17 de novembro de 2009

ANTÓNIO ALEIXO - POETA POPULAR



ANTÓNIO ALEIXO (1899 - 1949)


António Fernandes Aleixo (Vila Real de Santo António, 18 de Fevereiro de 1899 — Loulé, 16 de Novembro de 1949) foi um dos poetas populares algarvios de maior relevo, famoso pela sua ironia e pela crítica social sempre presente em seus versos. Também é recordado por ter sido simples, humilde e semi-analfabeto, e ainda assim ter deixado como legado uma obra poética singular no panorama literário português da primeira metade do século XX.
No emaranhado de uma vida recheada de pobreza, mudanças de emprego, imigração, tragédias familiares e doenças, na sua figura de homem humilde e simples, havia o perfil de uma personalidade rica, vincada e conhecedora das diversas realidades da cultura e sociedade do seu tempo. Do seu percurso de vida fazem parte profissões como tecelão, guarda de polícia, servente de pedreiro, trabalho este, que emigrado, também exerceu em França.
De regresso ao seu país natal, restabeleceu-se novamente em Loulé, onde passou a vender cautelas e a cantar as suas produções pelas feiras portuguesas, actividades que se juntaram às suas muitas profissões e que lhe renderia a alcunha de "poeta-cauteleiro". Faleceu por conta de uma tuberculose, em 16 de Novembro de 1949, doença que tempos antes havia também vitimado uma de suas filhas.

(Pequena biografia retirada de Wikipedia)

QUADRAS

Julgando um dever cumprir,
Sem descer no meu critério,
- Digo verdades a rir
Aos que me mentem a sério!






Que importa perder a vida
na luta contra a traição
se a razão mesmo vencida
não deixa de ser razão






Quando os Homens se convençam
Que à força nada se faz,
Serão f’lizes os que pensam
Num mundo de amor e paz.






A quadra tem pouco espaço
Mas eu fico satisfeito
Quando numa quadra faço
Alguma coisa com jeito






Quando não tenhas à mão
Outro livro mais distinto,
Lê estes versos que são
Filhos das mágoas que sinto.






Julgam-me mui sabedor
E é tão grande o meu saber
Que desconheço o valor
Das quadras que sei fazer!






Sei que umas quadras são conselhos
que vos dou de boa fé;
outras são finos espelhos
onde o leitor vê quem é.






Gosto do preto no branco,
como costumam dizer:
antes perder por ser franco
que ganhar por não ser.






Não sou esperto nem bruto,
nem bem nem mal educado:
sou simplesmente o produto
do meio em que fui criado.






Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.






Vinho que vai para vinagre
não retrocede o caminho;
só por obra de milagre,
pode de novo ser vinho.






Uma mosca sem valor
poisa, c'o a mesma alegria,
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.






O mundo só pode ser
melhor do que até aqui,
- quando consigas fazer
mais p'los outros que por ti!






P'ra mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem que trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.






Sei que pareço um ladrão...
mas há muitos que eu conheço
que, não parecendo o que são,
são aquilo que eu pareço.






Enquanto o homem pensar
que vale mais que outro homem,
são como os cães a ladrar,
não deixam comer, nem comem.






À guerra não ligues meia,
porque alguns grandes da terra,
vendo a guerra em terra alheia,
não querem que acabe a guerra






Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
qu'rer um mundo novo a sério.

Antonio Aleixo (Portugal) 
in Este Livro Que Vos Deixo


11 de novembro de 2009

DOIS POEMAS PARA 11 DE NOVEMBRO


Agostinho Neto

NOITE


Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.


Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.


São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.


Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.


Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.


Também a noite é escura.



António Agostinho Neto, Poeta e primeiro Presidente de Angola (Icolo e Bengo, 17 de Setembro de 1922 — Moscovo, 10 de Setembro de 1979)
(Poema in Sagrada Esperança)



***




Manuel Rui


BANDEIRA

é um braço de fevereiro e outro de novembro
que te içam.




os nossos olhos sobem lentamente
a ver teu desfraldar a noite as cores antigas
o vermelho e o preto.




bandeira catana de campesina luta
aliança na roda
dentada proletária força
sem fim até ao brilho sem limite
da estrela.




eles vinham pelo norte e pelo sul
para estar hoje mas não chegaram.
e de ti o luar começa a ser inveja!




olhamos-te bandeira agora
e vamos percorrer contigo este país
até semearmos novembro em toda a parte.


Manuel Rui Monteiro (Angola)


10 de novembro de 2009

POEMA

Moacy Cirne, autor de vários livros sobre histórias-em-quadrinhos (o primeiro deles em 1970) e um dos fundadores do poema/processo (em 1967), nasceu em São José do Seridó/Jardim do Seridó, RN, em 1943.
Uma pequena homenagem a quem divulga, no seu blogue, http://balaiovermelho.blogspot.com/ a poesia africana de língua oficial portuguesa, nomeadamente a angolana. Visitem o Balaio Porreta 1986, um bom lugar para se estar, ler e voltar.






o cheiro suculento da pinha
infância que se memória
abre-se para o canto das pedras
sob as chuvas de fevereiro e caicó.
fruticorpo orgasmo,
a pinha
se oferece à boca lenta e atenta
com seu aroma raro
seu aroma claro
e um branco de auroras arrependidas,
assim: a pinha.


[ in Balaio Incomun, n° 1178,
7 agosto 1999 ]

Moacy Cirne (Brasil)

9 de novembro de 2009

AMBIGUIDADE

Hoje, trago uma vez mais a minha poetisa e o seu blogue que aconselho a visitarem aqui: http://poesialilazcarmim.blogspot.com/





Desafiavas-me escondido por detras das vírgulas

E rias, rias iludido que nas reticencias frívolas
Arranjavas abrigo, um lar amigo para nossas demencias
Ahahahah...como os nossos risos cresciam...
Baloes de primaveras no outono de nossas vidas
Unguentos miraculosos sarando nossas feridas
Nao...nao falo de quimeras, mas sim das longas esperas
Com que perpetuámos os sentidos, reais e vividos
Nas rimas pintámos feras, e moldámos de barro
Muitas prosas, sonetos feitos duetos, laranjais frescos
De perfume indigo...dos sons fizemos esferas,
Bancos de jardins bebendo ópios de trigo.
Nas muralhas das odes...lindos arcos arabescos
Arquitectura debruada a linho...
Na ambiguidade da poesia...a fragancia de lilás e pinho!!!




