17 de setembro de 2007

AGOSTINHO NETO - 17 de Setembro de 1922 -




Biografia (resumida):


António Agostinho Neto (Icolo e Bengo, 17 de Setembro de1922 — Moscovo, 10 de Setembro de 1979) formado em medicina pela Universidade de Lisboa, em 1975 tornou-se o primeiro Presidente de Angola, cargo que ocupou até 1979, ano em que faleceu. Em 1975-1976 foi-lhe atribuído o Premio Lenin da Paz.
Fez parte da geração de estudantes africanos que viria a desempenhar um papel decisivo na independência dos seus países naquela que ficou designada como a Guerra Colonial Foi preso pela PIDE e deportado para o Tarrafal (campo de concentracao no Arquipelago de Cabo verde) sendo-lhe fixada residência em Portugal, de onde fugiu para o exilio. Aí assumiu a direcção do MPLA, (Movimento Popular para a Libertacao de Angola) do qual já era presidente honorário desde 1962.









Negação



Não creio em mim
Não existo
Não quero eu não quero ser

Quero destruir-me
atirar-me de pontes elevadas
e deixar-me despedaçar
sobre as pedras duras das calçadas

Pulverizar o meu ser
desaparecer
não deixar sequer traço de passagem
pelo mundo

quero que o não-eu
se aposse de mim

Mais do que um simples suicídio
Quero que esta minha morte
seja uma verdadeira novidade histórica
um desaparecimento total
até mesmo nos cérebros
daqueles que me odeiam
até mesmo no tempo
e se processe a História
e o mundo continue
como se eu nunca tivesse existido
como se nenhuma obra tivesse produzido
como se nada tivesse influenciado na vida
se em vez de valor negativo
eu fosse zero

Quero ascender
elevar-me até atingir o Zero
e desaparecer

Deixai-me desaparecer!

Mas antes vou gritar
Com toda a força dos meus pulmões
Para que o mundo oiça:

- Fui eu quem renunciou a Vida!
Podeis continuar a ocupar o meu lugar
Vós os que mo roubastes

Aí tendes o mundo todo para vós
para mim nada quero
nem riqueza nem pobreza
nem alegria nem tristeza
nem vida nem morte
nada

Não sou Nunca fui
Renuncio-me
Atingi o Zero

E agora
vivei cantai chorai
casai-vos matai-vos embriagai-vos
dai esmolas aos pobres
Nada me pode interessar
que eu não sou
Atingi o Zero

Não contem comigo
para vos servir as refeições
nem para cavar os diamantes
que vossas mulheres irão ostentar em salões
nem para cuidar das vossas plantações
de algodão e café
não contem com amas
para amamentar os vossos filhos sifilíticos
não contem com operários
de segunda categoria
para fazer o trabalho de que vos orgulhais
nem com soldados inconscientes
para gritar com o estômago vazio
vivas ao vosso trabalho de civilização
nem com lacaios
para vos tirarem os sapatos
de madrugada
quando regressardes de orgias noturnas
nem com pretos medrosos
para vos oferecer vacas
e vender milho a tostão
nem com corpos de mulheres
para vos alimentar de prazeres
nos ócios da vossa abundância imoral

Não contem comigo
Renuncio-me
Eu atngi o Zero

E agora podeis queimar
os letreiros medrosos
que às portas de bares hotéis e recintos públicos
gritam o vosso egoismo
nas frases “SÓ PARA BRANCOS” ou COLOURED MEN ONLY”
Negros aqui brancos acolá

E agora podeis acabar
com os miseráveis bairros de negros
que vos atrapalham a vaidade
Vivei satisfeitos sem colour lines
sem terdes que dizer aos frequeses negros
que os hotéis estão abarrotados
que não há mais mesas nos restaurantes
Banhai-vos descansados
nas vossas praias e piscinas
que nunca houve negros no mundo
que sujassem as águas
ou os vossos nojentos preconceitos
com a sua escura presença

Dissolvei o Ku-Klux-Klan
que já não há negros para linchar!

Porque hesitais agora!
ao menos tendes oportunidade
para proclamardes democracias
com sinceridade

Podeis inventar uma nova história
inclusivamente podeis inventar uma nova mística
direis por exemplo: No princípio nós criamos o mundo
Tudo foi feito por NÓS
E isso nada me interessa

Ah!
que satisfação eu sinto
por ver-vos alegres no vosso orgulho
e loucos na vossa mania de superioridade

Nunca houve negros!
A África foi construida só por vós
A América foi colonizada só por vós
A Europa não conhece civilizações africanas
Nunca houve beijos de negros sobre faces brancas
nem um negro foi linchado
nunca matastes pretos a golpes de cavalomarinho
para lhes possuirdes as mulheres
nunca estorquistes propriedades a pretos
não tendes nunca tivestes filhos com sangue negro
ó racistas de desbragada lubricidade

Fartai-vos agora dentro da moral!

Que satisfação eu sinto
por não terdes que falsear os padrões morais
para salvaguardar
o prestígio a superioridade e o estômago
dos vossos filhos

Ah!
O meu suicídio é uma novidade histórica
é um sádico prazer
de ver-vos bem instalados no vosso mundo
sem necessidade de jogos falsos

Eu elevado até o Zero
eu transformado no Nada-histórico
eu no início dos tempos
eu-Nada a confundir-me com vós-Tudo
sou o verdadeiro Cristo da Humanidade!

Não há nas ruas de Luanda
negros descalços e sujos
a pôr nódoas nas vossas falsidades de colonização

Em Lourenço Marques
em New York em Leopoldville
em Cape Town
gritam pelas ruas
fogueteando alegrias nos ares

- Não há negros nas ruas!
Nunca houve
Não há negros preguiçosos
a deixar os campos por cultivar
e renitentes à escravização
já não há negros para roubar
Toda a riqueza representa agora o suor do rosto
e o suor do rosto é a poesia da vida
Viva a poesia da vida!
Viva!

Não existe música negra
Nunca houve batuques nas florestas do Congo
Quem falou em spirituals?
Os salões enchem-se de Debussy Strauss Korsakoff
que não há selvagens na terra
Viva a civilização dos homens superiores
sem manchas negróides a perturbar-lhe a estética!
Viva!

Nunca houve descobrimentos
a África foi criada com o mundo

O que é a colonização?
O que são os massacres de negros?
O que são os esbulhos de propriedade?
Coisas que ninguém conhece

A história está errada
Nunca houve escravatura
Nunca houve domínio de minorias
orgulhosas da sua força

Acabei com as cruzadas religiosas
A fé está espalhada por todo o mundo
sobre a terra só há cristãos
VÓS sois todos cristãos

Não há infiéis por converter
Escusais de imaginar mais infidelidades religiosas
para justificar
repugnantes actos de barbarismo

Não necessitais enviar mais missionários
a África
nem nos bairros de negros
Nunca houve mahamba
nem concepções religiosas diferentes
nunca houve religiosos a auxiliar a ocupação militar

Acabai com os missionários
os seus sofismas
os seus milagres
inventados para justificar ambições e vaidades

Possuis tudo TUDO
e sois todos irmãos

Continuai com os vossos sistemas políticos
ditaduras democráticas
isso é convosco
Explorai o proletariado
matai-vos uns aos outros
lutai pela glória
lutai pelo poder
criai minorias fortes
apadrinhai os afilhados dos vossos amigos
criai mais castas
aburguesai as ideias
e tudo sem a complicação
de verdes intrusos
imiscuir-se na vossa querida
e defendida civilização de homens
privilegiados

E agora
homens irmãos
daí-vos as mãos
gritai a vossa alegria de serdes sós
SÓS!
únicos habitantes da terra

Eu artingi o Zero

Isto significa extraordinariamente a vossa ética
Ao menos
não percais a ocasião para serdes honestos

Se houver terramotos
calamidades cheias ou epidemias
ou terras a defender da evasão das águas
ou motores parados em lamas africanas
raios vos partam!
já não tereis de chamar-me
para acudir as vossas desgraças
para reparar os vossos desastres
ou para carregar com a culpa das vossas incúrias
Ide para o diabo!

