16 de janeiro de 2009

MULHER NEGRA

Tela de Neves e Sousa

MULHER NEGRA

Mulher nua, mulher negra
Vestida de tua cor que é vida, de tua forma que é beleza!
Cresci à tua sombra; a doçura de tuas mãos acariciou os meus olhos.
E eis que, no auge do verão, em pleno Sul, eu te descubro,
Terra prometida, do cimo de alto desfiladeiro calcinado,
E tua beleza me atinge em pleno coração, como o golpe certeiro
de uma águia.
Fêmea nua, fêmea escura.
Fruto sazonado de carne vigorosa, êxtase escuro de vinho negro,
boca que faz lírica a minha boca
savana de horizontes puros, savana que freme com
as carícias ardentes do vento Leste.
Tam-tam escultural, tenso tambor que murmura sob os dedos
do vencedor
Tua voz grave de contralto é o canto espiritual da Amada.
Fêmea nua, fêmea negra,
Lençol de óleo que nenhum sopro enruga, óleo calmo nos flancos do atleta,
nos flancos dos príncipes do Mali.
Gazela de adornos celestes, as pérolas são estrelas sobre
a noite da tua pele.
Delícia do espírito, as cintilações de ouro sobre tua pele que ondula
à sombra de tua cabeleira. Dissipa-se minha angústia,
ante o sol dos teus olhos.
Mulher nua, fêmea negra,
Eu te canto a beleza passageira para fixá-la eternamente,
antes que o zelo do destino te reduza a cinzas para
alimentar as raízes da vida.

FEMME NOIR

Femme nue, femme noire
Vêtue de ta couleur qui est vie, de ta forme qui est beauté !
J'ai grandi à ton ombre, la douceur de tes mains bandait mes yeux.
Et voilà qu'au cœur de l'Été et de Midi, je te découvre,
Terre promise, du haut d'un haut col calciné
Et ta beauté me foudroie en plein cœur, comme l'éclair d'un aigle.

Femme nue, femme obscure
Fruit mûr à la chair ferme, sombres extases du vin noir, bouche qui fait lyrique ma bouche
Savane aux horizons purs, savane qui frémis aux caresses ferventes du Vent d'Est
Tamtam sculpté, tamtam tendu qui gronde sous les doigts du vainqueur
Ta voix grave de contralto est le chant spirituel de l'Aimée.

Femme nue, femme obscure
Huile que ne ride nul souffle, huile calme aux flancs de l'athlète, aux flancs des princes du Mali
Gazelle aux attaches célestes, les perles sont étoiles sur la nuit de ta peau
Délices des jeux de l'esprit, les reflets de l'or rouge sur ta peau qui se moire
À l'ombre de ta chevelure, s'éclaire mon angoisse aux soleils prochains de tes yeux.

Femme nue, femme noire
Je chante ta beauté qui passe, forme que je fixe dans l'Éternel
Avant que le Destin jaloux ne te réduise en cendres pour nourrir les racines de la vie.


Leopoldo Senghor (Senegal)

13 de janeiro de 2009

BRIGADA VICTOR JARA

A Brigada Victor Jara é uma banda portuguesa criada em 1975 por um grupo de jovens de Coimbra. De início a Brigada reproduzia cantigas portuguesas e estrangeiras de cariz revolucionário com que participavam nas campanhas de dinamização cultural do MFA. Nomeados em memória do cantor chileno com o mesmo nome, morto pelos militares após o golpe de Pinochet, no Chile, o grupo mantém-se ainda em actividade tendo lançado o seu mais recente disco em 2006.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Brigada_Victor_Jara

PARA OUVIR A BRIGADA CLICK AQUI: http://bvitorjara.com.sapo.pt/index.html

APESAR DE VOCE - CHICO BUARQUE


Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão.
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão.

(Coro) Apesar de você
amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar.

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido,
Esse grito contido,
Esse samba no escuro.

Você que inventou a tristeza
Ora tenha a fineza
de “desinventar”.
Você vai pagar, e é dobrado,
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar.

(Coro2) Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria.

Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença.

E eu vou morrer de rir
E esse dia há de vir
antes do que você pensa.
Apesar de você

(Coro3)Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia.

Como vai se explicar
Vendo o céu clarear, de repente,
Impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar,
Na sua frente.
Apesar de você

(Coro4)Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai se dar mal, etc e tal,
La, laiá, la laiá, la laiá…….

