4 de setembro de 2008

AMADA - DOIS POEMAS DE A. BARBEITOS





amada
minha amada
ter saudade do futuro
é

crer
agora e mais tarde
que
o desespero é traição
e
que
a curva leve de teu peito
agora e mais tarde
cabe inteira na minha mão
amada
minha amada

Nzoji (sonho) (1979)




amada
teus olhos são mirangolos
que
eu comeria

não me custasse
o pavor da cegueira
a alma
amada
o amor
é
um canibal assustado

Fiapos de Sonhos (1992)


Arlindo Barbeitos (Angola)

25 de agosto de 2008

DEUS NEGRO



Eu, detestando pretos,
Eu, sem coração!…
Eu, perdido num coreto,
Gritando: “Separação”!

Eu, você, nós… nós todos,
Cheios de preconceitos,
Fugindo como se eles carregassem lodo,
Lodo na cor…
E com petulância, arrogância,
Afastando a pele irmã.

Mas
Estou pensando agora:
E quando chegar minha hora?
Meu Deus, se eu morresse amanhã, de manhã!
Numa viagem esquisita, entre nuvens feias e bonitas,
Se eu chegasse lá e um porteiro manco,
Como os aleijados que eu gozei, viesse abrir a porta,
E eu reparasse em sua vista torta, igual àquela que eu critiquei
Se a sua mão tateasse pelo trinco,
Como as mãos do cego que não ajudei!
Se a porta rangesse, chorando os choros que provoquei!
Se uma criança me tomasse pela mão,
Criança como aquela que não embalei
E me levasse por um corredor florido, colorido,
Como as flores que eu jamais dei!
Se eu sentisse o chão frio,
Como o dos presídios que não visitei!
Se eu visse as paredes caindo,
Como as das creches e asilos que não ajudei!
E se a criança tirasse corpos do caminho,
Corpos que eu não levantei
Dando desculpas de que eram bêbados, mas eram epiléticos,
Que era vagabundagem, mas era fome!

Meu Deus!
Agora me assusta pronunciar seu nome!
E se mais para a frente a criança cobrisse o corpo nu,
Da prostituta que eu usei,
Ou do moribundo que não olhei,
Ou da velha que não respeitei,
Ou da mãe que não amei!…
Corpo de alguém exposto, jogado por minha causa,
Porque não estendi a mão, porque no amor fiz pausa e dei,
Sei lá, só dei desgosto!

E, no fim do corredor, o início da decepção!
Que raiva, que desespero,
Se visse o mecânico, o operário, aquele vizinho,
O maldito funcionário, e até, até o padeiro,
Todos sorrindo não sei de quê!
Ah! Sei sim, riem da minha decepção.

Deus não está vestido de ouro! Mas como???
Está num simples trono:
Simples como não fui, humilde como não sou.

Deus decepção!
Deus na cor que eu não queria,
Deus cara a cara, face a face,
Sem aquela imponente classe.

Deus simples! Deus negro!
Deus negro!?

E Eu…
Racista, egoísta. E agora?
Na terra só persegui os pretos,
Não aluguei casa, não apertei a mão.

Meu Deus você é negro, que desilusão!

Será que vai me dar uma morada?
Será que vai apertar minha mão? Que nada!

Meu Deus você é negro, que decepção !

Não dei emprego, virei o rosto. E agora?
Será que vai me dar um canto, vai me cobrir com seu manto?
Ou vai me virar o rosto no embalo da bofetada que dei?

Deus, eu não podia adivinhar.
Por que você se fez assim?
Por que se fez preto, preto como o engraxate,
Aquele que expulsei da frente de casa!

Deus, pregaram você na cruz
E você me pregou uma peça:
Eu me esforcei à beça em tantas coisas,
E cheguei até a pensar em amor,

Mas nunca,
Nunca pensei em adivinhar sua cor!…

Neimar de Barros (Brasil)

LAVADEIRA

Banco raso
Celha cheia

Mãos pretas em roupa branca


Silenciosa a lavadeira

Pende a frente num trama longo.

Carrega um mundo o fumo denso

Da boca muda baforado.


Ao lado

As moscas enxameiam a boquita entreaberta

Do seu filho adormecido



Arnaldo Santos (poeta angolano)

A POESIA DE DÉCIO B. MATEUS



A poesía de Décio Bettencourt.
(texto em língua galega)



Angola sempre sorprende no que os seus poetas crean. De Décio Bettencourt Mateus (1967) chégame a súa primeira entrega poética, titulada: La furia del mar, publicada pola Editorial Nzila. Para un europeo resulta curioso que nun país que soportou máis de trinta anos de guerra e que os protagonistas bélicos tiveron tempo e sensibilidade para compor poesía. Este é o caso de Décio Bettencourt, que ten a graduación de tenente e, tamén, a licenciatura de Xeofísica pola facultade de Ciencias da Universidade Agostinho Neto de Luanda, para, ao final, traballar na industria petroleira.

A vida dos africanos é mesmo dolorosa e sempre procuraron con ela atopar camiños na tan difícil busca de circunstancias adversas. A biografía dos poetas angolanos está sempre cargada de profesións distintas para procurar saír de escuros labirintos. Isto é positivo para unha persoa que quere acadar un lugar nas letras do seu país, exhibindo outros traballos e outros estudos que sempre favorecerán varios aspectos poéticos tan matizados e particularizados.

