Eu te baptizo em nome do mar,
disse minha mãe com barcos na voz.
E as ondas enlearam nas águas o meu nome,
abrindo nas fendas do corpo um impulso
salgado que me brandiu o sangue.
Sei agora que há âncoras afogadas
nos meus olhos: nítido eco de todas as demandas.


********

Entre mim e o mar
ainda me causa espanto a madrugada.
Sempre diferente. Sempre idêntica.
Tons de mel, de romã,
de diamante, de milho seco.
Sopro de sal, de sangue, de limos.
E, por trás das dunas,
a respiração dos amantes
sobressaltando as aves.



Graça Pires, in "Espaço livre com barcos" 




Graça Pires (Figueira da Foz, 1946) editou o seu primeiro livro em 1990, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro "Poemas". Depois disso publicou mais de uma dúzia de livros de poesia, muitos dos quais premiados. É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Obras publicadas:

Poemas. Lisboa: Vega, 1990
Outono: lugar frágil. Fânzeres: Junta de Freguesia da Vila de Fânzeres, 1993
Ortografia do olhar. Lisboa: Éter, 1996
Conjugar afectos. Lisboa: Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, 1997
Labirintos. Murça: Câmara Municipal de Murça, 1997
Reino da Lua. Lisboa: Escritor, 2002
Uma certa forma de errância. Vila Nova de Gaia: Ausência, 2003
Quando as estevas entraram no poema. Sintra: Câmara Municipal, 2005
Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos. Ed. autor, 2007
Uma extensa mancha de sonhos. Fafe: Labirinto, 2008
O silêncio: lugar habitado. Fafe: Labirinto, 2009
A incidência da luz. Fafe: Labirinto, 2011
Uma vara de medir o sol. São Paulo: Intermeios, 2012
Poemas escolhidos: 1990-2011. Ed. Autor, 2012
Caderno de significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2013

Prémios recebidos:

Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, com Poemas (1988)
Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, com Labirintos (1993)
Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres, com Outono: lugar frágil (1993)
Prémio Nacional de Poesia 25 de Abril, com Ortografia do olhar (1995)
Grande Prémio Literário do I Ciclo Cultural Bancário do SBSI, com Conjugar afectos (1996)
Concurso Nacional de Poesia Fernão Magalhães Gonçalves, com Labirintos (1997).
Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho, com Uma certa forma de errância (2003)
Prémio Literário de Sintra Oliva Guerra, com Quando as estevas entraram no poema (2004) 

3 de junho de 2014

NOVO HERBERTO HÉLDER - A MORTE SEM MESTRE


Porto Editora
ISBN: 978-972-0-04668-0 

«A Morte sem Mestre» é o mais recente livro de poesia de Herberto Helder. Escrito em 2013 e integralmente inédito, «Tudo quanto neste livro possa parecer acidental é de facto intencional» - «[...] peço por isso que um qualquer erro de ortografia ou sentido / seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro.», escreve-nos o autor.


Herberto Helder tem por hábito encadernar os seus livros com papel de embrulho castanho, escrevendo por fora com caneta de feltro vermelha o título e o nome do autor. A sobrecapa da presente edição evoca esse hábito, reproduzindo a sua caligrafia. É ainda incluído um CD, com cinco poemas lidos por Herberto.

10 de maio de 2014

HOLOCAUSTO BRASILEIRO - UM LIVRO DE CHOQUE

Editado agora em Portugal, um livro que resgata as vítimas do crime praticado 

 pelo Estado Brasileiro.


Sinopse:

Durante décadas, milhares de pacientes foram internados à força, sem diagnóstico de doença mental, num enorme hospício na cidade de Barbacena, em Minas Gerais. Ali foram torturados, violentados e mortos sem que ninguém se importasse com seu destino. Eram apenas epilépticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, meninas grávidas pelos patrões, mulheres confinadas pelos maridos, moças que haviam perdido a virgindade antes do casamento.
Ninguém ouvia seus gritos. Jornalistas famosos, nos anos 60 e 70, fizeram reportagens denunciando os maus tratos. Nenhum deles — como faz agora Daniela Arbex — conseguiu contar a história completa. O que se praticou no Hospício de Barbacena foi um genocídio, com 60 mil mortes. Um holocausto praticado pelo Estado, com a conivência de médicos, funcionários e da população.
____________________________