Chico Buarque (Brasil)

MI UNICÓRNIO AZUL (Interpretacoes de Sílvio Rodrigues & Mercedes Sosa)

Mi unicornio azul ayer se me perdió,
pastando lo deje y desapareció.
cualquier información bien la voy a pagar.
las flores que dejó
no me han querido hablar.
Mi unicornio azul
ayer se me perdió,
no sé si se me fue,
no sé si extravió,
y yo no tengo más
que un unicornio azul.
si alguien sabe de él,
le ruego información,
cien mil o un millón
yo pagaré.
mi unicornio azul
se me ha perdido ayer,
se fue.
Mi unicornio y yo
hicimos amistad,
un poco con amor,
un poco con verdad.
con su cuerno de añil
pescaba una canción,
saberla compartir
era su vocación.
Mi unicornio azul
ayer se me perdió,
y puede parecer
acaso una obsesión,
pero no tengo más
que un unicornio azul
y aunque tuviera dos
yo solo quiero aquel.
cualquier información
la pagaré.
mi unicornio azul
se me ha perdido ayer,
se fue.


Sílvio Rodriguez (Cuba)




10 de janeiro de 2009

ARTE...

"Temos a arte para não morrer da verdade."

Friedrich Nietzsche (Alemanha)

8 de janeiro de 2009

YO PISARÉ LAS CALLES...

Yo pisaré las calles nuevamente
de lo que fue Santiago ensangrentada,
y en una hermosa plaza liberada
me detendré a llorar por los ausentes.

Yo vendré del desierto calcinante
y saldré de los bosques y los lagos,
y evocaré en un cerro de Santiago
a mis hermanos que murieron antes.

Yo unido al que hizo mucho y poco
al que quiere la patria liberada
dispararé las primeras balas
más temprano que tarde, sin reposo.

Retornarán los libros, las canciones
que quemaron las manos asesinas.
Renacerá mi pueblo de su ruina
y pagarán su culpa los traidores.

Un niño jugará en una alameda
y cantará con sus amigos nuevos,
y ese canto será el canto del suelo
a una vida segada en La Moneda.

Pablo Milanés


6 de janeiro de 2009

AOS HERÓIS DO HOLOCAUSTO

Nicholas Winton (Inglaterra)

Aristídes de Sousa Mendes (Portugal)

Irena Sendlerowa (Polónia)

Humanos, verdadeiramente humanos

foram anjos descidos dos céus

abrindo suas asas protectoras

nos momentos do medo e da demência

aflitiva dos dias de ignomínia...

Superando sua humana condição

e contra a bestialidade das ideias

impuras, irracionais, inumanas

foram raiz de toda a diferença

bonança durante a tormenta

foram o templo, onde perseguido,

gritei: santuário!

Humanos, verdadeiramente humanos

em sacrifício de suas próprias vidas

foram a vida de gerações futuras.

Humanos, verdadeiramente humanos

superando sua humana condição

foram homens e mulheres simples e justos,

audazes heróis e, qual Deuses

olímpicos, ascendem aos céus como fachos

a arder na treva escura

iluminando a selva insana e demente

desta nossa humana iníqua loucura.

Namibiano Ferreira

2 de janeiro de 2009

THE POWER OF GOOD - NICHOLAS WINTON







The Story

In December 1938, Nicholas Winton, a 29-year-old London stockbroker, was about to leave for a skiing holiday in Switzerland, when he received a phone call from his friend Martin Blake asking him to cancel his holiday and immediately come to Prague: "I have a most interesting assignment and I need your help. Don't bother bringing your skis." When Winton arrived, he was asked to help in the camps, in which thousands of refugees were living in appalling conditions.


MUNICH AGREEMENT
The Munich Conference was held September 29-30, 1938, following Hitler's demand to annex the Sudetenland, a region in Czechoslovakia populated largely by ethnic Germans. The resulting crisis led Britain and France, who had adopted a policy of appeasement, to pressure Czechoslovakia to accede to Hitler's demands. No Czech representative was present at the conference, and the agreement led to the destruction of the Czech state. Following the conference, Winston Churchill warned: "Do not suppose that this is the end. This is only the beginning of the reckoning."


In October 1938, after the ill-fated Munich Agreement between Germany and the Western European powers, the Nazis annexed a large part of western Czechoslovakia, the Sudetenland. Winton was convinced that the German occupation of the rest of the country would soon follow. To him and many others, the outbreak of war seemed inevitable. The news of Kristallnacht, the bloody pogrom (violent attack) against German and Austrian Jews on the nights of November 9 and 10, 1938, had reached Prague. Winton decided to take steps.
"I found out that the children of refugees and other groups of people who were enemies of Hitler weren't being looked after. I decided to try to get permits to Britain for them. I found out that the conditions which were laid down for bringing in a child were chiefly that you had a family that was willing and able to look after the child, and £50, which was quite a large sum of money in those days, that was to be deposited at the Home Office. The situation was heartbreaking. Many of the refugees hadn't the price of a meal. Some of the mothers tried desperately to get money to buy food for themselves and their children. The parents desperately wanted at least to get their children to safety when they couldn't manage to get visas for the whole family. I began to realize what suffering there is when armies start to march."
In terms of his mission, Winton was not thinking in small numbers, but of thousands of children. He was ready to start a mass evacuation.
"Everybody in Prague said, 'Look, there is no organization in Prague to deal with refugee children, nobody will let the children go on their own, but if you want to have a go, have a go.' And I think there is nothing that can't be done if it is fundamentally reasonable."