Dinah Raphaellus (Portugal)

3 de novembro de 2009

QUANDO NASCI

UM POEMA DO NOVO LIVRO DE ROMÉRIO ROMULO: "PER AUGUSTO & MACHINA"






1.
quando nasci
uns bêbados diziam de eu ser cavalo,
um porco do cerrado,
um cachorro do mato.
bebi todos os copos que me abriram,
resvalei nas puras tempestades,
interpretei o ranço do silêncio.


bastardo da vida, fiz sobrar meu rasos.


2.
os rios me interrogaram de águas,
rasgaram minha garganta de luzes.
quantos peixes nadaram minha cara de cão?
mesmo plantas, do mato todas, se disseram de mim.
sobrou – da memória- a solidão vazada.


(( do livro Per Augusto & Machina ))

Romério Rômulo (Brasil)

http://romerioromulo.wordpress.com/

7 de outubro de 2009

III ANTOLOGIA DE POETAS LUSÓFONOS (Regulamento e inscricao)

III Antologia de Poetas Lusófonos



Regulamento



1.º Depois do sucesso das Antologias de Poetas Lusófonos (I e II) anteriores, com mensagens de parabéns de imensas personalidades, com destaque para os Digníssimos Presidentes da República de Portugal e Brasil assim como do Primeiro-ministro de Portugal, e com apresentações em várias cidades de portugal e Brasil. A Editora Folheto Edições & Design com o apoio institucional de várias Associações, Academias e Instituições dos Países Lusófonos, entendeu assim, lançar o regulamento para a III Antologia de Poetas Lusófonos com o intuito de continuar a promover a Poesia e os Poetas dos Países Lusófonos.

Para a II Antologia estão ainda agendadas apresentações para Paris (França), Zurique (Suíça) Lisboa, Porto, Alcanena, Silves e Açores

Desta forma a III Antologia pretende ser novamente um elo de ligação entre todos os Poetas da Língua Portuguesa. A III Antologia terá, além dos poemas a seleccionar, algumas notas de várias personalidades do Mundo Lusófono.



2.º A III Antologia de Poetas Lusófonos destina-se a todos os cidadãos naturais dos Países Lusófonos que residam em qualquer país do Mundo.



3.º A III Antologia de Poetas Lusófonos é coordenada editorialmente pela editora Folheto Edições & Design. A selecção dos poemas a editar é da responsabilidade da Comissão de Avaliação, constituída por elementos de cinco instituições ligadas à Lusofonia.



4.º Para fazer parte da III Antologia de Poetas Lusófonos cada participante deverá enviar até cinco poemas de sua autoria, com o máximo de 30 linhas (cada poema). Cada candidato responderá perante a Lei por plágio, cópia indevida ou outro crime relacionado com direitos de autor.



5.º Cada autor deverá enviar uma pequena nota de apresentação (máximo 4 linhas) e respectiva fotografia, para publicação junto do primeiro poema.



6.º O tema da III Antologia de Poetas Lusófonos é livre, cabendo no entanto à Comissão de Avaliação, considerar a pertinência da sua publicação. Todos os trabalhos inscritos serão submetidos à Comissão de Avaliação que, em tempo útil, informará o participante sobre a selecção ou não do(s) poema(s) enviado(s). Os critérios de apreciação serão da responsabilidade da Comissão de Avaliação.



7.º Os poemas deverão ser digitados em Word, corpo 12, Times New Roman, em língua portuguesa e deverão ser entregues em formato papel ou digital.

8.º Os poemas deverão ser enviados ou entregues para “Folheto Edições & Design”, Praça Madre Teresa de Calcutá, Lote 115, Loja 1 – 2410-363 Leiria – Portugal, ou através do endereço electrónico folheto@gmail.com, até ao dia 31 de Dezembro de 2009, acompanhados da respectiva ficha de inscrição. Este regulamento e ficha de inscrição estão disponíveis no seguinte blog: http://folhetoedicoesdesign.blogspot.com. Ou poderá obtê-lo enviando uma mensagem com a sua requisição para o endereço electrónico seguinte: folheto@gmail.com.



9.º

a) Para ter, então, o(s) seu(s) poema(s) incluído(s) na III Antologia de Poetas Lusófonos, após a selecção da Comissão de Avaliação, o autor seleccionado deverá finalizar a sua inscrição mediante pré-pagamento no valor de 20 Euros ou 25 Dólares (USA) por cada poema seleccionado (máximo de 5 poemas) e respectivos custos de transferência bancária (se for o caso). Na falta dessa inscrição final, ficará cancelada a participação do poeta no projecto em questão. Este pagamento só deverá ser feito depois do participante ser contactado, por escrito, pela Folheto Edições & Design. Isto é, cada poeta com o(s) seu(s) poema(s) seleccionado(s), será contactado de forma personalizada. Assim, o referido pré-pagamento dará direito ao autor receber 1 (um) volume da III Antologia por cada poema seleccionado, a enviar via CTT após a primeira apresentação pública. O valor em causa já incluí os custos de envio.



b) No caso de existir lucro com a publicação da III Antologia de Poetas Lusófonos este será direccionado para a IV Antologia de Poetas Lusófonos.



c) Cada participante terá direito a um certificado de participação que será entregue no dia da apresentação da III Antologia, ou será enviado pelo correio juntamente com o(s) livro(s) a que o participante tem direito após a apresentação do livro em causa.



10.º A III Antologia de Poetas Lusófonos terá o formato 17 x 24 cm, miolo papel IOR de 80 gr.s a uma cor, capa a 4/0 cores de 240 grs. Será editada, impressa e publicada pela Editora Folheto Edições & Design. Será ainda feito o registo da obra através do Depósito Legal e inscrição no ISBN (International Standard Book Number).



11.º Os poemas seleccionados, depois da edição da III Antologia de Poetas Lusófonos, poderão ser publicados noutras edições fora do âmbito da Folheto Edições & Design, visto que a Editora não assume os direitos dos mesmos, entendendo que cada autor é inteiramente livre de publicar os seus poemas onde e quantas vezes o entender.



