31 de outubro de 2008
NEVES E SOUSA, PINTOR DE ANGOLA
30 de outubro de 2008
ESTAMOS CANSADOS DO HOMEM...
Que coisa me é insuportável, a mim, em particular? Com que coisa não consigo lidar de modo nenhum? O que é que me não deixa respirar e me destrói? O ar pestilento! O ar pestilento! É-me insuportável a proximidade de coisas fracassadas..., ter que cheirar as entranhas de uma alma fracassada!... Quantas coisas não há que suportar: privações, necessidades, mau tempo, enfermidades, sacrifícios, isolamento! No fundo, lidamos com tudo isto, nascidos que somos para uma existência de luta subterrânea. Mas há sempre um dia em que subimos, em que chegamos à luz. Há sempre momentos dourados, horas de triunfo... E aí, eis-nos tal qual nascemos, inquebrantáveis, resistentes, prontos para o que vier de novo, de mais difícil, de mais distante, tensos como o arco que à necessidade responde com maior tensão ainda... Mas, de tempos a tempos, concedei-me — supondo que para lá do bem e do mal existem divindades capazes de tais concessões —, concedei-me a possibilidade de entrever, de lançar um breve olhar sobre uma coisa perfeita, completa, conseguida com felicidade, uma coisa poderosa e triunfante perante a qual haja razão para sentir temor! Um breve olhar sobre um homem que justifique o homem! Sobre um feliz exemplar, capaz de complementar e redimir o homem, e assim dar-nos motivo para conservar a fé no homem!... Porque a nossa situação actual é esta: o grau de aviltação e de nivelamento a que chegou o homem europeu traz consigo o maior perigo que nos ameaça, porque este espectáculo só nos dá cansaço... Não vemos nada que queira ser maior e pressentimos que o que vemos vai continuar a descer, sempre mais para baixo, em direcção ao que houver de mais inconsistente, de mais inofensivo, de mais prudente, de mais acomodado, de mais medíocre, de mais indiferente, de mais chinês, de mais cristão... E o homem, não haja dúvidas, torna-se cada vez «melhor»... É precisamente aqui que reside a fatalidade da Europa: ao perdermos o temor perante o homem, deixámos também de ter amor e respeito por ele, esperança nele, e até mesmo a vontade que conduz a ele. Doravante, o espectáculo deste homem só pode provocar cansaço. O que é hoje o niilismo, senão isto mesmo?... Estamos cansados do homem...
in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche
O SOL NASCE A ORIENTE
Povo, de ti canto o movimento
teu nome, canção feita de fronteiras
lua nova, javite ou lança
tua hora, quissange em trança
Do longo longe do tempo
arde minha flecha, meu lamento
minha bandeira de outro vento
aurora urdida nos lábios de Zumbi
De ti guardo o gesto
as conversas leves das árvores
a fala sábia das aves
o dialecto novo do silêncio
e as pedras, as palavras do medo
os olhos falantes da mata
quando a onc,a posta a sua arte
nos fita, guardada em sua mágoa.
De ti amo a denúncia felina
das tuas mãos quebradas ao presente
a danc,a prometida do sol
nascer um dia a Oriente
ESPERA

Existo acento de palavra, carapinha
recordação áspera de monandengue,
mapa de conversas na visitação da lua,
grávida luena sentada no verso da fome.
aqui esqueço África, permaneço
rente ao tiroteio dialecto das mulheres
negras, pasmadas na superfície do medo
que bate oblíquo no quimbo quebrado.
num gabinete da Europa, dois geógrafos
vão assinalar a estranha posição
dum poeta cruzado na esperança morosa
das palavras africanas aguardarem acento.
David Mestre, Angola (in (Crónica do ghetto, 1973)
22 de outubro de 2008
Mãos

