19 de julho de 2007

PARI ESTA DOR


Pari esta dor este tormento

Dor do mundo, lamento de mim.

E foi durante a gravidez

Que eu senti,

O sonho de um incenso

Um amor grande, imenso

Um pedaco de ti!

De ti sim Angola chaga das chagas

Para a qual nao chegam só palavras

Para as feridas tratar

De ti sim terra bonita

Sentimento que grita

Na minha alma ao exalar.

Ao exalar o teu nome

Que num vazio odre

Choras a fome dos teus filhos

E deixas escapar pardos olhos

de cegos brilhos,

provocados pela fartura da fome.

Em suas ossadas imensas,

Casta dor condensas,

Numa novena vã de proteger tuas crias.

Pari, pari no cheiro da tua terra quente

Este sonho de ajuda ausente.

E é numa oracão que peço

Deixem-nas descansar.

Pobres almas condenadas,

Grandes conquistadores de martírios.

Deixai-as descansar

Num vale de lirios a tão procurada

Paz e liberdade deixai-as abraçar!!!



Dinah Raphaellus

10 de julho de 2007

O homem que vinha ao entardecer

Homens Muilas (Angola)



(Ouvindo “Sonho de Um Camponês”, por Teta Lando)


Falava com devagar, ajeitando as
palavras. Falava com cuidado,
houvesse lume entre as palavras.

Chegava ao entardecer, os sapatos
cheios de terra vermelha e do perfume
dos matos.

Cumpria rigorosamente os rituais.

Batia primeiro as palmas (junto
ao peito)
Depois falava.
Dos bois, das lavras, das coisas
simples do seu dia-a-dia. E todavia
era tal o mistério das tardes quando
assim falava
que doía.




Jose Eduardo Agualusa (Angola)

PALAVRAS DO CHEFE SEATTLE



"Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra - fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.
De uma coisa sabemos. A terra não pertence, ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará."


***


"Will you teach your children what we have taught our children? That the earth is our mother? What befalls the earth befalls all the sons of the earth.
This we know: the earth does not belong to man, man belongs to the earth. All things are connected like the blood that unites us all. Man did not weave the web of life, he is merely a strand in it. Whatever he does to the web, he does to himself."



Chefe Seattle (Indio da America do Norte)

Chief Seattle (North American Indian)

9 de julho de 2007

BLOGS DESTAQUE CUPIDO FONTE DE AMOR

O blog Labirinto do Sol e da Lua fez o favor de nomear Cores&Palavras para Blogs Destaque Cupido Fonte de Amor, que muito agradeço.

Passo a nomear os seguintes:

http://poesialilazcarmim.blogspot.com/

http://mulembeira.blogspot.com/

http://10poemas.blogspot.com/

http://brisapoetica.blogspot.com/

http://malambas.blogspot.com/

Monangamba


Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações:

Naquela roca grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado.

Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:


Quem se levanta cedo? quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinqüenta angolares
"porrada se refilares"?

Quem?

Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
- Quem?

Quem dá dinheiro para o patrão comprar
maquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande - ter dinheiro?
- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
- "Monangambééé..."

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras

- "Monangambééé..."


Antonio Jacinto 1924 - 1991 (Angola)

Deformação



Ruínas de corpos esterilizados
Marcados por grades de desespero
Vigas sangrentas migram
Através da muralha de pedra


A trilha se desintegra
Se bifurca, se trifurca
Desabam-se as sombras cavernosas
Em gélidas formas mutiladas


Gritos de espadas despedaçadas
Flechas despencam num abismo de dor
Armadilhas travam as lágrimas
Dos peregrinos padecidos nos enigmas de sal


Pequenos corrompem gigantes
A lábia cruel destroça a taverna dos risos
A névoa dissipa a ilusão
A Torre Branca jaz imune sob um céu esfumaçado


Negritude de almas em decomposição
Narinas escaldantes carregam tesouros
Asas da morte lambuzam seu veneno
Nas cordas putrefatas do destino


Autora: Bruxinhachellot (Brasil)

htpp://labirintodosoledalua.blogspot.com

MINHA ESTRELA DA TARDE


Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!



José Carlos Ary dos Santos (Portugal)

I, Too, Sing America


I am the darker brother.
They send me to eat in the kitchen
When company comes,
But I laugh,
And eat well,
And grow strong.

Tomorrow,
I'll be at the table
When company comes.
Nobody'll dare
Say to me,
"Eat in the kitchen,"
Then.

Besides,
They'll see how beautiful I am
And be ashamed--

I, too, am America.