La furia del mar, é un libro que se sustenta de varias entregas creativas que oscilan desde 1994 a 2003. Evidentemente, nove anos de distanciamento poden producir certa alteración na articulación do que se refire a tempo e a espazo. Digamos que a poesía angolana, desde xa hai bastantes anos, goza de maioría de idade e isto permite que os poetas non estean, nin deben estar, sometidos a ningún canon. Gozando xa dese permisismo, na poesía angolana, encontramos unha serie de referencias creativas de alto valor por espremerse sempre dentro duns parámetros existenciais. Estamos ante un poeta intimamente existencial e cunha economía poética esencialmente xirada aos problemas que o rodean e que non desexa distanciarse deles.

Décio Bettencourt Mateus sabe transcender na vida do común e, por iso, encontramos non poucas observacións e matices do que é verdadeiramente a vida tan particularizada do que se comparte en convivencia cos demais. Este poeta, en forma de crónica, sabe levar á poesía as vivencias dentro dun Candongueiro (autobús) nas súas diversas fases de soportar os tumultos e de facer amigos nesas turbias viaxes. Mais o impactante deste poeta é como procura centrar o seu discurso poético valéndose de circunstancias que el sabe asumir e tecer con habilidade.

Non cabe dúbida que Décio Bettencourt bebe da tradición da poesía angolana, da máis suxestiva e altamente en acorde co destacado de vivencias e referencias. Así o manifesta no poema, titulado: Dialogando com as estrelas. Un poema sobrio e pleno de mensaxes que irradian esa pureza en que se atopa o poeta. Con este tipo de poesía estamos, evidentemente, no contexto social da angolanidade máis determinativa e non exenta de realismo. Non falamos daquela poesía do realismo social. Neste poeta o social está desvencellado do realismo. Dúas percepcións articuladas para convivir autonomamente. Compor un poema nestas circunstancias non é fácil. Primeiro hai que mastigar a idea e dispor dunha certa intuición para non caer en erros que levaron a outros poetas angolanos a compor poesía de militancia e intervención de mala calidade. Resúltanos curioso que un home de armas non entre nese escenario discursivo tan propio e tan usado por guerrilleiros ante colonialistas que compuxeron unha poesía tan particular e exaltadora de eventos épicos.

La furia del mar é un libro que nos ilustra nesa crítica na que persoas e estamentos non fican exentas. Pode que o discurso exalte conciencias e lle marque rumbos a un lector interesado en afrontar e combater problemáticas, tan tipificadas nesa África profunda da cal nos fala Décio Bettencourt. A temática resúltanos interesante, innovadora e en moitos casos precoz, como enunciado de cambios desexados na sociedade angolana. Aquí verificamos a protesta dun autor autorizado a dicir o que observa e o que delibera no seu diálogo coa propia poesía. Este primeiro inventario poético pon a Décio Bettencourt nun obrigado e necesario segundo rexistro poético.
XOSÉ LUIS GARCÍA, in http://www.xoseloisgarcia.com/GaliciaHoxe/gh_1.htm

Poesia de Décio B. Mateus: http://mulembeira.blogspot.com/

ADRIANO BOTELHO DE VASCONCELOS

ADRIANO BOTELHO DE VASCONCELOS

A morte da música pode ser lisa entre o início de um verão
e a direção que faz o silêncio. A surdez levanta a imagem
que a sombra distraidamente enterrara a cinco
palmos do chão. Para o coração se salvam as gaivotas
que levaram os mares para bem perto do sol que se despe
com o jeito das mulheres. A cicatriz é delicada
como se tivéssemos que olhar para a memória
com uma outra escolha astúcia. Hesita-se mas sabemos
que no ombro se fazem as glórias muito breves
e à deriva do coração. Cada erro persegue o espírito
que faz o teatro dourar mais que uma lágrima, um longo
cenário acaba por disfarçar-nos perante
o que nunca fomos. Faz-se um corte no dedo indicador
quando se perde a aurora para que a terra
fique mais perto da insónia. Vemos o abandono da juventude
vindo agora de nós uma interpretação
sem chamas. Por isso as palavras vão compondo
numa só estrofe o que a vida mesmo atenta não pode
consagrar.


* * *

As armadilhas foram apresentadas depois de terem
escrito num ofício os epitáfios, porque o declínio não se pode
suportar só com as promessas dos irmãos. Os irmãos sabem
que só podem estar de costas dadas uns para os outros
na direcção cuja geometria só os poetas conhecem,
porque a direcção do sabre tem a sua força na perfeição
da sombra que foi preparada pelos que foram escolhidos
para serem heróis depois de passarem acordados
sete dias na escuridão para pensarem com fundo suficiente
de vidas humanas como se impedem
os editais.


* * *

Uma ilusão levanta-se de um escombro mas não se apanha
o poeta que por ela mais a ensaiou num percurso e palco
que nunca fora estranho a Deus. Um cágado não pode passar
limpo e com estilo pela cinza porque não viu
como mais à frente se salvou uma lavra. Salva-se algo
como a primeira escolha
apesar de todos não terem para onde se virar senão
para a fé da palavra que nos pede
um momento
de vaidade.