Eu não existo
Palavra de honra que nunca existi
Atingi o Zero
o Nada

Abençoada a hora
do meu super-suicídio
para vós
homens que construís sistemas morais
para enquadrar imoralidades

O sol brilha só para vós
a lua reflecte luz só para vós
nunca houve esclavagistas
nem massacres
nem ocupações da África

Como até a história
se transforma num tratado de moral
sem necessidade de arranjos apressados!

Os pretos dos cais não existem
Nunca foram ouvidos cantos dolentes
misturados com a chiadeira do guindaste
Nunca pisaram os caminhos do mato
carregadores com sem quilos às costas
são os motores que se queimam sob as cargas

Ó pretos submissos humildes ou tímidos
sem lugar nas cidades
ou nos escaninhos da honestidade
ou nos recantos da força
dançarinos com a alma poisada no sinal menos
polígamos declarados
dançarinos de batuques sensuais
Sabeis que subistes todos de valor
atingistes o Zero sois Nada
e salvastes o homem

Acabou-se o ódio
e o trabalho de civilização
e a náusea de ver meninos negros
sentados na escola
ao lado de meninos de olhos azuis
e as extorções e compulsões
e as palmatoadas e torturas
para obrigar inocentes a confessar crimes
e medos de revolta
e as complicadas demarches políticas
para iludir as almas simples

Acabaram-se as complicações sociais!

Atingi o Zero
Cheguei à hora do início do mundo
e resolvi não existir

Cheguei ao Zero-Espaço
ao Nada-Tempo
ao eu coincidente com vós-Tudo

E o que é mais importante:
Salvei o mundo!


Agostinho Neto

In A Renuncia Impossivel


12 de setembro de 2007

VAZIO




Onde andarão os meus sonhos!?
E a esperança, onde andará!?
E a utopia, ainda existirá!?

Um dia eu sonhei com um mundo novo
Mundo onde as pessoas se amavam
E se queriam...
E se abraçavam...
E se adoravam...
E se sorriam...
E se amavam...
E se amavam sem pejo!
Despudoradamente se amavam!

Um dia eu esperancei um mundo igual
Mundo onde as pessoas eram unas
Ainda que diferentes
Eram iguais
Comuns comensais
E não havia vassalos...
E não havia senhores...
E se amavam sem pejo!
Despudoradamente se amavam!


Um dia eu utopiei um mundo de amor e igualdade
Mundo onde as pessoas não tinham raça
E não tinham leis...
E não tinham governos...
E não tinham patrões...
E não havia escravos...
E havia liberdade!
E se amavam sem pejo!
Despudoradamente se amavam!

Onde andarão os meus sonhos!?
E a esperança, onde andará!?
E a utopia, ainda existirá!?



Por Joao Batista do Lago (Brasil)


http://joaobatistalago.multiply.com/

7 de setembro de 2007

FRIDA KAHLO




Ferida aberta
sangrando
roxa
no limbo
poetico da pintura...
Namibiano Ferreira

DREAMS



Hold fast to dreams
For if dreams die
Life is a broken-winged bird
That cannot fly.

Hold fast to dreams
For when dreams go
Life is a barren field
Frozen with snow.

by Langston Hughes (U.S.A.)

MILLION MAN MARCH POEM



The night has been long,

The wound has been deep,

The pit has been dark,

And the walls have been steep.

Under a dead blue sky on a distant beach,

I was dragged by my braids just beyond your reach.

Your hands were tied, your mouth was bound,

You couldn’t even call out my name.

You were helpless and so was I,

But unfortunately throughout history

You’ve worn a badge of shame.

I say, the night has been long,

The wound has been deep,

The pit has been dark

And the walls have been steep.

But today, voices of old spirit sound

Speak to us in words profound,

Across the years, across the centuries,

Across the oceans, and across the seas.

They say, draw near to one another,

Save your race.

You have been paid for in a distant place,

The old ones remind us that slavery’s chains

Have paid for our freedom again and again.

The night has been long,

The pit has been deep,

The night has been dark,

And the walls have been steep.

The hells we have lived through and live through still,

Have sharpened our senses and toughened our will.

The night has been long.

This morning I look through your anguish

Right down to your soul.

I know that with each other we can make ourselves whole.

I look through the posture and past your disguise,

And see your love for family in your big brown eyes.

I say, clap hands and let’s come together in this meeting ground,

I say, clap hands and let’s deal with each other with love,

I say, clap hands and let us get from the low road of indifference,

Clap hands, let us come together and reveal our hearts,

Let us come together and revise our spirits,

Let us come together and cleanse our souls,

Clap hands, let’s leave the preening

And stop impostering our own history.

Clap hands, call the spirits back from the ledge,

Clap hands, let us invite joy into our conversation,

Courtesy into our bedrooms,

Gentleness into our kitchen,

Care into our nursery.

The ancestors remind us, despite the history of pain

We are a going-on people who will rise again.

And still we rise.


Maya Angelou (USA)

O VENDEDOR DE PASSADOS - AGUALUSA


Publicações Dom Quixote, Lisboa, Portugal. - 2004
Romance. - 231 p. ISBN 972-20-2667-4.


Vencedor do Independent Foreign Fiction Prize 2007 (Inglaterra)

Félix Ventura escolheu um estranho ofício: vende passados falsos. Os seus clientes, prósperos empresários, políticos, generais, enfim, a emergente burguesia angolana, têm o futuro assegurado. Falta-lhes, porém, um bom passado. Félix fabrica-lhes uma genealogia de luxo, memórias felizes, consegue-lhes os retratos dos ancestrais ilustres. A vida corre-lhe bem. Uma noite entra-lhe em casa, em Luanda, um misterioso estrangeiro à procura de uma identidade angolana. E então, numa vertigem, o passado irrompe pelo presente e o impossível começa a acontecer. Sátira feroz, mas divertida e bem humorada, à actual sociedade angolana, O Vendedor de Passados é também (ou principalmente) uma reflexão sobre a construção da memória e os seus equívocos.

Revista de Imprensa


O que aqui temos (lemos) é um belo livro, despojado de intencionalidades dirigidas, demonstrando a eficácia de uma tal opção. Encontrar uma boa metáfora para dizer a vida é uma felicidade; envolvê-la com uma narrativa límpida e despretensiosa, uma alegria; suspender até ao limite do narrado um desfecho, uma glória. Entregá-lo assim feito, a um público leitor, uma simpatia.
Dórias Graça Dias, Expresso, Actual


O último livro de José Eduardo Agualusa é um retrato irónico da sociedade angolana, é sobre "o que é a verdade e o que é a mentira", como explica o autor, é sobre a memória, essa entidade mutável, e literatura, também numa homenagem a Jorge Luís Borges. Mas, mais importante que a história ou as histórias que contém, o livro está cheio desses momentos que nos fazem levantar os olhos das páginas antes de continuar. São essas as ideias que ficam retidas no leitor.
Susana Moreira Marques, Público, Mil Folhas


À pimeira vista até parece um romance policial, escrito em tom bem tropical, deliciosamente recheado de expressões recuperadas de um português lusófono. Depois, à medida que vamos lendo, percebemos que é muito mais. É uma confissão sarcástica sobre a Angola actual e os “esquemas” de vida que por lá se fazem; é um diário que pincela memórias soltas e outros tantos esquecimentos propositados. Tudo, um puzzle que se vai encaixando e amarrando o leitor.(...) O Vendedor de Passados é de uma simplicidade desconcertante, levando-nos a recordar – de memória – situações por que já passámos ( ou será que não?)
Luísa Jeremias, Leituras à sombra


Further editions
2004 - O Vendedor de Passados. - Gryphus, Rio de Janeiro, Brazil. ISBN 85-7510-092-0.