Langston Hughes -1902 - 1967- USA

SOEIRO PEREIRA GOMES



Joaquim Soeiro Pereira Gomes nasceu em Gestaçô, Porto, em 1910. Frequentou a Escola Agrícola de Coimbra, onde tirou o curso de regente agrícola, e mais tarde emigrou para Angola, onde exerceu a sua profissão durante cerca de um ano, na Companhia do Catumbela. Voltou para Portugal e fixou-se em Alhandra, em 1932, onde trabalhou como empregado de escritório na Fábrica de Cimentos Tejo. Aqui desenvolveu uma intensa actividade de dinamização cultural junto do operariado.Mas foi como escritor que Soeiro Pereira Gomes se notabilizou, sendo um dos mais coerentes e claros exemplos da ficção neo-realista em Portugal."É nas páginas de O Diabo, semanário fundamental no processo de elaboração de uma poética e de uma consciência geracional neo-realistas, que publica, a partir de 1939, os seus primeiros textos." (Osvaldo Silvestre)Da sua obra constam dois romances, onde a crítica social é profunda, e vários contos, que são uma exaltação do comunismo e dos seus militantes.Militante comunista, Soeiro Pereira Gomes foi membro do Comité Central do PCP, o que o levou a entrar na clandestinidade em 1943, condição em que viria a morrer seis anos depois, vítima de tuberculose, impossibilitado de receber o tratamento médico de que necessitava.A sua obra maior é Esteiros, publicado em 1941, com ilustração de Álvaro Cunhal. "Dedicado aos "filhos dos homens que nunca foram meninos" o romance acompanha (...) as deambulações de um grupo de míudos (...), cuja condição social lhes impõe, em vez da escola, o trabalho numa rudimentar fábrica de tijolos à beira-Tejo. É certo que algum primarismo de processos construtivos, bem como algum esquematismo, são reconhecíveis no romance (...). Tudo isso, porém, Esteiros transcende pela terrível verdade humana de um grupo de crianças que responde à violência do sistema social através de uma solidariedade alimentada por uma permanente derrogação à moral social dominante (...)"(idem)Engrenagem "é igualmente uma obra central do nosso neo-realismo, antes de mais por ser uma das muito poucas abordagens do universo do capitalismo industrial, de facto quase ausente da produção neo-realista" portuguesa.(idem)Engrenagem, romance publicado em 1951, já depois da sua morte, foi escrito na clandestinidade, assim como os Contos Vermelhos, Última Carta e Refúgio Perdido, também publicados postumamente.



(Retirado de Enciclopédia Universal Multimédia On-Line)

6 de julho de 2007

ENTREVISTA A SOUSA JAMBA



Entrevista de Jorge Eurico (http://www.noticiaslusofonas.com/) ao escritor angolano Jose de Sousa Jamba.

"Governo angolano é parte
da cleptocracia africana"
- 10-May-2006 - 14:29

"O jornalista e escritor Sousa Jamba (intelectual sério que assume e escreve o que lhe vem à cabeça) confessa não ter jeito para graxa e, como quem quer dar à UNITA o que é do Galo Negro e aos militantes o que é dos maninhos, diz sem rodeios nem eufemismos que hoje o seu partido já não é dirigido de forma autocrática nem há mais espaços para iniciativas teatrais como no passado. Distante mas sempre próximo do País, o autor do “Patriotas”, que não é membro da União dos Escritores Angolanos por acreditar que os grandes escritores não são produtos de uniões, acusa, por sua conta e risco, os governantes angolanos de fazerem parte da classe cleptocrática do continente africano e confessa não entender como é que Eduardo dos Santos relaciona a sua vida de tantos privilégios às suas origens humildes de um bairro pobre de Luanda, o Sambizanga."




http://www.noticiaslusofonas.com/view.php?load=arcview&article=14344&catogory=news

SOUSA JAMBA - ESCRITOR ANGOLANO



Escritor e jornalista angolano, Jose de Sousa Jamba nasceu a 9 de Janeiro de 1966, em Missão Dondi (Angola).

Entre 1976 e 1984, em consequência da guerra, emigrou para a Zâmbia, onde fez os estudos em língua inglesa e com a qual começou a sua produção literária. Em seguida, regressou a Angola, trabalhando como jornalista nas zonas controladas pela União Nacional da Independência Total de Angola (UNITA).

Em 1986, adquiriu uma bolsa para estudar na Grã-Bretanha, onde fez estudos superiores e de jornalismo. Como jornalista, foi repórter da UNITA, e tem desenvolvido actividades nos Estados Unidos, Brasil, Portugal e Grã-Bretanha, colaborando regularmente com jornais como The Spectator, O Independente, Terra Angolana.

Escritor-residente em diversas universidades da Escócia, Sousa Jamba publicou as suas primeiras obras em inglês: Patriots (1990, Patriotas, tradução portuguesa, 1991), On the Banks of the Zambezi (1993), A Lonely Devil (1994, Confissão Tropical, tradução portuguesa, 1995).


************************************************************************************* ENGLISH

Angolan writer and journalist, Sousa Jamba was born on January 9th 1966, in Missão Dondi (Angola).

Between 1976 and 1984, as a consequence of the war, he emigrated to Zambia, where he studied English and began his literary production. After that, he went back to Angola, working as journalist in the areas controlled by the União Nacional da Independência Total de Angola (UNITA).

In 1986, he was granted a scholarship to study in Great Britain, where he studied journalism. As a journalist, he was reporter for UNITA and has been developing activities in the United States, Brazil, Portugal and Great Britain, working on a regular basis with newspapers such as The Spectator, O Independente, Terra Angolana.

Resident-writer in various universities in Scotland, Sousa Jamba published his first works in English: Patriots (1990), On the Banks of the Zambezi (1993), A Lonely Devil (1994).

EM TEUS DENTES...


Em teus dentes
o sol
é diamante de fantasia
a lua
caco-de-garrafa
e
a mentira
verdade vagabunda
errando de cágado
em torno da lagoa dos olhos da noite
na treva aveludada
de tua pele
os dedos curiosos
são estrelas de marfim
à busca
de um dia caprichoso
despontando de miragem
por detrás das corcundas de elefantes adormecidos


Arlindo Barbeitos (Angola)

LÍNGUA PORTUGUESA



Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...


Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


Olavo Bilac - Brasil

4 POEMS OF FERNANDO PESSOA (ENGLISH)


The most celebrated Portuguese poet, who had a major role in the development of modernism in his country. Pessoa was a member of the Modernist group Orpheu; he was its greatest representative. Pessoa's use of "heteronyms", literary alter egos, who support and criticize each other's works was also unconventional. During his career as a writer Pessoa was virtually unknown and he published little of his vast body of work. Most of his life Pessoa lived in a furnished room in Lisbon, where he died in obscurity.