* * *

Tudo o que foi quase um poema veio com o teu âmago
e talvez seja essa febre interior que te faz
corrigir com as lágrimas a posição
dos guaches.

*

Adriano Botelho de Vasconcelos nasceu em Malange, Angola, em 1955. Publicou, entre outros livros de poesia, Voz da Terra (1974), Anamnese (1984), Tábua (2004), que recebeu o Grande Prémio Sonangol de Literatura, e Olímias (2005). Organizou os livros Caçadores de Sonhos: antologia do conto angolano (1960), Boneca de Pano: colectânea do conto infantil angolano (2005) e Todos os Sonhos: antologia da poesia moderna angolana (2005). Actualmente, é secretário-geral da União dos Escritores Angolanos (UEA).

*

MAYAKOSKY - CITACAO

“Eu não forneço nenhuma regra para que uma pessoa se torne poeta e escreva versos. E, em geral, tais regras não existem. Chama-se poeta justamente o homem que cria estas regras poéticas.”

Mayakovsky

19 de agosto de 2008

MAS O QUE VOU DIZER DA POESIA?


“Mas o que vou dizer da Poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu? Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo, e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da poesia. Isso fica para os críticos e professores. Mas nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a poesia.”


Garcia Lorca



Federico García Lorca (Fuente Vaqueros, 5 de junho de 1898 — Granada, 19 de agosto de 1936) foi um poeta e dramaturgo espanhol, e uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola.

O GENERAL


("Depois de fortemente bombardeada, a cidade X foi ocupada pelas nossas tropas.")




O general entrou na cidade

ao som de cornetas e tambores ...





Mas por que não há "vivas"

nem flores?





Onde está a multidão

para o aplaudir, em filas na rua?





E este silêncio

Caiu de alguma cidade da Lua?





Só mortos por toda a parte.





Mortos nas árvores e nas telhas,

nas pedras e nas grades,

nos muros e nos canos ...





Mortos a enfeitarem as varandas

de colchas sangrentas

com franjas de mãos ...





Mortos nas goteiras.

Mortos nas nuvens.

Mortos no Sol.





E prédios cobertos de mortos.

E o céu forrado de pele de mortos.

E o universo todo a desabar cadáveres.





Mortos, mortos, mortos, mortos ...





Eh! levantai-vos das sarjetas

e vinde aplaudir o general

que entrou agora mesmo na cidade,

ao som de tambores e de cornetas!





Levantai-vos!





É preciso continuar a fingir vida,

E, para multidão, para dar palmas,

até os mortos servem,

sem o peso das almas.



Jose Gomes Ferreira (Portugal, 1900 - 1985)


BIOGRAFIA

Escritor, poeta e ficcionista português natural do Porto. Formou-se em Direito em 1924, tendo sido cônsul na Noruega entre 1925 e 1929. Após o seu regresso a Portugal, enveredou pela carreira jornalística. Foi colaborador de vários jornais e revistas, tais como a Presença, a Seara Nova e Gazeta Musical e de Todas as Artes. Esteve ligado ao grupo do Novo Cancioneiro, sendo geral o reconhecimento das afinidades entre a sua obra e o neo-realismo. José Gomes Ferreira foi um representante do artista social e politicamente empenhado, nas suas reacções e revoltas face aos problemas e injustiças do mundo. Mas a sua poética acusa influências tão variadas quanto a do empenhamento neo-realista, o visionarismo surrealista ou o saudosismo, numa dialéctica constante entre a irrealidade e a realidade, entre as suas tendências individualistas e a necessidade de partilhar o sofrimento dos outros.

16 de agosto de 2008

L'homme qui te ressemble

J'ai frappé à ta porte
J'ai frappé à ton coeur
pour avoir bon lit
pour avoir bon feu
pourquoi me repousser?
Ouvre-moi mon frère!...

Pourquoi me demander
si je suis d'Afrique
si je suis d'Amerique
si je suis d'Asie
si je suis d'Europe?
Ouvre-moi mon frère!...

Pourquoi me demander
la longueur de mon nez
l'épaisseur de ma bouche
la couleur de ma peau
et le nom de mes dieux?
Ouvre-moi mon frère!...

Je ne suis pas un noir
je ne suis pas un reouge
je ne suis pas un blanc
mais je ne suis qu'un homme
Ouvre-moi mon frère!...

Ouvre-moi ta porte
Ouvre-moi ton coeur
car je suis un homme
l'homme de tous les temps
l'homme de tous les cieux
l'homme qui te ressemble!...

