8 de junho de 2010

O CORACAO MILITANTE DE JACINTA PASSOS

Mulher, feminista, comunista, separada do marido, empobrecida, louca. Muitos foram os estigmas que Jacinta Passos enfrentou. Sua trajetória de vida absolutamente singular, bem como sua fidelidade às ideias e valores que elegeu, levaram-na a chocar-se diuturnamente contra tudo e todos, na contramão do tempo. Seus embates foram duríssimos. Não fugiu a nenhum. Ao contrário, parece que os buscou. Pagou um preço pessoal muito alto pelas escolhas que fez. Jamais se apresentou como vítima. Caneta e lança na mão, escudo de ferro no peito, foi como guerreira que se apresentou, lutando até o último dia de vida contra muitos, inclusive contra uma parte de si mesma. Venceu, foi derrotada e recomeçou várias vezes, sem nunca ter perdido de todo a ternura, como aconselhava Che Guevara – o Che da Revolução Cubana que ela tanto admirou –, pois foi poeta até morrer.



Jacinta Passos *


Este é o primeiro parágrafo da biografia de minha mãe que escrevi, e que consta do livro Jacinta Passos, coração militante, que será lançado no dia 8 de junho, terça-feira próxima, no Espaço Unibanco de Cinema Gláuber Rocha, na Praça Castro Alves, Salvador, de 18 às 21 horas. O volume reúne a obra completa em verso e prosa de Jacinta, inclusive inéditos, sua fortuna crítica e ensaios escritos especialmente para a edição. Em breve, o livro, que é uma coedição da Corrupio e da Edufba, estará nas livrarias do país, inclusive nas virtuais. A partir da próxima semana, já poderá ser comprado pelo site da Edufba.


*Inagen: Jacinta Passos, década de 1930.

Postagem retirada na íntegra do blog: http://enredosetramas.blogspot.com/

1 de junho de 2010

Blog da Semana - 09-2010

Trago-vos hoje, para o Blog da Semana e pela primeira vez, um blog nao lusófono mas pertinho da nossa lusofonia, de habla castellana. Trata-se do blog argentino: Lisarda Baila Cumbia (http://lisarda.blogspot.com/)

Foto do blog Lisarda Baila Cumbia


Borges, Oda escrita en 1966

Nadie es la patria. Ni siquiera el jinete

Que, alto en el alba de una plaza desierta,
Rige un corcel de bronce por el tiempo,
Ni los otros que miran desde el mármol,
Ni los que prodigaron su bélica ceniza
Por los campos de América
O dejaron un verso o una hazaña
O la memoria de una vida cabal
En el justo ejercicio de los días.
Nadie es la patria. Ni siquiera los símbolos.


Nadie es la patria. Ni siquiera el tiempo
Cargado de batallas, de espadas y de éxodos
Y de la lenta población de regiones
Que lindan con la aurora y el ocaso,
Y de rostros que van envejeciendo
En los espejos que se empañan
Y de sufridas agonías anónimas
Que duran hasta el alba
Y de la telaraña de la lluvia
Sobre negros jardines.


La patria, amigos, es un acto perpetuo
Como el perpetuo mundo. (si el Eterno
Espectador dejara de soñarnos
Un solo instante, nos fulminaría,
Blanco y Negro relámpago, Su olvido.)


Nadie es la patria. Pero todos debemos
Ser dignos del antiguo juramento
Que prestaron aquellos caballeros
De ser lo que ignoraban, argentinos,
De ser lo que serían por el hecho
De haber jurado en esa vieja casa.
Somos el porvenir de esos varones
La justificación de aquellos muertos;
Nuestro deber es la gloriosa carga
Que a nuestra sombra legan esas sombras
Que debemos salvar.
Nadie es la patria, pero todos los somos.
Arda en mi pecho y en el vuestro, incesante,
Ese límpido fuego misterioso.