Translations
2006 - Le marchand de passés. - Métailié, Paris, France. ISBN 2-86424-567-1.

2006 - The Book of Chameleons. - Arcadia Books, London, UK. ISBN 1-905147-15-5.

OBRAS:

Romance:
1989 - A Conjura
1996 - Estação das Chuvas
1997 - Nação Crioula
2000 - Um Estranho em Goa
2002 - O Ano em que Zumbi Tomou o Rio
2004 - O Vendedor de Passados
2007 - As Mulheres do Meu Pai

Novela:
1992 - A Feira dos Assombrados

Poesia:
1991 - Coração dos Bosques - Poesia 1980-1990

Contos:
1990 - D. Nicolau Água-Rosada e outras estórias verdadeiras e inverosímeis
1999 - Fronteiras Perdidas, contos para viajar
2000 - A Substância do Amor e Outras Crónicas
2000 - Estranhões e Bizarrocos
2002 - O Homem que Parecia um Domingo
2003 - Catálogo de Sombras
2005 - A Girafa que Comia Estrelas
2005 - Manual Prático de Levitação
2006 - Passageiros em Trânsito
2006 - O Filho do Vento

POEMAS DE ARLINDO BARBEITOS


Em teus dentes
o sol
é diamante de fantasia
a lua
caco-de-garrafa
e
a mentira
verdade vagabunda
errando de cágado
em torno da lagoa dos olhos da noite
na treva aveludada
de tua pele
os dedos curiosos
são estrelas de marfim
à busca
de um dia caprichoso
despontando de miragem
por detrás das corcundas de elefantes adormecidos


**********************************************************************************************

Por entre as margens da esperança
e da morte
meteste a tua mão
e
eu vi alongados nas águas
os dedos que me agarram

em lagoa de um sonho
corpo de jacaré
é soturna jangada de palavras
secas
por entre as margens da esperança
e da morte


**********************************************************************************************


em mão frágil de amarelo
se quebra o galho de gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
sussurrar de vento
não é voz de capim crescendo
é murmúrio impaciente
de gentes
no azul de parte alguma
em mão frágil de amarelo
se quebra o galho da gajajeira
pela tardinha vermelha em flor


**********************************************************************************************

saudade
é o tempo de pacassas pardas
e macacos sem rabo servindo de administradores
quando o calor ia derretendo o céu
e a chuva se vendia na farmácia
do comerciante de cabelos de fio
saudade
é o tempo de patos bravos
e macacos sem rabo servindo de padres

quando o medo ia gelando a terra
e o pranto se dava de beber aos porcos
do comerciante de cabelos de fio


**********************************************************************************************

escuras nuúvens grossas de outros céus vindas
entrançando-se por entre asas de pâssaros canibais
e
chuva de feiticeiro
em sopro
de arco-íris dependurada

irmão
vem vem
escuras núvens grossas
temem o sol de nossos olhos todos
pâssaros canibais
a garra de nossas mãos todas
e
chuva de feiticeiro
se perde no ar de nossos copos todos
irmão
vem vem


Arlindo Barbeitos (Angola)



Breve Biografia:

Arlindo Barbeitos, seu nome completo Arlindo do Carmo Pires Barbeitos, nasceu em Catete, Angola, a 24 de Dezembro de 1940. Por motivos politicos foi obrigado a sair de Angola tendo ido viver para a Franca, Suica, Belgica, Alemanha.
Licencou-se em Sociologia e Antropologia na Universidade de Frankfurt. Doutorou-se em Etnologia e foi professor na Universidade Livre de Berlim Ocidental.
Em 1975 regressa a Angola, indo leccionar para a Universidade de Angola. Poeta e ficcionista.
Traduzido em varias linguas, e incluido em numerosas antologias.
Tem publicados: Angola Angole Angolema (Poemas, 1976, Lisboa, Sa da Costa); Nzoji (Poemas), 1979, Lisboa, Sa da Costa); O Rio. Estorias de regresso (Contos, 1985, Lisboa, INCM); Fiapos de Sonho (Poesia, 1992, Lisboa, Vega);
Na Leveza do Luar Crescente (1998, Lisboa, Editorial Caminho).

A VOZ DO SANGUE


Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue

Ó negro esfarrapado do Harlem
ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South

Ó negro de África

negros de todo o mundo

eu junto ao vosso canto
a minha pobre voz
os meus humildes ritmos.

Eu vos acompanho
pelas emaranhadas áfricas
do nosso Rumo

Eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a vossa Dor
meus irmãos.


Agostinho Neto (Primeiro Presidente da Republica de Angola)

DÁDIVA





Sou mais forte que o silêncio dos muxitos

mas sou igual ao silêncio dos muxitos

nas noites de luar e sem trovões.





Tenho o segredo dos capinzais

soltando ais

ao fogo das queimadas de setembro

tenho a carícia das folhas novas

cantando novas

que antecedem as chuvadas

tenho a sede das plantas e dos rios

quando frios

crestam o ramos das mulembas.





...e quando chega o canto das perdizes

e nas anharas revive a terra em cor

sinto em cada flor

nos seus matizes

que és tudo o que a vida me ofereceu.


Costa Andrade (Angola)