12.º O participante assume o compromisso de conhecer e cumprir este regulamento e aceitar as decisões adoptadas pela Editora Folheto Edições & Design, entidade responsável pela coordenação e direcção da III Antologia de Poetas Lusófonos. O não cumprimento deste regulamento implica a exclusão dos trabalhos na III Antologia de Poetas Lusófonos.

Relembramos que as Antologias de Poetas Lusófonos são reconhecidas pelo Governo Civil do Distrito de Leiria.




Ficha de inscrição

III Antologia de Poetas Lusófonos



Nome Completo:

Data de Nascimento: (dd/mm/ano)

Sexo: Feminino 0

Masculino 0


Naturalidade:

País onde reside:

Bilhete de Identidade Arquivo:

N.º de Contribuinte:

Endereço:

Código Postal/CEP: - Local.: país

Telefone: Fax:

Telemóvel: E_mail:

Web:

Blog:



Para mais contactos/informacoes:

Folheto Edições & Design, Lda

Praça Madre Teresa de Calcutá
Lote 115, loja 1


2410-363 Leiria - Portugal




Tel./Fax: 244 815 198
Email: folheto@gmail.com


http://folhetoedicoesdesign.blogspot.com/

HUMBI-HUMBI (DJAVAN)

Uma bela cancao do folclore angolano, no idioma Umbundu (centro/sul de Angola) aqui interpretada por Djavan. Humbiumbi é um pássaro que anuncia coisas boas e voa alto, sempre mais alto convidando, com o seu canto, todos os outros pássaros a voarem mais alto, anunciando aos homens o nascer do dia, as sementeiras, a chuva...

 




HUMBI-HUMBI


(Música & Letra do Folclore de Angola, adaptada por Filipe Mukenga, interpretada por Djavan)




*Humbi-humbi Yange Yele_La Tuende
Kakele Katchimbamba Osala Posi


Humbi-humbi Yange Yele_La Tuende
Kakele Katchimbamba Osala Posi


**Vakuene Vayelela Yele_La Tuende
Kakele Katchimbamba Osala Posi


Vakuene Vayelela Yele_La Tuende
Kakele Katchimbamba Osala Posi


**********************************

HUMBI-HUMBI



*Humbi-humbi meu, vôa, vôa vamos embora
Coitada da katchimbamba que não sai do chão


**Os outros voam, vôa tu também, vamos embora
Coitada da katchimbamba que não sai do chão




[yele_la, de okuyelela=voar]
katchimbamba [acho q é avestruz]




(Tradução do Umbundu de Gociante Patissa)





CARTA DE UM CONTRATADO

Um dos maios belos poemas de António Jacinto, poeta angolano já falecido e neste video dito magistralmente por José Ramos acompanhado pela nao menos magistral música de Travadinha, músico caboverdiano.



Biografia

António Jacinto (1924-1991 - Angola)

António Jacinto, cujo nome completo é António Jacinto do Amaral Martins, nasceu em Luanda em 1924 e faleceu em 1991. Orlando Távora é o pseudónimo utilizado por António Jacinto como contista.
Por razoes políticas esteve preso entre 1960 e 1972. Militante do MPLA, foi co-fundador da Uniao de Escritores Angolanos, membro do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola e participou activamente na vida política e cultural angolana. Foi empregado de escritório e técnico de contabilidade, Ministro da Educacao de Angola e Secretário de Estado da Cultura.
Colaborou com producoes suas em diversas publicacoes nomeadamente Jornal de Angola, Notícias do Bloqueio, Itinerário, Império e Brado Africano e foi membro da revista Mensagem.
António Jacinto é considerado, por muitos, um dos maiores escritores angolanos.



 

CARTA DE UM CONTRATADO



Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que dissesse
deste anseio
de te ver
deste receio
de te perder
deste mais bem querer que sinto
deste mal indefinido que me persegue
desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta de confidencias íntimas,
uma carta de lembrancas de ti,
de ti
dos teus lábios vermelhos como tacula
dos teus cabelos negros como diloa
dos teus olhos doces como maboque
do teu andar de onca
e dos teus carinhos
que maiores nao encontrei por aí...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que recordasse nossos tempos a capopa
nossas noites perdidas no capim
que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
o luar que se coava das palmeiras sem fim
que recordasse a loucura
da nossa paixao
e a amargura da nossa separacao...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que a nao lesses sem suspirar
que a escondesses de papai Bombo
que a sonegasses a mamae Kieza
que a relesses sem a frieza
do esquecimento
uma carta que em todo o Kilombo
outra a ela nao tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que ta levasse o vento que passa
uma carta que os cajús e cafeeiros
que as hienas e palancas
que os jacarés e bagres
pudessem entender
para que o vento a perdesse no caminho
os bichos e plantas
compadecidos de nosso pungente sofrer
de canto em canto
de lamento em lamento
de farfalhar em farfalhar
te levassem puras e quentes
as palavras ardentes
as palavras magoadas da minha carta
que eu queria escrever-te amor....

Eu queria escrever-te uma carta...

Mas ah meu amor, eu nao sei compreender
por que é, por que é, por que é, meu bem
que tu nao sabes ler
e eu - Oh! Desespero! - nao sei escrever também



(Poemas, 1961)






18 de setembro de 2009

POEMA DE DINAH RAPHAELLUS

A escuridão grita rosas

Negras no silêncio ferindo
As sonoras orquídeas
Amarelo laranja
Duma claridade ausente
De chuvas rubras.








Dinah Raphaellus (Portugal)
http://poesialilazcarmim.blogspot.com/

17 de setembro de 2009

PRADO PAIM - LEMBRAM-SE DE "BARTOLOMEU"?




Domingos Prado Paím foi o primeiro músico do país a conquistar o Disco D´Ouro, com 34 mil cópias vendidas em 1974. Intérprete e compositor, hoje aos 67 anos de idade, o célebre cantor vê-se inteiramente votado ao abandono, sem qualquer recurso para dar continuidade sobretudo aos seus projectos artísticos.






O cantor queixa-se da falta de tudo: desde apoios à realização de concertos e galas adequados à sua vertente artística. Prado Paím deixou de gravar há 35 anos, exactamente na altura em que conquistou o Disco D´Ouro.