UM PUNGENTE RETRATO DE  ABANDONO E HORROR

Neste livro-reportagem fundamental, a premiada jornalista Daniela Arbex resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a  desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade.
Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças.
Quando chegavam ao hospício, suas cabeças eram raspadas, suas roupas arrancadas e seus nomes descartados pelos funcionários, que os rebatizavam. Daniela Arbex devolve nome, história e identidade aos pacientes, verdadeiros sobreviventes de um holocausto, como Maria de Jesus, internada porque se sentia triste, ou Antônio Gomes da Silva, sem diagnóstico, que, dos 34 anos de internação, ficou mudo durante 21 anos porque ninguém se lembrou de perguntar se ele falava.
Os pacientes da Colônia às vezes comiam ratos, bebiam água do esgoto ou urina, dormiam sobre capim, eram espancados e violados. Nas noites geladas da Serra da Mantiqueira, eram deixados ao relento, nus ou cobertos apenas por trapos. Pelo menos 30 bebês foram roubados de suas mães. As pacientes conseguiam proteger sua gravidez passando fezes sobre a barriga para não serem tocadas. Mas, logo depois do parto, os bebês eram tirados de seus braços e doados.
Alguns morriam de frio, fome e doença. Morriam também de choque. Às vezes os eletrochoques eram tantos e tão fortes, que a sobrecarga derrubava a rede do município. Nos períodos de maior lotação, 16 pessoas morriam a cada dia. Ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, 1.853 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos foram decompostos em ácido, no pátio da Colônia, diante dos pacientes, para que as ossadas pudessem ser comercializadas. Nada se perdia, exceto a vida.
No início dos anos 60, depois de conhecer a Colônia, o fotógrafo Luiz Alfredo, da revista O Cruzeiro, desabafou com o chefe: “Aquilo é um assassinato em massa”. Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia, pioneiro da luta pelo fim dos manicômios que também visitou a Colônia, declarou numa coletiva de imprensa: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como essa”.

Sobre a autora

Daniela Arbex é uma das jornalistas do Brasil mais premiadas de sua geração. Repórter especial do jornal Tribuna de Minas há 18 anos, tem no currículo mais de 20 prêmios nacionais e internacionais, entre eles três prêmios Esso, o mais recente recebido em 2012 com a série “Holocausto brasileiro”, dois prêmios Vladimir Herzog (menção honrosa), o Knight International Journalism Award, entregue nos Estados Unidos (2010), e o prêmio IPYS de Melhor Investigação Jornalística da América Latina e Caribe (Transparência Internacional e Instituto Prensa y Sociedad), recebido por ela em 2009, quando foi a vencedora, e 2012 (menção honrosa). Em 2002, ela foi premiada na Europa com o Natali Prize (menção honrosa).

Book trailer


Texto retirado de: http://geracaoeditorial.com.br/blog/holocausto-brasileiro/ 

23 de abril de 2014

PARA O DIA INTERNACIONAL DO LIVRO



Uma homenagem a um dos grandes escritores do mundo, falecido recentemente.


30 de março de 2014

NOVIDADE - Poema de Paulo Seco


Novidade

Existências variadas
Tempos incontáveis
Sombras infinitas iludindo verdades.


Falsas saudades
Auroras negras cheirando vómitos
Luares quebrando noites covardes...

Novidade transcendente
Mares que secaram corpos submersos
Buscando frustrações colossais...

Vidas, vidas, vidas!!!

Novidade.

Amores, sabores, finalidade mortal!
Novidade, combinações ambígenas!

Novidade.

Lombas incendiando passos pálidos.
Humor hipnótico...

Ilusão
Não é verdade.

É novidade
É novidade


Paulo Seco (Angola)

17 de setembro de 2013

O QUE ESTOU LENDO...


Quase sempre estou lendo. Muita gente se espanta de eu ler 2 , 3 ou mesmo 4 livros na mesma altura. Costumam me perguntar: "Não ficas confuso?" Não, não fico. Fico confuso se passo um dia sem o fazer, respondo. Neste momento, leio/releio  4 livros e 2 ebooks (estou a tentar habituar-me ao Kindle, ofereceram-me o ano passado mas ainda não o sinto como livro).

A razão desta postagem é o livro de Lucía Álvarez de Toledo, "The Story of Che Guevara", é em inglês, não sei se existirá versão portuguesa ou brasileira... mas aconselho vivamente a lerem esta biografia. Penso que é a melhor biografia que alguma vez li sobre o Comande. Não é o ícone que a autora apresenta aqui mas tão somente o homem: Ernesto Guevara de la Serna, El Ché.