OPERATION KINDERTRANSPORT
On December 2, 1938, Jewish and Christian agencies began rescuing German and Austrian Jewish children on Kindertransporten (children's transports). The "Refugee Children's Movement," a group under the auspices of the Central British Fund for German Jewry or CBF (which later became the World Jewish Relief organization), urged concerned Christians and Jews to support "Operation Kindertransport." An extensive fund-raising effort was organized and the British public responded generously, raising half a million British pounds in six months. A large portion of this money was used to care for the children who were rescued. Between December 1938 and May 1940, almost 10,000 children (infants to teenagers) were rescued and given shelter at farms, hostels, camps, and in private homes in Britain. However, this effort did not include the children of Czechoslovakia; and this is why the work of Nicholas Winton was so vital.

Independently of Operation Kindertransport (see sidebar), Nicholas Winton set up his own rescue operation. At first, Winton's office was a dining room table at his hotel in Wenceslas Square in Prague. Anxious parents, who gradually came to understand the danger they and their children were in, came to Winton and placed the future of their children into his hands. Soon, an office was set up on Vorsilska Street, under the charge of Trevor Chadwick. Thousands of parents heard about this unique endeavor and hundreds of them lined up in front of the new office, drawing the attention of the Gestapo. Winton's office distributed questionnaires and registered the children. Winton appointed Trevor Chadwick and Bill Barazetti to look after the Prague end when he returned to England. Many further requests for help came from Slovakia, a region east of Prague.
Winton contacted the governments of nations he thought could take in the children. Only Sweden and his own government said yes. Great Britain promised to accept children under the age of 18 as long as he found homes and guarantors who could deposit £50 for each child to pay for their return home.
Because he wanted to save the lives of as many of the endangered children as possible, Winton returned to London and planned the transport of children to Great Britain. He worked at his regular job on the Stock Exchange by day, and then devoted late afternoons and evenings to his rescue efforts, often working far into the night. He made up an organization, calling it "The British Committee for Refugees from Czechoslovakia, Children's Section." The committee consisted of himself, his mother, his secretary and a few volunteers.
Winton had to find funds to use for repatriation costs, and a foster home for each child. He also had to raise money to pay for the transports when the children's parents could not cover the costs. He advertised in British newspapers, and in churches and synagogues. He printed groups of children's photographs all over Britain. He felt certain that seeing the children's photos would convince potential sponsors and foster families to offer assistance. Finding sponsors was only one of the endless problems in obtaining the necessary documents from German and British authorities.
"Officials at the Home Office worked very slowly with the entry visas. We went to them urgently asking for permits, only to be told languidly, 'Why rush, old boy? Nothing will happen in Europe.' This was a few months before the war broke out. So we forged the Home Office entry permits."
On March 14, 1939, Winton had his first success: the first transport of children left Prague for Britain by airplane. Winton managed to organize seven more transports that departed from Prague's Wilson Railway Station. The groups then crossed the English Channel by boat and finally ended their journey at London's Liverpool Street station. At the station, British foster parents waited to collect their charges. Winton, who organized their rescue, was set on matching the right child to the right foster parents.
The last trainload of children left on August 2, 1939, bringing the total of rescued children to 669. It is impossible to imagine the emotions of parents sending their children to safety, knowing they may never be reunited, and impossible to imagine the fears of the children leaving the lives they knew and their loved ones for the unknown.
On September 1, 1939 the biggest transport of children was to take place, but on that day Hitler invaded Poland, and all borders controlled by Germany were closed. This put an end to Winton's rescue efforts. Winton has said many times that the vision that haunts him most to this day is the picture of hundreds of children waiting eagerly at Wilson Station in Prague for that last aborted transport.
"Within hours of the announcement, the train disappeared. None of the 250 children aboard was seen again. We had 250 families waiting at Liverpool Street that day in vain. If the train had been a day earlier, it would have come through. Not a single one of those children was heard of again, which is an awful feeling."
The significance of Winton's mission is verified by the fate of that last trainload of children. Moreover, most of the parents and siblings of the children Winton saved perished in the Holocaust.
After the war, Nicholas Winton didn't tell anyone, not even his wife Grete about his wartime rescue efforts. In 1988, a half century later, Grete found a scrapbook from 1939 in their attic, with all the children's photos, a complete list of names, a few letters from parents of the children to Winton and other documents. She finally learned the whole story. Today the scrapbooks and other papers are held at Yad Vashem, the Holocaust Martyrs' and Heroes' Remembrance Authority, in Israel.
Grete shared the story with Dr. Elisabeth Maxwell, a Holocaust historian and the wife of newspaper magnate Robert Maxwell. Robert Maxwell arranged for his newspaper to publish articles on Winton's amazing deeds. Winton's extraordinary story led to his appearance on Esther Rantzen's BBC television program, That's Life. In the studio, emotions ran high as Winton's "children" introduced themselves and expressed their gratitude to him for saving their lives. Because the program was aired nationwide, many of the rescued children also wrote to him and thanked him. Letters came from all over the world, and new faces still appear at his door, introducing themselves by names that match the documents from 1939.
The rescued children, many now grandparents, still refer to themselves as "Winton's children." Among those saved are the British film director Karel Reisz (The French Lieutenant's Woman, Isadora, and Sweet Dreams), Canadian journalist and news correspondent for CBC, Joe Schlesinger (originally from Slovakia), Lord Alfred Dubs (a former Minister in the Blair Cabinet), Lady Milena Grenfell-Baines (a patron of the arts whose father, Rudolf Fleischmann, saved Thomas Mann from the Nazis), Dagmar Símová (a cousin of the former U.S. Secretary of State, Madeleine Albright), Tom Schrecker, (a Reader's Digest manager), Hugo Marom (a famous aviation consultant, and one of the founders of the Israeli Air Force), and Vera Gissing (author of Pearls of Childhood) and coauthor of Nicholas Winton and the Rescued Generation.
Winton has received many acknowledgements for his humanitarian pre-war deeds. He received a letter of thanks from the late Ezer Weizman, a former president of the State of Israel. He was made an Honorary Citizen of Prague. In 1993, Her Majesty, Queen Elizabeth II, awarded him the MBE (Member of the British Empire), and on October 28, 1998, Václav Havel, then president of the Czech Republic, awarded him the Order of T.G. Masaryk at Hradcany Castle for his heroic achievement. On December 31, 2002, Winton received a knighthood from Queen Elizabeth II for his services to humanity. Winton's story is also the subject of two films by Czech filmmaker Matej Mináč: All My Loved Ones and the award-winning Nicholas Winton: The Power of Good.
Today, Sir Nicholas Winton, age 97, resides at his home in Maidenhead, Great Britain. He still wears a ring given to him by some of the children he saved. It is inscribed with a line from the Talmud, the book of Jewish law. It reads:
"Save one life, save the world."
Credits: http://www.powerofgood.net/story.php