José Luís Borges (Argentina)

28 de maio de 2010

LÍNGUA: SABOR & SABEDORIA

Uma representacao de Oxalá


Fotos e texto extraídos do blog Cirandeira*



Oxalá é considerado como o criador do mundo, embora diga-se também, que na hora de fazê-lo tenha bebido demais de um certo vinho de palma, passando o encargo, então, a Odudua.
A mitologia africana tem isto de belo: possui sempre variantes de um mesmo mito - o que, longe de confundir, apenas enriquece as possibilidades de compreensão do mundo.
Neste mito que começamos a contar agora, vemos Oxalá na condição de regente do mundo. Como um bom deus da criação, ele está pensativo.
"Orunmilá tem se mostrado como um dos deuses mais sábios e ponderados", pensa o deus do pano branco. "Acho que está na hora de elevá-lo a um grau de importância maior neste mundo".
Uma dúvida, porém, muito comum nestes casos, impede a decisão final do deus.
"É inteligente, mas terá sabedoria suficiente para ocupar o cargo que pretendo oferecer-lhe?"
É preciso, pois, testar a sabedoria do deus.
- Já sei! - exclama Oxalá, dando um tapa na testa - Vou aplicar-lhe um teste de sabedoria!
No mesmo instante manda Exu, o deus mensageiro, trazer Orunmilá até si.
- Aqui estou, grande deus - diz Orunmilá.
- Meu querido amigo, quero que me faça algo.
- Pois não, grande deus.
- Quero que me prepare o melhor prato do mundo.
Orunmilá, que não era exatamente um cozinheiro, meio que vacilou.
- O melhor prato do mundo?
- Sim, aquele que esplende não só no sabor, como na sabedoria.
" Um prato que esplende tanto no sabor quanto na sabedoria!", pensa Orunmilá, a coçar a cabeça.
- Está bem, grande deus, terá o seu prato sábio e saboroso - diz ele, numa súbita iluminação.
Orunmilá sai correndo dalí e começa a preparar o tal prato. Dalí a algumas horas retorna com uma grande travessa fumegante.
- Trouxe o prato que lhe pedí? - diz Oxalá, a lamber-se todo.
- Sim, grande deus, aqui está o mais sábio e saboroso dos pratos.
Oxalá espiou para o interior da travessa e viu uma grande língua de touro cozida com inhame.
- Hum, esté belo, de fato! - disse o deus, lambendo-se todo outra vez. - Mas diga-me uma coisa: por que escolheste este prato para ser o mais perfeito de toda a culinária?
- É que além de ser muito saboroso, traz em si uma mensagem implícita.
- Uma mensagem implícita?
- Sim, a língua em sí é um símbolo muito poderoso. Por ela, podemos desejar saúde para os outros. Por ela, podemos falar bem dos amigos e proclamar a retidão e a justiça. Por ela, podemos exaltar os deuses e todas as virtudes que a eles conduzem. São incontáveis, enfim, os bens que uma língua pode produzir!
Oxalá ficou tão satisfeito com a resposta que abraçou Orunmilá depois de comer a língua inteira.
- Sua resposta mostrou-se tão sábia quanto seu prato mostrou-se delicioso! Agora,
meu querido amigo, quero que me prepare a pior comida possível!
Orunmilá embatucou outra vez.
- A pior comida possível?
- Exatamente.
Orunmilá levou consigo a travessa e esteve o restante do dia a preparar a pior comida possível, até que, já quase ao entardecer, retornou com sua travessa repleta outra vez.
Oxalá olhou para a travessa fumegante com o nariz torcido.
"O que será que ele trouxe?", pensou, certo de que veria algo inteiramente repugnante.
Entretanto, quando Ifã desceu do alto a sua travessa, lá estava outra vez a língua do touro acomodada entre os inhames.
- Língua de touro outra vez? - exclamou Oxalá, com uma nota de decepção em sua voz.
- Sim, grande deus!
- Mas não entendo! Como a língua pode ser ao mesmo tempo a melhor e a pior comida possível?
- Pode ser a pior também, grande deus, porque, com a língua os homens podem cometer perjúrio contra os deuses e contra eles próprios. Podem caluniar e intrigar. Podem dizer mentiras e induzir ao erro uma alma boa e ingênua. São incontáveis, enfim, os males que uma língua pérfida pode cometer!
- Sábias palavras, disse o deus.
Por causa das duas sapientíssimas respostas que escutou, Oxalá tornou Orunmilá o primeiro babalorixá do mundo, palavra africana que significa "pai dos segredos".


Extraído de "As melhores histórias da mitologia africana", de A.S.Franchini e Carmen Seganfredo - Artes e Ofícios Editora Ltda., 2008



27 de maio de 2010

DOIS POEMAS DE NITO ALVES

Nito Alves (foto Associacao 27 de Maio)


PORTAS FECHADAS


Como se fecharam
Como estão encerradas
Como não se abrem
As portas para estas paragens
Para esta Região
Onde se luta
Onde as populações perecem
Onde os guerrilheiros triunfam
Triunfam
Triunfam
E morrem morrem na flor da juventude;
Onde as crianças se julgam abandonadas
Onde o cerco inimigo aperta
Mas… onde as vontades
E as consciências declaram:venceremos.