 

Os outros livros são:

"Obra Poética" de Sophia de Mello B. Andresen

"Trabalho Poético" de Carlos de Oliveira

"Exemplos" de João Vário

Os ebooks:

"O Livro do Desassossego" de Bernardo Soares/Fernando Pessoa

"The Picture of Dorian Gray" de Oscar Wilde


12 de julho de 2013

POEMA DE JOÃO VÁRIO

João Vário (1937-2007) nasceu no Mindelo, Cabo Verde, e deixou uma obra poética extensa, mas pouco conhecida do grande público. Considerado pelos especialistas o maior poeta africano do século XX, nunca foi publicado em Portugal. 

Agora chega até nós Exemplos, um volume que reúne uma sequência de nove livros de poesia publicados entre 1966 e 1998. A Língua Portuguesa é, par exelence, uma Língua de poetas mortos, imagine-se, 
João Vário nunca foi publicado em Portugal....




Exemplos
Edição/reimpressão: 2013
Páginas: 312
Editor: Tinta da China
ISBN: 9789896711603




Há muito passado no estar aqui com o tempo,
Fim e reconhecimento, e não sofrendo nada mais do que o tempo concede,

Fim de novo e reconhecimento de novo
E tudo é crime, ou crime sempre, crime ou crime,
Criminosissimamente crime,
Quando arriscamos a intensidade, comemorando.
Aumento e festa, ou cilício, e tempo de cair e tempo de seguir,
Tempo de mal cair e tempo de mal seguir,
Oh amamos tanto, amamos tanto estar aqui com o tempo
E sabendo que há nisso pouco passado.
Porque maiores que os desígnios da vida
São os desígnios da medida e, divididos
Em dois por eles, com eles indo, se por eles
Ganhamos o tempo, pedimos a forma mais fácil
De indagar que vamos morrer e, um dia, se
O tempo for deles e, a memória, de outros,
Havemos de ser úteis como mortos há muito,
Sem que a causa, o delírio, a designação,
O julgamento nossa medida abandonem,
Dividida em duas por elas, e ganhando constância.

Depois, depois faremos ou fará o tempo, por sua vez,
Aquele blasfemíssimo comentário,
E então consta que amámos.


João Vário (Cabo Verde)



20 de junho de 2013

SOBRE O DESERTO - MANO DAYAK - TEXTO EM FRANCES

Je suis né avec du sable dans les yeux

Le désert ne se raconte pas, il se vit. Alors, comment trouver les mots qui pourraient traduire cette passion que le nomade éprouve pour son désert ? Pour ceux qui n’y ont pas vécu, il apparaît comme un grand espace vide, tandis que pour nous il est infiniment vivant. Comment expliquer cet amour que nous portons à cet environnement si aride et si difficile ?

L’homme est toujours profondément marqué par la terre qu’il habite. Toute sa personnalité est forgée à l’image de cette terre. En cela, le désert reste l’exemple le plus parfait de cette adaptation, de cette intégration de l’homme à son milieu. À l’image de la terre qu’il habite, le Touareg a su se faire humble pour survivre, mais aussi austère et fort pour se défendre. Il sait que, pour survivre, il doit s’adapter au désert, le comprendre, l’écouter. Car le désert sera toujours plus fort que l’homme. Il faut donc pour y vivre, autant de simplicité que de courage.

Le désert est pour moi extrêmement beau et pur, à la fois bouleversant et magique. Chaque fois que je me retrouve face au désert, il m’entraîne dans cet émouvant voyage en moi-même ou s’entrechoquent de nostalgiques souvenirs, les angoisses et les espoirs de la vie. C’est le désert qui m’a enseigné cette communication avec l’infini mystérieux. Le désert c’est le mystère du vent qui chasse devant lui les dunes et qui leur donne les formes les plus étranges avec les lignes les plus pures.
C’est le mystère de l’acacia perdu au milieu de ces étendues de sable comme l’oublié d’un autre temps. C’est le mystère de cette touffe d’herbes surgie de nulle part, poussant dans le sable surchauffé, fragile et vivace à la fois.