ESPERANÇA

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

Mário Quintana (Brasil)

26 de dezembro de 2008

GRACIAS A LA VIDA (VIOLETA PARRA)






(San Carlos, Chillán, 1917 – Santiago, 1967) Cantautora y folclorista chilena, hermana del poeta Nicanor Parra.
Hija de Nicanor Parra y Clara Sandoval, realizó sus primeros estudios en Lautaro y en Chillán, y en 1934 ingresó a la Escuela Normal, donde permaneció menos de un año. En 1938 se casó con Luis Cereceda, el padre de sus hijos Ángel e Isabel, que adoptarían el apellido de su madre.
Desde pequeña sintió afición por la música y el folclore chilenos; su padre, profesor de escuela primaria, fue un conocido folclorista de la región. Tras instalarse en Santiago, comenzó a actuar con su hermana Hilda en el Dúo Hermanas Parra. En 1942 ganó el primer premio en un concurso de canto español organizado en el Teatro Baquedano, y a partir de entonces fue contratada con frecuencia hasta que partió a Valparaíso, donde encontró su verdadera vocación.
El constante viajar por todo el país le puso en contacto con la realidad social chilena, plagada de desigualdades económicas. Violeta Parra adoptó una postura política de militante de izquierdas que le llevó a buscar las raíces de la música popular. En 1952 recorrió los barrios más pobres de Santiago de Chile, las comunidades mineras y las explotaciones agrarias, recogiendo canciones anónimas que después repetirá, ya en 1954, en una serie de programas radiofónicos para Radio Chilena, emisora que la proyectó al primer plano del folclore nacional. En 1954 recibió el premio Caupolicán; ese mismo año contrajo matrimonio con Luis Arce, del que nacieron Carmen Luisa y Rosa Clara. En 1953 había conocido a Pablo Neruda.
A mitad de los años cincuenta realizó un viaje por los países de la Europa socialista y de regreso, a su paso por Francia, tuvo la oportunidad de plasmar temas del folklore chileno para el catálogo del sello Le Chant Du Monde. En 1956, ya de regreso a Chile, grabó el primer álbum de la colección El folclore de Chile, serie que impedirá que se pierdan multitud de temas, la mayoría de autoría anónima. Fue designada directora del museo de Arte Popular de la Universidad de Concepción y retomó sus actuaciones en Radio Chilena.
Pasó los primeros años de la década de 1960 en Europa, donde realizó actuaciones en diversos países. En 1964 tuvo la oportunidad de organizar una exposición individual de su obra plástica en el Museo del Louvre, la primera realizada por un artista latinoamericano. Nuevamente en Santiago, junto con su hermano Nicanor y sus hijos mayores, animaron la "Peña de los Parra", un nombre de resonancias legendarias en la música popular de América Latina.
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Además de una artista excepcional, Violeta Parra fue una investigadora del folclore chileno; su obra recopilada es inmensa y comprende numerosos géneros, como tonadas, parabienes o villancicos. Su labor de difusora de la expresión del pueblo campesino la volcó en composiciones musicales como Casamientos de negros (1955), Yo canto la diferencia (1961), Una chilena en París (1965), Qué dirá el Santo Padre (1965), Rin del angelito (1966), Run run se fue pal Norte (1966), Volver a los diecisiete (1966) y Gracias a la vida (1966), muchas de las cuales han sido grabadas por destacados intérpretes.
Su creatividad la llevó también a cultivar la cerámica, la confección de tapices, la pintura y la poesía. Los dolores y las alegrías de su vida alientan los versos de A lo humano y a lo divino. Desgraciadamente, como consecuencia de una fuerte depresión, Violeta Parra acabó con su vida el 5 de febrero de 1967, momentos antes de salir a un escenario.



