
Mário Quintana (Brasil)

Cerca de 22 mil pessoas infectadas com o vírus da sida (VIH) estão a fazer medicação antirretrovírica, tratamentos que representam uma despesa de cerca de dez mil euros por ano por cada doente. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) gasta mais sete mil euros quando o doente toma medicamentos inovadores.
Estes são os números de doentes em tratamento, apesar de os registos oficiais apontarem para 33 815 casos de infecção desde 1983.
Estes dados foram revelados em Lisboa, durante um workshop no âmbito do Dia Mundial da Sida, que se assinala amanhã, dia 1 de Dezembro.
Eugénio Teófilo, médico internista do Hospital dos Capuchos, em Lisboa, explica que, dos 33 815 casos diagnosticados desde 1983, hoje fazem medicação entre 20 mil a 22 mil infectados. Muitos não tomam medicamentos porque são assintomáticos (não têm sintomas) e outros doentes faleceram entretanto.
Os doentes dispõem hoje de mais de vinte fármacos no mercado, mas em muitos casos é possível um tratamento com um ou dois comprimidos, ao contrário de há alguns anos, em que os doentes tomavam vinte ou mais comprimidos por dia.
Armando Alcobia, director dos serviços Farmacêuticos do Hospital Garcia de Orta, em Almada, unidade que trata um milhar de doentes, referiu que o hospital gasta cerca de dez milhões de euros por ano no tratamento daqueles doentes. "A terapêutica é cara e cada doente representa uma despesa de cerca de dez mil euros por ano."
O vírus da sida está a infectar mais mulheres portuguesas e pessoas mais velhas, o que preocupa os especialistas.

Tudo principiava Só depois se rasgava a festa começava A cidade ficava David Mourão-Ferreira (Portugal) |
Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.
Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.
Miguel Torga (Portugal)

Uma homenagem a uma voz, a uma mulher que é um ícone na luta contra o Apartheid. Faleceu no dia 10 de Novembro de 2008.
Monday 10 November 2008
A puro sol escribo, a plena calle,
a pleno mar, en donde puedo canto,
sólo la noche errante me detiene
pero en su interrupción recojo espacio,
recojo sombra para mucho tiempo.
El trigo negro de la noche crece
mientras mis ojos miden la pradera
y así de sol a sol hago la llaves:
busco en la oscuridad las cerraduras
y voy abriendo al mar las puertas rotas
hasta llenar armarios con espuma.
Y no me canso de ir y de volver,
no me para la muerte con su piedra,
no me canso de ser y de no ser.
A veces me pregunto si de dónde,
si de padre o de madre o cordillera
heredé los deberes minerales,
los hilos de un océano encendido
y sé que sigo y sigo porque sigo
y canto porque canto y porque canto.
No tiene explicación lo que acontece
cuando cierro los ojos y circulo
como entre dos canales submarinos,
uno a morir me lleva en su ramaje
y el otro canta para que yo cante.
Así pues de no ser estoy compuesto
y como el mar asalta el arrecife
con cápsulas saladas de blancura
y retrata la piedra con la ola,
así lo que en la muerte me rodea
abre en mí la ventana de la vida
y en pleno paroxismo estoy durmiendo.
A plena luz camino por la sombra.
Pablo Neruda (Chile)

Que coisa me é insuportável, a mim, em particular? Com que coisa não consigo lidar de modo nenhum? O que é que me não deixa respirar e me destrói? O ar pestilento! O ar pestilento! É-me insuportável a proximidade de coisas fracassadas..., ter que cheirar as entranhas de uma alma fracassada!... Quantas coisas não há que suportar: privações, necessidades, mau tempo, enfermidades, sacrifícios, isolamento! No fundo, lidamos com tudo isto, nascidos que somos para uma existência de luta subterrânea. Mas há sempre um dia em que subimos, em que chegamos à luz. Há sempre momentos dourados, horas de triunfo... E aí, eis-nos tal qual nascemos, inquebrantáveis, resistentes, prontos para o que vier de novo, de mais difícil, de mais distante, tensos como o arco que à necessidade responde com maior tensão ainda... Mas, de tempos a tempos, concedei-me — supondo que para lá do bem e do mal existem divindades capazes de tais concessões —, concedei-me a possibilidade de entrever, de lançar um breve olhar sobre uma coisa perfeita, completa, conseguida com felicidade, uma coisa poderosa e triunfante perante a qual haja razão para sentir temor! Um breve olhar sobre um homem que justifique o homem! Sobre um feliz exemplar, capaz de complementar e redimir o homem, e assim dar-nos motivo para conservar a fé no homem!... Porque a nossa situação actual é esta: o grau de aviltação e de nivelamento a que chegou o homem europeu traz consigo o maior perigo que nos ameaça, porque este espectáculo só nos dá cansaço... Não vemos nada que queira ser maior e pressentimos que o que vemos vai continuar a descer, sempre mais para baixo, em direcção ao que houver de mais inconsistente, de mais inofensivo, de mais prudente, de mais acomodado, de mais medíocre, de mais indiferente, de mais chinês, de mais cristão... E o homem, não haja dúvidas, torna-se cada vez «melhor»... É precisamente aqui que reside a fatalidade da Europa: ao perdermos o temor perante o homem, deixámos também de ter amor e respeito por ele, esperança nele, e até mesmo a vontade que conduz a ele. Doravante, o espectáculo deste homem só pode provocar cansaço. O que é hoje o niilismo, senão isto mesmo?... Estamos cansados do homem...
in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche

Existo acento de palavra, carapinha
recordação áspera de monandengue,
mapa de conversas na visitação da lua,
grávida luena sentada no verso da fome.
aqui esqueço África, permaneço
rente ao tiroteio dialecto das mulheres
negras, pasmadas na superfície do medo
que bate oblíquo no quimbo quebrado.
num gabinete da Europa, dois geógrafos
vão assinalar a estranha posição
dum poeta cruzado na esperança morosa
das palavras africanas aguardarem acento.
David Mestre, Angola (in (Crónica do ghetto, 1973)

Com lanças de fogo me esquartejei
De manto veneno cobri meu corpo
Minha alma para sempre amortalhei
Minha vida expiro num sopro.
Esvaindo-se vai meu alento,
corredor sem tempo neste mundo temporal
Onde me visto de mudo luto, sempre atento...
Revolvendo o esquecimento onde disfarço,
meu ser já morto, rodopiando no astral.
E uma chuva de lírios brancos,
Caiem sedentos afagando meu funeral.
Dinah Raphaellus (Portugal)