C’est l’herbe qui griffe le sable de signes cabalistiques, brin d’herbe devenu dans mon imaginaire le porte-plume des génies dessinant des messages comme autant de signes du destin. C’est encore le mystère de ces orages surgis de nulle part pour déverser leurs cataractes d’eau comme autant de torrents de vie.
C’est enfin le mystère de la gazelle, fragile et gracieuse, fugace apparition, et le mystère de l’addax, puissant maître de ces lieux, seul détenteur du savoir absolu car seul être vivant qui puisse tenir plusieurs années sans boire la moindre goutte d’eau. Il est aussi le seul qui ne respecte pas notre loi d’habitants du désert : « Aman Iman » « l’eau c’est la vie ». Pour l’addax, qu’importe l’eau, il vit.


Le désert, c’est tous ces miracles à la fois, autant de sujets d’émerveillement qui nourrissent cette passion qu’éprouve le Touareg pour le désert. Pour nous, nomades, il n’existe rien au monde de plus émouvant, de plus passionnant qu’une caravane sinuant dans les sables, rien de plus émouvant que la poésie d’un campement nomade à la tombée de la nuit, quand les feux s’allument, que les troupeaux rentrent. Cette heure sacrée pendant laquelle les dunes et le ciel joignaient leurs couleurs embrasées par le soleil couchant.

Qu’est-ce qu’un homme peut désirer de plus lors qu’il a le privilège de s’endormir chaque soir sous un ciel protecteur, un ciel semé de plusieurs millions d’étoiles qui se sont allumées pour illuminer ses rêves ?

Le désert, c’est, pour nous nomades, une passion profonde et absolue, des images que même la mort ne peut avoir le droit de nous enlever un jour. Le désert semble éternel à celui qui l’habite et il offre cette éternité à l’homme qui saura s’y attacher.

Mano Dayak (Níger)
Guerrilheiro tuaregue da liberdade.

Retirado do livro: Je Suis Né Avec du Sables dans les Yeux

18 de junho de 2013

MUADIÊ MARIA - O NOVO LIVRO DA MARTHA

O novo livro de Martha Galrão, uma carta bahiana bem bonita:




A minha avó Mariazinha era uma cabocla bem magrinha. Com os óculos na cabeça, ela perguntava: onde estão meus óculos, você viu?
Ela tinha uma parreira no quintal e fazia saquinhos de pano para proteger as uvas dos passarinhos.
Seu nome de batismo era Maria Salomé. Gostava de medicar as pessoas, uma vez pingou remédio pra ouvido nos olhos de alguém. E deu certo.
Católica convicta, ficou doida atrás de seu Santo Antônio, uma miniatura marrom. Achou no quarto de Lito, perfilado entre os soldados em guerra no Forte Apache.
Em um dos quartos da grande casa, tinha um nicho lindo, com muitos santos e velas. Lá, rezava todas as noites, pedindo que nada faltasse aos filhos, mas que nunca ficassem ricos. Era tão amiga dos santos, que até hoje nem um bisneto conseguiu enriquecer...
Brigou com Zé Fernando, meu primo, porque chupava um picolé em dia de chuva, mas emendou na mesma frase: "Com um frio desse, menino! Me dá um pedaço ...."
A minha vó trabalhava no correio da cidade de Ubaíra. Eu ficava fascinada com tanta correspondência. Não tenho palavras pra descrever essa emoção de estar no correio onde minha avó trabalhava, na intimidade de quem toca todas as cartas.
A minha avó Mariazinha queria que eu fosse uma boa menina. Ainda sofro até hoje por não saber ser assim tão boazinha. O meu pai sempre falava: dona Mariazinha era uma santa!

Eu enjoada, vomitando a alma, deitada no colo da minha avó. A minha avó fazendo o sinal da cruz onde afligia e dizendo: Nossa Senhora passou por aqui com seu cavalinho comendo capim.

Martha Galrão (Brasil - Bahia)

3 de junho de 2013

FOI ASSIM


“Foi Assim”, o livro escrito por Zita Seabra é um fascinante relato da vivência pessoal da autora como militante do PCP. Uma militância que se iniciou nos bancos do Liceu e que culminou na sua expulsão do Partido de Cunhal. Uma vida que não foi fácil porque passou a sua adolescência na clandestinidade. Ler este livro é, não só, conhecer o trajecto político de uma jovem que anseia por liberdade mas, também, a vivência de um país amordaçado por uma ditadura fascista que algemou a alma portuguesa por cerca de 50 anos.
O registo de Zita Seabra é uma fantástica aula de História, atravessando o período conturbado do PREC (Processo Revolucionário em Curso) e Verão Quente e os acontecimentos do 25 de Novembro de 1975. Ao mesmo tempo, é também, a história (trágica) do Comunismo português e internacional.