Com a venda das 34 mil cópias do seu único disco conseguiu comprar, no mesmo ano, a sua casa de madeira, no município do Sambizanga, onde ainda se encontra a residir. Uma casa que se encontra em estado deteriorado, a necessitar de obras de reabilitação urgentes.






Prado Paím confessa sentir-se cada vez mais abandonado, diz que já bateu a várias portas, algumas delas resultando em meras promessas: “Para mim, a felicidade é aquilo que nós alcançamos no decurso da nossa vida, o bem-estar. Mas como tudo corre mal na vida, este desejo não se alcança e muitas vezes sentimo-nos muito aflitos e choramos”, disse. O cantor está parado desde 1974.






O seu último espectáculo realizou-se em 1992, em Portugal, no âmbito dos acordos de Bicesse. De lá para cá, a sua vida artística foi regredindo aos poucos por motivos de saúde, por um lado, por falta de incentivos por outro. Actualmente, vai sobrevivendo com alguns apoios, sobretudo dos próprios filhos. “Tenho o primeiro Disco D´Ouro, conquistado em 1974. O caso não é para brincadeiras, não é uma obra que eu fiz à toa. Não a fiz por mera casualidade; tenho um troféu, está aí e justifica plenamente.




Foi conquistado antes da Independência e até agora não se diz nada, não se divulga nada e eu também não me sinto bem. Vejam que o troféu surge num período muito delicado. É triste que hoje ninguém reconheça este feito”, desabafou.




Prado Paim refere que quer aproveitar as energias de que ainda dispõe para gravar o CD há muito desejado, o que no seu entender, mesmo que seja o último, poderá honrar o compromisso que tem para com a família e o público, considerando que a sua idade, aliada a vários factores, poderá levá-lo a fechar as vistas a qualquer momento. Além das músicas antigas que fizeram dele um artista de sucesso, deixando a sua marca nas décadas de 70 e 80 com trechos como “Bartolomeu” (semba em homenagem ao seu amigo assassinado no Sambizanga por acudir uma jovem que fora violada) “Esperança” e “Zênze”, Prado Paím disse ter preparados dez novos temas, podendo incluir outros durante os ensaios.






Toda a acção está dependente de patrocínios para poder entrar em estúdio e gravar, de modo a satisfazer os admiradores e apreciadores da sua música. “Estou razoavelmente bem de saúde e queria fazer o meu último lançamento. De repente posso fechar as vistas e as minhas obras ficarem sem efeito. Tenho boas obras por lançar. Estou a andar de baixo para cima à procura de apoios para lançar o meu disco, poderá não ser o último, mas digo já o último, porque quanto menos se espera, a qualquer momento um indivíduo cai.






Por exemplo, diabo seja surdo, de repente, posso sentir-me mal, cair a qualquer momento e morrer. Então fico sem deixar o meu testemunho, as obras, e como sabe, começam a apanhá-las e executí-las de qualquer maneira por outros indivíduos, conforme tenho acompanhado, e tudo acaba por ficar nos diversos, sem qualquer justificação. E quem ganha com isso são outras pessoas.






Quero evitar que tal aconteça”, realçou Paím. O artista lançou um alerta às entidades ligadas à promoção de actividades culturais para prestarem o seu apoio ao lançamento do tão almejado disco, para o qual diz ter já seleccionado alguns instrumentistas, como Joãozinho, Bana Maior, entre outros. “Esperança de fazer um novo CD nunca perdi, porque eu nasci para a música. Quando eu era mais novo, naquele tempo, eu sonhava com alguém a me dar música, sou de uma família originária de músicos, cantores e compositores, e sempre cantaram muito bem. Mas, actualmente, lamento simplesmente a falta de apoios”.


 
Créditos: O País on line

15 de setembro de 2009

POEMA DE MARIA A. DÁSKALOS



"Onde cairá o orvalho se as pedras perderam dono"







Onde cairá o orvalho se as pedras perderam dono


e história


e só as coisas torpes e destruídas


cobriram os campos e tornaram cinza o verde?






Oiço exércitos do norte do sul e do leste


fantasmas lançado o manto das trevas


os rostos exilando-se de si mesmos.


Oiço os exércitos e todo e qualquer som abafarem.


- Não ouves a chuva lá fora, a voz de uma mulher,


o choro de uma criança?


Oiço os exércitos, oiço


os exércitos.






Quero reconstruir tudo - alguém disse


e ouvimos cair as árvores.


E vimos a terra coberta de acácias


e as acácias eram sangue.






Estamos à beira de um caminho


- que caminho é este?


Inventam de novo o vôo dos


pássaros.


Aqui já se ouviu o botão da rosa a desabrochar.






Maria Alexandre Dáskalos (Angola)

MUXIMA

Muxima, da autoria de Liceu Vieira Dias, um verdadeiro hino da alma angolana. A cidade de Muxima, na margem do Kwanza, tem o mais importante santuário mariano da África Austral, dedicado a Nossa Senhora da Conceicao, conhecida em Angola como Nossa Sra. da Muxima, Mama Muxime, ou seja, Nossa Sra. do Coracao, do coracao dos angolanos.

13 de setembro de 2009

CONTO DE JOAO TALA

ESTE É UM CONTO DE JOAO TALA (POETA ANGOLANO) QUE PODE ENCONTRAR NO BLOGUE DO AUTOR: http://blogtala.blogspot.com/ OU NA CONFRARIA DO VENTO: http://www.confrariadovento.com/revista/numero21/conto01.htm
JOAO TALA É UM DOS NOVOS TALENTOS DA LITERATURA ANGOLANA.
Joao Tala (poeta e escritor angolano)
ANA RITA - CONTO DE JOAO TALA (ANGOLA)




O sorriso ainda é o mesmo apesar de contrariado por um rosto flácido, pousado sobre o peso dos anos. Li-lhe na sombra os olhos da alma e pareceu-me igual a tantas e tantas mulheres apreensivas dos constantes recuos de suas vidas. Não era sempre que se podia conservar um sorriso a largo dos acontecimentos mais disparatados no interior de um território que pouco ou nada se realizava no sonho da gente. Reconheci-a ante o susto dessa velhice.