desenham-se tão perto de mim
que compreendo o desejo sem fantasmas.
Nos dedos principiam as marés
e neles se misturam o reflexo e a máscara
de regressos e errâncias por equacionar.
Os olhos não se fixam na geografia
visível das linhas. Os corpos deixam
de ser um cais. O mar estremece
nos ossos como um sismo.
O primeiro sinal de naufrágio
percebe-se na palma da mão
mesmo quando os barcos
passam ao largo do nosso desalento.
Rente à solidão.
Na trajectória do vazio
onde inventamos os sons.
21 de outubro de 2008
REQUIEM
Com lanças de fogo me esquartejei
De manto veneno cobri meu corpo
Minha alma para sempre amortalhei
Minha vida expiro num sopro.
Esvaindo-se vai meu alento,
corredor sem tempo neste mundo temporal
Onde me visto de mudo luto, sempre atento...
Revolvendo o esquecimento onde disfarço,
meu ser já morto, rodopiando no astral.
E uma chuva de lírios brancos,
Caiem sedentos afagando meu funeral.
Dinah Raphaellus (Portugal)
16 de outubro de 2008
NA VARANDA DE FLORBELA

Aqui bebeste a planície, a lua,
e ao vento deste os olhos a beber.
Aqui abandonaste as mãos
a tudo o que não chega a acontecer.
Aqui vieram bailar as estações
e com elas tu bailaste.
Aqui mordeste os seios por abrir,
fechaste o corpo à sede das searas
e no lume de ti própria te queimaste.
14 de outubro de 2008
SAIRAM BARCOS...