Leitura fácil e agradável, uma vez começada, vai ser difícil parar. Ler este livro é essencial.

Namibiano Ferreira

5 de fevereiro de 2013

A CHUVA DE MARIA



A Chuva de Maria, livro de poemas da minha amiga Martha, abre com este poema:




I
Queria ser só
o que de vento se veste:  
poeira, grão, semente, algodão

queria ser só o que flutua:
pena, flauta, balão.

No dia ser borboleta
na noite ser mariposa
só delicadeza eu seria:
vaga-lume, orvalho, seixo, lágrima, canção.

Mas também sou tudo
que padece:
pedra, amargura, solidão

mas também sou tudo
que afunda: pedra, cadáver, escuridão

Martha Galrão,(Brasil)
in A Chuva de Maria
Editora Kalango
ISBN 978-85-89526-40-1

5 de junho de 2012

GENTE DE MULHER

Brevemente nas bancas, o mais recente livro do poeta angolano, Décio Bettencourt Mateus.






MEU POEMA ACORDA DORIDO!

                                                           À memória de Luzia Bettencourt M.,
                                                           minha mãe.

Manhã virgem manhã cedo
meu poema acorda dorido
manhãs frias
vai à igreja vai à missa
em pernas de pressa:
ó Senhor pão às minhas crias.

Meu poema sofre a madrugada
a espreitar a aurora
acarreta água ensonada
enche bidão enche tamborão
de olho na torneira
música sofrida no coração.

Dorme insónias na noite escura
acorda constrangido a praça
a vender gelados
compra esperança
recebe troco ternura
bem diz os kwanzas bem diz trocados.

Caminha um sol abrasador
preocupação no rosto
meu poema tem dor
a rusga a falar serviço militar
a rusga: kwata-kwata miúdos a passear
kwata-kwata miúdos, oh desgosto!

Meu poema desperta alvorecer
lava roupa amontoada no tanque
rebenta mãos de sofrer
vende gelo no Roque
e sofre filho fugidio emigrado
filho mwangolé exilado.

Meu poema dorme cansado
é pai mãe marido mulher...
cuida os miúdos
atende o marido
dorme dorido prazer
dorrme dorido sonho de trocados.

Meu poema dobra joelhos em manhãs frias:
ó Senhor pão às minhas crias!

Décio Bettencourt Mateus
in Gente de Mulher

Luanda, 10 de Agosto de 2006.

29 de novembro de 2011

CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE - HALF OF A YELLOW SUN




De momento leio "Half of a Yellow Sun"  que nao sei se existe traducao em portugues. Se existir talvez se chame "Metade de um Sol Amarelo" ou, simplesmente, "Meio Sol Amarelo". 
Um livro sobre a guerra do Biafra, no final dos anos 60 do século passado. A escritora, Chimamanda Ngozi Adichie, para além de bela é uma jovem mulher cheia de talento e de uma maturidade que só se alcanca ao fim de muitos anos de vida. Aconselho a leitura desta escritora nigeriana. Junto um vídeo (legendado em portugues) de uma palestra dada pela escritora: "O perigo de uma única história".






8 de setembro de 2010

OS LIVROS QUE LI NAS FÉRIAS

Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil
Leandro Narloch
LeYa



Escrito para qualquer um ler e ficar informado. O autor faz acompanhar o livro por uma extensa bibliografia, o que lhe dá um crédito favorável e positivo, para quem tiver tempo para verificar a veracidade dos assuntos tratados.
Alguns dos temas abordados neste livro trazem factos novos, desconhecidos e polémicos, por exemplo:
Zumbi, no seu quilombo, tinha escravos.

Machado de Assis, antes de se tornar escritor de renome, foi crítico de literatura e teatro nos jornais. O governo de D. Pedro II o contratou para chefiar a censura às peças de teatro.

José de Alencar pronunciou-se repetidas vezes contra o fim da escravidão, chegando a escrever cartas ao Imperador sobre isso.

O jovem Jorge Amado escreveu textos elogiando Stalin, o que não surpreende, dado que ele era comunista, mas também elogiando Hitler!