Biografia Créditos: http://www.biografiasyvidas.com/biografia/p/parra_violeta.htm

23 de dezembro de 2008

UM CONTO DE NATAL

NATAL



De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.

E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez reis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza.

Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-se lá.

E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...

Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!

Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.

Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!

Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.

Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.

Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.

Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.

Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.

Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o ar canho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?

Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?

A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.

E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.

- Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. – A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.

Miguel Torga (Portugal), in Novos Contos da Montanha

10 de dezembro de 2008

D. DINIS, EL-REI POETA






D. DINIS, sexto rei de Portugal.

D. Dinis, nasceu a 9 de Outubro de 1261, e morreu em Santarém a 7 de Janeiro de 1325. Casou em 1288 com D. Isabel, a Rainha Santa, (nasceu em Saragoça, 1270; morreu em Estremoz a 4 de Julho de 1336; enterrada em Santa Clara de Coimbra), filha de Pedro III e de D. Constança, reis de Aragão.


Filho de D. Afonso III a de D. Beatriz de Castela. A doença de seu pai preparou-o bem cedo para governar.

Foi aclamado em Lisboa em 1279, para iniciar um longo reinado de 46 anos, inteligente e progressivo. Lutou contra os privilégios que limitavam a sua autoridade. Em 1282 estabeleceu que só junto do rei a das Cortes se podiam fazer as apelações de quaisquer juízes, a um ano depois revogou doações feitas antes da maioridade. Em 1284 recorreu às inquirições, a que outras se seguiram. Em 1290 foram condenadas todas as usurpações.

Quando subiu ao trono, estava a coroa em litígio com a Santa Sé motivado por abusos do clero em relação à propriedade real. D. Dinis por acordo diplomático, obteve a concordata após a qual os litígios passaram a ser resolvidos pelo rei a os seus prelados. Apoiou os cavaleiros portugueses da Ordem de Santiago, que pretendiam separar-se do seu mestre castelhano. Salvou a Ordem dos Templários em Portugal, passando a chamar‑Ihes Ordem de Cristo.

Travou guerra com Castela, mas dela desistiu depois de obter as vilas de Moura a Serpa, territórios para lá do Guadiana e a reforma das fronteiras de Ribacoa. Percorreu cidades a vilas, em que fortificou os seus direitos, zelou pela justiça a organizou a defesa em todas as comarcas. Fomentou todos os meios de uma riqueza nacional, na extracção de prata, estanho, ferro, exigindo em troca um quinto do minério a um décimo de ferro puro. Desenvolveu as feiras, protegeu a exportação de produtos agrícolas para a Flandres, Inglaterra e França. Exportações que abrangiam ainda sal e peixe salgado. Em troca vinham minérios e tecidos. Estabeleceu com a Inglaterra um tratado de comércio, em 1308. Foi o grande impulsionador da nossa marinha, embora fosse à agricultura que dedicou maior atenção. A exploração das terras estava na posse das ordens religiosas. D. Dinis procurou interessar nelas todo o povo, pelo que facilitou distribuições de terras. Fundou aldeias, estabeleceu toda uma série de preciosas medidas tendentes a fomentarem a agricultura, adoptando vários sistemas consoante as regiões a as províncias.

