9 de maio de 2017
17 de março de 2015
DEOLINDA - QUE PARVA QUE EU SOU
"Parva que sou" - Deolinda
Música e letra: Pedro da Silva Martins
Sou da geração sem-remuneração
e nem me incomoda esta condição...
Que parva que eu sou...
Porque isto está mau e vai continuar
já é uma sorte eu poder estagiar
Que parva que eu sou....
e fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo
é preciso estudar...
Sou da geração casinha-dos-pais
Se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou...
Filhos, marido, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou...
e fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo
é preciso estudar...
Sou da geração vou-queixar-me-pra-quê?
Há alguém bem pior do que eu na TV
Que parva que eu sou...
Sou da geração eu-já-não-posso-mais-Que-esta-situação-d
e parva eu não sou!!!
e fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo
é preciso estudar...
15 de março de 2015
HOJE, É DIA DA MÃE NO REINO UNIDO
PARA SEMPRE
Por que Deus permite
Que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
É tempo sem hora
Luz que não apaga
Quando sopra o vento
E chuva desaba
Veludo escondido
Na pele enrugada
Água pura, ar puro
Puro pensamento
Morrer acontece
Com o que é breve e passa
Sem deixar vestígio
Mãe, na sua graça
É eternidade
Por que Deus se lembra
- Mistério profundo -
De tirá-la um dia?
Fosse eu rei do mundo
Baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
Mãe ficará sempre
Junto de seu filho
E ele, velho embora
Será pequenino
Feito grão de milho
Carlos Drummond de Andrade (Brasil)
11 de março de 2015
AS HIPERMULHERES: DO BLOG "A MATÉRIA DO TEMPO"
08 MARÇO 2015
As Hipermulheres
Trailer legendado em inglês do filme As Hipermulheres, de Takumã Kuikuro, rodado em 2011 na aldeia Ipatse, do povo índio Kuikuro, no Alto Xingu, Brasil
Depois de eu ter postado Os índios do Brasil vistos pelos próprios, em que dou a ver uma curta-metragem de ficção feita por índios do Xingu chamada Língua do Peixe, recebi um comentário de Bernard Belisario, que foi quem, juntamente com o realizador índio Takumã Kuikuro, orientou a oficina de cinema da qual resultou a referida curta-metragem. Nesse comentário, Bernard Belisario recomendou-me um outro filme de Takumã Kuikuro, chamado As Hipermulheres. Vi o filme e fiquei fascinado. Era excelente. Achei que este outro filme tinha que aparecer neste blog, mais tarde ou mais cedo, desse por onde desse. Aqui está ele.
A minha curiosidade pela vida, pela cultura e pelas lutas de resistência dos povos indígenas do Brasil tem sido, de vez em quando, despertada pela leitura de algum artigo de jornal ou de revista ou pelo visionamento de um ocasional programa de televisão. Assim tem sido ao longo dos anos. Mas agora, graças à Internet, tenho podido satistazer a minha curiosidade de forma muito mais cabal. Com o passar do tempo, a curiosidade acabou por se transformar em interesse e este interesse vai sendo cada vez maior, à medida que aprendo novas coisas sobre esses povos. Por fim, quando me deparo com o entusiasmo manifestado em relação aos índios brasileiros, por parte de personalidades tão relevantes como o general Rondon, os irmãos Villas-Bôas ou Darcy Ribeiro, sinto-me também um pouco contagiado por esta sua paixão.
Tudo isto vem a propósito da multiplicação de posts sobre os índios do Brasil que tenho vindo a publicar neste blog. Que querem? Acabei por ficar fascinado pelos índios, pela sua cultura, pela sua filosofia de vida, pelas lutas que travam em defesa dos seus direitos, apesar de viver nesta outra margem do Atlântico e de nunca ter posto os pés no Brasil. E tenho muito mais material que gostaria de publicar, tanto que quase daria para fazer um blog inteiro só sobre índios... Muita coisa vai ter que ficar de fora, pois quero manter este blog tão diversificado quanto possível.
