21 de setembro de 2008

A MORTE DOS AMANTES

René Magritte - Os Amantes

A Morte dos Amantes

Vamos ter lençóis de aura ligeira,
profundo divã como um mausoléu,
e flores estranhas na prateleira
abertas pra nós sob um outro céu.

No fim da paixão, chama derradeira,
nossos corações, como um fogaréu,
irão refletir sua luz parceira
nas almas iguais, espelhos sem véu.

Numa tarde rosa e azul-desmaio,
nós vamos trocar um único raio,
um longo soluço cheio de adeus;

e depois um Anjo, ao abrir as portas,
dará vida novas aos teus e meus
espelhos sombrios e chamas mortas.


Charles Baudelaire, tradução Jorge Pontual


La Mort des amants

Nous aurons des lits pleins d'odeurs légères,
Des divans profonds comme des tombeaux,
Et d'étranges fleurs sur des étagères,
Écloses pour nous sous des cieux plus beaux.

Usant à l'envi leurs chaleurs dernières,
Nos deux coeurs seront deux vastes flambeaux,
Qui réfléchiront leurs doubles lumières
Dans nos deux esprits, ces miroirs jumeaux.

Un soir fait de rose et de bleu mystique,
Nous échangerons un éclair unique,
Comme un long sanglot, tout chargé d'adieux;

Et plus tard un Ange, entr'ouvrant les portes,
Viendra ranimer, fidèle et joyeux,
Les miroirs ternis et les flammes mortes.



CHARLES BAUDELAIRE (France)

20 de setembro de 2008

HAIKAIS

Espantalho, de Portinari


1.
Braços para o infinito
o espantalho subverte
a ferocidade do mundo

2.
Entre o sono e a vigília
o canto da cigarra
inunda o sertão

3.
Noctívaga dor-em-dor
pouso na árvore do mundo
clandestina

4.
Porque és pedra
o que dirá a poesia
sem a tua presença?

5.
Dias de sol
distendo as velhas asas
num hai kai latino


Graça Graúna. Hai kais. In: Canto Mestizo, 1ª parte. Maricá/RJ: Blocos, 1999, p. 17-21.

18 de setembro de 2008

SEDA NEGRA



Seda negra de terra incrustada
Vestes teu corpo.
Na boca, sapatos de cereja
debroados a marfim;
E na luz do teu rosto
a alma do vento, exposto.
do tempo reivindicando
olhos de azeviche
dançando, tamborilando
na seca das colheitas
de lágrimas que regam
os poros dos sonhos,
talvez medonhos,
que sonhas sem fim.
nos ventos e lamentos.
Sufocam os fogos
da esperança
e brotam sorrisos
na lembrança
de um futuro diamante...
no entanto distante...
como é o infinito.
sem queixumes, azedumes
apenas
o triste sorriso bonito
que te ganham forma e cor
no silencio dos gritos pardos...
quem sabe, aflitos ,
de tanto esperar...
o cortar das correntes, dolentes
o libertar dos escravos...ou
talvez apenas gemidos
condenados
de uma guerra que não é vossa
uma vida cheia de fados,
Cantados, ao Sol Poente
Navegando ao som da Lua
Regida por Senhores
engravatados...muito
importantes e ocupados
a esconder a verdade...
crua e nua!!!


Dinah Raphaellus (Portugal)

12 de setembro de 2008

FECHEI A PORTA DO TEMPO





Fechei a porta do tempo
e entretida bisbilhotei
as gavetas do esquecimento
desbotadas de rosa velho.
de tudo encontrei:
espelhos de dourada poeira,
lustres da cegueira,
de homens enganados.
Que transformados,
gritam diplomas, acetinados
de cera lacre e finas
fitas adornados.
Que mais parecem
pobres quadros,
despidos de tintas,
Pintados por poetas,
tosquiados de engenho,
excentricidade colorida,
De falsos e púdicos artistas!!!!



Dinah Raphaellus (Portugal)





10 de setembro de 2008

NENHUM HOMEM É UMA ILHA... / NO MAN IS AN ISLAND...


“Nenhum homem é uma ilha isolada;
cada homem é uma partícula do continente,
uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar,
a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório,
como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria;
a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano.
E por isso não perguntes por quem os sinos dobram;
eles dobram por ti”.
No man is an island, entire of itself
every man is a piece of the continent, a part of the main
if a clod be washed away by the sea,
Europe is the less, as well as if a promontory were,
as well as if a manor of thy friends or of thine own were
any man's death diminishes me, because I am involved in mankind
and therefore never send to know for whom the bell tolls
it tolls for thee.
John Donne (1572 - 1631) England

9 de setembro de 2008

BUCÓLICA

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
A espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra duma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga (Portugal)

OS OLHOS DO POETA

O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,
e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias
e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas
e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gestos dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando com contos-de-fada à hora da infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando a tempestade:
- todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,
sai uma estrela voando nas trevas
tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo.