4 de setembro de 2007

A invenção do amor




Em todas as esquinas da cidade

nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros

mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes

na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém

no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga

um cartaz denuncia o nosso amor


Em letras enormes do tamanho

do medo da solidão da angústia

um cartaz denuncia que um homem e uma mulher

se encontraram num bar de hotel

numa tarde de chuva

entre zunidos de conversa

e inventaram o amor com carácter de urgência

deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana


Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração

e fome de ternura

e souberam entender-se sem palavras inúteis

Apenas o silêncio A descoberta A estranheza

de um sorriso natural e inesperado


Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna

Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente

Embora subterrâneamente unidos pela invenção conjunta

de um amor subitamente imperativo


Um homem uma mulher um cartaz de denúncia

colado em todas as esquinas da cidade

A rádio já falou A TV denúncia

iminente a captura A policia de costumes avisada

procura as dois amantes nos becos e avenidas

Onde houver uma flor rubra e essencial

é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta

fechada para o mundo

É preciso encontrá-los antes que seja tarde

Antes que o exemplo frutifique

Antes que a invenção do amor se processe em cadeia


Há pesadas sanções paras os que auxiliarem os fugitivos


Chamem as tropas aquarteladas na província

convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva

Todos

Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências

O perigo justifica-o

Um homem e uma mulher

conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade

É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los

antes que seja demasiado tarde

e a memória da infância nos jardins escondidos

acorde a tolerância no coração das pessoas


Fechem as escola

Sobretudo protejam as crianças da contaminação

Uma agência comunica que algures ao sul do rio

um menino pediu uma rosa vermelha

e chorou nervosamente porque lha recusaram

Segundo o director da sua escola é um pequeno triste

Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão

Aplicado no entanto Respeitador da disciplina

Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos

Ainda bem que se revelou a tempo

Vai ser internado

e submetido a um tratamento especial de recuperação

Mas é possível que haja outros. É absolutamente vital

que o diagnóstico se faça no período primário da doença

E também que se evite o contágio com o homem e a mulher

de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade


Está em jogo o destino da civilização que construímos

o destino das máquinas das bombas de hidrogénio

das normas de discriminação racial

o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos

a verdade incontroversa das declarações políticas


Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários

precisamos da sua experiência onde: quer que se escondam

ao temor do castigo


Que todos estejam a postos

Vigilância é a palavra de ordem

Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes

À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem

Telefonem à polícia ao comissariado ao Governo Civil

não precisam de dar o nome e a morada

e garante-se que nenhuma perseguição será movida

nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa


Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio

comissões de vigilância. Está em jogo a cidade

o país a civilização do ocidente

esse homem e essa mulher têm de ser presos

mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas


Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais

a inviolabilidade do domicílio o habeas corpus o sigilo da correspondência

Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente

espreitam a rua pelo intervalo das persianas

beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna

É preciso encontrá-los

É indispensável descobri-los

Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater

É possível que cantem

Mas defendam-se de entender a sua voz

Alguém que os escutou

deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas

E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra

respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz

Lhe lembravam a infância

Campos verdes floridos Água simples correndo A brisa nas montanhas


Foi condenado à morte é evidente

É preciso evitar um mal maior

Mas caminhou cantando para o muro da execução

foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele

um misterioso halo de uma felicidade incorrupta


Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los

nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boites com orquestra privativa

Não estarão nunca aí

Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece

A identificação é fácil

Onde estiverem estará também pousado sobre a porta

um pássaro desconhecido e admirável

ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa,

Será então aí

Engatilhem as armas invadam a casa disparem à queima roupa

Um tiro no coração de cada um

Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar Mas estará completo o esconjuro

e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher


Mais ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto

Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos para nós

É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte

o tiro indispensável

Não há outra saída A cidade o exige

Se um homem de repente interromper as pesquisas

e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão

já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja

matai-o Mesmo que tenha comido à vossa mesa e crescido a vosso lado

matai-o Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda

os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea

e deslizem depois numa tristeza liquida

até ao fim da noite Evitai o apelo a prece derradeira

um só golpe mortal misericordioso basta

para impor o silêncio secreto e inviolável


Procurem a mulher o homem que num bar

de hotel se encontraram numa tarde de chuva

Se tanto for preciso estabeleçam barricadas

senhas salvo-condutos horas de recolher

censura prévia à Imprensa tribunais de excepção

Para bem da cidade do país da cultura

é preciso encontrar o casal fugitivo

que inventou o amor com carácter de urgência


Os jornais da manhã publicam a notícia

de que os viram passar de mãos dadas sorrindo

numa rua serena debruada de acácias

Um velho sem família a testemunha diz

ter sentido de súbito uma estranha paz interior

uma voz desprendendo um cheiro a primavera

o doce bafo quente da adolescência longínqua

No inquérito oficial atónito afirmou

que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte

e caminhavam envoltos numa cortina de música

com gestos naturais alheios Crê-se

que a situação vai atingir o climax

e a polícia poderá cumprir o seu dever


Um homem uma mulher um cartaz de denúncia

A voz do locutor definitiva nítida

Manchetes cor de sangue no rosto dos jornais


É PRECISO ENCONTRÁ-LOS ANTES QUE SEJA TARDE


Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado

a vida igual a sempre conversas de negócios

esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de automóveis

Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado

ou marinheiro em terra afogar a distância

no corpo sem mistério, da prostituta anónima

Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher

amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas

constroem com urgência um universo do amor

E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los


Importa perguntar em que rua se escondem

em que lugar oculto permanecem resistem

sonham meses futuros continentes à espera

Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice

abrigo fraternal deixam correr o tempo

de sentidos cerrados ao estrépito das armas

Que mãos desconhecidas apertam as suas

no silêncio pressago da cidade inimiga


Onde quer que desfraldem o cântico sereno

rasgam densos limites entre o dia e a noite

E é preciso ir mais longe

destruir para sempre o pecado da infância

erguer muros de prisão em círculos fechados

impor a violência a tirania o ódio


Entanto das esquinas escorre em letras enormes

a denúncia total do homem da mulher

que no bar em penumbra numa tarde de chuva

inventaram o amor com carácter de urgência


COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA


Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade

o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas

encerramos o aeroporto patrulhamos os cais

há inspectores disfarçados em todas as gares de caminhos de ferro


É na cidade que é preciso procurá-los

incansavelmente sem desfalecimentos

Uma tarefa para um milhão de habitantes

todos são necessários

todos são necessários

Não sem preocupem com os gastos a Assembleia votou um crédito especial

e o ministro das Finanças

tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública


Depois das seis da tarde é proibido circular

Avisa-se a população de que as forças da ordem

atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja

depois daquela hora Esta madrugada por exemplo

uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia

um marinheiro grego que regressava ao seu navio


Quando chegaram junto dele acenou aos soldados

disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu

Tinha trinta anos e uma família à espera numa aldeia do Peloponeso

O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as desculpas

do Governo pelo engano cometido

Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer

Todos compreenderam que não era caso para um protesto diplomático

e depois o homem e a mulher que a policia procura

representam um perigo para nós e para a Grécia

para todos os países do hemisfério ocidental

Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo

que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida

sujo insignificante e porventura bêbado


SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA


Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher

Escondidos em qualquer parte da cidade

Repete-se é indispensável encontrá-los

Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante recompensa

destinada a quem prestar informações que levem à captura do casal fugitivo

Apela-se para o civismo de todos os habitantes

A questão está posta É preciso resolvê-la

para que a vida reentre na normalidade habitual

Investigamos nos arquivos Nada consta

Era um homem como qualquer outro

com um emprego de trinta e oito horas semanais

cinema aos sábados à noite

domingos sem programa

e gosto pelos livros de ficção cientifica

Os vizinhos nunca notaram nada de especial

vinha cedo para casa

não tinha televisão,

deitava-se sobre a cama logo após o jantar

e adormecia sem esforço


Não voltou ao emprego o quarto está fechado

deixou em meio as «Crónicas marcianas»

perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade

à saída do hotel numa tarde de chuva

O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer

que se trata de uma rapariga até aqui vulgar

Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota

Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo

Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência

era bem paga e tinha semana inglesa

passava as férias na Costa da Caparica.


Ninguém lhe conhecia uma aventura

Em quatro anos de emprego só faltou uma vez

quando o pai sofreu um colapso cardíaco

Não pedia empréstimos na Caixa Usava saia e blusa

e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu


Esperam por ela em casa: duas cartas de amigas

o último número de uma revista de modas

a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos

Ficou provado que não se conheciam

Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de chuva

sorriram inventaram o amor com carácter de urgência

mergulharam cantando no coração da cidade


Importa descobri-los onde quer que se escondam

antes que seja demasiado tarde

e o amor como um rio inunde as alamedas

praças becos calçadas quebrando nas esquinas


Já não podem escapar Foi tudo calculado

com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco

A policia e o exército estão a postos Prevê-se

para breve a captura do casal fugitivo

(Mas um grito de esperança inconsequente vem

do fundo da noite envolver a cidade

au bout du chagrin une fenêtre ouverte

une fenêtre eclairée)



DANIEL FILIPE (Cabo Verde)