Rene Philombe (Camaroes)

19 de julho de 2008

FALECEU TETA LANDO

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Alberto Teta Lando faleceu ontem (14/07/08) em Paris vítima de doença oncologica.
Natural de M'Banza Congo, onde nasceu em 1948 é oriundo de família numerosa, com 32 filhos.
Escreveu a sua primeira música em 1964 e dois anos depois com a publicação do primeiro LP passou a integrar o grupo restrito dos melhores músicos angolanos.
Exilado em Paris entre 1978 e 1989, por ser confesso seguidor de Holden Roberto, regressa para integrar o Festival Nacional da Cultura (Fenacult), em Luanda.
Ao longo da sua vasta carreira de 44 anos obteve êxitos inesquecíveis como "Negra de carapinha dura", "Eu vou voltar" ou "Um assobio meu".
O seu último trabalho "Memórias" é uma coletânea das músicas escritas ao longo da sua carreira.
Ocupou desde 2006 o cargo de presidente da UNAC (União Nacional dos Artistas e Compositores).
Era casado e pai de três filhos.
Honra á sua memória e á sua obra.

HAPPY BIRTHDAY MR. MANDELA

Manda a Liberdade

que eu te cante

HOMEM entre os homens,

imortal!

Hoje, nos céus, riscaram os Deuses,

a Constelação da igualdade, paz,

perdão e liberdade:

Constelação Mandela

Constelação nova

do mundo que tu sonhas

bailando luz de savana

na brisa do teu riso…

Mandela, manda a Liberdade

que eu te cante…

mas perdoa a brandura do meu brado!

Mandela, na tua alma

ondula a savana loura;

na tua coragem

o rugido do leão;

no teu sorriso

o sol da Igualdade.

Salvé, filho ungido da Liberdade!

Salvé, HOMEM entre homens,

imortal!

És o verdadeiro Prometeu africano!

Parabéns Mr. Mandela!

Hoje, nos céus, riscaram os Deuses

a Constelação nova

a Constelação Mandela

a única que viaja no céu dos Hemisférios…

King’s Lynn, 18/07/2008

Namibiano Ferreira

18 de julho de 2008

MÃE

Todos os dias sao dias da Mae...

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
_ mistério profundo _
de tirá-la um dia?
Fosse eu o Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará para sempre
junto de seu filho
e ele, velho, embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade

17 de julho de 2008

CANTICO NEGRO


Cântico negro

José Régio


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

15 de julho de 2008

MISS LANDMINE - MISS MINA ANTI-PESSOAL (ANGOLA)

The Miss Landmine Angola 2008 competition was created by a Norwegian artist called Morten Traavik -- it's been controversial, but has some laudable objectives:
THE MISS LANDMINE MANIFESTO (in no particular order)

* Female pride and empowerment.
* Disabled pride and empowerment.
* Global and local landmine awareness and information.
* Challenge inferiority and/or guilt complexes that hinder creativity- historical, cultural, social, personal, African, European.
* Question established concepts of physical perfection.
* Challenge old and ingrown concepts of cultural cooperation.
* Celebrate true beauty.
* Replace the passive term 'Victim' with the active term 'Survivor'

LINKS:

http://www.miss-landmine.org/misslandmine_candidates.html

NO TO LANDMINES!

NÃO ÀS MINAS ANTI-PESSOAIS!


Tela de Eleuterio Sanches



Lá em baixo
na margem do Cubango
p’rós lados do Cuangar
Carungo João
foi na lavra.
Filho na cacunda
quinda na cabeça
foi na lavra
Carungo João
no Cuando-Cubango
p’rós lados do Cuangar
Carungo João
foi na lavra
procurar mandioca
filho na cacunda
quinda na cabeça
que fome é bicho
roendo, mordendo...
foi na lavra
Carungo João
só encontrou mina
debaixo do pé
as pernas perdeu
e o filho morreu
pequeno, pequenino
na cacunda
de Carungo João
Aiuê, Suku ianguê!






Cacunda - costas.
Aiue, Suku iangue! - ai meu Deus!





NAMIBIANO FERREIRA

9 de junho de 2008

Os poetas são como os gatos



Mais uma interessante análise de João Craveirinha sobre a problemática racismo versus xenofobismo, ainda não publicada na imprensa.


"Notas adicionais sobre XENON:

Xenofobia não tem cor mas o racismo tem cor. Não confundir os dois - pois acabam por se diluir se assim for feito.

Ambos são violentos mas o racismo é duplamente violento. No imaginário de séculos e na acção colonizadora do Eu do outro, considerado inferior em África - (NESTE CASO O DENONIMADO NEGRO / BLACK / NOIR / SCHWARZE / T'CHORNI etc etera).

A xenofobia é anti-estrangeiro mesmo sendo da mesma “cor” epidérmica.
O racismo tem cor diferente e é de cima para baixo vindo da superioridade europeia (leia-se do que se diz branco).

Não confundir dos que reagem (mais morenos ou negros ou castanhos) ao se sentirem espezinhados há séculos em tudo que fosse a sua cultura a começar pela língua que passou a ser desvalorizada para dialecto. Indicando que não sofrera evolução como raça humana ao longo de milhares de anos.
(Paradoxalmente apesar dessa raça humana global ter saído de África, Etiópia) numa evolução de cerca de 4 milhões de anos (Lucy)...

... e da transição do dito negro (negróide) para o dito branco (europóide ou caucasiano) numa mudança genética (mimetismo) de cerca de 20 mil anos de África para a Europa via Índia e pelo Cáucaso (entre o mar Negro e o Cáspio – o maior mar interior do mundo. Fronteira do Irão e da antiga União Soviética).