Este é, pois, mais um post sobre índios do Brasil, desta feita por recomendação de Bernard Belisario, e que propositadamente reservei para este Dia Internacional da Mulher. Trata-se do filme As Hipermulheres, feito em 2011 na aldeia Ipatse, do povo Kuikuro ou Kuhi Ikugu, no Alto Xingu, pelo realizador Takumã Kuikuro, o antropólogo Carlos Fausto e o editor Leonardo Sette.
Yamurikumalu (frequentemente chamado também yamurikumã) é um ritual em que as mulheres de uma aldeia "tomam o poder" e afastam os homens. Durante este ritual, as mulheres assumem o controlo da situação, tratam os homens com ares de desafio e até de desprezo, usam adornos tipicamente masculinos, empregam as armas que os homens costumam empregar, agem como os homens costumam agir, lutam entre si nas lutas tradicionais xinguanas, que os homens costumam lutar e que são chamadas huka-huka, etc.
As Hipermulheres não é um filme de ficção. Também não é um documentário etnográfico no sentido convencional e aborrecido do termo. É um documentário, sim, mas em que se vai acompanhando, de forma viva e animada, como se conseguiu recuperar, in extremis, todo o conjunto de cantos e de danças tradicionais da aldeia, empregue nos ritos do yamurikumalu. Por pouco se tinha perdido para sempre este acervo, porque só uma mulher em toda a aldeia o sabia e esta mulher estava gravemente doente. Felizmente, esta mulher conseguiu transmitir às restantes mulheres todas as danças e canções próprias doyamurikumalu. O yamurikumalu acabou por ser feito na íntegra e assistimos no filme à interpretação dos seus cantos e danças num belíssimo e emocionante final.
Há ainda um aspeto sobrenatural que está ligado à mitologia dos Kuikuro e que está subjacente ao ao ritual do yamurikumalu e à vida dos Kuikuro em geral. Bernard Belisario aborda-o numa sua comunicação a um encontro que houve sobre cinema, a qual tem por título Os lugares do bicho-espírito e que se encontra em http://www.academia.edu/8616551/Os_lugares_do_bicho-esp%C3%ADrito.
E agora, sim, assistamos ao filme As Hipermulheres.
As Hipermulheres, filme de Takumã Kuikuro
Retirado na íntegra do blog: http://amateriadotempo.blogspot.co.uk/2015/03/as-hipermulheres.html
4 de março de 2015
CADERNO DE SIGNIFICADOS

(Para Graça Pires)
Entre a finura dos
dígitos
e o formato divino
da mão
um caderno.
Leio uma cartilha
poética,
são os significados
da Graça.
Eles são salmos
e palmos de divina
dimensão
habitando o
quotidiano
de nosso humano
coração.
Namibiano Ferreira
2 de março de 2015
UM POEMA DO DAVID...

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
David Mourao-Ferreira (Portugal)
25 de fevereiro de 2015
GOTÍCULAS DE VELUDO

O silêncio tece
gotículas
Surdas de veludo
Com que me visto
nua;
Pegadas lúgubres
Que sigo pretas de
xisto,
Como marchas
fúnebres.
Meu corpo pesado
arrasto
Comigo, não sei se
existo
Ou extingo, apenas
sigo
O que nem eu já
sei,
Talvez a pena
cinzenta
Que do nada nasceu
Em minhas mãos
magoadas
–Mensagem de anjos
ou demónios–
Leve, indecifrada,
Enigma perdido
entre meus dedos
Como pequenos grãos
E os mortais
continuam como
Se nada se
passasse, cegos,
Alheios ao que
deveriam ver.
Lutas de nada nunca
vencem,
Perdem-se no vazio
do nada
E transformadas em
pó
Para sempre
desfalecem.
Acordem, ouçam o
nascer
Da alvorada, sintam
o sorriso
Pálido da lua,
guardem o beijo do mar...
Acordem! Esta vida
só se despe
Quando está nua de
chuva e trovoada
Por acordar ou quando,
caiada de branco,
Se juntam as ondas
e a areia vai beijar.