saíram barcos do meu peito,
à procura do mar da minha infância:
o sangue paterno agitando o coração.
Acumulo imagens sobre imagens.
Entrecruzo palavras antigas.
Um imenso arco-íris humedece-me
o rosto de cores garridas.
Aves costeiras,
nascem-me na boca,
como se uma tempestade ardesse,
imensa, em minha língua.
Graça Pires (Portugal)
Nasceu na Figueira da Foz, 22 de Novembro de 1946) É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.Editou o seu primeiro livro em 1988, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro Poemas.
8 de outubro de 2008
MENSAGEM - PRIMEIRA PARTE / BRASÃO
I. OS CAMPOS
PRIMEIRO / OS CASTELOS
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
SEGUNDO / O DAS QUINAS
Os Deuses vendem quando dão.
Comprase a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!
Baste a quem baste o que Ihe basta
O bastante de Ihe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.
II. OS CASTELOS
PRIMEIRO / ULISSES
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo--
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundála decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.
SEGUNDO / VIRIATO
Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu.
Nação porque reencarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste--
Assim se Portugal formou.
Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é ja o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.
TERCEIRO / O CONDE D. HENRIOUE
Todo começo é involuntáario.
Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.
A espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
«Que farei eu com esta espada?»
Ergueste-a, e fez-se.
QUARTO / D. TAREJA
As naçôes todas são mistérios.
Cada uma é todo o mundo a sós.
Ó mãe de reis e avó de impérios,
Vela por nós!
Teu seio augusto amamentou
Com bruta e natural certeza
O que, imprevisto, Deus fadou.
Por ele reza!
Dê tua prece outro destino
A quem fadou o instinto teu!
O homem que foi o teu menino
Envelheceu.
Mas todo vivo é eterno infante
Onde estás e não há o dia.
No antigo seio, vigilante,
De novo o cria!
QUINTO / D. AFONSO HENRIQUES
Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dános o exemplo inteiro
E a tua inteira força!
Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como benção!
SEXTO / D. DINIS
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.
SÉTIMO (I) / D. JOÃO O PRIMEIRO
O homem e a hora são um só
Quando Deus faz e a história é feita.
O mais é carne, cujo pó
A terra espreita.
Mestre, sem o saber, do Templo
Que Portugal foi feito ser,
Que houveste a glória e deste o exemplo
De o defender.
Teu nome, eleito em sua fama,
É, na ara da nossa alma interna,
A que repele, eterna chama,
A sombra eterna.
SETIMO (II) / D. FILIPA DE LENCASTRE
Que enigma havia em teu seio
Que só génios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?
Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Gral,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal!
III. AS QUINAS
PRIMEIRA / D. DUARTE, REI DE PORTUGAL
Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
A regra de ser Rei almou meu ser,
Em dia e letra escrupuloso e fundo.
Firme em minha tristeza, tal vivi.
Cumpri contra o Destino o meu dever.
Inutilmente? Não, porque o cumpri.
SEGUNDA / D. FERNANDO, INFANTE DE PORTUGAL
Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
As horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.
Pôsme as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro em mim a vibrar.
E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.
TERCEIRA / D. PEDRO, REGENTE DE PORTUGAL
Claro em pensar, e claro no sentir,
É claro no querer;
Indiferente ao que há em conseguir
Que seja só obter;
Dúplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser --
Não me podia a Sorte dar guarida
Por não ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos céus,
Fiel à palavra dada e à ideia tida.
Tudo o mais é com Deus!
QUARTA / D. JOÃO, INFANTE DE PORTUGAL
Não fui alguém. Minha alma estava estreita
Entre tão grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;
Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita --
O todo, ou o seu nada.
QUINTA / D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
IV. A COROA
NUN'ÁLVARES PEREIRA
Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando.
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.
Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.
'Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!
V. O TIMBRE
A CABEÇA DO GRIFO / O INFANTE D. HENRIOUE
Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras--
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.
UMA ASA DO GRIFO / D. JOÃO O SEGUNDO
Braços cruzados, fita além do mar.
Parece em promontório uma alta serra--
O limite da terra a dominar
O mar que possa haver além da terra.
Seu formidavel vulto solitário
Enche de estar presente o mar e o céu
E parece temer o mundo vário
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.
A OUTRA ASA DO GRIFO / AFONSO DE ALBUQUERQUE
De pé, sobre os países conquistados
Desce os olhos cansados
De ver o mundo e a injustiça e a sorte.
Não pensa em vida ou morte
Tão poderoso que não quere o quanto
Pode, que o querer tanto
Calcara mais do que o submisso mundo
Sob o seu passo fundo.
Três impérios do chão lhe a Sorte apanha.
Criou-os como quem desdenha.
REGRESSO
Quando eu voltar,
que se alongue sobre o mar,
o meu canto ao Creador!
Porque me deu, vida e amor,
para voltar...
Voltar...
Ver de novo baloiçar
a fronde magestosa das palmeiras
que as derradeiras horas do dia,
circundam de magia...
Regressar...
Poder de novo respirar,
(oh!...minha terra!...)
aquele odor escaldante
que o humus vivificante
do teu solo encerra!
Embriagar
uma vez mais o olhar,
numa alegria selvagem,
com o tom da tua paisagem,
que o sol,
a dardejar calor,
transforma num inferno de cor...
Não mais o pregão das varinas,
nem o ar monótono, igual,
do casario plano...
Hei-de ver outra vez as casuarinas
a debruar o oceano...
Não mais o agitar fremente
de uma cidade em convulsão...
não mais esta visão,
nem o crepitar mordente
destes ruidos...
os meus sentidos
anseiam pela paz das noites tropicais
em que o ar parece mudo,
e o silêncio envolve tudo
Sede...Tenho sede dos crepúsculos africanos,
todos os dias iguais, e sempre belos,
de tons quasi irreais...
Saudade...Tenho saudade
do horizonte sem barreiras...,
das calemas traiçoeiras,
das cheias alucinadas...
Saudade das batucadas
que eu nunca via
mas pressentia
em cada hora,
soando pelos longes, noites fora!...
Sim! Eu hei-de voltar,
tenho de voltar,
não há nada que mo impeça.
Com que prazer
hei-de esquecer
toda esta luta insana...
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo
a quem regressa...
Ah! quando eu voltar...
Hão-de as acácias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!...
E o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei...
A minha alegria enorme de poder
enfim dizer:
Voltei!...
Alda Lara (Angola)
NÃO TE ESQUEÇAS NUNCA