Silêncio nas consciências
Silêncio no pensar
Silêncio na madrugada
Silêncio
Silêncio nas massas populares
Silêncio no coração dos camponeses
Silêncio no quartel do guerrilheiro
Silêncio nos canos das armas vazias
Silêncio
Silêncio na pergunta
Silêncio na resposta
Silêncio na noite maliciosa
Silêncio no esperar.


Eis os túmulos abertos para combatentes que ainda respiram
A fortaleza que resiste ao desfio de fogo intenso
A nossa decisão inquebrantável
A nossa razão feita força invencível
E todos nós repetimos:venceremos



Somente do porvir
No seu terso linguajar
Na imparcialidade da sua justiça
Só de ti Povo
Aguardemos a revelação
Das várias mãos criminosas
Que estas portas fecharam.


Mas sabemos
Que nas mãos venenosas de certos filhos renegados da Pátria
Jazem chaves destas portas fechadas.


A História fará justiça?



O MEU POEMA É O POVO



O poeta não faz o poema
O poeta escreve a poesia

As massas fazem o poema de ouro que não podem escrever
o povo compõe belos versos que não pode desenhar.


Nos charcos se faz poema de guerra
nos campos arrasados pelas bombas de fogo
o povo canta um poema na travessia de um rio
que devora os que não sabem nem podem nadar
os mortos nos legam versos que não podem ler.


O meu poema não sei escrevê-lo também
não posso escrever o poema que sinto no peito
por serem vários os versos.
São tantos os autores do meu poema
e versos assim trazem rima doutra inspiração.


Rimam em cada metralha que dispara
rimam no chorar do órfão
rimam nas grutas protectoras do guerrilheiro.
Não sei escrever este poema.
Gostaria de cantar o poema que me bate no coração
mas não posso
porque este é o próprio Povo em armas
e só ele deve continuar
a fazer o poema que eu não posso redigir
nem ele pode ler também!


Os que fazem a História
Nem sempre podem escrevê-la.



Nito Alves (Angola) 1945 - 1977
 
Poemas retirados de: http://27maio.com/  

25 de maio de 2010

Blog da Semana - 08- 2010

Blog da semana volta de novo ao Brasil e aconselha: http://ellenismos.blogspot.com/



DO BARRO

Brincar com coisas sem nome
era o meu fraco.
Com morrinhos de terra molhada,
modelava objetos de sonhos.,
Qualquer forma se fazia coisa
para depois, entre mãos e sonhos,
de novo outra coisa
sempre outra.
Certo mesmo, só
a cor marrom com que pintei o tempo.

Ana de Santana

11 de maio de 2010

Blog da Semana - 07- 2010

O blog da semana é "Angola: Os Poetas", pela divulgacao dos poetas da bela literatura angolana. Visite: http://angolapoetas.blogspot.com/

Tela de Carla Peairo (Angola)

O HENDA I XALA


a loucura tocou as nossas mãos.
súbitas luzes passam nos teus olhos.
o excessivo pudor nos aproxima:
riqueza dos segredos revelados!

não importa a incerteza e o impossível:
deles e nós, conscientes, nos sorrimos.
para além do momento, nós sabemos:
o amor ficará – O HENDA I XALA.

Mário António (Angola)

10 de maio de 2010

THE ISLAND MAN

Grace Nichols


Morning

and island man wakes up
to the sound of blue surf
in his head
the steady breaking and wombing


wild seabirds
and fishermen pushing out to sea
the sun surfacing defiantly
from the east
of his small emerald island
he always comes back groggily groggily


Comes back to sands
of a grey metallic soar
to surge of wheels
to dull North Circular roar


muffling muffling
his crumpled pillow waves
island man heaves himself


Another London day

Grace Nichols (Guiana)

5 de maio de 2010

MOSS ON PLUM BRANCHES

James K. Baxter

Moss on plum branches and
A soft rain falling - no other house
Spread out its arms around me
As this has done - I go
From here with a gap inside me where a world
Has been plucked from my entrails - fire and
Food, flowers and faces
Painted on walls - the voices of two friends
Recalling the always present paradise
We enter and cannot remain in.