18 de agosto de 2007

EXTRACTO DE LUUANDA


 (...)
O fio da vida que mostra o quê, o como das conversas, mesmo que está podre não parte. Puxando-lhe, emendando-lhe, sempre a gente encontra um príncipio num sítio qualquer, mesmo que esse princípio é o fim doutro princípio. Os pensamentos, na cabeça das pessoas, têm ainda de começar em qualquer parte, qualquer dia, qualquer caso. Só o que precisa é procurar saber.
O papagaio Jacó, velho e doente, foi roubado num mulato coxo, Garrido Fernandes, medroso de mulheres por causa a sua perna aleijada, alcunhado de Kam'tuta. Mas onde começa a estória? Naquilo ele mesmo falou na esquadra quando deu entrada e fez as pazes com Lomelino dos Reis que lhe pôs queixa? Nas partes do auxiliar Zuzé, contando só o que adianta ler na nota de entrega do preso? Em Jacó?
É assim como um cajueiro, um pau velho e bom, quando dá sombra e cajus inchados de sumo e os troncos grossos, tortos, recurvados, misturam-se, crescem uns para cima dos outros, nascem-lhes filhotes mais novos, estes fabricam uma teia de aranha em cima dos mais grossos e aí é que as folhas, largas e verdes, ficam depois colocadas, parece são moscas mexendo-se, presas, o vento é que faz. E os frutos vermelhos e amarelos são bocados de sol pendurados. As pesoas passam lá, não lhe ligam, vêem-lhe ali anos e anos, bebem o fresco da sombra, comem o maduro das frutas, os monandengues roubam as folhas a nascer para ferrar suas linhas de pescar e ninguém pensa: como começou este pau?
Olhem-se bem, tirem as folhas todas: o pau vive. Quem sabe diz o sol dá-lhe comida por ali, mas o pau vive sem folhas. Subam nele, partam-lhe os paus novos, aqueles em vê, bons para paus-de-fisga,cortem-lhe mesmo todos: a árvore vive sempre com os outros grossos filhos dos troncos mais-velhos agarrados ao pai gordo e espetado na terra. (...)

Luandino Vieira, in Luuanda

19 de julho de 2007

PARI ESTA DOR


Pari esta dor este tormento

Dor do mundo, lamento de mim.

E foi durante a gravidez

Que eu senti,

O sonho de um incenso

Um amor grande, imenso

Um pedaco de ti!

De ti sim Angola chaga das chagas

Para a qual nao chegam só palavras

Para as feridas tratar

De ti sim terra bonita

Sentimento que grita

Na minha alma ao exalar.

Ao exalar o teu nome

Que num vazio odre

Choras a fome dos teus filhos

E deixas escapar pardos olhos

de cegos brilhos,

provocados pela fartura da fome.

Em suas ossadas imensas,

Casta dor condensas,

Numa novena vã de proteger tuas crias.

Pari, pari no cheiro da tua terra quente

Este sonho de ajuda ausente.

E é numa oracão que peço

Deixem-nas descansar.

Pobres almas condenadas,

Grandes conquistadores de martírios.

Deixai-as descansar

Num vale de lirios a tão procurada

Paz e liberdade deixai-as abraçar!!!



Dinah Raphaellus

10 de julho de 2007

O homem que vinha ao entardecer

Homens Muilas (Angola)



(Ouvindo “Sonho de Um Camponês”, por Teta Lando)


Falava com devagar, ajeitando as
palavras. Falava com cuidado,
houvesse lume entre as palavras.

Chegava ao entardecer, os sapatos
cheios de terra vermelha e do perfume
dos matos.

Cumpria rigorosamente os rituais.

Batia primeiro as palmas (junto
ao peito)
Depois falava.
Dos bois, das lavras, das coisas
simples do seu dia-a-dia. E todavia
era tal o mistério das tardes quando
assim falava
que doía.




Jose Eduardo Agualusa (Angola)

PALAVRAS DO CHEFE SEATTLE



"Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra - fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.
De uma coisa sabemos. A terra não pertence, ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará."


***


"Will you teach your children what we have taught our children? That the earth is our mother? What befalls the earth befalls all the sons of the earth.
This we know: the earth does not belong to man, man belongs to the earth. All things are connected like the blood that unites us all. Man did not weave the web of life, he is merely a strand in it. Whatever he does to the web, he does to himself."



Chefe Seattle (Indio da America do Norte)

Chief Seattle (North American Indian)

9 de julho de 2007

BLOGS DESTAQUE CUPIDO FONTE DE AMOR

O blog Labirinto do Sol e da Lua fez o favor de nomear Cores&Palavras para Blogs Destaque Cupido Fonte de Amor, que muito agradeço.

Passo a nomear os seguintes:

http://poesialilazcarmim.blogspot.com/

http://mulembeira.blogspot.com/

http://10poemas.blogspot.com/

http://brisapoetica.blogspot.com/

http://malambas.blogspot.com/

Monangamba


Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações:

Naquela roca grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado.

Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:


Quem se levanta cedo? quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinqüenta angolares
"porrada se refilares"?

Quem?

Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
- Quem?

Quem dá dinheiro para o patrão comprar
maquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande - ter dinheiro?
- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
- "Monangambééé..."

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras

- "Monangambééé..."


Antonio Jacinto 1924 - 1991 (Angola)

Deformação



Ruínas de corpos esterilizados
Marcados por grades de desespero
Vigas sangrentas migram
Através da muralha de pedra


A trilha se desintegra
Se bifurca, se trifurca
Desabam-se as sombras cavernosas
Em gélidas formas mutiladas


Gritos de espadas despedaçadas
Flechas despencam num abismo de dor
Armadilhas travam as lágrimas
Dos peregrinos padecidos nos enigmas de sal


Pequenos corrompem gigantes
A lábia cruel destroça a taverna dos risos
A névoa dissipa a ilusão
A Torre Branca jaz imune sob um céu esfumaçado


Negritude de almas em decomposição
Narinas escaldantes carregam tesouros
Asas da morte lambuzam seu veneno
Nas cordas putrefatas do destino


Autora: Bruxinhachellot (Brasil)

htpp://labirintodosoledalua.blogspot.com

MINHA ESTRELA DA TARDE


Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!



José Carlos Ary dos Santos (Portugal)

I, Too, Sing America


I am the darker brother.
They send me to eat in the kitchen
When company comes,
But I laugh,
And eat well,
And grow strong.

Tomorrow,
I'll be at the table
When company comes.
Nobody'll dare
Say to me,
"Eat in the kitchen,"
Then.

Besides,
They'll see how beautiful I am
And be ashamed--

I, too, am America.


Langston Hughes -1902 - 1967- USA

SOEIRO PEREIRA GOMES



Joaquim Soeiro Pereira Gomes nasceu em Gestaçô, Porto, em 1910. Frequentou a Escola Agrícola de Coimbra, onde tirou o curso de regente agrícola, e mais tarde emigrou para Angola, onde exerceu a sua profissão durante cerca de um ano, na Companhia do Catumbela. Voltou para Portugal e fixou-se em Alhandra, em 1932, onde trabalhou como empregado de escritório na Fábrica de Cimentos Tejo. Aqui desenvolveu uma intensa actividade de dinamização cultural junto do operariado.Mas foi como escritor que Soeiro Pereira Gomes se notabilizou, sendo um dos mais coerentes e claros exemplos da ficção neo-realista em Portugal."É nas páginas de O Diabo, semanário fundamental no processo de elaboração de uma poética e de uma consciência geracional neo-realistas, que publica, a partir de 1939, os seus primeiros textos." (Osvaldo Silvestre)Da sua obra constam dois romances, onde a crítica social é profunda, e vários contos, que são uma exaltação do comunismo e dos seus militantes.Militante comunista, Soeiro Pereira Gomes foi membro do Comité Central do PCP, o que o levou a entrar na clandestinidade em 1943, condição em que viria a morrer seis anos depois, vítima de tuberculose, impossibilitado de receber o tratamento médico de que necessitava.A sua obra maior é Esteiros, publicado em 1941, com ilustração de Álvaro Cunhal. "Dedicado aos "filhos dos homens que nunca foram meninos" o romance acompanha (...) as deambulações de um grupo de míudos (...), cuja condição social lhes impõe, em vez da escola, o trabalho numa rudimentar fábrica de tijolos à beira-Tejo. É certo que algum primarismo de processos construtivos, bem como algum esquematismo, são reconhecíveis no romance (...). Tudo isso, porém, Esteiros transcende pela terrível verdade humana de um grupo de crianças que responde à violência do sistema social através de uma solidariedade alimentada por uma permanente derrogação à moral social dominante (...)"(idem)Engrenagem "é igualmente uma obra central do nosso neo-realismo, antes de mais por ser uma das muito poucas abordagens do universo do capitalismo industrial, de facto quase ausente da produção neo-realista" portuguesa.(idem)Engrenagem, romance publicado em 1951, já depois da sua morte, foi escrito na clandestinidade, assim como os Contos Vermelhos, Última Carta e Refúgio Perdido, também publicados postumamente.