PORTUGUESE SEA (MAR PORTUGUES)

O sea of salt, how much of all your salt
Contains the tears of Portugal?
So we might sail, how many mothers wept,
How many sons have prayed in vain!
How many girls betrothed reamined unwed
That we might posses you, Sea!

Was it worth the effort? Anything 's worth it
if the soul's not petty.
If you'd sail beyond the cape
Sail you must past cares, past grief.
God gave perils to the sea and sheer depth,
But mirrored heaven there.




THE PRINCE (O INFANTE)


God will, Man dreams, the work is born.
God willed that all the earth be one,
That seas unite and never separate.
You he blessed, and you went forth to read the foam.

And the white shore lit up, isle to continent,
And flowed, even to the world's end,
and suddenly the earth was seen complete,
Upsurging, round, from blue profundity.
Who blessed you made you portuguese.
Us he gave a sign: the sea's and our part in you.
The Sea fulfilled, the Empire fell apart.
But ah, Portugal must yet fulfill itself!





AUTOPSYCHOGRAPHY (AUTOPSICOGRAFIA)


The poet is a faker. He
Fakes it so completely,
He even fakes he's suffering
The pain he's really feeling.

And they who read his writing
Fully feel while reading
Not that pain of his that's double,
But theirs, completely fictional.

So on its tracks goes round and round,
To entertain the reason,
That wound-up little train
We call the heart of man.




LIBERTY (LIBERDADE)

Ah, how delightful
Not to do one's duty,
Having a book to read
And not read it!
Reading's a bore,
Studying's worthless.
The sun gilds things
Without literature.

Willy nilly runs the rivers
Without an original edition.
And the breeze, this very one,
So natural, matutinal,
Since it has time, its in no hurry...

Books are papers daubed with ink.
Study's the thing where the distinction
Is unclear between nothing and nothing at all.

When there's fog, so much the better
To wait for King Sebastian's return -
Wheter he comes or not!

Poetry is grand, and goodness too, and dancing...
But best of all are children,
Flowers, music, moonlight, and the sun
That sins only when aborting and not bearing.

And more than all of this
Is Jesus Christ
Who knew nothing of finances
Nor even claimed he had a library...







By Fernando Pessoa - Portugal - (1888 - 1935)

4 de julho de 2007

As mãos



Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.


Manuel Alegre, O Canto e as Armas, 1967 - Portugal

27 de junho de 2007

GEORGE KEYT








Descobri hoje no site de um meu amigo um novo pintor natural do Sri Lanka, antigo Ceilao. Gostei tanto que resolvi partilhar convosco.




I discovered today in a friend's site a new painter born in Sri Lanka. I liked so much that I decided to share with all my friends.




GEORGE KEYT (1901 – 1993)




Born a year after the turn of the last century, George Keyt, Sri Lanka's most distinguished and renowned modern painter, had a life long passion for drawing , the study of art and literature. His extensive involvement in the intellectual teachings of Buddhism exercised a powerful and lasting influence that provided both literary and artistic stimuli for Keyt’s works. As a young painter, he also explored Hindu mythology and Indian literature, which drew him to the cultural life of India where he lived for periods from 1939 up to the late 1970s. Hindu myth and legend imagery were incorporated into his works, in addition to the influences of Sri Lankan Buddhism. A meeting in Sri Lanka with Rabindranath Tagore in the 1930s had a lasting impact, as Tagore’s artistic and literary sensibilities very much mirrored Keyt’s own. In addition to being a painter, Keyt is considered one of contemporary Sri Lanka’s foremost poets. He proclaimed his perceptions and practice as a painter in a few notable essays on the vision of the painter. One of his most notable literary works was the translation of the Gita Govinda into English and Sinhala, which translations were illustrated by his own elegant line drawings (see Martin Russell collection and Amerasinghe collections).George Keyt’s works have been exhibited throughout the world, including in India, London and other European and American centres. His works are actively auctioned through international houses such as Sotheby’s, Christie’s and Bonham’s and are to be found in various international public and private collections, including the V&A Museum, London.




Note: The 6 pictures credits to / As 6 fotos creditos a: P. Suresh de Silva (priyanjen.multiply.com)

22 de junho de 2007

PROCURA


Plantei nas margens

dos meus olhos

desejos de te ver.

Velejei na tua alma

com o intuito

de me encontrar,

encontro-te a ti.

Quanto a mim

continuo- me

a procurar.

by: dinah raphaellus (Portugal)

19 de junho de 2007

ONDINA DO MAR


Nasci da aurora madrugada
e do lusco-fusco do sol poente.
Saciei minha sede
no orvalho nebulado duma estrela,
Dormi na clareira do sonho dolente.
E vogando sigo esse rio prateado,
Onde me banho com a luz da lua.
Nas flores exóticas,
apanho essa verdade crua,
De ser ondina do mar,
No rio beijando uma falúa.



By Dinah Raphaellus (Portugal)

KIANDA


Minha senhora sereia
Dona das águas
Jovem rainha zangada
Com pescador
Na dor.

Come do pão dos meus filhos
Bebe do meu vinho
E deixa-te enfeitar
Com a minha rede sem peixe.

Meu rendilhado
Está consertado
A chama do mar
É teu abraço
Minha rede dorme na areia
A chama apagada da casa
É minha fome.