Deve-se ainda a D. Dinis um grande impulso na cultura nacional. Entre várias medidas tomadas, deve citar-se a Magna Charta Priveligiorum, primeiro estatuto da Universidade, a tradução de muitas obras e tornou a lingua portuguesa oficial, ate ai era o Latim, etc.

A sua corte foi um dos centros literários mais notáveis da Península.

Um poema de sua autoria:



AI FLORES, AI FLORES DO VERDE PINO…



Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?



Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
Ai Deus, e u é?



Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
Ai Deus, e u é?



Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mh´á jurado!
Ai Deus, e u é?



- Vós me preguntades polo voss´amado,
e eu ben vos digo que é san´e vivo.
Ai Deus, e u é?



Vós me preguntades polo voss´amado,
e eu ben vos digo que é viv´e sano.
Ai Deus, e u é?



E eu ben vos digo que é san´e vivo
e seerá vosc´ant´o prazo saído.
Ai Deus, e u é?



E eu ben vos digo que é viv´e sano
e seerá vosc´ant´o prazo passado.
Ai Deus, e u é?



D. Dinis (Portugal)

1261 – 1325




Segue-se um poema publicado em Mensagem da atoria de Fernando Pessoa, assim descreve o poeta este grande rei:

SEXTO CASTELO
D. DINIS

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo

De Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,

É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

(Fernando Pessoa, in Mensagem)

AUTUMN SONG





Like a joy on the heart of a sorrow,
The sunset hangs on a cloud;
A golden storm of glittering sheaves,
Of fair and frail and fluttering leaves,
The wild wind blows in a cloud.

Hark to a voice that is calling
To my heart in the voice of the wind:
My heart is weary and sad and alone,
For its dreams like the fluttering leaves have gone,
And why should I stay behind?


Sarojini Naidu (India)

3 de dezembro de 2008

QUERO...




Quero abraçar-te
Meu eterno descanso.
Embrulhar-me em teu
Negrume manto,
Com o qual apagarei
Qualquer réstia de calor!
Tenho fome de beijar-te,
Sou orfã de paixão
Desses lábios sem cor.
Quero contigo,
A última valsa dançar
E minha semente
Daninha, de vez acabar,
Bani-la da face da terra
Construir a paz
Destruindo esta guerra,
Este horror de morta,
Que meu peito e alma dilacera
E nem o Amor...
Já me acalma!
Quero contigo apagar
A noite eterna, fechar a porta
Esquecer toda a vida terrena,
Casar-me e para sempre,
Viver com a bruma
Ainda que seja esse,
O meu castigo,
A minha pena!!!



Dinah Raphaellus (Portugal)


2 de dezembro de 2008

OS ANJOS CHORAM



Uma cidade caiu
e os homens perderam-se nos trilhos
das casas agora desabadas.
As mulheres de joelhos em cima do
nada

já não sabem rezar.

Os anjos choram
e o bálsamo de todas as
feridas
não chega até nós.




Maria Alexandre Dáskalos (Angola)

BATUQUE




Marimbas, ngomas, zabumbas,
guizos, quissanges, chigufos...
Batuque doido – loucura
regada pelos marufos...

Bailados sensuais, ardentes;
perturbante orquestração;
canções sentidas, dolentes,
que brotam do coração.

E aquela negra, que dança
mais esbelta e mais torcida,
é mesmo a imagem do Sonho
fazendo bailar a vida!

O batuque me atordoa.
E eu me encanto e me confundo
Nesta loucura que voa
e soa longe do mundo...

E sinto dentro da alma
este batuque sem fim!
Eu sinto bem o batuque
a gritar dentro de mim!



Geraldo Bessa Víctor (Angola)

O SILÊNCIO



Convivência entre o poeta e o leitor, só no silêncio da leitura a sós. A sós, os dois. Isto é, livro e leitor. Este não quer saber de terceiros, n ão quer que interpretem, que cantem, que dancem um poema. O verdadeiro amador de poemas ama em silêncio...




Mário Quintana (Brasil)

1 de dezembro de 2008

1 DEZEMBRO DIA MUNDIAL CONTRA A SIDA

Cada doente custa 10 mil € por ano

Cerca de 22 mil pessoas infectadas com o vírus da sida (VIH) estão a fazer medicação antirretrovírica, tratamentos que representam uma despesa de cerca de dez mil euros por ano por cada doente. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) gasta mais sete mil euros quando o doente toma medicamentos inovadores.

Estes são os números de doentes em tratamento, apesar de os registos oficiais apontarem para 33 815 casos de infecção desde 1983.

Estes dados foram revelados em Lisboa, durante um workshop no âmbito do Dia Mundial da Sida, que se assinala amanhã, dia 1 de Dezembro.