Manuel da Fonseca


LEVA-ME OS OLHOS...

Leva-me os olhos, gaivota,

e deixa-os cair longe naquela ilha sem rota...

Lá...

onde os cravos e os jasmins

nunca se repetem nos jardins...

Lá...

onde nunca a mesma aranha tece a mesma teia

na mesma escuridão das mesmas casas...

Lá...

onde toda a noite canta uma sereia

...e a lua tem asas...

Lá...

José Gomes Ferreira (Portugal)

FÁBULA

Menino gordo comprou um balão

e assoprou

assoprou com força o balão amarelo.

Menino gordo

assoprou

assoprou

o balão inchou

inchou...

e rebentou!

Meninos magros apanharam os restos

e fizeram balõezinhos.

José Craveirinha (Moçambique)

6 de setembro de 2008

O CANTO DO MARTRINDINDE


O canto do Martrindinde
é um canto da cidade
vem pela noite dentro
cheio de ambiguidade

O canto do Matrindinde
é um cantar nacional
veio do mato à cidade
e tornou-se universal.


Ernesto Lara Filho (Angola)

in “O Canto do Martrindinde”.
Luanda, União/Endiama, 1989, p.64.


4 de setembro de 2008

POETA JÁ NAO SOU




Poeta já não sou

neste mar de rosas por florir.

Pétalas roxas de paixão

espectro por consumir

vibracões transmutantes

energias activas e possantes

de te querer beijar,

Profundamente...

acto onírico presente

No extase de te ver...

e deixar-me nascer

num suspiro... para logo

Morrer nos teus braços,

Renascer num cipreste,

numa pintura de papiro

calçada de fogo e abraços

Qual fénix disfarçada,

Num sorriso agreste

onde admiro...

a magia na chegada...

dos teus passos!!!



Dinah Raphaellus (Portugal)

AMOR-PERFEITO




É o sol se derramando
Sobre a história da minha vida
E tudo ilumina, transforma
Em ouro, pedra preciosa
O valor não se estima
Alegria primaveril
Ventos de outono; calor de verão
A chuva do inverno cessou
Deus queira que esta estação
Dure minha vida inteira
Que mantenha comigo a presença
Dos espíritos das florestas
Que uma bênção argêntea chova sobre nossas cabeças
Que os pés da felicidade esmaguem
Nossos frágeis corpos outrora descontentes
Desejo uma estação de flores perene
Envolvendo nosso leito
Jardim a florescer amor-perfeito.







Adriana Costa (Brasil)



Veja o link: http://versosbarbaros.blogspot.com/

FLOR DE MILHO




Soltaste um pássaro de sol
pelo infinito dos caminhos
a desintegrarem-se em espuma
no vale das estrelas caídas…

Somente aquele poema de fogo
gravado no corpo descarnado dos vulcões
te faz ainda promessas de silêncio,
a mais pura das vozes a descer sobre ti
em gotas de orvalho perfumado.
Do seio prateado das lagoas
enlaçam-te raízes brancas
como asas de borboleta,
mas da tua boca eleva-se um sorriso
lavado com a água da saudade:
-“Nunca me esqueci que vim do Sul”
onde o mágico crepúsculo se banhava
no rio Chilo
e os cafeeiros em flor
cantavam versos de luar
ao som do velho kissanje
de Paulino Valúnje!
Das folhas do teu cajueiro
dispersas na tempestade de uma noite
que jamais se apagará
começa já a despontar a aurora
de uma flor de milho
que tu depuseste no colo nordestino
do teu ser em fuga…



Jorge Arrimar (Angola)
Jorge Manuel de Abreu Arrimar, nasceu em Chibia, Huíla (Angola), em 1953. Na década de 1970, criou com amigos o Grupo Cultural da Huíla (Grucuhuíla). Estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Luanda, tendo concluído a licenciatura em História e especializando-se em Ciências Documentais. Foi professor de português nos Açores, onde dirigiu, com Carlos Loureiro, um suplemento literário chamado Página Africana.
Em 1985 radicou-se em Macau, onde ocupou o cargo de director da Biblioteca Nacional. É colaborador do Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, organizado pelo Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro e prepara uma Antologia de Poetas de Macau em parceria com Yao Jingming.