Filipe Zau (Angola)




10 de junho de 2007

Fundador da Literatura Angolana - 1849 -


JOSÉ DA SILVA MAIA FERREIRA (Benguela, Angola, séc.XIX - Angola, séc.XX). Tendo estudado na cidade de Lisboa, possívelmente obteve instrução superior à primária. Amanuense da Secretaria do Governo Geral de Angola, tesoureiro da alfândega de Benguela, oficial da Secretaria do Governo de Benguela. Candidato às eleições para senadores e deputados, realizadas em 1839. Colaboração no Almanach de Lembranças, Lisboa, 1879.
Publicou, pelo menos: Espontaneidades da minha alma / As senhoras africanas, Luanda, 1849.


BENGUELINHA !

Passarinho primoroso
E gentil, plumeo cantor,
Que d'aromas tão fragrantes
Não esparzes com candor,
Quando trinas mavioso
Nesse insolito rigor
De um sol forte e constante
Suaves cantos d'amor?!

Ás vezes contemplo
Do dia no albor,
Sentir o rigor
De escravo viver;

Suspiras e gemes
Em cantos d'amor,
Ah! sê meu primor
Não queiras morrer!

Anhélas no mato
Andar pelas fragas,
Viver só de bagas,
Nos ramos dormir?

Esvoaça saltando
Na tua prisão
Ai! Tem compaixão
Não vive a carpir!

Infiltra bondoso
No meu coração
O doce condão -
Do meigo trinar;

Que juro contigo
Do muito viver
Comtigo morrer,
Comtigo findar!

E as azas abrindo
O plumeo cantor,
As juras d'amor,
Ouvio a sorrir -

Em magos acentos
Endeixas trinou,
Que d'alma exalou,
Que d'alma sentiu! -



À MINHA TERRA !

(No momento de avista-la depois de uma viagem.)

Jose da Silva Maia Ferreira (Angola)

9 de junho de 2007

BALADA DA NEVE




Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.


É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...


Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.


Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!


Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...


Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...


E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...


Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...


E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.



Augusto Gil (1873-1929) Portugal

1 de junho de 2007

DIA MUNDIAL DA CRIANCA


Ah quem me dera,
Que todas as palavras
Dos meus poemas, fossem
Searas de trigo, arrozais,
campos de milho.
Ah quem me dera
Que todas as letras
Fossem leite, pão
Com os quais eu a fome
Vos pudesse matar
Ah quem me dera
Que a voz dos meus versos
Num grito da míseria
vos pudesse libertar.
Ah crianças de todo mundo
Que hipócrita tamanha eu sou
Nos versos d’um poema
Me defendo e pretendo
ter cumprido minha boa acção
não engano ninguém todos sabemos
de que voces precisam
e de leite e de pão
para apaziguar vossos ventres
cheios de fome, vossas almas
doridas p’la míseria engordada.
deveria haver uma lei
em que proibissem a fome, a guerra
e neste dia da criança,
aqui faço um apelo,
formar uma caridade,
para ajudar os pequenos
que não nos pedem brinquedos
mas sim algo que comer.
não nos pedem tenis da nike
ou jogos de computador,
apenas e tão somente,
qualquer coisa para esvaziar a fome
e acabar com tanta dor!!!!!

by Dinah Raphaellus (Portugal)

BENGUELA



Caotinha - Benguela
obrigado por me teres dado a "Mena", a Irmã que
nunca tive



Numa das longas conversas,
Que tive com minha Avó
Perguntei-lhe se conhecia Benguela.
A minha Avó respondeu-me:
Conhecer eu não conheço,
Mas já ouvi falar dela.
Perguntei-lhe, se conseguia,
Num mapa localizar.
Ou por seus olhos cansados
Ou porque o mapa era velho.
Precorreu-o de alto a baixo
Não conseguiu encontrar.
Para eu não ficar triste,
Pediu-me lápis de cor,
E em seu estilo Naiff,
Sobre uma folha branca,
Com o castanho fez vários riscos,
Com o vemelho fez bolinhas
Chamou-lhe Acácias em flor.
Dum lado e de outro de um morro,
Desenhou duas baías.
Que mais pareciam contorno,
De dois seios de mulata.
Com o azul pintou o mar,
Com o amarelo fez um sol,
A uma chamou-lhe Azul.
A outra chamou-lhe Farta.
Três praias mais desenhou,
A uma chamou Caota...
E Caotinha à mais pequena.
Mais ao lado, para mim,
A mais bonita...
Chamou-lhe praia Morena
Com o mesmo azul da praia,
Fez um rio.
A preto pintou um barco...
Com o amarelo bananas,
De resto tudo era verde...
Chamou-lhe rio Cavaco.


Segurou naquele desenho,
Como não sabia ao certo,
Em que lugar no mapa,
Deveria colocar!
Disse-me escuta meu neto.
Quando para o sul viajares
E chegares a uma cidade
Com praias maravilhosas,
Com acácias floridas,
E muitas mulheres bonitas,
Nas ruas ou à janela.
Pára...
Porque ou já é, ou estás perto
Dessa Cidade tão linda,
A que chamam de Benguela.



Olimpio C. Neves (Angola)

31 de maio de 2007

XICUEMBO


Eu bebeu suruma
dos teus ólho Ana Maria
eu bebeu suruma
e ficou mesmo maluco

agora eu quero dormir quer comer
mas não pode mais dormir
não pode mais comer

suruma dos teus olhos Ana Maria
matou sossego no meu coração
oh matou sossego no meu coração

eu bebeu suruma oh suruma suruma
dos teus ólho Ana Maria
com meu todo vontade
com meu todo coração

e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber

que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo gente
é mulher de todo gente
todo gente todo gente

menos meu minhamor.