(Retirado de Enciclopédia Universal Multimédia On-Line)

6 de julho de 2007

ENTREVISTA A SOUSA JAMBA



Entrevista de Jorge Eurico (http://www.noticiaslusofonas.com/) ao escritor angolano Jose de Sousa Jamba.

"Governo angolano é parte
da cleptocracia africana"
- 10-May-2006 - 14:29

"O jornalista e escritor Sousa Jamba (intelectual sério que assume e escreve o que lhe vem à cabeça) confessa não ter jeito para graxa e, como quem quer dar à UNITA o que é do Galo Negro e aos militantes o que é dos maninhos, diz sem rodeios nem eufemismos que hoje o seu partido já não é dirigido de forma autocrática nem há mais espaços para iniciativas teatrais como no passado. Distante mas sempre próximo do País, o autor do “Patriotas”, que não é membro da União dos Escritores Angolanos por acreditar que os grandes escritores não são produtos de uniões, acusa, por sua conta e risco, os governantes angolanos de fazerem parte da classe cleptocrática do continente africano e confessa não entender como é que Eduardo dos Santos relaciona a sua vida de tantos privilégios às suas origens humildes de um bairro pobre de Luanda, o Sambizanga."




http://www.noticiaslusofonas.com/view.php?load=arcview&article=14344&catogory=news

SOUSA JAMBA - ESCRITOR ANGOLANO



Escritor e jornalista angolano, Jose de Sousa Jamba nasceu a 9 de Janeiro de 1966, em Missão Dondi (Angola).

Entre 1976 e 1984, em consequência da guerra, emigrou para a Zâmbia, onde fez os estudos em língua inglesa e com a qual começou a sua produção literária. Em seguida, regressou a Angola, trabalhando como jornalista nas zonas controladas pela União Nacional da Independência Total de Angola (UNITA).

Em 1986, adquiriu uma bolsa para estudar na Grã-Bretanha, onde fez estudos superiores e de jornalismo. Como jornalista, foi repórter da UNITA, e tem desenvolvido actividades nos Estados Unidos, Brasil, Portugal e Grã-Bretanha, colaborando regularmente com jornais como The Spectator, O Independente, Terra Angolana.

Escritor-residente em diversas universidades da Escócia, Sousa Jamba publicou as suas primeiras obras em inglês: Patriots (1990, Patriotas, tradução portuguesa, 1991), On the Banks of the Zambezi (1993), A Lonely Devil (1994, Confissão Tropical, tradução portuguesa, 1995).


************************************************************************************* ENGLISH

Angolan writer and journalist, Sousa Jamba was born on January 9th 1966, in Missão Dondi (Angola).

Between 1976 and 1984, as a consequence of the war, he emigrated to Zambia, where he studied English and began his literary production. After that, he went back to Angola, working as journalist in the areas controlled by the União Nacional da Independência Total de Angola (UNITA).

In 1986, he was granted a scholarship to study in Great Britain, where he studied journalism. As a journalist, he was reporter for UNITA and has been developing activities in the United States, Brazil, Portugal and Great Britain, working on a regular basis with newspapers such as The Spectator, O Independente, Terra Angolana.

Resident-writer in various universities in Scotland, Sousa Jamba published his first works in English: Patriots (1990), On the Banks of the Zambezi (1993), A Lonely Devil (1994).

EM TEUS DENTES...


Em teus dentes
o sol
é diamante de fantasia
a lua
caco-de-garrafa
e
a mentira
verdade vagabunda
errando de cágado
em torno da lagoa dos olhos da noite
na treva aveludada
de tua pele
os dedos curiosos
são estrelas de marfim
à busca
de um dia caprichoso
despontando de miragem
por detrás das corcundas de elefantes adormecidos


Arlindo Barbeitos (Angola)

LÍNGUA PORTUGUESA



Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...


Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


Olavo Bilac - Brasil

4 POEMS OF FERNANDO PESSOA (ENGLISH)


The most celebrated Portuguese poet, who had a major role in the development of modernism in his country. Pessoa was a member of the Modernist group Orpheu; he was its greatest representative. Pessoa's use of "heteronyms", literary alter egos, who support and criticize each other's works was also unconventional. During his career as a writer Pessoa was virtually unknown and he published little of his vast body of work. Most of his life Pessoa lived in a furnished room in Lisbon, where he died in obscurity.



PORTUGUESE SEA (MAR PORTUGUES)

O sea of salt, how much of all your salt
Contains the tears of Portugal?
So we might sail, how many mothers wept,
How many sons have prayed in vain!
How many girls betrothed reamined unwed
That we might posses you, Sea!

Was it worth the effort? Anything 's worth it
if the soul's not petty.
If you'd sail beyond the cape
Sail you must past cares, past grief.
God gave perils to the sea and sheer depth,
But mirrored heaven there.




THE PRINCE (O INFANTE)


God will, Man dreams, the work is born.
God willed that all the earth be one,
That seas unite and never separate.
You he blessed, and you went forth to read the foam.

And the white shore lit up, isle to continent,
And flowed, even to the world's end,
and suddenly the earth was seen complete,
Upsurging, round, from blue profundity.
Who blessed you made you portuguese.
Us he gave a sign: the sea's and our part in you.
The Sea fulfilled, the Empire fell apart.
But ah, Portugal must yet fulfill itself!





AUTOPSYCHOGRAPHY (AUTOPSICOGRAFIA)


The poet is a faker. He
Fakes it so completely,
He even fakes he's suffering
The pain he's really feeling.

And they who read his writing
Fully feel while reading
Not that pain of his that's double,
But theirs, completely fictional.

So on its tracks goes round and round,
To entertain the reason,
That wound-up little train
We call the heart of man.




LIBERTY (LIBERDADE)

Ah, how delightful
Not to do one's duty,
Having a book to read
And not read it!
Reading's a bore,
Studying's worthless.
The sun gilds things
Without literature.

Willy nilly runs the rivers
Without an original edition.
And the breeze, this very one,
So natural, matutinal,
Since it has time, its in no hurry...

Books are papers daubed with ink.
Study's the thing where the distinction
Is unclear between nothing and nothing at all.

When there's fog, so much the better
To wait for King Sebastian's return -
Wheter he comes or not!

Poetry is grand, and goodness too, and dancing...
But best of all are children,
Flowers, music, moonlight, and the sun
That sins only when aborting and not bearing.

And more than all of this
Is Jesus Christ
Who knew nothing of finances
Nor even claimed he had a library...







By Fernando Pessoa - Portugal - (1888 - 1935)

4 de julho de 2007

As mãos



Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.


Manuel Alegre, O Canto e as Armas, 1967 - Portugal

27 de junho de 2007

GEORGE KEYT








Descobri hoje no site de um meu amigo um novo pintor natural do Sri Lanka, antigo Ceilao. Gostei tanto que resolvi partilhar convosco.