Eugénio Teófilo, médico internista do Hospital dos Capuchos, em Lisboa, explica que, dos 33 815 casos diagnosticados desde 1983, hoje fazem medicação entre 20 mil a 22 mil infectados. Muitos não tomam medicamentos porque são assintomáticos (não têm sintomas) e outros doentes faleceram entretanto.

Os doentes dispõem hoje de mais de vinte fármacos no mercado, mas em muitos casos é possível um tratamento com um ou dois comprimidos, ao contrário de há alguns anos, em que os doentes tomavam vinte ou mais comprimidos por dia.

Armando Alcobia, director dos serviços Farmacêuticos do Hospital Garcia de Orta, em Almada, unidade que trata um milhar de doentes, referiu que o hospital gasta cerca de dez milhões de euros por ano no tratamento daqueles doentes. "A terapêutica é cara e cada doente representa uma despesa de cerca de dez mil euros por ano."

O vírus da sida está a infectar mais mulheres portuguesas e pessoas mais velhas, o que preocupa os especialistas.

In Correio da Manha de 30/11/2008 (Portugal)

28 de novembro de 2008

CANTIGA PARA SETE VERSOS


O canto que eu queria cantar
Foi-me tirado pelos pássaros.

A luz que eu pensei existir
Subtraiu-a o sol.

E essa água brotando em meus olhos
Fiapo de cachoeira:

Saudade de canto e luz.




Sílvia Câmara (Brasil)
http://brisapoetica.blogspot.com/

26 de novembro de 2008

PRELÚDIO DE NATAL

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

David Mourão-Ferreira (Portugal)

HISTÓRIA ANTIGA (Poema de Natal)

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga (Portugal)

25 de novembro de 2008

GIL VICENTE


BIOGRAFIA:

A biografia de Gil Vicente ainda permanece um mistério em muitos aspectos . Não há provas definitivas que possam estabelecer com segurança sua identidade . Calcula-se que tenha nascido por volta de 1465 .

Há poemas seus no Cancioneiro geral , organizado por Garcia de Resende e publicado em 1516 . A sua carreira teatral , por outro lado , começou de forma inusitada ; por ocasião do nascimento do filho de D.Manuel e de D. Maria de Castela , em 1502 , ele entrou nos aposentos reais e , diante da corte surpresa , declamou um monólogo que tinha escrito em castelhano , à semelhança de Juan del Encina , o Monólogo do vaqueiro ( ou Auto da visitação ) , em que um simples homem do campo expressa sua alegria pelo nascimento do herdeiro , desejando-lhe felicidades . A interpretação entusiasmou a corte , que lhe pediu a repetição na passagem do Natal . Gil Vicente atendeu aos apelos , porém compôs um outro texto , o Auto pastoril castelhano , que também fez sucesso . Tinha início , assim , uma brilhante carreira , que se estenderia por mais de trinta anos . Sua última peça é de 1536 , e depois dessa data não há mais notícias suas . Preparava uma edição de sua obra quando faleceu . Luís Vicente , seu filho , publicou em 1562 a Copilaçam de todalas peças de Gil Vicente , que deixa muito a desejar por ser incompleta e pelas alterações em vários textos .

A sua participação na vida da corte foi intensa e variada , tendo inclusive recebido prêmios de D.João III . Várias peças suas circularam sob forma de cordel e , por ocasião do estabelecimento da Inquisição em Portugal , algumas foram proibidas .

Dessa forma , pouco se conhece de concreto sobre a vida do homem Gil Vicente , mas as numerosas peças que nos restaram bastam para avaliar o talento indiscutível do escritor Gil Vicente , justamente considerado o fundador do teatro português .



Diálogo entre o Parvo e o Diabo extraído do Auto da Barca do Inferno da autoria de Mestre Gil Vicente:



Vem Joane, o Parvo, e diz ao Arrais do Inferno:

PARVO
Hou daquesta!

DIABO
Quem é?

PARVO
Eu soo. É esta a naviarra nossa?

DIABO
De quem?

PARVO
Dos tolos.

DIABO
Vossa. Entra!

PARVO
De pulo ou de voo? Hou! Pesar de meu avô! Soma, vim adoecer e fui má-hora morrer, e nela, pera mi só.

DIABO
De que morreste?

PARVO
De quê? Samicas de caganeira.

DIABO
De quê?

PARVO
De caga merdeira! Má rabugem que te dê!

DIABO
Entra! Põe aqui o pé!

PARVO
Houlá! Nom tombe o zambuco!

DIABO
Entra, tolaço eunuco, que se nos vai a maré!

PARVO
Aguardai, aguardai, houlá! E onde havemos nós d'ir ter?

DIABO
Ao porto de Lucifer.