Rui Nogar (Mocambique)

Canção para Luanda



A pergunta no ar
no mar
na boca de todos nós:
- Luanda onde está?

Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos

- Xé
mana Rosa peixeira
responde?

-Mano
Não pode responder
tem de vender
correr a cidade
se quer comer!

"Olá almoço, olá almoçoeee
matona calapau
ji ferrera ji ferrereee"

- E você
mana Maria quintandeira
vendendo maboques
os seios-maboque
gritando, saltando
os pés percorrendo
caminhos vermelhos
de todos os dias?
"maboque, m'boquinha boa
doce docinha"

- Mano
não pode responder
o tempo é pequeno
para vender!

Zefa mulata
o corpo vendido
baton nos lábios
os brincos de lata
sorri
abrindo o seu corpo
- seu corpo cubata!
Seu corpo vendido
viajado
de noite e de dia.
- Luanda onde está?

Mana Zefa mulata
o corpo cubata
os brincos de lata
vai-se deitar
com quem lhe pagar
- precisa comer!

- Mano dos jornais
Luanda onde está?
As casa antigas
o barro vermelho
as nossas cantigas
tractor derrubou?

Meninos das ruas
cacambulas
quigosas
brincadeiras minhas e tuas
asfalto matou?

- Manos
Rosa peixeira
quitandeira Maria
você também
Zefa mulata
dos brincos de lata
- Luanda onde está?

Sorrindo
as quindas no chão
laranjas e peixe
maboque docinho
a esperança nos olhos
a certeza nas mãos
mana Rosa peixeira
quitandeira Maria
Zefa mulata
- os panos pintados
garridos, caidos
mostraram o coração:
- Luanda está aqui!


Luandino Vieira (Angola)

NÚPCIAS



Penetro
esse colchão de cristal
e
um lençol de mar
me envolve
tecendo o meu vestido raro,
espuma e sal.

Interrompo estas núpcias com o coral,
vem-me o mavioso murmurar
das palmeiras pela brisa,
será que não aprovam?






Ana de Santana (Angola)

LÁ NO HORIZONTE




Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas

Poesia africana

Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha dos olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa

No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marimbas

Poesia africana

E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone

Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.


Agostinho Neto (Angola)

SOB AS ACÁCIAS FLORIDAS


1

Com Novembro a chiar nestas cigarras
as acácias sangrando suas flores
e um sol afirmativo num céu alto

Espero a tua carta e a minha vida

Uma pausa do tempo em minhas mãos
preenchida
pela contagem das horas
nas cigarras e pétalas caídas.

2

A rua corre larga e sossegada
É a hora de tu vires!
Tu vens (eu sei) na moldura vesperal
com esta luz do passado nas paredes
e este céu de altocúmulos de Dezembro.

Com os estames d'acácia
jogo a vida nas sortes infantis
«Antera cai? Não cai? Ela virá? Não vem?»
E a cada sorte recuso a evidência
«Ela virá? Não vem?»
É a hora de chegares!

3

Os aros dos meus óculos te emolduram
ó Vénus de cabelos desfrizados!
Enquanto as minhas mãos, cegas, procuram
o cofre dos teus seis apertados.

Construímos assim a primavera
- a negada primavera dos amores:
Pega uma flor d'acácia para a pores
no meu cabelo indómito de fera.

Repara e vê a doce realidade:
os nossos jogos simples e ingénuos!
Esta soalheira vespertina hoje é-nos
bela imagem da nossa felicidade.

4

Cigarreio sem sol neste Dezembro.
E um céu da cor da angústia que me dá
a tua ausência em carne e em pensamento.

Magoa-me o teu rosto que não lembro
e o tau vestido branco táfetá
que voava batido pelo vento.

Se esta vida tão clara e simples fosse
como a imagem fixada desse instante
nenhum mal me faria esta chuva precoce.

Chuva, mãe dos poetas, minha amante,
lava às acácias o sanguíneo canto,
cala a voz das cigarras e o meu pranto!


Mario Antonio (Angola)

29 de maio de 2007

TÁBUA DE ADRIANO B. VASCONCELOS




Sobre a obra, Ana de Sá, Especialista em Línguas Africanas, teceu as seguintes considerações: «A palavra faz e desfaz, constrói o abandono, desfrutando, pelo seu som, o silêncio; a voz cede o seu lugar cativo aos outros sentidos físicos que se compõem em poesia. A recorrente metáfora poética do tecto surge, neste sentido, como expressão do desejo de toque do inatingível, do alto, do máximo organizador ao qual se acede precisamente pela vogal, pelo verbo com poder de nomear e de apropriar na subjectividade o visível, o perceptível e o imaginável. O espelho é filtrado pela visão na sedução da imagem com a obsessão pela palavra. As mãos, os dedos, a boca que sentem o barro, o ouro e a terra, o húmus fértil, tal como a dança que envolve toda a percepção sensorial, comunicam com as artes, as da palavra e as do corpo». Inocência Mata, Professora Doutora em Línguas Africanas, diz que «Este livro o poeta desfiando, pacientemente qual cágado, aquele que «passou pela fogueira/como quem inicia o passeio» do primeiro ao último poema, os lugares esconsos do «relato de nação», feito de dores, de heróis em discursos vazios, de fístulas (as feridas, mas também os canais), desde a Baixa de Kassanje, lugar simbólico de gestação nacionalista e palco dos nefandos acontecimentos que tornaram mais visíveis a sanha colonialista, e do rio Kwanza, «que levou para o mar os corpos dos homens que foram/violados», até chegar à Kanjala à luz, que traz uma nova possibilidade de recomeço: Kanjala com o seu tempo perfeito depois De muitas fogueiras. Um milheiral levanta a terra numa mesa Acesa que ocupa o horizonte. Este livro de Botelho de Vasconcelos desinstala verdades inquestionáveis, desoculta presunções consensualistas, perturbando as consciências mais transparecentes. Fá-lo rasteando o mapa da sua afectividade (familiar, social, política e ideológica) e convidando a que a Pátria revele os lugares dos seus silêncios. No mais, este livro traz à cena literária angolana uma pedra: uma nova forma de procedimento poético, baralhando os esquemas estanques das categorias literárias, causando estranhamento. Que é, como se sabe desde o Formalismo russo, uma das funções construtivas do literário». E em último excerto analitico, Cármen Lúcia Tindó Secco, Professora Doutora da UFRJ Brasil, escreveu o seguinte comentário: «A dança também ilumina e movimenta o eu do poema que se quer lúcido, crítico da vida, do espectáculo da modernidade, da teia trágica de inúmeras guerras e desenlaces. É evidente a amarga lucidez do poeta nos seguintes versos: «Eu tenho a minha desilusão diante da cidade, cuja verdade é um painel de publicidade». (Tábua pág. 64) Memória e esquecimento dialogam por entre os fios da poesia de Adriano Botelho de Vasconcelos. O que lembra e para quê? O que omite e por quê?».