Gilberto Freire (autor de Casa Grande & Senzala) admirava a Ku Klux Klan. A sua dissertação de mestrado nos EUA em 1922 contém elogios à confraria racista. Ao republicá-la em 1964 ele expurgou esses trechos.

 
O Vendedor de Passados
José Eduardo Agualusa
Publicações D. Quixote

Um exerto do livro: Nasci nesta casa e criei-me nela. Nunca saí. Ao entardecer encosto o corpo contra o cristal das janelas e contemplo o céu. Gosto de ver as labaredas altas, as nuvens a galope, e sobre elas os anjos, legiões deles, sacudindo as fagulhas dos cabelos, agitando as largas asas em chamas. (...) A semana passada Félix Ventura chegou mais cedo e surpreendeu-me a rir enquanto lá fora, no azul revolto, uma nuvem enorme corria em círculos, como um cão, tentando apagar o fogo que lhe abrasava a cauda.
“Ai, não posso crer! Tu ris?!”
Irritou-me o assombro da criatura. Senti medo mas não movi um músculo.

 
 
A Governanta - D. Maria, Companheira de Salazar
Joaquim Vieira
Esfera dos Livros

Vendo chegar a viatura oficial com o porta-bagagem carregado de lenha, o chefe do Governo gritou irado à sua governanta: «Os carros do Estado não são para carregar lenha! Não consinto!». A mulher não se ficou e gritou no mesmo tom: «Merda! A lenha não é para mim, é para o Salazar!» Quem se atreveu a gritar assim a António de Oliveira Salazar, homem temido e respeitado por todos, foi Maria de Jesus Caetano Freire, a sua dedicada e fiel companheira ao longo de toda uma vida. Nascida no seio de uma pobre família camponesa no lugar de Freixiosa da freguesia de Santa Eufémia, no concelho de Penela, distrito de Coimbra, aos 31 anos começou a servir os então lentes universitários e amigos Manuel Gonçalves Cerejeira e António de Oliveira Salazar. Seguiu este último para Lisboa (ao mesmo tempo que o primeiro subia ao lugar mais alto da hierarquia católica em Portugal) e só o abandonou quando, aos 81 anos, o ditador morreu por doença. Maria de Jesus tinha cumprido a missão da sua vida. Nunca casou, nem teve filhos. Mulher dura, forte, atenta, de uma dedicação canina, foi intendente, organizadora das lides domésticas, secretária, companheira, portadora de recados e pedidos, informadora de murmúrios e opiniões que mais ninguém se atrevia a expressar, conselheira e até enfermeira, nos seus últimos tempos de vida, do fundador e líder do Estado Novo. D. Maria foi tudo isto, e por isso merece um lugar de destaque na História do século XX português.

 
 
Imitação de Sartre & Simone de Beauvoir
João Melo
Ed. Caminho
Usando as palavras de Agualusa: Este livro “reúne dez estórias de gente comum, estórias de gente que se encontra e, sobretudo, se desencontra, a maior parte das vezes em confronto com a realidade que de repente deixou para eles de fazer sentido. (...)João Melo recorre a artifícios vários, ora introduzindo elementos de surpresa (...) ora convidando o leitor a escolher entre diferentes termos ou percursos, num constante jogo de sedução. Consegue com isso um ritmo espantoso, quase cinematográfico.

17 de junho de 2010

TSIETSI MASHININI - UM HERÓI

Tsietsi Mashinini







Só é pena estar em alemao...

Se tiverem oportunidade visitem o site da Cirandeira, ela fez uma postagem para comemorar a Revolta do Soweto de 1976: http://giramundo-cirandeira.blogspot.com/2010/06/africa-do-sul.html#comment-form

Teboho "Tsietsi" MacDonald Mashinini (born January 27, 1957 in Central Western Jabavu, Soweto, South Africa, died summer, 1990 in Conakry, Guinea) was the primary student leader of the Soweto Uprising that began in Soweto and spread across South Africa in June, 1976.

Mashinini was a bright, popular and successful student at Morris Isaacson High School in Soweto where he was the head of the debate team and president of the Methodist Youth Guild.
A move by South Africa's apartheid government to make the white, colonial language Afrikaans an equal mandatory language of education for all South Africans in conjunction with English was extremely unpopular with black, Bantu and English-speaking South African students.
A student himself, Mashinini planned a mass demonstration by students for June 16, 1976. This demonstration which would become known as the Soweto Uprising lasted for three days during which several hundred people were killed, the majority of them black students.
Having been identified as the leader of the uprising by the South African government, Mashinini fled South Africa in exile, first to London then later to various other African countries, including Liberia where he was briefly married to Miss Liberia 1977, Welma Campbell.
He died under mysterious circumstances, possibly of AIDS, possibly of homicide, in the summer of 1990 while in exile in Guinea. His body was repatriated to South Africa on August 4, 1990 where he was interred in Avalon Cemetery. His grave bears the epitaph "Black Power."