James K. Baxter (1926 - 1972) Nova Zelandia

3 de maio de 2010

Blog da Semana - 06- 2010

Desta feita o blog da semana é angolano: http://nguimbangola.blogspot.com/ Um excelente blog cultural e especialmente vocacionado para a cultura angolana. O autor também publica seus textos poéticos. A visitar!



VIVA O LIVRO!

o livro, o livro, o livro

o livro, o livro, o livro
o autor, o autor, o autor
mas o livro, mas o livro, mas o livro
mas o autor, mas o autor, mas o autor
o livro e o autor, o livro e o autor
e os direitos do autor, o livro, e o livro
o livro, a cultura, a leitura

o livro, a cultura, a leitura
leitura&cultura, leitura&cultura
literatura, leitura, tertúlia, leitura, cultura
o livro, o livro, o livro
o livro, o livro, o livro
o autor do livro, leitura do livro
o autor do livro, leitura do livro
Cervantes, Shakespeare,

a rosa e o livro
o livro e a rosa
abril, abre o livro, São Jorge
e o livro do livro?
leitura dos livros e dos livros
na cultura dos livros a leitura dos livros
e de se fazerem livros não há fim
mas em Abril o livro é pensado
proclamado, o livro o direito do autor
te amo livro meu
viva o livro

28 de abril de 2010

Blog da Semana - 05- 2010

Para esta semana o Blog escolhido vem de novo da outra margem do grande-rio Atlantico: http://enredosetramas.blogspot.com/ um blog que, como todos os outros vale a pena visitar, por muitos e bons motivos.



Bucólica


A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De sombra de uma figueira:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga


Ah, eu sempre acho que é tempo de ler e reler o grande escritor português Miguel Torga (1907-1995), com sua sabedoria encravada na terra e seu conhecimento das essências. Agora, quando o mundo se torna cada dia mais aparente e espetaculoso, quando artistas da palavra e da imagem tentam reduzir a arte à afetação dos efeitos especiais, penso que é cada vez mais preciso descobrir e reler Miguel Torga.
Tive a alegria de conhecê-lo pessoalmente em seu pequeno consultório em Coimbra, nos distantes anos 70. Eu muito jovem, acompanhada de um amigo tão jovem quanto eu, levava um bilhete e uma encomenda enviadas do Brasil por meu tio, o escritor Jorge Amado, amigo dele. Torga, que era médico, nos recebeu assim que seu paciente deixou a sala. Foi solícito, gentil, carinhoso, falou-nos um pouco de Coimbra, pediu que agradecéssemos ao tio a gentileza do mimo, perguntou por ele, e ali mesmo escreveu um bilhete ao amigo brasileiro.
Eu, que já era grande admiradora dos textos de Torga, fiquei observando sua letra um pouco trêmula, o jaleco imaculadamente branco, o perfil fino inclinado sobre o papel, os cabelos brancos... Estava emocionada pela oportunidade de conhecer pessoalmente um dos meus escritores preferidos, e procurei conversar um pouco com ele, para prolongar a situação. Quando já atravessávamos a porta de saída, ele nos chamou de volta, sorriu de forma delicada, e nos disse:
— Obrigado por trazerem a juventude a esta humilde morada. Eu hoje estava a precisar disso, e se calhar nem o sabia.

20 de abril de 2010

Blog da Semana - 04 - 2010

O blog da semana para visitar é CIRANDEIRA: http://giramundo-cirandeira.blogspot.com/


EL OTRO TIGRE

Pienso en un tigre. La penumbra exalta

la vasta Bibliotece laboriosa
y parece alejar los anaqueles;
fuerte, inocente, ensangrentado y nuevo,
el irá por su selva y su mañana
y marcará su rastro en la limosa
margen de un rio cuyo nombre ignora;
(en su mundo no hay nombres, ni pasado,
ni porvenir, solo un instante cierto.)
Y salvará las bárbaras distancias
y husmeará en el trenzado laberinto
de los olores el olor del alba
y el olor deleitable del venado
Entre las rayas del bambú descifro
sus rayas y presiento la osatura
bajo la piel espléndida que vibra
En vano se interponem los convexos
mares y los desiertos del planeta;
desde esta casa de un remoto puerto
de América del Sur, te sigo y sueño
oh tigre de las márgenes del Ganges
Cunde la tarde en mi alma y refexiono
que el tigre vocativo de mi verso
es un tigre de símbolos y sombras,
una serie de tropos literarios
y de memorias de enciclopedia
y no el trigre fatal, la aciaga joya
que, bajo el sol o la diversa luna,
va cumpliendo en Sumatra o en Bengala
su rutina de amor, de ocio y de muerte
Al tigre de los símbolos he opuesto
el verdadero, el de caliente sangre
el que diezma la tribu de los búfalos
y hoy 3 de agosto del 59,
alarga en la pradera una pausada
sombra, pero ya el hecho de nombrarlo
y de conjeturar su circunstancia
lo hace ficción del arte y no criatura
viviente de las que andan por la tierra
Un tercer tigre buscaremos. Este
será como los otros una forma
de mi sueño, un sistema de palabras
humanas y no el tigre vertebrado
que, mas allá de las mitologias,
pisa la tierra. Bien lo sé, pero algo
me impone esta aventura indefinida,
insensata y antigua, y persevero
en buscar por el tiempo de la tarde
el otro tigre, el que no está en el verso