Dinah Raphaellus
(Portugal)
8 de fevereiro de 2015
FLORES DE SAL
.jpg)
És o meu (a)mar
mesmo que os cães
ladrem
sem dono
na praia deserta
desgrenhado na orla
dos belos
precipícios
lavras escarpas
arredondas arestas
despojas-te de
salivas
nos póros das
areias
És o meu (a)mar
voz diáfana de
cristais
onde despontam
vertebrados
barcos remos e
passos
as minhas mãos
nas tuas
flores de sal
Eufrázio Filipe (Portugal)
Retirado do blog do autor: http://mararavel.blogspot.co.uk/
3 de fevereiro de 2015
OBRIGADO, JORGE DE SENNA
BIBLIOTECA
MUNICIPAL – ESTANTE DA POESIA 82-1
(Para Jorge de
Senna que me revelou Emily.)
Estavas abandonada
na estante
pouco vasculhada da
poesia.
Foi lá que te
encontrei
caída desamparada
perdida.
Não tu mas o verbo
gráfico
da tua voz e
lembro, ainda,
as impressões
causadas
pelos teus pequenos
poemas.
Vozes ágeis com
asas
de abelhas frágeis
e sonoridades
de minúsculas calemas
desenhadas em
lusófonas
tatuagens pelas mãos
de fina pena,
beleza e suave
mestria
do poeta Jorge de
Senna.
Namibiano Ferreira
2 de fevereiro de 2015
CASAMENTO

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Adélia Prado (Brasil)
27 de janeiro de 2015
70 ANOS DA LIBERTAÇÃO DE AUSCHWITZ-BIRKENAU 1945 - 2015
“ Primeiro vieram…” é um poema atribuído ao Pastor Martin Niemöller
(1892–1984) sobre a inactividade dos intelectuais alemães depois da subida ao
poder dos Nazis e da perseguição que se seguiu a determinados grupos que, uns
após outros, foram alvo das suas actividades de limpeza: Comunistas, Judeus,
Social-Democratas, Sindicalistas, Ciganos, Homossexuais, Testemunhas de Jeová e inclusivamente
Católicos mas também outras muitas vozes incómodas ao regime, como foi o caso
do Pastor alemão Martin Niemöller.
Inicialmente apoiante de Hitler, Niemöller veio, por volta de 1934, a
opor-se totalmente ao Nazismo e graças às sua boas relações de amizade com
influentes homens de negócios, conseguiu ser salvo da prisão até 1937, altura
em que foi encarcerado, eventualmente, nos campos de concentração de
Sachsenhausen e Dachau. O Pastor sobreviveu e depois da Segunda Guerra Mundial,
tornou-se na principal voz de penitência e reconciliação do povo alemão. O seu
poema é bastante conhecido e frequentemente citado tendo-se tornado num modelo
popular para descrever os perigos de uma apatia política que, começando muitas
vezes, com um alvo específico de medo e ódio, assume rapidamente proporções
assustadoras e completamente fora de controlo.
O poema tem apresentado diversas variantes ao longo dos tempos.
Apresento-vos uma versão que traduzi do inglês. Contudo, existe alguma
controvérsia sobre a autoria do poema, para mim, no entanto é a importancia da sua mensagem.
PRIMEIRO
VIERAM...
Primeiro vieram
prender os judeus
E eu não levantei
minha voz
Porque não era
judeu.
Depois vieram
prender os comunistas
E eu não levantei
minha voz
Porque não era
comunista.
Depois vieram
prender os homossexuais
E eu não levantei
minha voz
Porque noã era
homossexual.
Depois vieram
prender os sindicalistas
E eu não levantei
minha voz
Porque não era sindicalista.
Depois vieram
prender-me
E já não havia
mais ninguém
Que levantasse a
voz por mim.
Martin Niemoller
(Alemanha)
(Tradução do
inglês de Namibiano Ferreira)
NÃO TE ESQUEÇAS NUNCA

Não te esqueças
nunca de Thasos nem de Egina
O pinhal a coluna
a veemência divina
O templo o teatro
o rolar de uma pinha
O ar cheirava a
mel e a pedra a resina
Na estátua morava
tua nudez marinha
Sob o sol azul e
a veemência divina
Não esqueças
nunca Treblinka e Hiroshima
O horror o terror
a suprema ignomínia
Sophia de Mello Breyner Andresen
26 de janeiro de 2015
ANÉIS DE CINZA
São minhas vozes
cantando
para que não
cantem eles,
os amordaçados
cinzentos do alvorecer,
os vestidos de
pássaro desolado na chuva.