MWANA PWÓ

As máscaras Mwana Pwó sempre me fascinaram. Fazem lembrar as máscaras da tragédia grega. O que me agrada apreciar nelas são a sua expressão, o sentido que encerram e sobretudo a sua beleza plástica.
Entre os Tchokwe de Angola estas máscaras são utilizadas por dançarinos que representam um bailado durante o período de iniciação dos rapazes na sua passgem para a vida adulta e que tem como ritual a circuncisão.
Mwana Pwó significa “mulher jovem” e representa um antepassado feminino que morreu em idade jovem. É uma lembrança da morte como experiência iniciática de morte e renascimento.
A máscara representa a cara de uma mulher falecida de olhos encovados. Os dentes pontiagudos e as escoriações demonstram o seu falecimento precoce, ainda com as marcas da recente iniciação. As lágrimas esculpidas sobre as faces são a dor da perda que se experiencia através da morte.
Mwana Pwo idealiza valores femininos e é uma personagem feminina. No entanto é um homem que executa o bailado, dançando graciosamente ensinando boas maneiras aos espectadores. O poder e a elegância da actuação do dançarino é suposto trazer fertilidade às mulheres.
English:
The masks Mwana Pwo had always fascinated me. They remind me the masks of the Greek tragedy. What I like to appreciate in them are their expressions, and over all its plastic beauty. These are Tchokwe of Angola’s masks; they are used by dancers who perform a dance during the period of initiation of the youngsters in its passage to adult life and in the ritual of circumcision. Mwana Pwo means "young woman" and represents a feminine ancestor who died in young age. It is a souvenir of the death as initiated experience of death and renaissance. The mask represents the face of a dead woman. The sharp teeth and the excoriations demonstrate its precocious death, still with the marks of the recent initiation. The tears sculptured on the faces are the pain of the loss that if experienced through death. Mwana Pwo idealizes feminine values and is a feminine character. However, it is a man who executes the dancing. He dances graciously teaching good manners to the spectators. The power and the elegance of the performers are supposed to bring fertility to the women of the villages.

7 de outubro de 2008
DEMOCRACY

Democracy will not come
Today, this year
Nor ever
Through compromise and fear.
I have as much right
As the other fellow has
To stand
On my two feet
And own the land.
I tire so of hearing people say,
Let things take their course.
Tomorrow is another day.
I do not need my freedom when I'm dead.
I cannot live on tomorrow's bread.
Freedom
Is a strong seed
Planted
In a great need.
I live here, too.
I want freedom
Just as you.
Langston Hughes (USA)
2 de outubro de 2008
VENHO DE UM SUL
Vim do leste
dimensionar a noite
em gestos largos
que inventei no sul
pastoreando mulolas e anharas
claras
como coxas recordadas em Maio.
Venho de um sul
medido claramente
em transparência de água fresca de amanhã.
De um tempo circular
liberto de estações.
De uma nação de corpos transumantes
confundidos
na cor da crosta acúlea
de um negro chão elaborado em brasa.
Ruy Duarte de Carvalho (Angola)
POESIA VERDE

para Carlos Drummond de Andrade
No meio do caminho nunca houve uma só pedra
As pedras nascem na boca e a boca é o seu caminho
Das pedras que comemos as cidades ainda falam
pelos cotovelos da noite Não eram pedras eram pedras
com cabeça tronco e sexo Pariram fábricas
de pedras montadas sobre a língua E as pedras comeram
a pedra que restou no meio do caminho
30 de setembro de 2008
O ÚLTIMO POEMA
|
Manoel Bandeira (Brasil)
POESIA DE JOÃO TALA