www.uea-angola.org


I HAVE A DREAM (EXTRACTO)


I am happy to join with you today in what will go down in history as the greatest demonstration for freedom in the history of our nation.
Five score years ago, a great American, in whose symbolic shadow we stand today, signed the Emancipation Proclamation. This momentous decree came as a great beacon light of hope to millions of Negro slaves, who had been seared in the flames of withering injustice. It came as a joyous daybreak to end the long night of their captivity. But one hundred years later, the Negro still is not free. One hundred years later, the life of the Negro is still sadly crippled by the manacle of segregation and the chains of discrimination.
One hundred years later, the Negro lives on a lonely island of poverty in the midst of a vast ocean of material prosperity. One hundred years later, the Negro is still languish in the corners of American society and finds himself an exile in his own land So we've come here today to dramatize a shameful condition. (...)
Let us not wallow in the valley of despair. I say to you today, my friends, so even though we face the difficulties of today and tomorrow. I still have a dream. It is a dream deeply rooted in the American dream.
I have a dream that one day this nation will rise up... live out the true meaning of its creed. We hold these truths to be self-evident that all men are created equal.
I have a dream that one day on the red hills of Georgia the sons of former slaves and the sons of former slave owners will they be able to sit down together at the table of brotherhood.
I have a dream that one day even the state of Mississippi, a state sweltering with the heat of injustice, sweltering with the heat of oppression will be transformed into an oasis of freedom and justice.
I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.
I have a dream today.
I have a dream that one day down in Alabama, with its vicious racists, with its governor having his lips dripping with the words of interposition and nullification; one day right down in Alabama little black boys and black girls will be able to join hands with little white boys and white girls as sisters and brothers.
I have a dream today.
I have a dream that one day every valley shall be exalted, every hill and mountain shall be made low, the rough places will be made plains and the crooked places will be made straight and the glory of the Lord shall be revealed and all flesh shall see it together.
This is our hope. This is the faith that I go back to the South with. With this faith we will be able to hew out of the mountain of despair a stone of hope.
With this faith we will be able to transform the jangling discords of our nation into a beautiful symphony of brotherhood.
With this faith we will be able to work together, to pray together, to struggle together, to go to jail together, to stand up for freedom together, knowing that we will be free one day.
This will be the day, this will be the day when all of God's children be able to sing with new meaning "My country 'tis of thee, sweet land of liberty, of thee I sing. Land where my fathers died, land of the Pilgrim's pride, from every mountainside, let freedom ring!"
And if America is to be a great nation, this must become true. So let freedom ring from the prodigious hilltops of New Hampshire. Let freedom ring from the mighty mountains of New York.
Let freedom ring from the heightening Alleghenies of Pennsylvania.
Let freedom ring from the snow-capped Rockies of Colorado.
Let freedom ring from the curvaceous slopes of California.
But not only that, let freedom, ring from Stone Mountain of Georgia.
Let freedom ring from Lookout Mountain of Tenneessee.
Let freedom ring from every hill and molehill of Mississippi, from every mountainside.
Let freedom ring,
And when this happens,and when we allow freedom ring, when we let it ring from every village and every hamlet, from every state and every city, we will be able to speed up that day when all of God's children, black men and white men, Jews and Gentiles, Protestants and Catholics, will be able to join hands and sing in the words of the old negro spiritual, "Free at last, free at last. Thank God Almighty, we are free at last."




Dr. Martin Luther King Jr. (Pacifista e activista negro Norte Americano - 1929 - 1968)

Discurso proferido em Washington D.C. a 28 de Agosto de 1963, um belo texto em prosa, um excelente poema...
E Portugues: www.portalafro.com.br

ILHA




Tu vives — mãe adormecida —
nua e esquecida,
seca,
fustigada pelos ventos,
ao som de músicas sem música
das águas que nos prendem…

Ilha:
teus montes e teus vales
não sentiram passar os tempos
e ficaram no mundo dos teus sonhos
— os sonhos dos teus filhos —
a clamar aos ventos que passam,
e às aves que voam, livres,
as tuas ânsias!

Ilha:
colina sem fim de terra vermelha
— terra dura —
rochas escarpadas tapando os horizontes,

mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!


- um poema de Amílcar Cabral - Praia, Cabo Verde, 1945 -

NATURALIDADE




Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
europeias
e europeu me chamam.