Em 20 mil anos um negro (sem mistura e dependendo do clima) fica branco e muito menos um branco fica negro com a mestiçagem em sentido inverso. Bastam 4 gerações. Avô, Pai, Neto, Bisneto.

Jean-Paul Sartre, dizia a Negritude ser uma forma de “racismo anti-racismo” e a única encontrada pelo negro para se afirmar contra a negação de seu Eu pelo branco.

Foi assim que surgiu a corrente literária da Negritude que nada tem a ver com um pseudo-racismo negro mas sim com o recuperar da dignidade perdida de ser humano, "assumindo" o intelectual negro (ou mestiço) os epítetos derrogatórios (negro, cafre, narro et cetera) de sua condição imposta de infra-humano, numa assumpção irónica dessa negação para desfazer o que lhe impõem de cima para baixo fazendo-lhe crer que era inferior ao que ele recusa:

NEGRO :
SER OU NÃO SER
NÃO É A QUESTÃO!
(é tudo imposição)

Queres que eu seja negro
da cor da noite das trevas?
Então sou!
E depois não digas que a mulher negra não é bela.
É tão bela como pode ser a tua mulher
que dizes ser, da cor da luz branca,
onde vive o divino!
Sou negro e depois?

Ah, não!!

Agora sou racista por aceitar com um sorriso
o que me impões e aceito,
e te devolvo?
Só quero igualdade.
Nada mais!
(JOÃO Craveirinha 02.06.2008)

Na negritude, o negro intelectual ao reagir não era para ser superior, mas igual ao branco que não queria essa igualdade e em muitos casos mantendo-se na actualidade, mesmo quando se afirmam como não racistas contra o negro. Alguma reacção residual surgirá, invertendo os papéis. Analise-se o caso da xenofobia inter-negro na África do Sul para alegria de muitos desse tipo padrão para dizer que o negro é pior que o branco.
Em Moçambique, na comunicação social, tornou-se norma com ajuda de alguns negros à deriva de si mesmos. E na comunicação social em Portugal ainda pior.
Des – contextualiza-se o fenómeno esquecendo que a essência da desumanidade não tem cor. É intrinsecamente genética, e nisso a Europa é a última a acusar de ânimo leve o africano. Foram os senhores e mestres do africano durante muito tempo. E se calhar ainda continuam.

“DEMOCRACIA, IGUALDADE E LIBERDADE:
“Porque é que os povos democráticos mostram um amor mais ardente e mais durável pela igualdade que pela liberdade?” Alexis de Tocqueville (1805-1859, França).
In Teorias Sociológicas p. 259.

É isso aí - no fundo o negro nem democracia queria porque não sabia o que era. Uma coisa importada e deturpada dos antigos gregos que são europeus. Daí a desconfiança.


Pois o colonialismo da Globalização, veio da Europa. O fascismo veio da Europa. O marxismo veio da Europa. A África pós-colonial tem sido (como no passado) um laboratório de experiências de tudo que já está a ficar ultrapassado na Europa e no mundo ocidental.

Essas modernidades vêm da Europa (assim como os dinheiros da corrupção para África). No fundo mesmo, o negro queria (quer) é ser tratado como igual. Lá dizia o Tocqueville e era europeu.

As coisas positivas deixam de ter cor e nação. Passam a ser universais. O racismo e a xenofobia só assim serão superados.

Saber peneirar na m’benga o capim da mapira.

Exempli gratia:
ADEUS À HORA DA PARTIDA

Agostinho Neto
(Poeta-mor de Angola)

“Eu já não espero
sou aquele por quem se espera
(…)
Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico”
(...)

Agostinho Neto (1974). Sagrada Esperança. Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa.

Este poema da Negritude é um manifesto contra o racismo colonial português…ao mesmo tempo e duplamente, associando e dissociando “o homem rico” com a cor da pele.

Uma premunição à Angola independente. Em que o homem rico deixou de ter cor. Pois passou a ser da cor do dinheiro.

OS POETAS SÃO COMO OS GATOS. VÊM EM MUITAS DIMENSÕES: ESPREITAM O PASSADO; VIVEM NO PRESENTE; E PROJECTAM-SE NO FUTURO QUE PARA ELES JÁ É PRESENTE.

Em baixo um manifesto contra a xenofobia neste poema do tio paterno do autor destas notas de reflexão:

“TERRA DE CANAÃ

Não, piloto israelita.
Inútil procurares nos incêndios de Beirute
e nos inocentes corpos mutilados pelos estilhaços ardentes
as belas palavras do Cântico dos Cânticos. (…)


Poeta-mor José Craveirinha (10.08.1982 de regresso do Líbano)

in F. Mendonça, N. Saúte (1983). Antologia da Nova Poesia Moçambicana (p.211).
E na hora da partida destas notas de reflexão, saboreiem a poesia de Agostinho
Neto na voz e na autêntica Música de Angola por Rui Mingas, ao alcance de um click:
http://www.esnips.com/doc/93bbecc8-d3e1-48f7-a02e-6a7c26d46894/Adeus-à-hora-da-partida (09.05.2008)


.
©João Craveirinha"




7 de junho de 2008

IMAN MALEKI

Iman Maleki está considerado um dos maiores pintores realistas iranianos. Podemos bem entender isso quando observamos as suas pinturas, captadas como se ele próprio fosse uma máquina fotográfica de alta precisão.