Há, na espera,
um murmúrio
liláceo rompendo-se.
E há, quando vem
o dia,
uma divisão do
sol em pequenos sóis negros.
E quando é noite,
sempre,
uma tribo de
palavras mutiladas
procura abrigo em
minha garganta
para que eles não
cantem,
os sombrios, os
donos do silêncio.
Alejandra Pizarnik (Argentina)
20 de janeiro de 2015
PADRE PORTUGUÊS - JUSTO ENTRE AS NAÇÕES
Joaquim Carreira passa a ser o quarto português a ser declarado Justo. Além
dele, já tinham sido declarados Aristides de Sousa Mendes, o cônsul português
em Bordéus que, desobedecendo às ordens de Salazar, atribuiu vistos a mais de
10 mil judeus que fugiam dos nazis; Carlos Sampayo Garrido, embaixador de
Portugal na Hungria, que terá salvo uns mil judeus, atribuindo-lhes
documentação portuguesa e colocando-os a salvo em casas da embaixada; e José
Brito Mendes, operário português casado com uma francesa e residente em França,
e que salvou uma menina, filha de judeus.
O ‘Yad Vashem’, Memorial do Holocausto de Jerusalém, decidiu agora
outorgar-lhe o título de ‘Justo entre as Nações’. A declaração do Yad Vashem
foi divulgada na quinta-feira dia 11 pelo blogue especializado em temática
religiosa ‘Religionline’ num artigo assinado pelo jornalista António Marujo que
aqui disponibilizamos:
Postagem retirada do blog: http://amigosdesousamendes.blogspot.co.uk/
14 de janeiro de 2015
O ÚLTIMO LIVRO DE GRAÇA PIRES
Eu te baptizo em
nome do mar,
disse minha mãe
com barcos na voz.
E as ondas
enlearam nas águas o meu nome,
abrindo nas
fendas do corpo um impulso
salgado que me
brandiu o sangue.
Sei agora que há
âncoras afogadas
nos meus olhos:
nítido eco de todas as demandas.
********
Entre mim e o mar
ainda me causa
espanto a madrugada.
Sempre diferente.
Sempre idêntica.
Tons de mel, de
romã,
de diamante, de
milho seco.
Sopro de sal, de
sangue, de limos.
E, por trás das
dunas,
a respiração dos
amantes
sobressaltando as
aves.
Graça Pires, in
"Espaço livre com barcos"
Graça Pires
(Figueira da Foz, 1946) editou o seu primeiro livro em 1990, depois de ter
recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores
com o livro "Poemas". Depois disso publicou mais de uma dúzia de
livros de poesia, muitos dos quais premiados. É licenciada em História pela
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Obras publicadas:
Poemas. Lisboa:
Vega, 1990
Outono: lugar
frágil. Fânzeres: Junta de Freguesia da Vila de Fânzeres, 1993
Ortografia do
olhar. Lisboa: Éter, 1996
Conjugar afectos.
Lisboa: Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, 1997
Labirintos.
Murça: Câmara Municipal de Murça, 1997
Reino da Lua.
Lisboa: Escritor, 2002
Uma certa forma
de errância. Vila Nova de Gaia: Ausência, 2003
Quando as estevas
entraram no poema. Sintra: Câmara Municipal, 2005
Não sabia que a
noite podia incendiar-se nos meus olhos. Ed. autor, 2007
Uma extensa
mancha de sonhos. Fafe: Labirinto, 2008
O silêncio: lugar
habitado. Fafe: Labirinto, 2009
A incidência da
luz. Fafe: Labirinto, 2011
Uma vara de medir
o sol. São Paulo: Intermeios, 2012
Poemas
escolhidos: 1990-2011. Ed. Autor, 2012
Caderno de
significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2013
Prémios
recebidos:
Prémio Revelação
de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, com Poemas (1988)
Prémio Nacional
de Poesia Sebastião da Gama, com Labirintos (1993)
Prémio Nacional
de Poesia da Vila de Fânzeres, com Outono: lugar frágil (1993)
Prémio Nacional
de Poesia 25 de Abril, com Ortografia do olhar (1995)
Grande Prémio
Literário do I Ciclo Cultural Bancário do SBSI, com Conjugar afectos (1996)
Concurso Nacional
de Poesia Fernão Magalhães Gonçalves, com Labirintos (1997).