Jorge Luís Borges - El Hacedor, in Obra Poética - 1923-1985 - B. Aires, 1989

O outro tigre
Penso em um tigre. A penumbra exalta
a vasta Biblioteca laboriosa
e parece afastar as prateleiras;
forte, inocente, ensanguentado e jovem
ele irá por sua selva, e sua manhã,
marcando seu rastro na lamacenta
margem de um rio cujo nome ignora
(Em seu mundo não existem nomes, nem passado, nem porvir
somente o instante exato.)
E vencerá as bárbaras distâncias
e farejará na renda labiríntica
dos aromas, o aroma do veado.
Por entre as raias do bambú, decifro
suas rais e pressinto a ossatura que vibra
sob a pele esplêndida.
Em vão se interpõem os convexos
mares e os desertos do planeta;
desta casa, de um porto da América do Sul, te sigo e sonho
ó tigre das margens do Ganges.
Cresce a tarde na minh'alma e reflito
que o tigre evocativo do meu verso
é um tigre de símbolos e sonhos,
uma série de tropos literários
e de memórias de enciclopédia
e que o tigre fatal, azíaga jóia, que,
sob o sol ou a diversa lua,
vai cumprindo em Sumatra ou Bengala
sua rotina de amor, de ócio e de morte.
Ao tigre dos símbolos, opus
o real, o que tem sangue quente,
o que dizima a manada dos búfalos
e hoje, 3 de agosto de 1959,
estende sobre a planície uma pausa
da sombra, mas já o fato de nomeá-lo
e de conjecturar sua circunstância,
o faz ficção artística e não criatura
viva das que andam pela terra.
Um terceiro tigre busquemos. Este
será como os outros uma forma de meu sonho,
um sistema de palavras humanas
e não o tigre vertebrado
que, mais além das mitologias,
pisa a terra. Bem sei, entretanto,
que algo me impõe esta aventura indefinida
insensata e antiga, e persevero
em buscar pelo tempo nesta tarde
o outro tigre, o que não está no verso.

16 de abril de 2010

SONHO DE AMOR

Mulher Ovahimba - Angola

O meu sonho
é uma madeixa dos teus cabelos
sufocada ao luar de uma noite
cansada de amor


O meu sonho
somos nós, tu e eu
no corcel da vida
à procura do sol


Falo do sonho, amor
do nosso sonho
em que brincamos com crianças não paridas
com esperanças sangrando desesperanças


O meu sonho
és tu, Minda-a-Mulata
sonhando com a vida e morrendo
em tempo de fome farta
e a guerra a acabar
(ou a reatar?)


O meu sonho
é sonho de mar
as ondas indo e vindo
do fim do Mundo
as aves a voar


Domingos Florentino (Angola)
in Raízes do Porvir

Texto retirado do Blog: http://nguimbangola.blogspot.com/

13 de abril de 2010

Blog da Semana - 03 - 2010

O novo blog da semana é brasileiro, um convite para uma boa e agradável descoberta... venha:


Chris Buzelli



Ubaíra



O vale verde
repousando em ondas
e ela sob o verde
pousando seu olhar no vale.
Cansaço profundo às vezes lhe dá.
Sobram tardes
falta coragem.



Perdeu o prumo,
o rumo, há horas...
Rouba-se horas há anos,
não vê?



E no pólo sul onde faz tanto frio
e no pólo sul onde faz tanta noite sem dia
nesta escuridão lhe falta ar.
Respira com a boca bem aberta
bem ávida de vida.