I discovered today in a friend's site a new painter born in Sri Lanka. I liked so much that I decided to share with all my friends.




GEORGE KEYT (1901 – 1993)




Born a year after the turn of the last century, George Keyt, Sri Lanka's most distinguished and renowned modern painter, had a life long passion for drawing , the study of art and literature. His extensive involvement in the intellectual teachings of Buddhism exercised a powerful and lasting influence that provided both literary and artistic stimuli for Keyt’s works. As a young painter, he also explored Hindu mythology and Indian literature, which drew him to the cultural life of India where he lived for periods from 1939 up to the late 1970s. Hindu myth and legend imagery were incorporated into his works, in addition to the influences of Sri Lankan Buddhism. A meeting in Sri Lanka with Rabindranath Tagore in the 1930s had a lasting impact, as Tagore’s artistic and literary sensibilities very much mirrored Keyt’s own. In addition to being a painter, Keyt is considered one of contemporary Sri Lanka’s foremost poets. He proclaimed his perceptions and practice as a painter in a few notable essays on the vision of the painter. One of his most notable literary works was the translation of the Gita Govinda into English and Sinhala, which translations were illustrated by his own elegant line drawings (see Martin Russell collection and Amerasinghe collections).George Keyt’s works have been exhibited throughout the world, including in India, London and other European and American centres. His works are actively auctioned through international houses such as Sotheby’s, Christie’s and Bonham’s and are to be found in various international public and private collections, including the V&A Museum, London.




Note: The 6 pictures credits to / As 6 fotos creditos a: P. Suresh de Silva (priyanjen.multiply.com)

22 de junho de 2007

PROCURA


Plantei nas margens

dos meus olhos

desejos de te ver.

Velejei na tua alma

com o intuito

de me encontrar,

encontro-te a ti.

Quanto a mim

continuo- me

a procurar.

by: dinah raphaellus (Portugal)

19 de junho de 2007

ONDINA DO MAR


Nasci da aurora madrugada
e do lusco-fusco do sol poente.
Saciei minha sede
no orvalho nebulado duma estrela,
Dormi na clareira do sonho dolente.
E vogando sigo esse rio prateado,
Onde me banho com a luz da lua.
Nas flores exóticas,
apanho essa verdade crua,
De ser ondina do mar,
No rio beijando uma falúa.



By Dinah Raphaellus (Portugal)

KIANDA


Minha senhora sereia
Dona das águas
Jovem rainha zangada
Com pescador
Na dor.

Come do pão dos meus filhos
Bebe do meu vinho
E deixa-te enfeitar
Com a minha rede sem peixe.

Meu rendilhado
Está consertado
A chama do mar
É teu abraço
Minha rede dorme na areia
A chama apagada da casa
É minha fome.






Filipe Zau (Angola)




10 de junho de 2007

Fundador da Literatura Angolana - 1849 -


JOSÉ DA SILVA MAIA FERREIRA (Benguela, Angola, séc.XIX - Angola, séc.XX). Tendo estudado na cidade de Lisboa, possívelmente obteve instrução superior à primária. Amanuense da Secretaria do Governo Geral de Angola, tesoureiro da alfândega de Benguela, oficial da Secretaria do Governo de Benguela. Candidato às eleições para senadores e deputados, realizadas em 1839. Colaboração no Almanach de Lembranças, Lisboa, 1879.
Publicou, pelo menos: Espontaneidades da minha alma / As senhoras africanas, Luanda, 1849.


BENGUELINHA !

Passarinho primoroso
E gentil, plumeo cantor,
Que d'aromas tão fragrantes
Não esparzes com candor,
Quando trinas mavioso
Nesse insolito rigor
De um sol forte e constante
Suaves cantos d'amor?!

Ás vezes contemplo
Do dia no albor,
Sentir o rigor
De escravo viver;

Suspiras e gemes
Em cantos d'amor,
Ah! sê meu primor
Não queiras morrer!

Anhélas no mato
Andar pelas fragas,
Viver só de bagas,
Nos ramos dormir?

Esvoaça saltando
Na tua prisão
Ai! Tem compaixão
Não vive a carpir!

Infiltra bondoso
No meu coração
O doce condão -
Do meigo trinar;

Que juro contigo
Do muito viver
Comtigo morrer,
Comtigo findar!

E as azas abrindo
O plumeo cantor,
As juras d'amor,
Ouvio a sorrir -

Em magos acentos
Endeixas trinou,
Que d'alma exalou,
Que d'alma sentiu! -



À MINHA TERRA !

(No momento de avista-la depois de uma viagem.)

Jose da Silva Maia Ferreira (Angola)

9 de junho de 2007

BALADA DA NEVE




Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.


É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...


Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.


Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!


Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...


Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...


E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...


Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...


E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.



Augusto Gil (1873-1929) Portugal

1 de junho de 2007

DIA MUNDIAL DA CRIANCA


Ah quem me dera,
Que todas as palavras
Dos meus poemas, fossem
Searas de trigo, arrozais,
campos de milho.
Ah quem me dera
Que todas as letras
Fossem leite, pão
Com os quais eu a fome
Vos pudesse matar
Ah quem me dera
Que a voz dos meus versos
Num grito da míseria
vos pudesse libertar.
Ah crianças de todo mundo
Que hipócrita tamanha eu sou
Nos versos d’um poema
Me defendo e pretendo
ter cumprido minha boa acção
não engano ninguém todos sabemos
de que voces precisam
e de leite e de pão
para apaziguar vossos ventres
cheios de fome, vossas almas
doridas p’la míseria engordada.
deveria haver uma lei
em que proibissem a fome, a guerra
e neste dia da criança,
aqui faço um apelo,
formar uma caridade,
para ajudar os pequenos
que não nos pedem brinquedos
mas sim algo que comer.
não nos pedem tenis da nike
ou jogos de computador,
apenas e tão somente,
qualquer coisa para esvaziar a fome
e acabar com tanta dor!!!!!

by Dinah Raphaellus (Portugal)

BENGUELA



Caotinha - Benguela
obrigado por me teres dado a "Mena", a Irmã que
nunca tive



Numa das longas conversas,
Que tive com minha Avó
Perguntei-lhe se conhecia Benguela.
A minha Avó respondeu-me:
Conhecer eu não conheço,
Mas já ouvi falar dela.
Perguntei-lhe, se conseguia,
Num mapa localizar.
Ou por seus olhos cansados
Ou porque o mapa era velho.
Precorreu-o de alto a baixo
Não conseguiu encontrar.
Para eu não ficar triste,
Pediu-me lápis de cor,
E em seu estilo Naiff,
Sobre uma folha branca,
Com o castanho fez vários riscos,
Com o vemelho fez bolinhas
Chamou-lhe Acácias em flor.
Dum lado e de outro de um morro,
Desenhou duas baías.
Que mais pareciam contorno,
De dois seios de mulata.
Com o azul pintou o mar,
Com o amarelo fez um sol,
A uma chamou-lhe Azul.
A outra chamou-lhe Farta.
Três praias mais desenhou,
A uma chamou Caota...
E Caotinha à mais pequena.
Mais ao lado, para mim,
A mais bonita...
Chamou-lhe praia Morena
Com o mesmo azul da praia,
Fez um rio.
A preto pintou um barco...
Com o amarelo bananas,
De resto tudo era verde...
Chamou-lhe rio Cavaco.


Segurou naquele desenho,
Como não sabia ao certo,
Em que lugar no mapa,
Deveria colocar!
Disse-me escuta meu neto.
Quando para o sul viajares
E chegares a uma cidade
Com praias maravilhosas,
Com acácias floridas,
E muitas mulheres bonitas,
Nas ruas ou à janela.
Pára...
Porque ou já é, ou estás perto
Dessa Cidade tão linda,
A que chamam de Benguela.