– Ana Rita, quanto tempo já nos comeram – disse-lhe ansioso de ouvir de novo o timbre agudo da sua garganta; tinha voz receosa, talvez cautelosa. E sofrimento.


Respondeu-me finalmente, agora fazendo sobressaltar a voz.


– Tem muitos anos, nos conhecemos. Aonde estavas durante essa vida em que nos puseram fogo? – disse, a sua linguagem é o retrato da guerra.


Em 1969, Ana Rita abandonava os estudos para se casar. O noivo era um militar do exército colonial, uma pessoa de quem se lembra como vinda de boas famílias. Naquela altura, Ana completaria dezoito anos, tão moça e arrumadinha, se lhe notava o sonho na lentidão dos passos – sabe aquela adolescência no sono de mulher?


Então. O noivado descoseu-se, o casamento não se realizou. Muitos anos depois disseram-me que o homem tinha sido seduzido por uma gatuna chegada do puto; e que Ana tivera então que descobrir as outras duas partes de um “rosário” feminino – são promessas que dão à mulher. – Na época uma mulher da gente tinha apenas três opções: ser casada, beata ou prostituta. Digo mais ou menos nessa proximidade, já que solteira não tinha vez.


As opções de Ana Rita foram sempre agravadas por azar. Por conseguinte, ela é de uma família católica formada de muitas mulheres onde o catolicismo tinha pinta de obrigatoriedade. Duas de suas primas eram madres e a irmã mais crescida concorria para tal. Tinha também um tio padre que vivia no Congo.


Assim ela achou-se numa opção contundente, diante da Fé de todas as crenças. Teceu um manto religioso para a alma e com o instrumento da fé foi a abrir conventos para refugiar-se daquele mundo que não a desagravara.


Não sei por quanto tempo, nem ela o sabia, as portas atrás de si permaneceriam fechadas; quanto duraria o degredo – apesar de que coisas da alma duram quanto o tamanho da fé e de Ana esse mundo é pequeno ante a crónica da sua alma.


Então. Restou aqui fora aquele sorriso que nem velhice consegue riscar, num rosto que perambulava aí, no susto das épocas que degradaram nossos semblantes – como se vê, pessoas ainda assustadas, esquinadas na espera de qualquer coisa que vem aí, ninguém sabe o quê, mas qualquer raiva de novo a deflagrar de nós próprios. Aliás, sempre fomos assim, não tem conversa.


Encontrei-a sobre o peso dos seus anos arrastando um corpo magro. Provavelmente nada mais lhe dói. Fica-me ainda a rememoração de tudo que se passou daquela vez que Ana Rita desconseguiu na vocação.


Não saiu do convento pelos fundos, mas pela porta que lhe estava permanentemente destinada; uma porta se abria aos seus desejos como se fosse magia. Abriu-se lenta, completa; o som gutural de dobradiças nos caixilhos.


Começou após aquela visita sofisticada que eu e o meu amigo Beto Bengala efectuamos à comunidade das Irmãs Clarissa.


Beto possuía uma religiosidade centrada no catolicismo que também vinha de família, pergaminhos da fé que sobejava por Malanje inteira. Dele diziam ser um homem crepuscular...


Não entendo. Vive de crepúsculos ou contando crepúsculos? Depois é que ele me deu a conhecer que se ajoelhava ao pôr e ao nascer do sol para rezar, com a perseverança de um muçulmano, passe o exagero. Minha euforia em Cristo aumentou com a sua dedicação à minha enfraquecida alma e fê-lo para aumentar nossa amizade.


Se não fosse ele, jamais conseguiria entrar no recinto fortificado das Clarissa para olhar o rosto da Ana Rita, um rosto que sempre me encarava próximo ao choro, como uma criança apanhada em erro com medo de ser castigada. Assim ela era, uma sensibilidade se arrastava sobre a minha pele – ela tocava demais meu exterior, como a lava expelida de um vulcão interiorizado.


É proibida a visita de machos no convento. Não pelo simples facto de ser homem – macho é um estado diferente do carácter formado no celibato. O Beto Bengala desconta-se porque é diferente: antigo sacristão, vindo de uma família forjada na palavra de Deus. Estando a mais, junto-me às suas afinidades.


Recobrada da aflição, entre deixar-nos entrar e a proibição tradicional no espaço das Clarissa, a Madre Superior deu-nos muita alegria.


Com Ana Rita apareceu um coro de raparigas, adivinha-se logo desejos de rever por um dia, nem que seja a sombra de um homem. Um encontro insólito de que vou me lembrar sempre.


Primeiro, chegaram com o coro absoluto do silêncio; depois, uma delas – ainda me lembro do seu vestido branco com auréolas vermelhas e lenço azul marinho na cabeça, subiu sobre a onda e em seu pedestal se destacou para quebrar a mudez.


– Nunca mais vi um homem. – disse com uma tonalidade exclamativa, com um impulso apenas feminino.


– Precisava ver? – indaguei a despropósito com um gesto visivelmente sensível.


Precisei agradar mulheres na idade de partir o coco, postando de vez meu lado masculino. A maioria das meninas, senão todas, não viam um homem por mais de seis meses, disseram, o cheiro de machos se lhes tocava por isso fundo.


É uma questão de vocação.


– E você tem vocação? – indaguei a Ana Rita que parecia penalizada com tudo aquilo.


Agora um olhar trêmulo; um sorriso assustado; de cara com a sua timidez.


A moça que dissera nunca mais ter visto um homem portava-se com assanhadice. Era uma moçambicana com ares de ingenuidade, mas que adentrava nos olhares lúbricos e furtivos com que a adornei.


Diante de nós, separados por uma grade metálica, pousavam cerca de doze jovens belas, suaves, comunicativas. Não me fiz rogado, dei-me a elas a falar da relação homem/mulher. Tremiam o riso mas encantavam-se aquelas mulheres que meses e meses lhes estava vedada a proximidade masculina porque o segundo instinto se impôs e cupido chegou de boleia.


Não faltaria afinal uma espia, uma madre caducada e fria. E o que estava bom demais logo coartado com o fim da comédia. Foram imediatamente recolhidas as raparigas do outro mundo.