O Mamão

Frágil vagina semeada
pronta, útil, semanal
Nela se alargam as sedes

no meio
cresce
insondável

o vazio...

Ana Paula Tavares, in: Ritos de Passagem, Luanda, 1985

AMADA - DOIS POEMAS DE A. BARBEITOS





amada
minha amada
ter saudade do futuro
é

crer
agora e mais tarde
que
o desespero é traição
e
que
a curva leve de teu peito
agora e mais tarde
cabe inteira na minha mão
amada
minha amada

Nzoji (sonho) (1979)




amada
teus olhos são mirangolos
que
eu comeria

não me custasse
o pavor da cegueira
a alma
amada
o amor
é
um canibal assustado

Fiapos de Sonhos (1992)


Arlindo Barbeitos (Angola)

25 de agosto de 2008

DEUS NEGRO



Eu, detestando pretos,
Eu, sem coração!…
Eu, perdido num coreto,
Gritando: “Separação”!

Eu, você, nós… nós todos,
Cheios de preconceitos,
Fugindo como se eles carregassem lodo,
Lodo na cor…
E com petulância, arrogância,
Afastando a pele irmã.

Mas
Estou pensando agora:
E quando chegar minha hora?
Meu Deus, se eu morresse amanhã, de manhã!
Numa viagem esquisita, entre nuvens feias e bonitas,
Se eu chegasse lá e um porteiro manco,
Como os aleijados que eu gozei, viesse abrir a porta,
E eu reparasse em sua vista torta, igual àquela que eu critiquei
Se a sua mão tateasse pelo trinco,
Como as mãos do cego que não ajudei!
Se a porta rangesse, chorando os choros que provoquei!
Se uma criança me tomasse pela mão,
Criança como aquela que não embalei
E me levasse por um corredor florido, colorido,
Como as flores que eu jamais dei!
Se eu sentisse o chão frio,
Como o dos presídios que não visitei!
Se eu visse as paredes caindo,
Como as das creches e asilos que não ajudei!
E se a criança tirasse corpos do caminho,
Corpos que eu não levantei
Dando desculpas de que eram bêbados, mas eram epiléticos,
Que era vagabundagem, mas era fome!

Meu Deus!
Agora me assusta pronunciar seu nome!
E se mais para a frente a criança cobrisse o corpo nu,
Da prostituta que eu usei,
Ou do moribundo que não olhei,
Ou da velha que não respeitei,
Ou da mãe que não amei!…
Corpo de alguém exposto, jogado por minha causa,
Porque não estendi a mão, porque no amor fiz pausa e dei,
Sei lá, só dei desgosto!

E, no fim do corredor, o início da decepção!
Que raiva, que desespero,
Se visse o mecânico, o operário, aquele vizinho,
O maldito funcionário, e até, até o padeiro,
Todos sorrindo não sei de quê!
Ah! Sei sim, riem da minha decepção.

Deus não está vestido de ouro! Mas como???
Está num simples trono:
Simples como não fui, humilde como não sou.

Deus decepção!
Deus na cor que eu não queria,
Deus cara a cara, face a face,
Sem aquela imponente classe.

Deus simples! Deus negro!
Deus negro!?

E Eu…
Racista, egoísta. E agora?
Na terra só persegui os pretos,
Não aluguei casa, não apertei a mão.

Meu Deus você é negro, que desilusão!

Será que vai me dar uma morada?
Será que vai apertar minha mão? Que nada!

Meu Deus você é negro, que decepção !

Não dei emprego, virei o rosto. E agora?
Será que vai me dar um canto, vai me cobrir com seu manto?
Ou vai me virar o rosto no embalo da bofetada que dei?

Deus, eu não podia adivinhar.
Por que você se fez assim?
Por que se fez preto, preto como o engraxate,
Aquele que expulsei da frente de casa!

Deus, pregaram você na cruz
E você me pregou uma peça:
Eu me esforcei à beça em tantas coisas,
E cheguei até a pensar em amor,

Mas nunca,
Nunca pensei em adivinhar sua cor!…

Neimar de Barros (Brasil)

LAVADEIRA

Banco raso
Celha cheia

Mãos pretas em roupa branca


Silenciosa a lavadeira

Pende a frente num trama longo.

Carrega um mundo o fumo denso

Da boca muda baforado.


