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14 de janeiro de 2015

O ÚLTIMO LIVRO DE GRAÇA PIRES




Eu te baptizo em nome do mar,
disse minha mãe com barcos na voz.
E as ondas enlearam nas águas o meu nome,
abrindo nas fendas do corpo um impulso
salgado que me brandiu o sangue.
Sei agora que há âncoras afogadas
nos meus olhos: nítido eco de todas as demandas.


********

Entre mim e o mar
ainda me causa espanto a madrugada.
Sempre diferente. Sempre idêntica.
Tons de mel, de romã,
de diamante, de milho seco.
Sopro de sal, de sangue, de limos.
E, por trás das dunas,
a respiração dos amantes
sobressaltando as aves.



Graça Pires, in "Espaço livre com barcos" 




Graça Pires (Figueira da Foz, 1946) editou o seu primeiro livro em 1990, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro "Poemas". Depois disso publicou mais de uma dúzia de livros de poesia, muitos dos quais premiados. É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Obras publicadas:

Poemas. Lisboa: Vega, 1990
Outono: lugar frágil. Fânzeres: Junta de Freguesia da Vila de Fânzeres, 1993
Ortografia do olhar. Lisboa: Éter, 1996
Conjugar afectos. Lisboa: Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, 1997
Labirintos. Murça: Câmara Municipal de Murça, 1997
Reino da Lua. Lisboa: Escritor, 2002
Uma certa forma de errância. Vila Nova de Gaia: Ausência, 2003
Quando as estevas entraram no poema. Sintra: Câmara Municipal, 2005
Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos. Ed. autor, 2007
Uma extensa mancha de sonhos. Fafe: Labirinto, 2008
O silêncio: lugar habitado. Fafe: Labirinto, 2009
A incidência da luz. Fafe: Labirinto, 2011
Uma vara de medir o sol. São Paulo: Intermeios, 2012
Poemas escolhidos: 1990-2011. Ed. Autor, 2012
Caderno de significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2013

Prémios recebidos:

Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, com Poemas (1988)
Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, com Labirintos (1993)
Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres, com Outono: lugar frágil (1993)
Prémio Nacional de Poesia 25 de Abril, com Ortografia do olhar (1995)
Grande Prémio Literário do I Ciclo Cultural Bancário do SBSI, com Conjugar afectos (1996)
Concurso Nacional de Poesia Fernão Magalhães Gonçalves, com Labirintos (1997).
Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho, com Uma certa forma de errância (2003)
Prémio Literário de Sintra Oliva Guerra, com Quando as estevas entraram no poema (2004) 

19 de dezembro de 2014

POEMA PARA A QUADRA NATALÍCIA 2: GRAÇA PIRES - SOMENTE POERQUE É NATAL

     

Somente porque é Natal


     ele veio nascer à minha porta
     como se fora eu a sua mãe.
     É de linho o pano que cobre
     meus braços,levemente
     encurvados, para neles caber
     o berço de embalar
     o menino sem presépio.
     A pausa do vento
     a preparar a neve
     lembra-me  o desamparo
     de outras crianças, tantas,
     a quem a fome quebranta o choro.
     E digo: venham habitar
     para sempre o meu poema
     como se fossem meus filhos.


    

     Graça Pires (Portugal)

17 de abril de 2014

SOMBRA

Foto: Nelson Gandra


Vem, senhora das trevas
trazer-nos os contornos da luz
nos sulcos da noite
para que a extrema alvura dos gladíolos
ponha em nossas mãos aquele brilho,
quase divino, que só as sombras guardam
na vertical alteração de cada hora.


Graça Pires (Portugal)

De Caderno de significados, 2013

13 de março de 2014

DOIS POEMAS DE GRAÇA PIRES

A poesia de Graça Pires é de uma enorme sintonia dentro de mim. Se quiserem um conselho, visitem o seu blogue, Ortografia do Olhar http://ortografiadoolhar.blogspot.co.uk/  vão ver que vai valer a pena.

Cézanne


Paciência

Hoje, pela tarde, fiz doce de tomate
e compota de maçã conforme velhas
receitas que minha mãe me ensinou.
Tu agradado de seres homem
ficaste frente ao mar ouvindo
Schubert (ou era Mozart?)
Mais tarde elogiaste muito os doces
e a paciência das mulheres para estas coisas.

Graça Pires (Portugal)
em Caderno de Significados, 2013

 Jean Dieuzaide


Com a chuva atravessada nos olhos

Vivem na linha costeira dos continentes
com a chuva atravessada nos olhos.
Respiram demoradamente o odor salgado
das algas que lhes perturbam o corpo.
Enfeitam os pulsos com amuletos feitos de búzios
vermelhos para que o medo das noites de temporal
não os ponha em frente da morte
quando, sonâmbulos, escondem o olhar
à lenta agonia dos peixes.

Graça Pires (Portugal)

em Uma Vara de Medir o Sol, 2012

8 de dezembro de 2013

Há um homem à entrada dos meus sonhos

                                                                         

                                                                                              
                                                    Recordando Nelson Mandela, sempre



Desato o sono e sento-me numa pedra, mais perto de mim.
E vi-o de novo.
Tão sereno como uma vereda para a nascente.
Digo, então, que há um homem à entrada dos meus sonhos.
Traz, nas mãos, promessas de trigo
e, no olhar, a alegria, presa por um fio.
Espanta-me a facilidade com que chora.
Deve ser por isso que existe um rio na minha insónia
e não posso ignorar a limpidez dos seus olhos.


Graça Pires (Portugal)

Postagem retirada na íntegra do blog:

22 de outubro de 2008

Mãos

Os nomes que dei às mãos
desenham-se tão perto de mim
que compreendo o desejo sem fantasmas.

Nos dedos principiam as marés
e neles se misturam o reflexo e a máscara
de regressos e errâncias por equacionar.

Os olhos não se fixam na geografia
visível das linhas. Os corpos deixam
de ser um cais. O mar estremece
nos ossos como um sismo.

O primeiro sinal de naufrágio
percebe-se na palma da mão
mesmo quando os barcos
passam ao largo do nosso desalento.

Rente à solidão.

Na trajectória do vazio
onde inventamos os sons.

Graça Pires (Portugal)

14 de outubro de 2008

SAIRAM BARCOS...




Saíram barcos do meu peito
De um instante para o outro,
saíram barcos do meu peito,
à procura do mar da minha infância:
o sangue paterno agitando o coração.
Acumulo imagens sobre imagens.
Entrecruzo palavras antigas.
Um imenso arco-íris humedece-me
o rosto de cores garridas.
Aves costeiras,
nascem-me na boca,
como se uma tempestade ardesse,
imensa, em minha língua.




Graça Pires (Portugal)




Nasceu na Figueira da Foz, 22 de Novembro de 1946) É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.Editou o seu primeiro livro em 1988, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro Poemas.