Beto Bengala que tinha uma irmã entre as moças passou o tempo restante me acusando e amaldiçoando, quase me chamava psicopata. Eu disse: fui lá para não rezar com as meninas – lógico, não é mesmo?


– Tanta puta por aí e você vai logo de zombaria sobre aquelas pobres meninas, comprometidas com a Palavra. Só um anormal como tu. – Xinguilava [gesticulava]raivoso o Beto.


Pelo menos o Beto tinha fundamentos, com toda a razão. Mais razão ainda depois que certas coisas aconteceram: a excitação de freiras é algo soberbo mas por vezes maligno, e impaciente; deixá-las com a angústia num torvelinho de hormónios. Tudo isso madrugou, sem a despertação, uma série de lembranças imortais no sonho absoluto de Ana Rita.


Portava-se uma mulher febril numa catástrofe de delírios. Seu primeiro sonho depois daquele encontro inesperado foi esmagado por uma convulsão generalizada e faminta, gemidos rosados mas caóticos abalos nas palavras contorcidas; corpo santiforme no equívoco do mundo com os desejos mundanos do inconsciente derramados no lençol. O lençol sempre encharcado com suor, baba, fluídos vaginais e urina; e sonhos. Sonhos altos, sonhos imundos para aquela comunidade religiosa preste a dar noivas e esposas caprichosas para Jesus Cristo.


Viveu Ana Rita na redondeza do sonho durante muitos dias. Despertava para o sonambulismo que voltava a agravar-se de febre, delírios e contorções sensuais. Um dia acordou de vez, fraca, porém mais esclarecida. Voltou-lhe aquele sorriso de sol num rosto dúbio. Abriu as portas do convento e chamou a si aqueles desejos dum mundo quente.


Contam que fora tanto o fogo e a sofreguidão que se achasse um homem no halo do seu percurso, certamente lhe trepava logo para sacudir o tédio e as teias que ganhara num lugar parado onde se vive conciliado com a morte – não pelos dias sinistros que nos anos 70 se alastravam como aquelas noites que a memória aterroriza; a morte a rir-se do que está vivo; não da morte assim como ela é, verdadeira e terminal mas, isto sim, a idade de que se idealiza parada, sequestrada... E o mundo só parece acontecer fora das unidades fechadas, fora da internação.


Saíra a procura dos sonhos. Desde aquela vez que me ouviram uma linguagem nova, passei a ser para ela e para muitas outras mulheres apertadas naquele convento, a abundância dos escassos dias oníricos que em Ana Rita pioravam para o conhecido purgatório dos delírios e alucinações meteóricas.


Tudo isso levara anos. Depois que se completou a metamorfose dela eu não estava mais cá fora. Tinha sido rusgado para a tropa. Naquele tempo era rigorosamente assim, apanhavam involuntários (uma rusga é um processo em que se permite o sequestro oficial) que incorporavam nas fileiras marxista de um governo que parecia embruxado, perto do povo mas irrealizável.


– Onde está aquele que tem chamas na boca? – perguntava insistente para o Beto Bengala.


Beto é um tipo muito simples. Mais fácil para ele seria exercitar-se para o divino do que abrir metáforas de fogo; não enche a boca com palavras sexuais para as deitar no meio da depravação mundial, onde qualquer mulher pode ser banalizada. Não se sabe se algum dia ele vai se casar por alguma razão nobre que não seja sacramental.


Também dizem que Beto é vagaroso com as mulheres, que jamais olha para a bunda duma dama. Tem tudo – dizem as fêmeas – para agradar filhinhas de papai, porém, nunca namorou garota alguma. Mas tem mesmo gente assim... não tem?


Ana Rita foi entrando, à minha procura, pelas ruas da vida; e sua confusão mental abonava mais desesperanças com deambulação sonolenta de rua em rua.


– Onde está o fogueiro com o calor que preciso sentir? São as minhas sensações que ele tem na boca. – Solicitava, mas minhas palavras não foram desse fogo todo que ela clama e reclama.


Falta de respeito – lhe falaram confessos puritanos e beatas e beatos que sempre andam demais na sua vida – não toma nenhum cuidado com a língua. E pensar, ia ser freira... Pobre Cristo!


Algum padre inadvertido, muito tolerante para com a paixão humana, tentou protegê-la com a sua fé. Defendê-la dos acasos mundanos na encruzilhada de qualquer infidelidade.


– Haja compaixão. É apenas uma ovelha desgarrada – ele disse.


Ouviu do bom:


– As putas também são, padre.


Contaram-me tudo o que aconteceu com esse amor desaparecido, a Ana Rita. Eu estava impossível, perdido na história militar.


Anos depois que voltei da kuemba [serviço militar], fui encontra-la totalmente diferente. Chamavam-lhe “bandida” e carregava uma gravidez indesejada, de algum amante desconhecido. Seu conceito de vida aterrorizou-me. Tinha um rosto frio como eu tinha visto em filmes de agentes secretos, embora abrisse, a calhar, ainda o sorriso agradável. Eu desejava que falasse do seu futuro filho, o menino iria nascer do seu ventre.


Ríspida! Ela se tornou numa mulher bastante ríspida. Irrisória.


– Que esse pavor me venha parar nos braços –; disse, nem lastimosa – se nascer um gato ou uma esperança, o nome é depois.


– Ritinha, não se fala assim de um filho... nem nasceu ainda, coitado. – Implorei.


– Eu me desgastei. Onde tu estavas enquanto eu aqui me desgastava de todas as dores?


– Ana Rita, ouça-me: nunca um homem pode ser tanto. Ninguém desgasta à toa mulher que seja.


– Nunca mais vou sentir a dor de uma voz. – Ironizou, era uma crítica à minha ausentada vida enquanto ela procurava...


– Eu procurei o teu nome... vai estar sempre perdido como ninguém. – Finalizou desesperançada. Afinal nem conhecia meu nome.Formidável – formulei em meu pensamento vinte anos depois que o caso de Ana Rita me deixava de espírito atormentado. Talvez fosse por demasiada compaixão ou por excesso de zelo. – Formidável.


Como disse no começo, o sorriso é ainda tão claro apesar da apreensão secular que se nos repartiu de todas as guerras angolanas. Vinte anos tinham pesado firme sobre caminhos que ela não pisou, que não a levaram para lado nenhum.