BIOGRAFIA:
BIBLIOGRAFIA:A Forma dos Desejos (1997),
O Gasto da Semente (2000),
A Forma dos Desejos II (2003)
A Vitória é uma Ilusão de Filósofos e de Loucos (2005),
Os Dias e os Tumultos (2004) contos.
É membro da União dos Escritores Angolanos.POEMAS DE JOAO TALA:TONTURA
Ainda apagam pálpebras de volta à tontura
ainda o sentimento da nossa longa história
a ruína vai da notícia à revolução
palavras mortas nunca mais preenchidas
os rios demorados no sintoma dos países
e tudo passa e o poema indaga
o dia que acontece como uma ruína.
OBITUÁRIO
Onde ouvidos repetem pequenas ruínas
sobra o revólver sobre dias túmidos
para decretar morte é como ninguém
para aumentar áfricas laboratoriais e
o latifúndio;
depois dá um tiro na cabeça da história
tal como tropeça no meu palavrão
sem nada para acrescentar à morte
sem nada para contar à vida
sem ser nunca o nome da multidão.
PSIQUIATRIA (I)
Reverbero de minha esquizofrenia
dias de mim cuidados
atravessei o Hospital Psiquiátrico
ninguém mais mora lá;
os doutores partiram quando o tempo
[envelheceu
--------------------------------------------------------------------------------
e o princípio pariu o fim – uma estrada
onde passo com o livro descuidado,
sem brio, um tratado de loucura.
É o tempo abordado e paginado
com o sangue na caneta;
o tema das cicatrizes que não foram
[encontradas
porque a enfermeira as escondeu
quando forjava a própria madrugada
Joao Tala (Angola)
MARQUESA DE ALORNA (1750 - 1839)