Martha

6 de abril de 2010

Blog da Semana - 02 - 2010

Esta semana o blogue é a Mulembeira. Blogue do poeta angolano Décio Bettencourt Mateus. Uma visita  a nao perder para quem é amante de boa poesia...
http://mulembeira.blogspot.com/

Décio Bettencourt Mateus


AS ONDAS DO NOSSO MAR



(À minha esposa, Eva Fraio).


Depois da salgadura
Das praias da ilha do nosso mel
N’algumas ondas do nosso mar
Um sopro de brisa a cantar
Um cântico afável
De amores e ondas de doçura!


Depois duma fúria d’enchente
A protestar rochas
E areias e conchas
No lago do nosso mar
Uma calmaria d’horizonte
A apascentar nossas águas a marejar!


E um bater d’ondas tranquilo
Na ilha do nosso Mussulo
A espumar amores pitorescos
Nas areias da praia
Das pedras da nossa baía
Um bater de cânticos românticos!


E serei os trajes do rei-sol majestoso
Nas ondas do teu mar
A navegar e arfar
Desejos e gozo
De estrelas-do-mar e luas
Nas ondas femininas das tuas águas!


Serei a doçura da salgadura
E bravura
Das ondas do nosso rio
Um murmúrio
D’amor a sussurrar
Coisas d’arco-íris nas ondulações do teu mar!


Décio Bettencourt Mateus
In Xé Candongueiro!


Luanda, 26 de Outubro de 2007.

5 de abril de 2010

PONTES PARA LUSOFALAR

O blogUE moçambicano do professor de sociologia Carlos Serra, lança a ideia da criaçao de um super blogue da lusofonia. Um blogue que seja um acontecimento real entre todos os falantes da língua portuguesa. A ideia de Carlos Serra vem expressa nas duas postagens que aqui incluímos. A ideia passa por um caminho que possa ser uma PONTE, um elo de ligaçao entre todos os povos lusófonos. Uma ideia que se voce quiser apadrinhar, solicito que visite o blogue:

***



(postagem de 5 de Abril):

De novo "ideia em marcha e pedido de ajuda"

Na sequência da postagem de ontem, posso desde já anunciar que colegas bloguistas do Brasil e de São Tomé se predispuseram a colaborar. Aguardo resultados para diligências feitas no tocante a Goa, Macau, Timor-Leste, Guiné-Bissau e Portugal.

Adenda às 13:33: estou a postar com extremas dificuldades.

Adenda 2 às 17:09: só há cerca de 15 minutos "regressou" a energia a parte do meu bairro.

Adenda 3 às 17:30: de Angola e Portugal já chegaram apoios.


(postagem de 4 de Abril):


Ideia em marcha e pedido de ajuda



Pouco a pouco, muito devagar, tento contactar blogueiros do mundo de língua portuguesa, do Brasil a Timor-Leste sem esquecer Goa, de Portugal a Moçambique, por forma a ensaiar a possibilidade de um blogue conjunto. O que acham da ideia? Quereis colaborar? Podeis fornecer-me endereços de blogues de todo esse mundo com autores identificados, portanto não anónimos? Muito obrigado.

Adenda: estarão o Elísio Leonardo, o Ricardo e o Adérito Magumane dispostos a ajudar em termos de hospedeiro e template?

Adenda 2 às 11:32: talvez Macau devesse também ser incluído, tentarei contactos com blogueiros de lá.
 
 
Incluo também uma das respostas/comentário dada por Carlos serra:
 
Carlos Serra disse...

A minha ideia é, para já, muito simples: um blogue textual escrito por blogueiros de países falantes de português, matriz temática a encontrar, template sóbrio e uma gestão administrativa eficiente. Algo cujo tema pudesse ser "Pontes em português". Vamos a ver o resultado dos contactos.

29 de março de 2010

Blog da Semana - 01 - 2010

A partir desta semana Cores & Palavras vai passar a indicar um blog por semana. Para abrir o acontecimento temos:


POESIA LILAZ-CARMIM

POESIA DE DINAH RAPHAELLUS DE COR LILÁS E CARMIM.