Não sei se o que escrevo tem raiz a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável ... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.


Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.



Rui Knopfli (Mocambique)

QUE É SAO TOMÉ

Ilha de S. Tome, uma beleza que nao corresponde ao poema...


Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!


Alexandre Daskalos (Angola)

Sonho, de amor




O meu sonho
e uma madeixa dos teus cabelos
sufocada ao luar de uma noite
cansada de amor
O meu sonho
somos nós, tu e eu
no corcel da vida
à procura do sol
Falo do sonho, amor
do nosso sonho
em que brincamos com crianças não paridas
com esperanças sangrando desesperanças
O meu sonho
és tu, Minda-a-Mulata
sonhando com a vida e morrendo
em tempo de fome farta
e a guerra a acabar
(ou a reatar?)
O meu sonho
é sonho de mar
as ondas indo e vindo
do fim do Mundo
as aves a voar




Domingos Florentino - Pseudonimo de Marcolino Moco (Angola)

Sobre a colina de Calamboloca



Eram contratados, eram homens mortos
duas horas antes da morte os matar,
sobre a colina de Calamboloca
Subiam a ladeira devagar,
passo atrás de passo,
sem sonhos nem vontades.
Com eles apenas a obstinação do silêncio.
E nós a contemplar
e nós a ver passar
os sete mortos, sem expressão na face,
naquela tarde rubra, tarde fria,
sobre a colina de Calamboloca
Não sei como contar-te irmão, aquela tarde
e a nossa paixão de contemplar
os jovens que trepavam a ladeira.
Não sei o que dizer-te irmão, daquelas faces
olhando para o tempo sem pensar
sem descanso, nem dor, nem conteúdo,
obstinado em silenciar...
E nós a ver
fazendo tudo para não olhar.
E nós a reparar que eram homens mortos
duas horas antes da morte os matar
sobre a colina de Calamboloca.
Uniram-se em forma de sete irmãos
e deram-se as mãos,
e gastaram a vida até ao fim
a silenciar...
E de mãos dadas caíram na terra
sobre a colina de Calamboloca.
Nasceram flores de pétalas vermelhas
entre as raízes da grande mafumeira.
Agora pesa um silêncio grosso
como o silêncio de coágulos de sangue
sobre a colina de Calamboloca...
Apenas o lesto animal das moitas
trauteia uma canção inesquecível
e a brisa roladora de mistérios
murmura um queixume mais profundo
sobre a colina de Calamboloca...


Henrique Abranches (Angola)

Canto para Angola



Hei-de compor um dia
um canto sem lirismo
nem tristeza
digno de ti, ó minha terra.
Hei-de compor um canto
livre e sem regras
que de boca em boca vai partir
nos lábios de velhos e meninos.
Será o canto do pescador
com todos os sons do mar
com os gemidos do contratado
nas roças de São Tomé.
Será o canto de todos os dramas
do algodão do Lagos & Irmão
o das tragédias nas minas
da kitota e da Diamang.
Será o canto do povo
o canto do lavrador
e do estudante
do poeta
do operário
e do guerrilheiro
falando de toda Angola
e seus filhos generosos.



Jofre Rocha (Angola)

Lá no água grande




Lá no "Água Grande" a caminho da roça
negritas batem que batem co'a roupa na pedra.
Batem e cantam modinhas da terra.
Cantam e riem em riso de mofa
histórias contadas, arrastadas pelo vento.
Riem alto de rijo, com a roupa na pedra
e põem de branco a roupa lavada.
As crianças brincam e a água canta.
Brincam na água felizes...
Velam no capim um negrito pequenino.
E os gemidos cantados das negritas lá do rio
ficam mudos lá na hora do regresso...
Jazem quedos no regresso para a roça.




Alda do Espirito Santo (S. Tome e Principe)




28 de maio de 2007

NOS


Esse suave ondular,
das ondas
Dos teus olhos, embalam-me,
a alma
E o andar de folhos
no nosso amar.
Preenchem minha calma,
Sugerem o mar,
onde sou ondina,menina
na areia
branca a brincar.
E tu castelo de espuma,
abres tuas portas
para meus sonhos guardar.
ao longe,
ouço o perfume do luar,
esconder-se
na bruma do teu,
do meu,
nosso amar.


Dinah Raphaellus (Portugal)

NOSSOS SONHOS DE NAMORO



Lembras-te, nós iríamos fazer longa viagem
Iríamos mergulhar
E explorar
As profundezas dos oceanos
Africanos
Nós iríamos sim fazer esta viagem miragem

Nós iríamos navegar o céu dos céus
Descobrir a linguagem do universo
Fazer amor em versos
E descobrir Vénus
Na essência do encantar
Descobrir Vénus na essência do amar!

Lembras-te, nós iríamos a correr descalços
Pelos campos, vales, montanhas …
Nossos pés acariciando as ervas daninhas
E o capim verde
Nós iríamos sim, em grandes abraços
Plantar árvores de felicidade!

Nós iríamos nos fundir com as estrelas
Conversar com elas
Dizer segredos a Júpiter, Saturno e Marte
Oh que sorte
Nós iríamos cobrir o infinito dos espaços
Com os nossos abraços!

Nós iríamos tomar banho na chuva vespertina
Chuva cristalina
Nossos corpos molhados
Juntinhos
E abraçadinhos
Nossos corpos em juras de amor, entrelaçados!