Prémio Literário
Maria Amália Vaz de Carvalho, com Uma certa forma de errância (2003)
Prémio Literário
de Sintra Oliva Guerra, com Quando as estevas entraram no poema (2004)
9 de janeiro de 2015
26 de dezembro de 2014
AFROINSULARIDADE
Deixaram nas ilhas
um legado
de híbridas
palavras e tétricas plantações
engenhos
enferrujados proas sem alento
nomes sonoros
aristocráticos
e a lenda de um
naufrágio nas Sete Pedras
Aqui aportaram
vindos do Norte
por mandato ou
acaso ao serviço do seu rei:
navegadores e
piratas
negreiros ladrões
contrabandistas
simples homens
rebeldes proscritos
também
e infantes judeus
tão tenros que
feneceram
como espigas
queimadas
Nas naus trouxeram
bússolas
quinquilharias sementes
plantas
experimentais amarguras atrozes
um padrão de pedra
pálido como o trigo
e outras cargas sem
sonhos nem raízes
porque toda a ilha
era um porto e uma estrada sem regresso
todas as mãos eram
negras forquilhas e enxadas
E nas roças ficaram
pegadas vivas
como cicatrizes —
cada cafeeiro respira agora um
escravo morto.
E nas ilhas ficaram
incisivas
arrogantes estátuas nas esquinas
cento e tal igrejas
e capelas
para mil
quilómetros quadrados
e o insurrecto
sincretismo dos paços natalícios.
E ficou a cadência
palaciana da ússua
o aroma do alho e
do zêtê d'óchi
no tempi e na ubaga
téla
e no calulu o louro
misturado ao óleo de palma
e o perfume do
alecrim
e do mlajincon nos
quintais dos luchans
E aos relógios
insulares se fundiram
os espectros —
ferramentas do império
numa estrutura de
ambíguas claridades
e seculares
condimentos
santos padroeiros e
fortalezas derrubadas
vinhos baratos e
auroras partilhadas
Às vezes penso em
suas lívidas ossadas
seus cabelos podres
na orla do mar
Aqui, neste fragmento
de África
onde, virado para o
Sul,
um verbo amanhece
alto
como uma dolorosa
bandeira.
Conceição Lima (S. Tomé e Príncipe)
De O Útero da Casa (2004)
23 de dezembro de 2014
EM MEMÓRIA DE CHICO MENDES

Chegam notícias do
Brasil, o Chico
Mendes foi
assassinado, a morte
enrola-se agora nos
primeiros frios,
nem sequer a
tristeza tem sentido,
a bola continua em
órbita, um dia
estoira, o universo
ficará mais limpo.
Eugénio de Andrade (Portugal)
20 de dezembro de 2014
POEMA PARA A QUADRA NATALÍCIA 3: BENJAMIN ZEPHANIA - THE BRITISH
And let them settle,
Then overrun them with Roman conquerors.
Remove the Romans after approximately 400 years
Add lots of Norman French to some
Angles, Saxons, Jutes and Vikings, then stir vigorously.
Mix some hot Chileans, cool Jamaicans, Dominicans,
Trinidadians and Bajans with some Ethiopians, Chinese,
Vietnamese and Sudanese.
Then take a blend of Somalians, Sri Lankans, Nigerians
And Pakistanis,
Combine with some Guyanese
And turn up the heat.
Sprinkle some fresh Indians, Malaysians, Bosnians,
Iraqis and Bangladeshis together with some
Afghans, Spanish,
Turkish, Kurdish, Japanese
And Palestinians
Then add to the melting pot.
Leave the ingredients to simmer.
As they mix and blend allow their languages to flourish
Binding them together with English.
Allow time to be cool.
Add some unity, understanding, and respect for the future,
Serve with justice
And enjoy.
Note: All the ingredients are equally important. Treating
one ingredient better than another will leave a bitter unpleasant taste.
Warning: An unequal spread of justice will damage the people
and cause pain. Give justice and
equality to all.
Benjamin
Zephaniah (Inglaterra)
Assinar:
Postagens (Atom)