Ao lado

As moscas enxameiam a boquita entreaberta

Do seu filho adormecido



Arnaldo Santos (poeta angolano)

A POESIA DE DÉCIO B. MATEUS



A poesía de Décio Bettencourt.
(texto em língua galega)



Angola sempre sorprende no que os seus poetas crean. De Décio Bettencourt Mateus (1967) chégame a súa primeira entrega poética, titulada: La furia del mar, publicada pola Editorial Nzila. Para un europeo resulta curioso que nun país que soportou máis de trinta anos de guerra e que os protagonistas bélicos tiveron tempo e sensibilidade para compor poesía. Este é o caso de Décio Bettencourt, que ten a graduación de tenente e, tamén, a licenciatura de Xeofísica pola facultade de Ciencias da Universidade Agostinho Neto de Luanda, para, ao final, traballar na industria petroleira.

A vida dos africanos é mesmo dolorosa e sempre procuraron con ela atopar camiños na tan difícil busca de circunstancias adversas. A biografía dos poetas angolanos está sempre cargada de profesións distintas para procurar saír de escuros labirintos. Isto é positivo para unha persoa que quere acadar un lugar nas letras do seu país, exhibindo outros traballos e outros estudos que sempre favorecerán varios aspectos poéticos tan matizados e particularizados.

La furia del mar, é un libro que se sustenta de varias entregas creativas que oscilan desde 1994 a 2003. Evidentemente, nove anos de distanciamento poden producir certa alteración na articulación do que se refire a tempo e a espazo. Digamos que a poesía angolana, desde xa hai bastantes anos, goza de maioría de idade e isto permite que os poetas non estean, nin deben estar, sometidos a ningún canon. Gozando xa dese permisismo, na poesía angolana, encontramos unha serie de referencias creativas de alto valor por espremerse sempre dentro duns parámetros existenciais. Estamos ante un poeta intimamente existencial e cunha economía poética esencialmente xirada aos problemas que o rodean e que non desexa distanciarse deles.

Décio Bettencourt Mateus sabe transcender na vida do común e, por iso, encontramos non poucas observacións e matices do que é verdadeiramente a vida tan particularizada do que se comparte en convivencia cos demais. Este poeta, en forma de crónica, sabe levar á poesía as vivencias dentro dun Candongueiro (autobús) nas súas diversas fases de soportar os tumultos e de facer amigos nesas turbias viaxes. Mais o impactante deste poeta é como procura centrar o seu discurso poético valéndose de circunstancias que el sabe asumir e tecer con habilidade.

Non cabe dúbida que Décio Bettencourt bebe da tradición da poesía angolana, da máis suxestiva e altamente en acorde co destacado de vivencias e referencias. Así o manifesta no poema, titulado: Dialogando com as estrelas. Un poema sobrio e pleno de mensaxes que irradian esa pureza en que se atopa o poeta. Con este tipo de poesía estamos, evidentemente, no contexto social da angolanidade máis determinativa e non exenta de realismo. Non falamos daquela poesía do realismo social. Neste poeta o social está desvencellado do realismo. Dúas percepcións articuladas para convivir autonomamente. Compor un poema nestas circunstancias non é fácil. Primeiro hai que mastigar a idea e dispor dunha certa intuición para non caer en erros que levaron a outros poetas angolanos a compor poesía de militancia e intervención de mala calidade. Resúltanos curioso que un home de armas non entre nese escenario discursivo tan propio e tan usado por guerrilleiros ante colonialistas que compuxeron unha poesía tan particular e exaltadora de eventos épicos.

La furia del mar é un libro que nos ilustra nesa crítica na que persoas e estamentos non fican exentas. Pode que o discurso exalte conciencias e lle marque rumbos a un lector interesado en afrontar e combater problemáticas, tan tipificadas nesa África profunda da cal nos fala Décio Bettencourt. A temática resúltanos interesante, innovadora e en moitos casos precoz, como enunciado de cambios desexados na sociedade angolana. Aquí verificamos a protesta dun autor autorizado a dicir o que observa e o que delibera no seu diálogo coa propia poesía. Este primeiro inventario poético pon a Décio Bettencourt nun obrigado e necesario segundo rexistro poético.
XOSÉ LUIS GARCÍA, in http://www.xoseloisgarcia.com/GaliciaHoxe/gh_1.htm