PARVO
Ha-á-a...

DIABO
Ó Inferno! Entra cá!

PARVO
Ò Inferno?... Eramá... Hiu! Hiu! Barca do cornudo. Pêro Vinagre, beiçudo, rachador d'Alverca, huhá! Sapateiro da Candosa! Antrecosto de carrapato! Hiu! Hiu! Caga no sapato, filho da grande aleivosa! Tua mulher é tinhosa e há-de parir um sapo chantado no guardanapo! Neto de cagarrinhosa!

Furta cebolas! Hiu! Hiu! Excomungado nas erguejas! Burrela, cornudo sejas! Toma o pão que te caiu! A mulher que te fugiu per'a Ilha da Madeira! Cornudo atá mangueira, toma o pão que te caiu!

Hiu! Hiu! Lanço-te üa pulha! Dê-dê! Pica nàquela! Hump! Hump! Caga na vela! Hio, cabeça de grulha! Perna de cigarra velha, caganita de coelha, pelourinho da Pampulha! Mija n'agulha, mija n'agulha!



Gil Vicente (Mestre Gil, dramaturgo medieval portugues)

ASH-SHILBIA, POETISA LUSO-ÁRABE

Silves - Algarve


Ash-Shilbia


Ash-Shilbia é uma mulher, uma mulher do mundo muçulmano.Este poema, dirigido como protesto ao seu soberano, revela algo de particular nesta civilização do al-Ândalus no que se refere ao estatuto social da mulher no Islão.
Ash-Shilbia viveu na época almoada, sécs. XII-XIII, num período em que se interpõe, por dois anos (1189-1191), o poder cristão, por via da conquista de D. Sancho I e dos Cruzados.
Após esta conquista cristã, Silves volta por quase mais seis décadas, ao seio daquela civilização do Gharb al-Ândalus.


Poema de Ash-Shilbia


De chorarem os palácios é chegada a hora
Pois as próprias pedras se lamentam.
Ó tu que vais onde a Clemência mora,
Esperando pôr fim às mágoas que atormentam,
Diz ao Príncipe quando chegares às suas portas:
Pastor! Olha as tuas ovelhas quase mortas
Que ficam sem prado para pastar;
Deixaste-as à mercê de muitas feras.


Um paraíso, minha Silves, eras.
Tiranos te lançaram ao fogo do inferno
O castigo de Alá parecendo desprezar:
Porém, nada é oculto para o Eterno.



ALVES, Adalberto
O meu coração é árabeAssírio & Alvim, Lisboa 1987

24 de novembro de 2008

18 de novembro de 2008

POESIA ÁRABE DA PENÍNSULA IBÉRICA


É uma poesia muito esquecida, acredito que perca ao ser traduzida para português, mas merecia mais atenção dos estudiosos universitários e não só. Nas universidades portuguesas não existia (não sei agora) nenhum curso ou cadeira sobre a cultura árabe ou moçárabe do "Portugal" mourisco. Era importante que houvesse até para divulgação e preservação deste património que se poderá perder. A Universidade do Algarve seria a mais vocacionada por todas as razões que se conhecem. Mas as outras também. Se quiserem conhecer mais da poesia luso-árabe que se fez no território que hoje é Portugal aconselho-vos este livro:


Autor: Adalberto Alves
Editora: Assírio &, Alvim
ISBN: 972-37-0501-X

Apelo


Ó Dona dos Corações,
em ti talvez

Esteja a causa do tormento do cantor.
Ainda uma vez
Diz adeus a quem te quer,
E que, sem ti,
por nada sente amor.
É que, se por acaso,
longe surges na lembrança
Por ti choro pranto de criança.

Ibn Habib, que viveu na Silves almorávida - séc. XI

Sinopse:

O Meu Coração é Árabe revelou ao grande público português a sua herança poética árabe. São trezentas páginas preenchidas maioritariamente pela lírica de quarenta e sete poetas árabes que nasceram no espaço sul do Portugal hodierno. É uma poética refinada e densa, que fala do amor, da injustiça da morte, do quotidiano. Rica na sua expansividade, densa na emoção, esta poesia é também um alicerce, juntamente com a dos cancioneiros, do sentir poético português. Deve-se a Adalberto Alves este livro de paixão.

15 de novembro de 2008

HOMENAGEM A MIRIAM MAKEBA


Uma homenagem a uma voz, a uma mulher que é um ícone na luta contra o Apartheid. Faleceu no dia 10 de Novembro de 2008.

South African singer 'Mama Africa' dies at 76

Monday 10 November 2008

South African singer Miriam Makeba died of a heart attack aged 76 on Monday, just after a performance in Italy. "Mama Africa", an anti-apartheid icon, was known for singing in the clicking sounds of her native Xhosa language.