Iman Maleki (autoretrato)


BIOGRAFIA:

“Iman Maleki nasceu em 1976 na capital iraniana (Teerão). Desde criança que se sentia fascinado pela pintura. Com a idade de 15 anos, começou a aprender pintura com o mestre Morteza Katouzian, seu primeiro e único professor. Entretando começou a pintar profissionalmente. Em 1999 graduou-se em Design Gráfico pela Universidade de Arte de Teerão. Desde 1998, tem participado em diversas exposições. No ano de 2000, casou-se e no ano seguinte criou ARA Estúdio de Pintura onde ensina pintura clássica e de valores tradicionais.”

1 de junho de 2008

Declaração Universal dos Direitos da Criança

Declaração dos Direitos da Criança

Proclamada pela Resolução da Assembleia Geral 1386 (XIV), de 20 de Novembro de 1959.


Preâmbulo

Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, a sua fé nos direitos fundamentais, na dignidade do homem e no valor da pessoa humana e que resolveram favorecer o progresso social e instaurar melhores condições de vida numa liberdade mais ampla;

Considerando que as Nações Unidas, na Declaração dos Direitos do Homem, proclamaram que todos gozam dos direitos e liberdades nela estabelecidas, sem discriminação alguma, de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou outra, origem nacional ou social, fortuna ou outra situação;

Considerandoque a criança, por motivo da sua falta de maturidade física e intelectual, tem necessidade uma protecção e cuidados especiais, nomeadamente de protecção jurídica adequada, tanto antes como depois do nascimento;

Considerando que a necessidade de tal protecção foi proclamada na Declaração de Genebra dos Direitos da Criança de 1924 e reconhecida na Declaração Universal dos Direitos do Homem e nos estatutos de organismos especializados e organizações internacionais preocupadas com o bem-estar das crianças;

Considerando que a Humanidade deve à criança o melhor que tem para dar,

A Assembleia Geral

Proclama esta Declaração dos Direitos da Criança com vista a uma infância feliz e ao gozo, para bem da criança e da sociedade, dos direitos e liberdades aqui estabelecidos e com vista a chamar a atenção dos pais, enquanto homens e mulheres, das organizações voluntárias, autoridades locais e Governos nacionais, para o reconhecimento dos direitos e para a necessidade de se empenharem na respectiva aplicação através de medidas legislativas ou outras progressivamente tomadas de acordo com os seguintes princípios:

Princípio 1.º

A criança gozará dos direitos enunciados nesta Declaração. Estes direitos serão reconhecidos a todas as crianças sem discriminação alguma, independentemente de qualquer consideração de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou outra da criança, ou da sua família, da sua origem nacional ou social, fortuna, nascimento ou de qualquer outra situação.

Princípio 2.º

A criança gozará de uma protecção especial e beneficiará de oportunidades e serviços dispensados pela lei e outros meios, para que possa desenvolver-se física, intelectual, moral, espiritual e socialmente de forma saudável e normal, assim como em condições de liberdade e dignidade. Ao promulgar leis com este fim, a consideração fundamental a que se atenderá será o interesse superior da criança.

Princípio 3.º

A criança tem direito desde o nascimento a um nome e a uma nacionalidade.

Princípio 4.º

A criança deve beneficiar da segurança social. Tem direito a crescer e a desenvolver-se com boa saúde; para este fim, deverão proporcionar-se quer à criança quer à sua mãe cuidados especiais, designadamente, tratamento pré e pós-natal. A criança tem direito a uma adequada alimentação, habitação, recreio e cuidados médicos.

Princípio 5.º

A criança mental e físicamente deficiente ou que sofra de alguma diminuição social, deve beneficiar de tratamento, da educação e dos cuidados especiais requeridos pela sua particular condição.

Princípio 6.º

A criança precisa de amor e compreensão para o pleno e harmonioso desenvolvimento da sua personalidade. Na medida do possível, deverá crescer com os cuidados e sob a responsabilidade dos seus pais e, em qualquer caso, num ambiente de afecto e segurança moral e material; salvo em circunstâncias excepcionais, a criança de tenra idade não deve ser separada da sua mãe. A sociedade e as autoridades públicas têm o dever de cuidar especialmente das crianças sem família e das que careçam de meios de subsistência. Para a manutenção dos filhos de famílias numerosas é conveniente a atribuição de subsídios estatais ou outra assistência.

Princípio 7.º

A criança tem direito à educação, que deve ser gratuita e obrigatória, pelo menos nos graus elementares. Deve ser-lhe ministrada uma educação que promova a sua cultura e lhe permita, em condições de igualdade de oportunidades, desenvolver as suas aptidões mentais, o seu sentido de responsabilidade moral e social e tornar-se um membro útil à sociedade.
O interesse superior da criança deve ser o princípio directivo de quem tem a responsabilidade da sua educação e orientação, responsabilidade essa que cabe, em primeiro lugar, aos seus pais.
A criança deve ter plena oportunidade para brincar e para se dedicar a actividades recreativas, que devem ser orientados para os mesmos objectivos da educação; a sociedade e as autoridades públicas deverão esforçar-se por promover o gozo destes direitos.