Poesia de Décio B. Mateus: http://mulembeira.blogspot.com/

ADRIANO BOTELHO DE VASCONCELOS

ADRIANO BOTELHO DE VASCONCELOS

A morte da música pode ser lisa entre o início de um verão
e a direção que faz o silêncio. A surdez levanta a imagem
que a sombra distraidamente enterrara a cinco
palmos do chão. Para o coração se salvam as gaivotas
que levaram os mares para bem perto do sol que se despe
com o jeito das mulheres. A cicatriz é delicada
como se tivéssemos que olhar para a memória
com uma outra escolha astúcia. Hesita-se mas sabemos
que no ombro se fazem as glórias muito breves
e à deriva do coração. Cada erro persegue o espírito
que faz o teatro dourar mais que uma lágrima, um longo
cenário acaba por disfarçar-nos perante
o que nunca fomos. Faz-se um corte no dedo indicador
quando se perde a aurora para que a terra
fique mais perto da insónia. Vemos o abandono da juventude
vindo agora de nós uma interpretação
sem chamas. Por isso as palavras vão compondo
numa só estrofe o que a vida mesmo atenta não pode
consagrar.


* * *

As armadilhas foram apresentadas depois de terem
escrito num ofício os epitáfios, porque o declínio não se pode
suportar só com as promessas dos irmãos. Os irmãos sabem
que só podem estar de costas dadas uns para os outros
na direcção cuja geometria só os poetas conhecem,
porque a direcção do sabre tem a sua força na perfeição
da sombra que foi preparada pelos que foram escolhidos
para serem heróis depois de passarem acordados
sete dias na escuridão para pensarem com fundo suficiente
de vidas humanas como se impedem
os editais.


* * *

Uma ilusão levanta-se de um escombro mas não se apanha
o poeta que por ela mais a ensaiou num percurso e palco
que nunca fora estranho a Deus. Um cágado não pode passar
limpo e com estilo pela cinza porque não viu
como mais à frente se salvou uma lavra. Salva-se algo
como a primeira escolha
apesar de todos não terem para onde se virar senão
para a fé da palavra que nos pede
um momento
de vaidade.


* * *

Tudo o que foi quase um poema veio com o teu âmago
e talvez seja essa febre interior que te faz
corrigir com as lágrimas a posição
dos guaches.

*

Adriano Botelho de Vasconcelos nasceu em Malange, Angola, em 1955. Publicou, entre outros livros de poesia, Voz da Terra (1974), Anamnese (1984), Tábua (2004), que recebeu o Grande Prémio Sonangol de Literatura, e Olímias (2005). Organizou os livros Caçadores de Sonhos: antologia do conto angolano (1960), Boneca de Pano: colectânea do conto infantil angolano (2005) e Todos os Sonhos: antologia da poesia moderna angolana (2005). Actualmente, é secretário-geral da União dos Escritores Angolanos (UEA).

*

MAYAKOSKY - CITACAO

“Eu não forneço nenhuma regra para que uma pessoa se torne poeta e escreva versos. E, em geral, tais regras não existem. Chama-se poeta justamente o homem que cria estas regras poéticas.”

Mayakovsky

19 de agosto de 2008

MAS O QUE VOU DIZER DA POESIA?


“Mas o que vou dizer da Poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu? Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo, e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da poesia. Isso fica para os críticos e professores. Mas nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a poesia.”


Garcia Lorca



Federico García Lorca (Fuente Vaqueros, 5 de junho de 1898 — Granada, 19 de agosto de 1936) foi um poeta e dramaturgo espanhol, e uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola.

O GENERAL


("Depois de fortemente bombardeada, a cidade X foi ocupada pelas nossas tropas.")




O general entrou na cidade

ao som de cornetas e tambores ...





Mas por que não há "vivas"

nem flores?





Onde está a multidão

para o aplaudir, em filas na rua?





E este silêncio

Caiu de alguma cidade da Lua?





Só mortos por toda a parte.





Mortos nas árvores e nas telhas,

nas pedras e nas grades,

nos muros e nos canos ...





Mortos a enfeitarem as varandas

de colchas sangrentas

com franjas de mãos ...





Mortos nas goteiras.

Mortos nas nuvens.

Mortos no Sol.





E prédios cobertos de mortos.

E o céu forrado de pele de mortos.

E o universo todo a desabar cadáveres.





Mortos, mortos, mortos, mortos ...





Eh! levantai-vos das sarjetas

e vinde aplaudir o general

que entrou agora mesmo na cidade,

ao som de tambores e de cornetas!





Levantai-vos!





É preciso continuar a fingir vida,

E, para multidão, para dar palmas,

até os mortos servem,

sem o peso das almas.