Estavam mortos os caminhos por que devia passar, de viagem nocturna para a sobriedade. Tudo que perseguiu, depois que ela não me viu mais, foram desejos inconfessáveis ou sigilos do munhungo [libertinagem] – o mesmo que o mundo ainda vê mas que para si guarda como se tal mundo nada mais de si pode achar: degeneração. Apesar de que os olhos continuam sorridentes.


Agora é tarde demais para recomeçar.
 
 
Joao Tala (Angola)

21 de julho de 2009

CHUVA DE ACÁCIAS BRANCAS


Deixo-vos este belo poema que nos transporta para uma musicalidade sublime e simbolista...






A chuva Madura
De acácias brancas,
Batia fortemente
No peito feito Sol nascente.
Onde botoes de sangue,
Floresciam na tarde
Rubra e quente...adivinhando
O poente, fruto feito
Noite dolente,
Gemendo escalas, cascatas...
Nascentes da lua feita...
Parda guitarra!!!


Dinah Raphaellus (Portugal)

POEIRA VOLTOU



Poeira, o chefe do posto
Voltou
Mudou de nacionalidade
Cor e rosto
E voltou com sua brutalidade
Mudou de nacionalidade e regressou!

Poeira voltou
Para kuatar os filhos dos outros
Para kuatar os filhos dos negros
Mudou de rosto
E regressou
Mudou de rosto e regressou para nosso desgosto!

Poeira voltou
E anda pelos musseques do Rangel, Sambizanga, Samba…
São Paulo, Baixa, Mutamba…
Poeira regressou
Para novamente kuatar os filhos dos outros
Para novamente kuatar os filhos dos negros!

E andam muitos, um, dois, três, quatro Poeiras…
Andam em carrinhas pela cidade
Atrás das vendedoras
Atrás das zungueiras, com brutalidade
Poeira voltou
E cabeças a abanarem de desgosto, hum, hum, Poeira regressou!

Poeira voltou
E desce da carrinha armado a correr
Desce da carrinha armado e toca a bater
Porrada na zungueira
Porrada na vendedora
E mãos na cabeça em lamentos, aiué, aiué, Poeira regressou!

Poeira voltou
Recebe o negócio das zungueiras
Bate nas vendedoras
E corrida com os ambulantes
Poeira voltou, kibutos apressados em cabeças descontentes
E pensamentos revoltados, hum, hum, Poeira regressou!

Poeira voltou
Kibutos espalhados no passeio
Ponta-pés impiedosos no negócio da vendedora
Ponta-pés no ganha-pão da zungueira
Poeira voltou, ponta-pés implacáveis no suor alheio
E corações ressentidos, hum, hum, Poeira regressou!

Poeira, o colono que kuatava os filhos dos outros
O colono que kuatava os filhos dos negros
Mudou de cor e voltou
Mudou de nacionalidade e regressou
Poeira voltou e bate na vendedora
Poeira voltou e recebe o negócio da zungueira!

Poeira, o chefe do posto
Mudou de nome e nacionalidade e voltou com outra cor e outro rosto!



Kuatar: agarrar, prender
Zungueira: vendedoura ambulante
Kibutos: coisas, pertences

Décio Bettencourt Mateus (Angola)

In “Os Meus Pés Descalços”

18 de junho de 2009

SOU COMO SOU





Que o mundo entre em festa
Batam testos ou tambores
Para mim não importa,
Não são dissabores.
E sabem porquê?
Porque eu não sou esta,
Mas sim a outra...
que ninguém vê.
Sim sou e com orgulho
Nos olhos e na boca.
Com vaidade e comoção
Não sou lambe-cús,
Falsa, bajuladora...
De sufisma sempre na mão!
Sou qual águia, voando
pelo Céu afora,
sou palavra, liberdade
no Céu na terra...
onde me pecam a verdade,
Lá estarei qual fera.
Sou o que sou e não me importa
Gritem os Deuses...
O Demo que feche a porta...
Sou o que sou e não deixarei
De o ser ...mesmo quando morta!!!



Dinah Raphaellus (Portugal)



3 de junho de 2009

FOTÓGRAFO ANGOLANO

O fotógrafo angolano, José Pinto "Tonspi", foi seleccionado para o ALL STARS team do programa TWENTY TEN.
O Twenty Ten (2010) é um programa que selecciona 36 radialistas e 36 fotógrafos e fotojornalistas e 36 jornalistas para "contarem estórias, "fazerem bonecos" sobre e até Julho de 2010 relacionados com o Campeonato Mundial de Futebol a ter lugar na África do Sul.
Eis algumas fotos da sua autoria, para apreciar mais fotos deste excelente fotógrafo angolano siga este link:










6 de maio de 2009

LÍNGUA




Língua
Gal Costa
Composição: Caetano Veloso (Brasil)

Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para prosa
Assim como o amor está para amizade
E quem há de negar que essa lhe é superior
E deixem os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira!
Fala!
Flor do Lácio sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer e o que pode essa língua?
Vamos atentar para sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê?
Vamos na vele da dicção choo choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E xeque-mate
Explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e imã imã imã imã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Matoso
E Arrigo Barnabé e Maria da Fé e Arrigo Barnabé
Flor do Lácio sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer e o que pode essa língua?
Incrível! É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Se você tem uma idéia incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer azevedo
E o recôncavo e o recôncavo e o recôncavo
Meu medo!
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria tenho mátria e quero frátria
Poesia concreta prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap chic-left com banana
Será que ele está no Pão de Açúcar?
Tá craude brô você eu tu lhe amo
Que é que eu te faço nêgo?
Bote ligeiro!
Nós canto falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores nos guetos de Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixem que digam, que pensem, que falem.

29 de abril de 2009

PER AUGUSTO & MACHINA


Esta postagem foi retirada na íntegra do blogue da minha amiga Meg, com sua devida permissao e que podeis visitar neste endereco: http://recalcitrantemor.blogspot.com/ um blogue que vale a pena visitar!!!