Marquesa de Alorna, a 4ª desse título, nome de baptismo de Leonor de Almeida Lorena e Lencastre. Escritora, nasceu em Lisboa durante o reinado do rei D. José. Neta dos marqueses de Távora, e filha de D. João de Almeida Portugal, 2º marquês de Alorna e 4º conde de Assumar e de Dª Maria de Lorena, filha dos marqueses de Távora, suspeitos do atentado ao rei. Dos presumíveis implicados uns foram executados e Leonor, com a mãe e irmã encarceradas no convento de S. Félix em Chelas. Foi aqui que, desde pequena, a futura marquesa começou a ler e a instruir-se não desprezando a leitura de Bossuet, Fénelon, Boileau, Corneille e Racine, bem como Voltaire, d'Alembert, Diderot e o inglês Locke. Começou cedo a escrever poesia. Teve como mestre de latim Filinto Elísio (padre Francisco Manuel do Nascimento) e aprendeu Filosofia e Ciências Naturais. Tomou, como era uso no tempo, o nome literário de Alcipe. Leonor de Almeida Portugal saiu da prisão quando subiu ao trono D. Maria I. Tinha então vinte anos. Casou, em 1779 com o conde de Oeynhausen e em 1780 foram viver para a Viena de Áustria. Enviuvou, com 43 anos, em 1793 e ficou com seis filhos pequenos para cuidar. Regressou a Portugal e foi perseguida por Pina Manique, dadas as suas ideias liberais. Exilou-se em Londres entre 1804 e 1814. Foi escrevendo poemas que acompanhavam as angustiosas mudanças políticas no país, desde as invasões francesas à partida da família real para o Brasil. Esteve contra Napoleão o que não aconteceu com muitos fidalgos portugueses, incluindo a filha que foi amante de Junot. Herdou o título de marquesa, pela morte do irmão. D. Leonor de Almeida deixou seis volumes de "Obras Poéticas" com temas diversos, sendo de referir a importância das cartas particulares. Foi também tradutora de Lamartine, Pope, Ossian, Goldsmith, Young, entre outros. Alexandre Herculano fez-lhe o elogio fúnebre, considerando-a a "madame de Staël portuguesa."
******************************************SONETOS**************************************
1-
Esperanças de um vão contentamento,
por meu mal tantos anos conservadas,
é tempo de perder-vos, já que ousadas
abusastes de um longo sofrimento.
Fugi; cá ficará meu pensamento
meditando nas horas malogradas,
e das tristes, presentes e passadas,
farei para as futuras argumento.
Já não me iludirá um doce engano,
que trocarei ligeiras fantasias
em pesadas razões do desengano.
E tu, sacra Virtude, que anuncias,
a quem te logra, o gosto soberano,
vem dominar o resto dos meus dias.
2-
Eu cantarei um dia da tristeza
por uns termos tão ternos e saudosos,
que deixem aos alegres invejosos
de chorarem o mal que lhes não pesa.
Abrandarei das penhas a dureza,
exalando suspiros tão queixosos,
que jamais os rochedos cavernosos
os repitam da mesma natureza.
Serras, penhascos, troncos, arvoredos,
ave, ponte, montanha, flor, corrente,
comigo hão-de chorar de amor enredos.
Mas ah! que adoro uma alma que não sente!
Guarda, Amor, os teus pérfidos segredos,
que eu derramo os meus ais inutilmente.
3-
Vai a fresca manhã alvorecendo,
vão os bosques as aves acordando,
vai-se o Sol mansamente levantando
e o mundo à vista dele renascendo.
Veio a noite os objectos desfazendo
e nas sombras foi todos sepultando;
eu, desperta, o meu fado lamentando.
fui coa ausência da luz esmorecendo.
Neste espaço, em que dorme a Natureza.
porque vigio assim tão cruelmente?
Porque me abafa ó peso da tristeza?
Ah, que as mágoas que sofre o descontente,
as mais delas são faltas de firmeza.
Torna a alentar-te, ó Sol resplandecente!
Marquesa de Alorna (Portugal)
29 de setembro de 2008
ME RECONSTRUINDO
Onde ontem me torturavam
renascem as pálpebras demolidas
posso ver pedras que baralham pedras
posso ver a cor de todas as pálpebras
alçadas do escombro
ou como eram trémulas mãos
adejando outras pálpebras,
escombro de mim pedra numerosa
me levanto e reconstruo
o que a mão tem dentro de mim;
encho as pálpebras é porque choro
se choro refaço o sonho, é verdade.
Verdade acumulada de todos meus dias.
João Tala (Angola), nasceu em 1959, em Malanje, é médico.
É membro-fundador da Brigada Jovem de Literatura Alda Lara, de Huambo.
28 de setembro de 2008
PICASSO
As meninas de Avignon
Picasso
A pintura nunca é prosa. É poesia que se escreve com versos de rima plástica
Picasso
VERGONHA DA HUMANIDADE
Supondo verdadeira a ideia, na qual hoje muitos crêem como se fosse «a verdade», de que o sentido de toda a cultura é precisamente fazer da fera-«homem» um animal manso e civilizado, um animal doméstico, então seria indubitavelmente necessário considerar que os verdadeiros instrumentos da cultura teriam sido todos aqueles instintos de reacção e ressentimento que serviram afinal para humilhar e derrotar as aristocracias e os respectivos ideais... O que, aliás, não significaria ainda que os portadores desses instrumentos fossem simultaneamente os representantes da cultura... O contrário não me parece apenas ser mais provável... Não! O contrário é hoje evidente! Os portadores dos instintos de rebaixamento e de desforra, os descendentes de todos os escravos europeus e não europeus, em especial as populações pré-arianas, esses representam o recuo da humanidade! Os ditos «instrumentos da cultura» são uma vergonha da humanidade e acabam por se tornar um motivo de desconfiança, um argumento contra a «cultura». Pode haver boas razões para se continuar a temer a besta loira que habita no fundo de todas as raças aristocráticas e para se tomarem precauções... Mas haverá quem não prefira cem vezes mais temer e ao mesmo tempo poder admirar, do que não temer e ao mesmo tempo não poder ver-se livre do espectáculo nauseabundo imposto pelos falhados, pelos diminuídos, pelos atrofiados, pelos envenenados? E não será esta a nossa fatalidade? que coisa provoca esta nossa aversão pelo «homem»?... Porque, disso não há dúvida, o homem tornou-se para nós motivo de sofrimento... Não é o temor. Pelo contrário, é o facto de já nada termos a temer no homem, o facto de o verme-«homem» fervilhar à nossa frente, com o maior destaque, o facto de o «homem manso», irremediavelmente medíocre e insuportável, já ter aprendido a achar que é ele o «homem superior», o objectivo, a coroação e o sentido da história...
in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche
26 de setembro de 2008
SAUDADE