Jose Gomes Ferreira (Portugal, 1900 - 1985)


BIOGRAFIA

Escritor, poeta e ficcionista português natural do Porto. Formou-se em Direito em 1924, tendo sido cônsul na Noruega entre 1925 e 1929. Após o seu regresso a Portugal, enveredou pela carreira jornalística. Foi colaborador de vários jornais e revistas, tais como a Presença, a Seara Nova e Gazeta Musical e de Todas as Artes. Esteve ligado ao grupo do Novo Cancioneiro, sendo geral o reconhecimento das afinidades entre a sua obra e o neo-realismo. José Gomes Ferreira foi um representante do artista social e politicamente empenhado, nas suas reacções e revoltas face aos problemas e injustiças do mundo. Mas a sua poética acusa influências tão variadas quanto a do empenhamento neo-realista, o visionarismo surrealista ou o saudosismo, numa dialéctica constante entre a irrealidade e a realidade, entre as suas tendências individualistas e a necessidade de partilhar o sofrimento dos outros.

16 de agosto de 2008

L'homme qui te ressemble

J'ai frappé à ta porte
J'ai frappé à ton coeur
pour avoir bon lit
pour avoir bon feu
pourquoi me repousser?
Ouvre-moi mon frère!...

Pourquoi me demander
si je suis d'Afrique
si je suis d'Amerique
si je suis d'Asie
si je suis d'Europe?
Ouvre-moi mon frère!...

Pourquoi me demander
la longueur de mon nez
l'épaisseur de ma bouche
la couleur de ma peau
et le nom de mes dieux?
Ouvre-moi mon frère!...

Je ne suis pas un noir
je ne suis pas un reouge
je ne suis pas un blanc
mais je ne suis qu'un homme
Ouvre-moi mon frère!...

Ouvre-moi ta porte
Ouvre-moi ton coeur
car je suis un homme
l'homme de tous les temps
l'homme de tous les cieux
l'homme qui te ressemble!...

Rene Philombe (Camaroes)

19 de julho de 2008

FALECEU TETA LANDO

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Alberto Teta Lando faleceu ontem (14/07/08) em Paris vítima de doença oncologica.
Natural de M'Banza Congo, onde nasceu em 1948 é oriundo de família numerosa, com 32 filhos.
Escreveu a sua primeira música em 1964 e dois anos depois com a publicação do primeiro LP passou a integrar o grupo restrito dos melhores músicos angolanos.
Exilado em Paris entre 1978 e 1989, por ser confesso seguidor de Holden Roberto, regressa para integrar o Festival Nacional da Cultura (Fenacult), em Luanda.
Ao longo da sua vasta carreira de 44 anos obteve êxitos inesquecíveis como "Negra de carapinha dura", "Eu vou voltar" ou "Um assobio meu".
O seu último trabalho "Memórias" é uma coletânea das músicas escritas ao longo da sua carreira.
Ocupou desde 2006 o cargo de presidente da UNAC (União Nacional dos Artistas e Compositores).
Era casado e pai de três filhos.
Honra á sua memória e á sua obra.

HAPPY BIRTHDAY MR. MANDELA

Manda a Liberdade

que eu te cante

HOMEM entre os homens,

imortal!

Hoje, nos céus, riscaram os Deuses,

a Constelação da igualdade, paz,

perdão e liberdade:

Constelação Mandela

Constelação nova

do mundo que tu sonhas

bailando luz de savana

na brisa do teu riso…

Mandela, manda a Liberdade

que eu te cante…

mas perdoa a brandura do meu brado!

Mandela, na tua alma

ondula a savana loura;

na tua coragem

o rugido do leão;

no teu sorriso

o sol da Igualdade.

Salvé, filho ungido da Liberdade!

Salvé, HOMEM entre homens,

imortal!

És o verdadeiro Prometeu africano!

Parabéns Mr. Mandela!

Hoje, nos céus, riscaram os Deuses

a Constelação nova

a Constelação Mandela

a única que viaja no céu dos Hemisférios…

King’s Lynn, 18/07/2008

Namibiano Ferreira

18 de julho de 2008

MÃE

Todos os dias sao dias da Mae...