Bem vindos ao meu mundo de fantasia, poesia rosa, mar a crescer no beijo das Ondinas como que bailando no tule rendilhado das ondas ao entardecer. Poesia é uma forma de estar na vida, um desafio ao ser humano que através de palavras simples ou mais complexas, descreve o que sente... no entanto sem que ninguém ou muito poucos adivinhem o que lhe vai no mais profundo do seu âmago. É esta uma das muitas razoes porque amo a poesia. Ela faz parte da minha vida e sem ela nada sou. Entrem, não julguem, tentem entender o poeta se conseguirem!!! Bjo
Dinah



FADO

Ao longe... ouve-se um fado
Que gemendo num lamúrio
Condenado
Desce à Mouraria, atravessa Lisboa
Vestindo capa negra,
Viajando à toa
Amando a guitarra
Dedilhando a Madragoa
Segue cigano sem destino
Sempre com ar triste
No entanto ladino
A quem a todos e ninguém amava
Eis pois o retrato
Do fado errante
Que um dia me bateu à porta
Noite dentro, hora morta
Todo galante o safado
Abri-lhe a porta... entrou,
Para sempre...ficou,
O grande malvado?!!

Dinah Raphaellus (Portugal)

26 de março de 2010

JANAÍNA: A MINHA SOLIDARIEDADE

Solidariedade é o mínimo que podemos prestar aos nossos amigos quando algo como o que aconteceu com a Janaina, uma perda irreparável, veja: http://enredosetramas.blogspot.com/2010/03/nao-confio-mais-no-sedex.html



Jacinta Passos, poeta bahiana. Foto retirada http://giramundo-cirandeira.blogspot.com/

Eram livros de poesia da mae de Janaína, a poeta brasileira Jacinta Passos, edicoes originais e antigas que tinham um valor inestimável para sua filha e que se perderam por um mau servico prestado pelo sedex, correios do Brasil.
Estamos juntos Janaína!

 Acrescento o apelo feito no blog da Martha http://mariamuadie.blogspot.com/ :

A filha de Jacinta Passos, Janaína Amado, prepara a edição completa da obra dela, acompanhada de biografia e fortuna crítica, a ser publicada em breve pelas editoras da EDUFBA e Corrupio. Para concluir esse trabalho, Janaína enviou por sedex de Maceió para Salvador quatro livros originais escritos nas décadas de 1940 e 1950 pela poeta Jacinta Passos:

Nossos Poemas
Canção da Partida
Poemas Políticos
A Coluna

Então aconteceu uma coisa muito triste: os livros foram extraviados. Imaginam que perda lamentável?
Faço um apelo aqui: se alguém que ler esse post tiver um desses livros, por favor entre em contato com Janaína: http://enredosetramas.blogspot.com/





Canção do amor livre



Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.


Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.


Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.


Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.


Teu corpo.


Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.


Jacinta Passos (Brasil) 1914 - 1973

24 de março de 2010

NEGRA DA TERRA

Foto K. Luchansky




Negra de carapinha dura
Não estraga teus cabelos,
Me jura.
(Teta Landu*)


Minha negra brinca a gingar
Magia da kianda
Negra anda-que-anda
E ginga-que-ginga
Andar de negra é banga
Andar de negra é cântico do mar!


Minha negra ginga elegante
Nas curvas duma viola
Nas ondulações duma mbunda
Negra ginga e rola
E encanta gente
Ginga e rola a negra linda!


Ginga de negra é cântico do mundo
Não usa coisas de tissagem
Usa tranças de bailundo
A negra jovem
E ginga-que-ginga a dançar
Ginga nas ondas do mar!


Minha negra mulher cristalina
Não usa coisas de postiços
Usa carapinha
E tranças de linha
E tem magia de feitiços
A preta africana!


Minha negra beleza genuína
Ginga-que-ginga
Dança-que-dança a preta angolana
Minha negra mulher da terra
Mulher negra
Penteado à africana!


Minha negra mulher formosa, mulher cheia
Mbunda farta
Não conhece cabeleireira alheia
Usa carapinha de preta
E traz na voz a tradição negra
Traz na voz o pulsar da terra!


Décio Bettencourt Mateus (Angola)
in Xé Candongueiro!


*Teta Landu: músico angolano.

Créditos: http://mulembeira.blogspot.com/

15 de março de 2010

DEBITAS-ME SILÊNCIOS…

 Á entrada de Mbanza Kongo (foto Alex. Correia)


Debitas-me silêncios
E reticências…
Quando na dureza da voz macia
Dos teus lábios
Ornamentas flores e lavras
No silêncio das tuas palavras!


Debitas renúncias
E crucificas-me as mazelas:
Teu olhar fala-me paisagens
Rosas e margens
A brincarem às estrelas
Quando finges silêncios e reticências…


E na dureza da ausência
Um sopro distante
Angustiante
Um silêncio de melancolia
Na voz da noite do luar
Uma eternidade nos dias a folhear!