Por quem choras?
Por quem rogas teus terços?
Oh, sentimento ingrato…
Oh, saudade de um destino!
Porque me levas?
Porque quem me tomas?
Porque fazes de mim um capricho?
Se ao menos tivesses pena de mim!
Se ao menos soubesses que eu existo…
Se ao menos me deixasses sentir-te…!
Mas…
Tu extravasas a minha ALMA,
Com o teu cheiro tão português…
Tenho hoje, tal como outrora
Saudades de sentir saudade!
Sandra Amaro (Portugal)
http://poesia-de-gaveta.blogspot.com/
22 de setembro de 2008
SE DESTE OUTONO

apenas uma, se desprendesse
da sua cabeleira ruiva,
sonolenta,
e sobre ela a mão
com o azul do ar escrevesse
um nome, somente um nome,
seria o mais aéreo
de quantos tem a terra,
a terra quente e tão avara
de alegria.
Eugénio de Andrade (Portugal)
21 de setembro de 2008
NAO CESSO DE ME CRIAR

Não cesso de me criar; sou o doador e a doação. Se meu pai vivesse, eu conheceria os meus direitos e os meus deveres; ele está morto e eu ignoro-os: não tenho direitos, pois o amor sacia-me; não tenho deveres, pois dou por amor. Um só mandato: agradar, tudo para fazer vista. Na nossa família, que dissipação de generosidade: meu avô faz-me viver e eu faço-lhe a felicidade; minha mãe dedica-se a todos. Quando penso nisso, hoje, só esta dedicação me parece verdadeira: mas nós tínhamos tendência para nos calarmos a esse respeito. Não interessa: a nossa vida é apenas uma série de cerimónias e esgotámos o tempo a prodigalizar-nos homenagens. Eu respeito os adultos com a condição de que me idolatrem; sou franco, aberto, doce como uma menina. Penso bem, inspiro confiança às pessoas: todos são bons, pois que todos estão contentes. Considero a sociedade uma rigorosa hierarquia de méritos e poderes. Os que ocupam o topo da escala dão tudo quanto possuem aos que se encontram abaixo. Não penso, no entanto, em situar-me no mais alto escalão: não ignoro que o reservam a pessoas severas e bem intencionadas que fazem reinar a ordem. Mantenho-me num pequeno poleiro marginal, não longe delas, e a minha radiação alastra de alto a baixo da escala. Em suma, faço todos os esforços para me afastar do poder secular: nem abaixo, nem acima, sim alhures. Neto de clerc*, sou, desde a infância, um clerc: tenho a unção dos príncipes da Igreja, uma jovialidade sacerdotal. Trato os inferiores como iguais: é uma piedosa mentira que lhes prego a fim de torná-los felizes e com a qual convém que sejam enganados até certo ponto. À minha empregada, ao carteiro, à minha cadela, falo com voz paciente e temperada. Neste mundo em ordem existem pobres. Existem também carneiros de cinco patas, irmãs siamesas, acidentes de caminhos de ferro: tais anomalias não são culpa de ninguém. Os bons pobres não sabem que a sua função é exercitar a nossa generosidade; são pobres envergonhados, passam rentes às paredes; saio a correr, passo-lhes rapidamente uma moeda de dois soldos e, acima de tudo, dou-lhes de presente um belo sorriso igualitário. Acho que têm um ar estúpido e não gosto de tocá-los, mas forço-me a fazê-lo: é uma provação; além disso, cumpre que gostem de mim; esse amor embelezar-lhes-á a vida. Sei que carecem do necessário e apraz-me ser-lhes o supérfluo. Aliás, qualquer que seja a sua miséria, jamais poderão sofrer tanto como o meu avô: quando era pequeno, acordava de madrugada e vestia-se no escuro; no Inverno, para se lavar, precisava de quebrar o gelo na bilha da água. Felizmente, as coisas depois melhoraram: meu avô crê no Progresso, eu também: o Progresso, esse longo e árduo caminho que leva até mim.
* Usado com o duplo sentido de letrado e clérigo
in As Palavras, Jean-Paul Sartre (Franca)