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
_ mistério profundo _
de tirá-la um dia?
Fosse eu o Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará para sempre
junto de seu filho
e ele, velho, embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade

17 de julho de 2008

CANTICO NEGRO


Cântico negro

José Régio


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

15 de julho de 2008

MISS LANDMINE - MISS MINA ANTI-PESSOAL (ANGOLA)

The Miss Landmine Angola 2008 competition was created by a Norwegian artist called Morten Traavik -- it's been controversial, but has some laudable objectives:
THE MISS LANDMINE MANIFESTO (in no particular order)

* Female pride and empowerment.
* Disabled pride and empowerment.
* Global and local landmine awareness and information.
* Challenge inferiority and/or guilt complexes that hinder creativity- historical, cultural, social, personal, African, European.
* Question established concepts of physical perfection.
* Challenge old and ingrown concepts of cultural cooperation.
* Celebrate true beauty.
* Replace the passive term 'Victim' with the active term 'Survivor'

LINKS:

http://www.miss-landmine.org/misslandmine_candidates.html

NO TO LANDMINES!

NÃO ÀS MINAS ANTI-PESSOAIS!


Tela de Eleuterio Sanches



Lá em baixo
na margem do Cubango
p’rós lados do Cuangar
Carungo João
foi na lavra.
Filho na cacunda
quinda na cabeça
foi na lavra
Carungo João
no Cuando-Cubango
p’rós lados do Cuangar
Carungo João
foi na lavra
procurar mandioca
filho na cacunda
quinda na cabeça
que fome é bicho
roendo, mordendo...
foi na lavra
Carungo João
só encontrou mina
debaixo do pé
as pernas perdeu
e o filho morreu
pequeno, pequenino
na cacunda
de Carungo João
Aiuê, Suku ianguê!






Cacunda - costas.
Aiue, Suku iangue! - ai meu Deus!





NAMIBIANO FERREIRA

9 de junho de 2008

Os poetas são como os gatos



Mais uma interessante análise de João Craveirinha sobre a problemática racismo versus xenofobismo, ainda não publicada na imprensa.


"Notas adicionais sobre XENON:

Xenofobia não tem cor mas o racismo tem cor. Não confundir os dois - pois acabam por se diluir se assim for feito.

Ambos são violentos mas o racismo é duplamente violento. No imaginário de séculos e na acção colonizadora do Eu do outro, considerado inferior em África - (NESTE CASO O DENONIMADO NEGRO / BLACK / NOIR / SCHWARZE / T'CHORNI etc etera).

A xenofobia é anti-estrangeiro mesmo sendo da mesma “cor” epidérmica.
O racismo tem cor diferente e é de cima para baixo vindo da superioridade europeia (leia-se do que se diz branco).

Não confundir dos que reagem (mais morenos ou negros ou castanhos) ao se sentirem espezinhados há séculos em tudo que fosse a sua cultura a começar pela língua que passou a ser desvalorizada para dialecto. Indicando que não sofrera evolução como raça humana ao longo de milhares de anos.
(Paradoxalmente apesar dessa raça humana global ter saído de África, Etiópia) numa evolução de cerca de 4 milhões de anos (Lucy)...

... e da transição do dito negro (negróide) para o dito branco (europóide ou caucasiano) numa mudança genética (mimetismo) de cerca de 20 mil anos de África para a Europa via Índia e pelo Cáucaso (entre o mar Negro e o Cáspio – o maior mar interior do mundo. Fronteira do Irão e da antiga União Soviética).

Em 20 mil anos um negro (sem mistura e dependendo do clima) fica branco e muito menos um branco fica negro com a mestiçagem em sentido inverso. Bastam 4 gerações. Avô, Pai, Neto, Bisneto.

Jean-Paul Sartre, dizia a Negritude ser uma forma de “racismo anti-racismo” e a única encontrada pelo negro para se afirmar contra a negação de seu Eu pelo branco.

Foi assim que surgiu a corrente literária da Negritude que nada tem a ver com um pseudo-racismo negro mas sim com o recuperar da dignidade perdida de ser humano, "assumindo" o intelectual negro (ou mestiço) os epítetos derrogatórios (negro, cafre, narro et cetera) de sua condição imposta de infra-humano, numa assumpção irónica dessa negação para desfazer o que lhe impõem de cima para baixo fazendo-lhe crer que era inferior ao que ele recusa:

NEGRO :
SER OU NÃO SER
NÃO É A QUESTÃO!
(é tudo imposição)

Queres que eu seja negro
da cor da noite das trevas?
Então sou!
E depois não digas que a mulher negra não é bela.
É tão bela como pode ser a tua mulher
que dizes ser, da cor da luz branca,
onde vive o divino!
Sou negro e depois?

Ah, não!!