(Biografia retirada de Wikipedia)
 
 
 
Se tiverem a oportunidade aconselho este livro, A Burning Hunger - One Family's Struggle Against Apartheid. Nao sei se existe traducao em portugues, mas é um excelento livro escrito pela americana Linda Schuster. A Burning Hunger conta a história dos Mashinini, da Revolta do Soweto e claro está do próprio regime racista do Apartheid.

18 de novembro de 2008

POESIA ÁRABE DA PENÍNSULA IBÉRICA


É uma poesia muito esquecida, acredito que perca ao ser traduzida para português, mas merecia mais atenção dos estudiosos universitários e não só. Nas universidades portuguesas não existia (não sei agora) nenhum curso ou cadeira sobre a cultura árabe ou moçárabe do "Portugal" mourisco. Era importante que houvesse até para divulgação e preservação deste património que se poderá perder. A Universidade do Algarve seria a mais vocacionada por todas as razões que se conhecem. Mas as outras também. Se quiserem conhecer mais da poesia luso-árabe que se fez no território que hoje é Portugal aconselho-vos este livro:


Autor: Adalberto Alves
Editora: Assírio &, Alvim
ISBN: 972-37-0501-X

Apelo


Ó Dona dos Corações,
em ti talvez

Esteja a causa do tormento do cantor.
Ainda uma vez
Diz adeus a quem te quer,
E que, sem ti,
por nada sente amor.
É que, se por acaso,
longe surges na lembrança
Por ti choro pranto de criança.

Ibn Habib, que viveu na Silves almorávida - séc. XI

Sinopse:

O Meu Coração é Árabe revelou ao grande público português a sua herança poética árabe. São trezentas páginas preenchidas maioritariamente pela lírica de quarenta e sete poetas árabes que nasceram no espaço sul do Portugal hodierno. É uma poética refinada e densa, que fala do amor, da injustiça da morte, do quotidiano. Rica na sua expansividade, densa na emoção, esta poesia é também um alicerce, juntamente com a dos cancioneiros, do sentir poético português. Deve-se a Adalberto Alves este livro de paixão.

3 de novembro de 2008

OS MEUS PÉS DESCALÇOS




Os meus pés andantes
Procuram a palanca real, palanca negra
E desencantam as quedas de Kalandula
Quedas da minha terra
Oh é bela Angola
É bela Angola e são felizes os meus pés caminhantes

Os meus pés empoeirados
Acariciam subsolo rico, ouro negro a jorrar no alto mar
Ouro negro a jorrar no offshore
E no onshore
Ouro negro a brotar
Das entranhas do mar, para os meus pés esfomeados!

Os meus pés garimpeiros
Apalpam tesouros e mais tesouros
Minas de diamante, ferro, cobre, prata, ouro…
Debaixo dos meus ásperos
Minas de diamante debaixo dos meus pés maltratados
Debaixo dos meus pés esfomeados

Os meus pés camponeses
Galgam a terra, terra boa de agricultura
Terra boa de verdura
E farta de feijão, mandioca, milho, batata…
Terra boa, terra farta
Debaixo dos meus pés famintos e felizes

Os meus pés pescadores
Banham-se em mares ricos
Mares de garoupas, corvinas, carapau, mariscos…
E mergulham em rios fartos, Kwanza, Kubango
Keve, Bengo…
Águas fartas a banharem os meus pés sofredores

Os meus bolsos vazios
Vêem outros bolsos vazios aterrar desnutridos
E depois, bolsos cheios
A levantarem voo, a embarcar abastados

Bolsos cheios a embarcar com sorrisos
A embarcar abarrotados, oh que paraíso!





Os meus pés descalços
Clamam por migalhas, clamam por pedaços
Os meus bolsos vazios
Não clamam por milhões, não clamam por rios
Os meus bolsos vazios e os meus pés famintos
Clamam somente por migalhas, de alimentos!




Décio Bettencourt Mateus, in Os Meus Pés Descalcos