Princípio 8.º

A criança deve, em todas as circunstâncias, ser das primeiras a beneficiar de protecção e socorro.

Princípio 9.º

A criança deve ser protegida contra todas as formas de abandono, crueldade e exploração, e não deverá ser objecto de qualquer tipo de tráfico. A criança não deverá ser admitida ao emprego antes de uma idade mínima adequada, e em caso algum será permitido que se dedique a uma ocupação ou emprego que possa prejudicar a sua saúde e impedir o seu desenvolvimento físico, mental e moral.

Princípio 10.º

A criança deve ser protegida contra as práticas que possam fomentar a discriminação racial, religiosa ou de qualquer outra natureza. Deve ser educada num espírito de compreensão, tolerância, amizade entre os povos, paz e fraternidade universal, e com plena consciência de que deve devotar as suas energias e aptidões ao serviço dos seus semelhantes.

29 de maio de 2008

EM MEMORIA DE IRENA SENDLEROWA


Em Memória de Irena Sendlerowa
(1910 – 2008)
A heroina polaca que salvou crianças judias do Gueto de Varsóvia, durante a Segunda Guerra Mundial, faleceu no dia 12 de maio de 2008, às 8 horas da manhã, hora local. Irena foi e será sempre uma grande Mulher, uma grande Humanista, uma grande Alma.
Irena Sendler, em língua polaca Irena Sendlerowa, (15 de Fevereiro de 1910 - 12 de Maio de 2008), também conhecida como "o anjo do Gueto de Varsóvia", foi uma activista dos direitos humanos durante a Segunda Guerra Mundial, tendo contribuido para salvar mais de 2.500 vidas ao levar alimentos, roupa e medicamentos às pessoas barricadas no gueto, com risco da própria vida.
A Mãe das crianças do Holocausto
A razão pela qual resgatei as crianças tem origem no meu lar, na minha infância. Fui educada na crença de que uma pessoa necessitada deve ser ajudada com o coração, sem importar a sua religião ou nacionalidade. - Irena Sendler
Quando a Alemanha Nazi invadiu o país em 1939, Irena era enfermeira no Departamento de Bem-estar Social de Varsóvia, que organizava os espaços de refeição comunitários da cidade. Ali trabalhou incansavelmente para aliviar o sofrimento de milhares de pessoas, tanto judias como católicas. Graças a ela, esses locais não só proporcionavam comida para órfãos, anciãos e pobres como lhes entregavam roupa, medicamentos e dinheiro.
Em 1942, os názis criaram um gueto em Varsóvia, e Irena, horrorizada pelas condições em que ali se sobrevivia, uniu-se ao Conselho para a Ajuda aos Judeus, Zegota. Ela mesma contou: "Consegui, para mim e minha companheira Irena Schultz, identificações do gabinete sanitário, entre cujas tarefas estava a luta contra as doenças contagiosas. Mais tarde tive êxito ao conseguir passes para outras colaboradoras. Como os alemães invasores tinham medo de que ocorresse uma epidemia de tifo, permitiam que os polacos controlassem o recinto."
Quando Irena caminhava pelas ruas do gueto, levava uma braçadeira com a estrela de David, como sinal de solidariedade e para não chamar a atenção sobre si própria. Pôs-se rapidamente em contacto com famílias, a quem propôs levar os seus filhos para fora do gueto, mas não lhes podia dar garantias de êxito. Eram momentos extremamente difíceis, quando devia convencer os pais a que lhe entregassem os seus filhos e eles lhe perguntavam: "Podes prometer-me que o meu filho viverá?". Disse Irena, "Quê podia prometer, quando nem sequer sabia se conseguiriam sair do gueto? A única certeza era a de que as crianças morreriam se permanecessem lá. Muitas mães e avós eram reticentes na entrega das crianças, algo absolutamente compreensível, mas que viria a se tornar fatal para elas. Algumas vezes, quando Irena ou as suas companheiras voltavam a visitar as famílias para tentar fazê-las mudar de opinião, verificavam que todos tinham sido levados para os campos da morte.
Ao longo de um ano e meio, até à evacuação do gueto no Verão de 1942, conseguiu resgatar mais de 2.500 crianças por várias vias: começou a recolhê-las em ambulâncias como vítimas de tifo, mas logo se valia de todo o tipo de subterfúgios que servissem para os esconder: sacos, cestos de lixo, caixas de ferramentas, carregamentos de mercadorias, sacas de batatas, caixões... nas suas mãos qualquer elemento transformava-se numa via de fuga.
Irena vivia os tempos da guerra pensando nos tempos de paz e por isso não fica satisfeita só por manter com vida as crianças. Queria que um dia pudessem recuperar os seus verdadeiros nomes, a sua identidade, as suas histórias pessoais e as suas famílias. Concebeu então um arquivo no qual registava os nomes e dados das crianças e as suas novas identidades.
Os názis souberam dessas actividades e em 20 de Outubro de 1943 Irena Sendler foi presa pela Gestapo e levada para a infame prisão de Pawiak onde foi brutalmente torturada. Num colchão de palha encontrou uma pequena estampa de Jesus Misericordioso com a inscrição: “Jesus, em Vós confio”, e conservou-a consigo até 1979, quando a ofereceu ao Papa João Paulo II.
Ela, a única que sabia os nomes e moradas das famílias que albergavam crianças judias, suportou a tortura e negou-se a trair seus colaboradores ou as crianças ocultas. Quebraram-lhe os ossos dos pés e as pernas, mas não conseguiram quebrar a sua determinação. Foi condenada à morte. Enquanto esperava pela execução, um soldado alemão levou-a para um "interrogatório adicional". Ao sair, gritou-lhe em polaco "Corra!". No dia seguinte Irena encontrou o seu nome na lista de polacos executados. Os membros da Żegota tinham conseguido deter a execução de Irena subornando os alemães, e Irena continuou a trabalhar com uma identidade falsa.
Em 1944, durante o Levantamento de Varsóvia, colocou as suas listas em dois frascos de vidro e enterrou-os no jardim de uma vizinha para se assegurar de que chegariam às mãos indicadas se ela morresse. Ao finalizar a guerra, Irena desenterrou-os e entregou as notas ao doutor Adolfo Berman, o primeiro presidente do comité de salvação dos judeus sobreviventes. Lamentavelmente a maior parte das famílias das crianças tinha sido morta nos campos de extermínio názis. De início, as crianças que não tinham família adoptiva foram cuidadas em diferentes orfanatos e pouco a pouco foram enviadas para a Palestina.
As crianças só conheciam Irena pelo seu nome de código "Jolanta". Mas anos depois, quando a sua fotografia saiu num jornal depois de ser premiada pelas suas acções humanitárias durante a guerra, um homem chamou-a por telefone e disse-lhe: "Lembro-me da sua cara. Foi você quem me tirou do gueto." E assim começou a receber muitas chamadas e reconhecimentos públicos.
Em 1965 a organização Yad Vashem de Jerusalém outorgou-lhe o título de Justa entre as Nações e nomeou-a cidadã honorária de Israel.
Em Novembro de 2003 o presidente da República Aleksander Kwaśniewski, concedeu-lhe a mais alta distinção civil da Polónia: a Ordem da Águia Branca. Irena foi acompanhada pelos seus familiares e por Elżbieta Ficowska, uma das crianças que salvou, que recordava como "a menina da colher de prata".
Texto em itálico retirado da wikipedia.