Agora sou racista por aceitar com um sorriso
o que me impões e aceito,
e te devolvo?
Só quero igualdade.
Nada mais!
(JOÃO Craveirinha 02.06.2008)

Na negritude, o negro intelectual ao reagir não era para ser superior, mas igual ao branco que não queria essa igualdade e em muitos casos mantendo-se na actualidade, mesmo quando se afirmam como não racistas contra o negro. Alguma reacção residual surgirá, invertendo os papéis. Analise-se o caso da xenofobia inter-negro na África do Sul para alegria de muitos desse tipo padrão para dizer que o negro é pior que o branco.
Em Moçambique, na comunicação social, tornou-se norma com ajuda de alguns negros à deriva de si mesmos. E na comunicação social em Portugal ainda pior.
Des – contextualiza-se o fenómeno esquecendo que a essência da desumanidade não tem cor. É intrinsecamente genética, e nisso a Europa é a última a acusar de ânimo leve o africano. Foram os senhores e mestres do africano durante muito tempo. E se calhar ainda continuam.

“DEMOCRACIA, IGUALDADE E LIBERDADE:
“Porque é que os povos democráticos mostram um amor mais ardente e mais durável pela igualdade que pela liberdade?” Alexis de Tocqueville (1805-1859, França).
In Teorias Sociológicas p. 259.

É isso aí - no fundo o negro nem democracia queria porque não sabia o que era. Uma coisa importada e deturpada dos antigos gregos que são europeus. Daí a desconfiança.


Pois o colonialismo da Globalização, veio da Europa. O fascismo veio da Europa. O marxismo veio da Europa. A África pós-colonial tem sido (como no passado) um laboratório de experiências de tudo que já está a ficar ultrapassado na Europa e no mundo ocidental.

Essas modernidades vêm da Europa (assim como os dinheiros da corrupção para África). No fundo mesmo, o negro queria (quer) é ser tratado como igual. Lá dizia o Tocqueville e era europeu.

As coisas positivas deixam de ter cor e nação. Passam a ser universais. O racismo e a xenofobia só assim serão superados.

Saber peneirar na m’benga o capim da mapira.

Exempli gratia:
ADEUS À HORA DA PARTIDA

Agostinho Neto
(Poeta-mor de Angola)

“Eu já não espero
sou aquele por quem se espera
(…)
Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico”
(...)

Agostinho Neto (1974). Sagrada Esperança. Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa.

Este poema da Negritude é um manifesto contra o racismo colonial português…ao mesmo tempo e duplamente, associando e dissociando “o homem rico” com a cor da pele.

Uma premunição à Angola independente. Em que o homem rico deixou de ter cor. Pois passou a ser da cor do dinheiro.

OS POETAS SÃO COMO OS GATOS. VÊM EM MUITAS DIMENSÕES: ESPREITAM O PASSADO; VIVEM NO PRESENTE; E PROJECTAM-SE NO FUTURO QUE PARA ELES JÁ É PRESENTE.

Em baixo um manifesto contra a xenofobia neste poema do tio paterno do autor destas notas de reflexão:

“TERRA DE CANAÃ

Não, piloto israelita.
Inútil procurares nos incêndios de Beirute
e nos inocentes corpos mutilados pelos estilhaços ardentes
as belas palavras do Cântico dos Cânticos. (…)


Poeta-mor José Craveirinha (10.08.1982 de regresso do Líbano)

in F. Mendonça, N. Saúte (1983). Antologia da Nova Poesia Moçambicana (p.211).
E na hora da partida destas notas de reflexão, saboreiem a poesia de Agostinho
Neto na voz e na autêntica Música de Angola por Rui Mingas, ao alcance de um click:
http://www.esnips.com/doc/93bbecc8-d3e1-48f7-a02e-6a7c26d46894/Adeus-à-hora-da-partida (09.05.2008)


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©João Craveirinha"




7 de junho de 2008

IMAN MALEKI

Iman Maleki está considerado um dos maiores pintores realistas iranianos. Podemos bem entender isso quando observamos as suas pinturas, captadas como se ele próprio fosse uma máquina fotográfica de alta precisão.

Iman Maleki (autoretrato)


BIOGRAFIA:

“Iman Maleki nasceu em 1976 na capital iraniana (Teerão). Desde criança que se sentia fascinado pela pintura. Com a idade de 15 anos, começou a aprender pintura com o mestre Morteza Katouzian, seu primeiro e único professor. Entretando começou a pintar profissionalmente. Em 1999 graduou-se em Design Gráfico pela Universidade de Arte de Teerão. Desde 1998, tem participado em diversas exposições. No ano de 2000, casou-se e no ano seguinte criou ARA Estúdio de Pintura onde ensina pintura clássica e de valores tradicionais.”