Olimpio C. Neves (Angola)

31 de maio de 2007

XICUEMBO


Eu bebeu suruma
dos teus ólho Ana Maria
eu bebeu suruma
e ficou mesmo maluco

agora eu quero dormir quer comer
mas não pode mais dormir
não pode mais comer

suruma dos teus olhos Ana Maria
matou sossego no meu coração
oh matou sossego no meu coração

eu bebeu suruma oh suruma suruma
dos teus ólho Ana Maria
com meu todo vontade
com meu todo coração

e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber

que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo gente
é mulher de todo gente
todo gente todo gente

menos meu minhamor.


Rui Nogar (Mocambique)

Canção para Luanda



A pergunta no ar
no mar
na boca de todos nós:
- Luanda onde está?

Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos

- Xé
mana Rosa peixeira
responde?

-Mano
Não pode responder
tem de vender
correr a cidade
se quer comer!

"Olá almoço, olá almoçoeee
matona calapau
ji ferrera ji ferrereee"

- E você
mana Maria quintandeira
vendendo maboques
os seios-maboque
gritando, saltando
os pés percorrendo
caminhos vermelhos
de todos os dias?
"maboque, m'boquinha boa
doce docinha"

- Mano
não pode responder
o tempo é pequeno
para vender!

Zefa mulata
o corpo vendido
baton nos lábios
os brincos de lata
sorri
abrindo o seu corpo
- seu corpo cubata!
Seu corpo vendido
viajado
de noite e de dia.
- Luanda onde está?

Mana Zefa mulata
o corpo cubata
os brincos de lata
vai-se deitar
com quem lhe pagar
- precisa comer!

- Mano dos jornais
Luanda onde está?
As casa antigas
o barro vermelho
as nossas cantigas
tractor derrubou?

Meninos das ruas
cacambulas
quigosas
brincadeiras minhas e tuas
asfalto matou?

- Manos
Rosa peixeira
quitandeira Maria
você também
Zefa mulata
dos brincos de lata
- Luanda onde está?

Sorrindo
as quindas no chão
laranjas e peixe
maboque docinho
a esperança nos olhos
a certeza nas mãos
mana Rosa peixeira
quitandeira Maria
Zefa mulata
- os panos pintados
garridos, caidos
mostraram o coração:
- Luanda está aqui!


Luandino Vieira (Angola)

NÚPCIAS



Penetro
esse colchão de cristal
e
um lençol de mar
me envolve
tecendo o meu vestido raro,
espuma e sal.

Interrompo estas núpcias com o coral,
vem-me o mavioso murmurar
das palmeiras pela brisa,
será que não aprovam?






Ana de Santana (Angola)

LÁ NO HORIZONTE




Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas

Poesia africana

Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha dos olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa

No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marimbas

Poesia africana

E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone

Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.


Agostinho Neto (Angola)

SOB AS ACÁCIAS FLORIDAS


1

Com Novembro a chiar nestas cigarras
as acácias sangrando suas flores
e um sol afirmativo num céu alto

Espero a tua carta e a minha vida

Uma pausa do tempo em minhas mãos
preenchida
pela contagem das horas
nas cigarras e pétalas caídas.

2

A rua corre larga e sossegada
É a hora de tu vires!
Tu vens (eu sei) na moldura vesperal
com esta luz do passado nas paredes
e este céu de altocúmulos de Dezembro.

Com os estames d'acácia
jogo a vida nas sortes infantis
«Antera cai? Não cai? Ela virá? Não vem?»
E a cada sorte recuso a evidência
«Ela virá? Não vem?»
É a hora de chegares!

3

Os aros dos meus óculos te emolduram
ó Vénus de cabelos desfrizados!
Enquanto as minhas mãos, cegas, procuram
o cofre dos teus seis apertados.

Construímos assim a primavera
- a negada primavera dos amores:
Pega uma flor d'acácia para a pores
no meu cabelo indómito de fera.

Repara e vê a doce realidade:
os nossos jogos simples e ingénuos!
Esta soalheira vespertina hoje é-nos
bela imagem da nossa felicidade.

4

Cigarreio sem sol neste Dezembro.
E um céu da cor da angústia que me dá
a tua ausência em carne e em pensamento.

Magoa-me o teu rosto que não lembro
e o tau vestido branco táfetá
que voava batido pelo vento.

Se esta vida tão clara e simples fosse
como a imagem fixada desse instante
nenhum mal me faria esta chuva precoce.

Chuva, mãe dos poetas, minha amante,
lava às acácias o sanguíneo canto,
cala a voz das cigarras e o meu pranto!


Mario Antonio (Angola)

29 de maio de 2007

TÁBUA DE ADRIANO B. VASCONCELOS




Sobre a obra, Ana de Sá, Especialista em Línguas Africanas, teceu as seguintes considerações: «A palavra faz e desfaz, constrói o abandono, desfrutando, pelo seu som, o silêncio; a voz cede o seu lugar cativo aos outros sentidos físicos que se compõem em poesia. A recorrente metáfora poética do tecto surge, neste sentido, como expressão do desejo de toque do inatingível, do alto, do máximo organizador ao qual se acede precisamente pela vogal, pelo verbo com poder de nomear e de apropriar na subjectividade o visível, o perceptível e o imaginável. O espelho é filtrado pela visão na sedução da imagem com a obsessão pela palavra. As mãos, os dedos, a boca que sentem o barro, o ouro e a terra, o húmus fértil, tal como a dança que envolve toda a percepção sensorial, comunicam com as artes, as da palavra e as do corpo». Inocência Mata, Professora Doutora em Línguas Africanas, diz que «Este livro o poeta desfiando, pacientemente qual cágado, aquele que «passou pela fogueira/como quem inicia o passeio» do primeiro ao último poema, os lugares esconsos do «relato de nação», feito de dores, de heróis em discursos vazios, de fístulas (as feridas, mas também os canais), desde a Baixa de Kassanje, lugar simbólico de gestação nacionalista e palco dos nefandos acontecimentos que tornaram mais visíveis a sanha colonialista, e do rio Kwanza, «que levou para o mar os corpos dos homens que foram/violados», até chegar à Kanjala à luz, que traz uma nova possibilidade de recomeço: Kanjala com o seu tempo perfeito depois De muitas fogueiras. Um milheiral levanta a terra numa mesa Acesa que ocupa o horizonte. Este livro de Botelho de Vasconcelos desinstala verdades inquestionáveis, desoculta presunções consensualistas, perturbando as consciências mais transparecentes. Fá-lo rasteando o mapa da sua afectividade (familiar, social, política e ideológica) e convidando a que a Pátria revele os lugares dos seus silêncios. No mais, este livro traz à cena literária angolana uma pedra: uma nova forma de procedimento poético, baralhando os esquemas estanques das categorias literárias, causando estranhamento. Que é, como se sabe desde o Formalismo russo, uma das funções construtivas do literário». E em último excerto analitico, Cármen Lúcia Tindó Secco, Professora Doutora da UFRJ Brasil, escreveu o seguinte comentário: «A dança também ilumina e movimenta o eu do poema que se quer lúcido, crítico da vida, do espectáculo da modernidade, da teia trágica de inúmeras guerras e desenlaces. É evidente a amarga lucidez do poeta nos seguintes versos: «Eu tenho a minha desilusão diante da cidade, cuja verdade é um painel de publicidade». (Tábua pág. 64) Memória e esquecimento dialogam por entre os fios da poesia de Adriano Botelho de Vasconcelos. O que lembra e para quê? O que omite e por quê?».




www.uea-angola.org