Debitas-me silêncios
E açoites de negativas
Em palavras altivas
À noite murmuras balbucios
Ao frio d’almofada
E lamurias nossa paixão crucificada!


Asseveras-me a justiça
A transbordar motivos mil
Flechas e açoites
No mistério do frio das noites;
Uma taça
E champanhe: a noite convida-nos dócil!


Décio Bettencourt Mateus (Angola)
in "Xé Candongueiro".

O TANGO TAMBÉM SE DANCA NO AR...

10 de março de 2010

MEU CORPO UM LIVRO

Este poema encontra-se publicado neste livro e no blogue da poeta http://poesialilazcarmim.blogspot.com/  


Antologia de vários autores - Lugar da Palavra

Meu corpo um livro de poesia,
Onde tu lês os poemas
Declamados em silêncio
Por minha pele.
Teu corpo uma epopeia,
Onde minha boca se sacia
Ao resgatar estrofes,
Com sabor a mel.
E na beleza da métrica perfeita
Nossos corpos bailando
Ao som das rimas
Cristalina e poética,
Exalando odores dourados
De primaveras outonais.
Numa lírica rica e fluída.
Onde tu barco eu ondina,
Nos amamos pelos caudais dos rios...
Quiçá sonhos astrais


Dinah Raphaellus, in A Traição de Psiquê

2 de março de 2010

O SUL

Lagoa do Arco - Tombwa

O sol o sul o sal

As mãos de alguém ao sol
O sal do sul ao sol
O sol em mãos de sul
E mãos de sal ao sol


O sal do sul em mãos de sol
E mãos de sul ao sol
Um sol de sal ao sul
O sol ao sul
O sal ao sol
O sal o sol
E mãos de sul sem sol nem sal


Para quando enfim amor
No sul ao sol
Uma mão cheia de sal?


Ruy Duarte de Carvalho (Angola)

24 de fevereiro de 2010

SOLIDARIEDADE COM A MADEIRA

Solidário com o povo da Madeira e com as vítimas e perdas humanas. Mas por favor que não se transmitam mais imagens sobre a tragédia. A Madeira, como destino turístico e que tem nessa actividade uma das grandes fontes de receita, precisa, mais do que nunca ser divulgada pela sua beleza.
Pois que assim seja:


Madeira

Madeira

Curral das Freiras - Madeira

Madeira

Ribeira Brava - Madeira

Porto Moniz - Madeira

Cabo Girao - Madeira

11 de fevereiro de 2010

PELA LIBERDADE... SEMPRE!





11 de fevereiro de 1990


If you want to make peace with your enemy, you have to work with your enemy. Then he becomes your partner.



Let freedom reign. The sun never set on so glorious a human achievement.

I detest racialism, because I regard it as a barbaric thing, whether it comes from a black man or a white man.


NELSON MANDELA








LINKS:

Nelson Mandela Foundation:
http://www.nelsonmandela.org/index.php

IBEJI



Esta postagem foi retirada, com devida permissão, do blogue: http://enredosetramas.blogspot.com/

 Ibeji - Foto avmobley
Ibeji*



Num rumorejo alegre
as moças cuidadoras
aveludaram a senhora



arrumaram seus cabelos
escolheram seu vestido
e pintaram suas unhas
cor de rosa.



Foi assim adocicada
que a mulher sentou-se
frente ao bolo perolado
entre firme e desvanecido
em cascatas de açúcar.



As velas pulsando 80
e o batuque vigoroso dos corações
bordeando a mesa
atordoaram a menina.



Os mais atentos viram,
apesar da inexatidão dessa hora,
quando ibeji ventou sorrindo
roubando doces da mesa
e fazendo brotar dos olhos dela
a nascente de um rio.

Martha Galrão (Brasil)


*Ibeji - é uma divindade ioruba, sempre representada por gêmeos, presente nos rituais brasileiros do candomblé; às vezes aparece como crianças. Simboliza os opostos que se complementam, a dualidade que caminha junta.


Conheci os poemas de Martha Galrão no seu blog, Maria Muadiê. Fiquei cativa dos seus poemas de forte influência afro-baiana, das misturas de temas abstratos com assuntos cotidianos, e das surpresas que sua sensibilidade de mulher nos apronta. “Ibeji” reúne isso tudo, além de me remeter, com ou sem razão — afinal, quem domina as próprias associações? —, ao conto “Feliz Aniversário”, de Clarice Lispector. Uma amostra da poesia sensível e contemporânea desta poeta baiana.

Enrredos e Tramas de Janaina Amado (Brasil)