Hoje, trago-vos, em antecipação, quatro poemas do amigo e grande poeta,
Romério Rómulo, que constam do livro "Per Augusto & Machina",
a chegar muito em breve às nossas mãos, pela editora Altana
.
de quantas nuvens se faz uma loucura?é construída a mão que bate o prego?as estações do corpo só revelamo hábito eloqüente do delírio.que nos corroa a pedra, o visgo loucoda agonia!desmonte do tamanho, o extirpado dente,gengiva em sangue são a mesma facedo hábito terrível de ser homem.quanta eloqüência travada no meu olho!.(uma bravura regenera a noite).
.~~~..
a vaga decisão de ser meu corpo
o elo de teu ventre com a terra.
devo extirpar o gesto adquirido
num, por somenos, ato reticente
de ver distância de mim ser teu intent
eu tenho que arrancar da tua nuca
quando as valas mostrarem nosso rumo
quando as formigas resvalarem atos
de um só ser em nós se validar
vou te mostrar a minha mão candente
meu corpo todo ele enluarado
e o meu dente podre de manhã.
há de sobrar de nós-o quê? –só torpes
rasgos de vento no olho do tufão.
a pura pedra me diz:
quando fui homem?
.
(arrancar da tua nuca)
.
.~~~
..meu corpo traz uma equação de nuvem.
pobres resgatados, desmorados, osso e braço
rezam no ar de penitência suas águas.
proprietários do sobrado, pouco lhes resta.
de tempo, arreganham dentes de uma fome sólida.
ralos de feijão, seus corpos sabem o horizonte da terra.
escaldados, cândidos, um sopro.
.
(cândidos, um sopro)
.
.
~~~
.
.
o meu pecado é válido, se podre
arranca luzes da cidade alta.
qualquer amante a noite se refaz
deixando a güela ressarcir desejos.
quando mães, estacas, se filiam
às quadras do delírio permanente?
se, à noite, piso infernos e bordéis
é que um destino vago me repisa.
somos filhotes desta dor e medo.
somos filiados à mazela rústica.
quanto de podridão varreu-me sempre
se só o acaso dedilha meus olhares?
sou vil filhote desta dor e medo.
.
(todo sertão é um caldo de tortura)
.
.
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Romério Rómulo
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.«««o»»»
.
.ROMÉRIO RÓMULO...no Café Literário
"O Novidades & Velharias, reintroduzindo o quadro de entrevistas intitulado “café literário[1]”, contará com a presença do poeta mineiro Romério Rômulo para debater questões relacionadas aos seus horizontes de criação, preferências e concepções literárias e alguns elementos perceptíveis em seu novo livro de poesia, intitulado Per Augusto e Machina. (...)"Hercília Fernandes
«««o»»»
A propósito da entrevista acima anunciada, Romério Rómulo, deixou-me um convite que é dirigido também a todos os amigos do Recalcitrante, e que passo a transcrever...
meg :
uma notícia.
a professora hercília fernandes,da universidade federal do rio grande do norte,brasil
(ela é conterrânea do moacy cirne),fez uma longa entrevista comigo,e disponibilizou
no
http://novidadesevelharias-fernandeshercilia.blogspot.com/
deixo o meu convite à leitura da matéria a todos os amigos do blog
um beijo.
romério .
.
.
«««o»»»
.
.
Já li a extensa entrevista e confesso que me surpreendeu... fiquei a conhecer muito melhor o Homem e o Poeta ...o seu trabalho, a sua obra e o novo livro de poesia.
Recomendo-a vivamente... a todos.
Bem haja, Hercília Fernandes!
Obrigada, Romério!

22 de abril de 2009

BIBLIOTECA DIGITAL DA UNESCO




A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) lançou esta terça-feira a Biblioteca Digital Mundial, que permitirá consultar gratuitamente pela Internet o acervo de grandes bibliotecas e instituições culturais de inúmeros países.

21 de abril de 2009

12 de abril de 2009

ACERVO DIGITAL DA REVISTA VEJA - ABRIL EDITORA






Para vocês o link de acesso a todas as revistas VEJA, editadas pela Abril (Brasil) nos últimos 40 anos.
Da capa à contra-capa, incluindo todas as páginas.
Um trabalho admirável pela qualidade, fidelidade e tecnologia aplicada.
Todas as edições de VEJA poderão ser consultadas na íntegra na web, um acervo de 40 anos de existência na internet.
Todas as edições poderão ser consultadas na íntegra em formato digital no endereço:

http://veja.abril.com.br/acervodigital

BOLINGO - Abel Duere Benguela Angola



Seu timbre de voz inconfundível mistura a magia, o encanto e a força da mãe África.Show ao vivo gravado em Setembro de 2007.

7 de abril de 2009

GLOBALIZAÇÃO





Do consenso saiu a máxima:
“É preciso globalizar os mercados”.
Daí em diante disseram mais:
“Derrubem tudo...
Todas as barreiras derrubem. Façam cair todos os muros.
Não poderá haver limites para o capital.
Os lucros são mais importantes que homens”.

E assim deu-se a Globalização!
Criou-se para toda nação
um deus-mercado...

Mito sagrado da dominação
Aos poucos foi espalhando pelo mundo
O credo da igreja de Washington
Pecado agora é desobedecer o mercado
Portanto juntem-se todos numa só oração:
Louvai o deus-mercado
Somente ele é capaz de livrar da escravidão...


Quanta enganação deste mandamento!

O miserável povo
No enredo de miseráveis procissões
Vai transferindo dos infernos
Da pobreza...
E da fome
Para os céus das grandes nações
Almas escapeladas
Ungidas pelo fogo dos senhores donos do mundo
Num ritual macabro de miseráveis crucificações...
E nada pode aplacar a fúria do deus-mercado
Que cobra cada vintém
Mesmo daquele que nada mais tem
Para comprar o pão nosso de cada dia
Que alimentaria
O filho seu...

Ó sina das sinas!

Até quando este povo deserdado
Há-de suportar quanta e tanta subjugação?
Até quando!?

Há uma profecia que nasce do espírito das nações vencidas:
“Para vencer a necessidade existe apenas a necessidade de vencê-la”
Este terço precisa ser dobrado no coração de cada fiel
Somente assim
Sob o manto dessa contrição ao Deus puro
Comum e solidário
Todo o povo alcançará o céu
© De João Batista do Lago (Brasil)