26 de maio de 2008

PRIMEIRO VIERAM...



Als die Nazis die Kommunisten holten,
habe ich geschwiegen;
ich war ja kein Kommunist.

Als sie die Sozialdemokraten einsperrten,
habe ich geschwiegen;
ich war ja kein Sozialdemokrat.

Als sie die Gewerkschafter holten,
habe ich nicht protestiert;
ich war ja kein Gewerkschafter.

Als sie die Juden holten,
habe ich geschwiegen;
ich war ja kein Jude.

Als sie mich holten,
gab es keinen mehr, der protestieren konnte.



Martin Niemöller (Alemanha)





“ Primeiro vieram…” é um poema atribuído ao Pastor Martin Niemöller (1892–1984) sobre a inactividade dos intelectuais alemães depois da subida ao poder dos Nazis e da perseguição que se seguiu a determinados grupos que, uns após outros, foram alvo das suas actividades de limpeza: Comunistas, Judeus, Social-Democratas, Sindicalistas, Ciganos, Homossexuais e inclusivamente Católicos mas também outras muitas vozes incómodas ao regime, como foi o caso do Pastor alemão Martin Niemöller.
Inicialmente apoiante de Hitler, Niemöller veio, por volta de 1934, a opor-se totalmente ao Nazismo e graças às sua boas relações de amizade com influentes homens de negócios, conseguiu ser salvo da prisão até 1937, altura em que foi encarcerado, eventualmente, nos campos de concentração de Sachsenhausen e Dachau. O Pastor sobreviveu e depois da Segunda Guerra Mundial, tornou-se na principal voz de penitência e reconciliação do povo alemão. O seu poema é bastante conhecido e frequentemente citado tendo-se tornado num modelo popular para descrever os perigos de uma apatia política que, começando muitas vezes, com um alvo específico de medo e ódio, assume rapidamente proporções assustadoras e completamente fora de controlo.
O poema tem apresentado diversas variantes ao longo dos tempos. Apresentamos a versão original em alemão e várias versões em inglês. Contudo, existe alguma controvérsia sobre a autoria deste poema.
Primeiro vieram prender os judeus
E eu não levantei minha voz
Porque não era judeu.
Depois vieram prender os comunistas
E eu não levantei minha voz
Porque não era comunista.
Depois vieram prender os homossexuais
E eu nao levantei minha voz
Porque nao era homossexual.
Depois vieram prender os sindicalistas
E eu não levantei minha voz
Porque não era sindicalista.
Depois vieram prender-me
E já não havia mais ninguém
Que levantasse a voz por mim.
(Tradução do ingles de Namibiano Ferreira)