Depois gargalharíamos de coisas sem importância
Coisas banais, sem significância
Coisas do dia-a-dia
Gargalharíamos felizes
E faríamos as pazes
Por um qualquer desentendimento-mania

E ao cair do dia, ao cair do dia iríamos à ilha
Ver o pôr-do-sol acontecer
Que maravilha,
O sol penetrando no mar
O mar engolindo o sol, a amar
O sol e o mar em gemidos de amor de enlouquecer!

Depois, depois, nosso sonho esfumou-se
Nosso sonho evaporou-se …

Mas nós iríamos sim
Nós iríamos fazer estas coisas assim…


Décio Bettencourt Mateus (Angola)
in "Os Meus Pés Descalços"

27 de maio de 2007

O MEU POEMA E' O POVO



O poeta não faz o poema
O poeta escreve a poesia

As massas
fazem o poema de ouro que não podem escrever
o povo
compõe belos versos que não pode desenhar.

Nos charcos
se faz poema de guerra
nos campos arrasados pelas bombas de fogo
o povo canta um poema
na travessia de um rio
que devora os que não sabem nem podem nadar
os mortos nos legam versos que não podem ler.

O meu poema
não sei escrevê-lo também
não posso escrever o poema que sinto no peito
por serem vários os versos.
São tantos os autores do meu poema
e versos assim
trazem rima doutra inspiração.

Rimam em cada metralha que dispara
rimam no chorar do órfão
rimam nas grutas protectoras do guerrilheiro.

Não sei escrever este poema.

Gostaria de cantar o poema que me bate no coração
mas não posso
porque este é o próprio Povo em armas
e só ele deve continuar
a fazer o poema que eu não posso redigir
nem ele pode ler também!

Os que fazem a História
Nem sempre podem escrevê-la.



Nito Alves (1945-1977) - Angola

www.27maio.org

24 de maio de 2007

É Dia de África



É Dia de África!!!
Pois é…
como se o 25 de Maio
fosse o único dia
que África necessita
neste sistema sapal
onde muitos
se engendram,
parecem
e são
filantes ou sipaios,
corruptos e decrépitos,
ditadores ou senis.
.
É Dia de África!!!
Pois é…
tal como os outros dias
onde a vergonha
e falta de pudicícia
a apreensão e a sedição,
a míngua e a penúria,
o nepotismo e a corrupção,
a doença e a falta de prevenção
vivem em harmonia perfeita.
.
É Dia de África!!!
Pois é…
com um povo famélico que clama,
a o Mundo que observa
impávido e pacato
sempre pronto nas oferendas
que nunca,
ou tarde,
chegam…
.
É Dia de África!!!
Pois é…
para um Continente rico
em petróleo
e recursos hídricos,
em veios auríferos
e rios diamantíferos
mas…
uma cólera que se espalha
o sida que não pára
um paludismo endémico
um qualquer vírus que germina
um Continente mais que epidémico.
.
É Dia de África!!!
Pois é…
mas como gostava
que África
fosse notícia,
sempre novidade,
não por este dia,
não pela miséria,
não pela enfermidade
não pela corrupção;
que fosse
porque este dia,
é só,
deve ser,
mais um
entre 365 fúteis dias
de alguma normal reprodução
de um qualquer frívolo almanaque.
.
É Dia de África!!!
Pois é…
é tudo isso,
e muito mais que se não diz…
Mas é a minha África!!!!
.
Lobitino Almeida N’gola
(Lisboa, 24.Maio.2006)
(Publicado inicialmente no Malambas -
http://malambas.blogspot.com/ -

CHORO DE AFRICA




O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos batuques choro de África
nos sorrisos choro de África
nos sarcasmos no trabalho choro de África

Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no círculo das violências
mesmo na magia poderosa da terra
e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas
e das hemorragias dos ritmos das feridas de África

e mesmo na morte do sangue ao contato com o chão
mesmo no florir aromatizado da floresta
mesmo na folha
no fruto
na agilidade da zebra
na secura do deserto
na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens

o choro de séculos
inventado na servidão
em historias de dramas negros almas brancas preguiças
e espíritos infantis de África
as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas

o choro de séculos
onde a verdade violentada se estiola no circulo de ferro
da desonesta forca
sacrificadora dos corpos cadaverizados
inimiga da vida

fechada em estreitos cérebros de maquinas de contar
na violência
na violência
na violência

O choro de África e' um sintoma

Nos temos em nossas mãos outras vidas e alegrias
desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas - por nós!
E amor
e os olhos secos.


Agostinho Neto (Angola)

Mulheres da minha terra



São todas belas
Elas
As mulheres
Que meus quereres
Se confundem
E perdem

Vejo Rosa
Formosa
E me encanta
Que canta
Meu coração
De emoção

Vejo Margarida
Querida
Alta
E esbelta
E é ela
A minha estrela

Vejo Teresa
Beleza
Baixinha
E cheinha
E por ela suspiro
E passo noites em claro

Vejo Bela
Gazela
Ternura
E candura
E logo meu coração
É todo paixão

Vejo Maria
Feia
Mas bela
Ela
No interior
E é meu grande amor

São todas belas
Elas
E muitas,
Pretas, albinas, brancas, mulatas...
Mas todas bonitas
Todas catitas
E belas!



Decio Bettencourt Mateus (Angola)
Na foto Miss Angola 2006 - quarta classificada no Miss Mundo 06)

Mulher proletária


Mulher proletária — única fábrica
que o operário tem, (fabrica filhos)
tu
na tua superprodução de máquina humana
forneces anjos para o Senhor Jesus,
forneces braços para o senhor burguês.


Mulher proletária,
o operário, teu proprietário
há de ver, há de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar o teu proprietário.



Jorge de Lima (Brasil)

SERENATA





Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.


Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.


Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.



Cecilia Meireles (Brasil)